Estação Carandiru
Estação Carandiru
— Cadeia é um lugar povoado de maldade.
Pego o metrô no largo Santa Cecília, na direção Corinthians–Itaquera, e baldeio na Sé. Desço na estação Carandiru e saio à direita, na frente do quartel da PM. Ao fundo, a perder de vista, a muralha cinzenta com os postos de vigia. Vizinho do quartel abre-se um pórtico majestoso: CASA DE DETENÇÃO, em letras pretas.
O portão da rua leva a um pátio de estacionamento lotado de carros. Por ele circulam advogados, mulheres com sacolas e funcionários corpulentos de calça jeans que falam do trabalho, riem uns dos outros e mudam de assunto quando um estranho se aproxima. Há que cumprimentá-los com decisão; caso contrário, dá vontade de gritar de dor quando a mão é esmagada no aperto.
Trinta passos para dentro fica o predinho da Administração, fechado por um portão verde no qual se acha recortado um portãozinho para pedestres. Para entrar, não é necessário bater; basta aproximar a cabeça da janela do portãozinho que por telepatia o rosto do porteiro aparece mal iluminado, lá dentro.
A abertura obedece à velha rotina das cadeias, segundo a qual uma porta só pode ser aberta quando a anterior e a seguinte forem fechadas. É de boa educação esperar sem inúteis demonstrações de impaciência.
Ouço a batida do destranque e caio na Ratoeira, um átrio gradeado com dois guichês rasgados à esquerda, para o visitante se identificar. De entre os guichês sai um corredor que dá acesso à sala do diretor-geral, ampla e cheia de luz. A mesa é antiga. Na parede atrás dela, uma foto do governador. Mais abaixo, um dos diretores, cadeeiro de muitos anos, afixou uma placa de cobre: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar preso na Casa de Detenção”.
Retorno à Ratoeira, espero abrir o portão interno e fico de frente para a muralha que circunda a cadeia, vigiada por policiais militares armados com submetralhadoras.
Passo para a Divineia, um pátio amplo em forma de funil. Na parte estreita fica a sala de Revista Corporal, parada obrigatória dos que entram, exceto médicos, diretores e advogados. Antes do acesso aos pavilhões, é preciso entrar nesta sala e levantar os braços diante dos revistadores, que se limitam a bater as mãos na cintura e na face lateral das coxas do revistado.
Revistar é outro ritual de cadeia.
Engana-se, no entanto, quem julga pura encenação tão mecânica revista: volta e meia alguém é flagrado com droga, vai preso e cumpre pena nas dependências do COC (Centro de Observação Criminal).
Uma vez, cinco presos do pavilhão Cinco, armados de facas, tomaram funcionários como reféns na Lavanderia, para conseguir transferência de presídio. A porta da cadeia ficou cheia de polícia e repórteres com câmeras. Um funcionário aproveitou a confusão para entrar com um quilo e meio de cocaína. Foi pego na Revista. Seu Jesus, diretor de Vigilância, ex-lutador profissional de luta livre, hoje pastor protestante, fez o que pôde para identificar o destinatário da encomenda:
— É melhor contar. Olha a tua situação, meu: de manhã, você chega no trabalho como chefe de família, respeitado; à tarde, sai daqui preso. Vai pegar cinco ou seis anos lá no COC. Teus meninos, agora, são filhos de bandido. Tua esposa não é mais senhora de um servidor público, é mulher de malandro.
O apelo emocional foi de pouca valia para a Vigilância. O convívio, mestre persistente, havia ensinado ao carcereiro-traficante o mandamento supremo da marginalidade:
— O Crime é silêncio.
Outro dia, um funcionário do pavilhão Oito, atarracado, de bigode, quis entrar com um pacote de crack amarrado à face interna das coxas. O revistador, que andava meio desconfiado, descobriu. Surpreendido, o rapaz atarracado saiu correndo para dentro da cadeia com o objetivo de atingir o Oito, no fundo do complexo, onde poderia contar com a ajuda dos proprietários da droga para se livrar do flagrante. Não atingiu o intento; na correria, foi derrubado pelos colegas.
Do lado da Revista fica a Copa da diretoria, construção recente executada pelos próprios presos. Um deles, quando a obra estava no final, fez questão de me mostrar o trabalho; com os olhos brilhando de orgulho, apontava as tábuas do teto caprichosamente alinhadas por ele e um companheiro estrábico que se perfilava a seu lado, balançando vigorosamente a cabeça em anuência completa às explicações do marceneiro-chefe. No final, apertei-lhes a mão em despedida. Só então escutei a voz empostada do ajudante:
— Reeducando Xavier às suas ordens, doutor.
A Divineia é cheia de movimento durante o dia. Tudo o que entra ou sai da cadeia passa obrigatoriamente por ela. Sem atravessá-la, só pulando a muralha ou cavando túnel. Caminhões descarregam comida, tijolos, madeira e material para o trabalho nos Patronatos, além de retirar toneladas de lixo. Humanamente impossível revistar tudo o que entra. Paralisaria o presídio.
É na Divineia o ponto final dos camburões que trazem os presos ou que os levam para fora: depoimentos no Fórum, reconhecimento nos distritos ou transferência para outros presídios — procedimento chamado de “bonde”, na linguagem da cadeia. Os que chegam descem algemados pela porta de trás do camburão, ofuscados pela luz repentina. À noite, com a Divineia escura, a cena de chegada na cadeia provoca melancolia.
A Detenção tem mais gente do que muita cidade. São mais de 7 mil homens, o dobro ou o triplo do número previsto nos anos 50, quando foram construídos os primeiros pavilhões. Nas piores fases, o presídio chegou a conter 9 mil pessoas.
Como o trabalho de carga e descarga fica por conta dos detentos, é na Divineia o meu primeiro contato com eles. Facílimo reconhecê-los, basta olhar para a calça de cor bege, uniforme obrigatório. Paletó é proibido, o cabelo tem que estar curto. Não podem andar descalços, de peito nu ou a barba por fazer. Camisa, malha e blusão são livres. A camiseta é soberana. A alvinegra do Esporte Club Corinthians Paulista é disparado a mais popular, bate as do Palmeiras, São Paulo e Santos somadas. Em época de Copa, a da seleção tinge os corredores de canário, depois rareia e desaparece. Camiseta-propaganda de político ninguém usa, pega mal no ambiente.
Em minha direção vem um malandro desdentado, na ginga, sandália de dedo e uma T-shirt impecável da New York University:
— Chegando, doutor?
— Estou. Como foi o fim de semana?
— Suave.
Na parte ampla do funil que é a Divineia, o pátio é fechado por um paredão com figuras natalinas pintadas anos atrás: um pastorzinho contra o céu estrelado, montanhas com neve e três ovelhinhas bondosas. Atrás delas, erguem-se os andares superiores do pavilhão Seis, central.
Do lado esquerdo da Divineia, há um bosque com macaquinhos nos galhos e um coreto inútil. Entre as árvores, um caminho asfaltado leva ao portão que conduz aos pavilhões Dois, Cinco e Oito.
Do lado oposto, vizinho à Copa da diretoria, há um canteiro de flores e uma fontezinha assentada num receptáculo de caco de cerâmica, no qual um dia nadaram peixinhos ornamentais.
A fonte é despojada: três discos revestidos com azulejos azuis, de diâmetros crescentes do topo para baixo, concêntricos em torno de um eixo de concreto. Do disco superior, escorre sobre os outros um minguado fio de água, exausto para a tarefa de projetar-se ao alto e na queda oxigenar a água em que viveram os peixinhos, conforme a concepção original. É uma obra que não faz justiça à tradição brasileira no campo dos chafarizes.
Deste lado, em posição simétrica à que dá acesso ao Dois, entre o jardim caipira e a fonte, fica o portão de entrada para os pavilhões do lado direito da cadeia: o da frente é o Quatro, depois vêm o Sete e o Nove. No último andar do Quatro está situada a enfermaria, local de muitas histórias contadas neste livro.