Estação Carandiru
Amor de mãe
— Cadeia é lugar onde o filho sofre e a mãe não vê.
A noite havia caído. Na sala de consulta, eu louco para ir embora, entrou um altão, forte, devagarinho, as pernas abertas e as mãos amparando os testículos. Precisou de dois enfermeiros para subir na maca.
O rapaz tinha fama de assaltante destemido, ligação com bicheiros, cicatriz no supercílio direito e era subencarregado da Faxina do pavilhão Oito, o dos reincidentes. Apresentava um abscesso na bolsa escrotal do tamanho de um pêssego graúdo. A lesão, vermelha como fogo, tinha conteúdo líquido, flutuante; na parte central, a pele estava tão tensa que chegava a brilhar.
— Olha, precisa lancetar para tirar o pus. Vou te encaminhar para o Hospital do Mandaqui.
— Doutor, faz oito dias que eu estou sofrendo. Já me encaminharam para o Mandaqui três vezes, mas faltou viatura. Ontem, depois de eu implorar, no desespero, acabaram me levando, mas nem desci do camburão porque os PMs falaram que ia demorar e eles não eram ama-seca de vagabundo. Não tem condições do senhor lancetar aqui mesmo?
— O material daqui é precário. Além disso, você não tem noção da dor que dá. É duro de aguentar sem anestesia.
Ele esboçou um sorriso:
— Que é isso, doutor, o senhor está falando com um homem que tem quatro balas no corpo. Só no antigo DEIC me penduraram mais de vinte vezes. Já apanhei de cano de ferro duas horas e não entreguei o que os homens queriam. Se é pela dor, já era: é comigo mesmo!
Sofrimento por sofrimento, pensei, talvez ele tivesse razão. Esses encaminhamentos para hospitais externos eram complicados, pois o regulamento exigia escolta da Polícia Militar, em viaturas nem sempre disponíveis, para evitar fuga ou ataque de quadrilha para resgatar o prisioneiro. Nas filas dos hospitais públicos, a demora acabava de azedar o relacionamento com a PM. Assisti a diversas mortes na enfermaria enquanto os doentes aguardavam transferência.
Do nosso lado, o médico podia enfrentar problemas legais quando um falso doente, encaminhado por ele para atendimento externo, fugia. Comigo aconteceu duas vezes. Numa delas, um ex-mecânico com caquexia associada à AIDS conseguiu tirar a mão esquálida da algema presa ao leito e sumiu. Na outra, Romário, um craqueiro com tuberculose avançada, pulou o alambrado do Hospital Central, situado atrás da Detenção, enquanto os guardas assistiam Brasil versus Alemanha na TV, passou quinze dias na rua fumando crack e voltou preso, para morrer dois meses depois na enfermaria.
Se o doente estava disposto, tudo bem. Na falta de médico-cirurgião, mandei chamar o Lula, responsável pelas pequenas operações da enfermaria, assaltante de banco, operador prático e personagem de outra história.
Quando Lula chegou com o material, distribuí quatro detentos-enfermeiros em volta da maca, nos braços e pernas do faxina. Com cuidado, levantei o testículo doente e coloquei um chumaço de algodão por baixo. A menor mobilização da região inflamada provocava dor intensa. Chegava a escorrer suor na fronte do faxina. Tudo pronto, indiquei o local da incisão.
De luvas, Lula, canhoto, com uma lâmina de bisturi entre o indicador e o dedo médio, cortou fundo a pele infiltrada e no mesmo movimento jogou a lâmina na bandeja e espremeu forte, da periferia para o centro da região abscedada. Apertou firme, sem trégua. O pus jorrou amarelo, grosso.
A incisão pareceu indolor. A compressão, no entanto, provocou um urro oriundo das entranhas do faxina. Seu corpo retesou-se como um arco apoiado na cabeça e nos calcanhares. Não fosse a contenção obstinada dos quatro enfermeiros, a maca teria virado. Lula, impassível, no aperto.
O espasmo gutural só terminou quando faltou ar nos pulmões do faxina:
— Ai, pelo amor de Deus, larga... Ai, mamãezinha... Vela eu, mãezinha querida.
Lula, sem dó, permanente, até a secreção amarela rarear e o sangue tingir o algodão de bordô. Então, soltou e espremeu mais três vezes, bem apertado, para ter certeza do serviço benfeito. Quando, afinal, largou, o queixo do ladrão tremia feito vara verde. Pálido, lavado de suor, ele continuava obcecado pelo amor filial:
— Ai, mãezinha querida... Ai, minha Nossa Senhora, me ajuda... Vela o teu filho, mãezinha.
Minutos depois, aliviado, o faxina agradeceu, humilde:
— Graças a Deus, melhorou. Deus abençoe vocês. Deus abençoe o senhor, doutor. Deus te proteja, Lula.
Profissional, recolhendo os instrumentos com cara de poucos amigos, Lula interrompeu:
— Chega, deixa Ele em paz agora. Muito Deus na boca de ladrão, não presta!
Em câmera lenta, o doente desceu da maca e saiu de pernas abertas, capenga pela galeria. Quando a porta fechou, Pedrinho, passando um pano ensaboado na maca, comentou em voz baixa:
— Pô, um bandidaço assim, assaltante de carro-forte, subencarregado de Faxina, implorar pela mamãezinha desse jeito!
EDELSO
De todos os presos que passaram pela enfermaria, Edelso era o que tinha mais jeito para medicina. Era o preferido da malandragem para aplicar injeções, fazer curativos e, nas madrugadas sofridas, receitar o melhor tratamento sintomático. Com a experiência, aprendeu a diagnosticar tuberculose melhor do que muito médico. Trazia o doente já com a conduta:
— Doutor, esse aqui tem febre, dor no peito e sudorese noturna. Foi receitado soro com vitamina e ampicilina, mas eu já comecei o esquema tríplice.
Agradável no trato, dentes preservados, roupa cuidada, destoava naquele ambiente de homens pobres e corpos marcados pela violência.
Edelso tinha várias passagens por roubo de automóveis. Veio para a Detenção condenado a oito anos e sete meses, enquadrado em vários artigos do Código Penal: receptação, formação de quadrilha e falsidade ideológica. Foi preso porque assumiu a identidade de um médico recém-falecido em Mogi das Cruzes. Com documentos falsos, alugou um sobradinho numa cidade vizinha e montou consultório, com placa na porta, receituário e número de CRM.
— Eu comprava carro roubado num desmanche de São Paulo e vendia na fronteira com o Paraguai.
Para disfarçar, o papel de médico caía como uma luva para ele, ex-aluno de um curso de auxiliar de enfermagem:
— Médico toda hora com carro novo, é normal.
Fez a mudança para a residência-consultório à noite. O vizinho até ajudou a carregar os móveis. Na manhã seguinte, acordou com a campainha. Olhou pela janela do banheiro e viu dois soldados da PM, um alto de bigode ruço e o outro suado, enxugando a testa com um lenço. O ladrão lamentou a sorte:
— Nem bem cheguei e a casa caiu!
Pensou em fugir pelos fundos a pé. Não seria a primeira vez a deixar os pertences para trás. Hesitou, enquanto a campainha insistia. Por fim, resolveu bancar o desentendido e desceu com calma, o revólver enfiado no cinto. Pela janelinha da porta, perguntou o que os policiais desejavam:
— Doutor, tem uma criança passando mal no posto de saúde e o médico não chega. Dá pra quebrar o galho da gente?
Quando Edelso chegou no posto, havia várias pessoas em volta de uma menina de sete anos que ardia em febre e dor de garganta, na maca. Gente humilde. Uma senhora de preto que parecia ser a avó explicou que a criança vinha com dor forte de cabeça. Edelso estranhou:
— Criança pequena com cefaleia?
Passou a mão por trás do pescoço da menina e tentou dobrar-lhe a cabeça para encostar o queixo no peito. A criança gritou de dor:
— Rigidez de nuca!
O sinal neurológico foi suficiente para o falso médico fazer o diagnóstico:
— Meningite! Precisa levar a menina para o Emílio Ribas. Aqui não tem condições.
Neste momento, enquanto Edelso orientava o caso, chegou o médico de verdade, assim descrito pelo falsário:
— Um tipo esquisito, de peito peludo e chiclete na boca. Entrou de branco, não falou com ninguém, só olhou a garganta da pacientinha, receitou Keflex de seis em seis horas e virou as costas.
Edelso ficou calado, procurando uma desculpa para escapar dali. O negócio dele era outro e não podia correr perigo. Quando saiu, o pai da menina veio atrás:
— Doutor, o senhor acha que é meningite, o outro médico disse que é só amigdalite, mas nem examinou a menina. O que eu faço?
— Se a filha fosse minha, eu levava para o Emílio Ribas.
Prevaleceu o bom-senso paterno. No hospital confirmaram o diagnóstico de meningite bacteriana, internaram e curaram a criança.
A fama de Edelso correu e a clínica prosperou. Cobrava baratinho ou atendia de graça, conforme as posses do cliente. Não dependia da medicina para sobreviver, ganhava de 2 a 3 mil dólares em cada carro que levava para o Paraguai:
— São duras essas viagens, doutor. Tem que rodar tudo de noite para evitar a fiscalização, sozinho, que não pode envolver um amigo ou uma mulher inocente, numa treta dessas. E se a polícia parar? Furar o cerco, parar e ir preso, ou entregar tudo na mão deles?
Um dia a casa caiu, de fato. Um clínico-geral de Mogi das Cruzes atendeu uma cliente com prescrição dada por Edelso em nome do médico falecido e deu parte na delegacia.
A carreira de Edelso na enfermaria terminou num final de semana. A chefia do pavilhão Dois transferiu-o para o pavilhão Sete, porque numa batida no xadrez de um traficante, segundo disseram, seu nome constava na lista de devedores, com 10 reais de débito.
Meses mais tarde, cruzei com ele na Radial. Estava bem de aparência, descansado do trabalho com os doentes. Fazia até planos para quando cantasse a liberdade:
— Vou parar com esse negócio de carro, desmanche, Paraguai, que é sem futuro. Com a medicina que aprendi com o senhor, não vejo a hora de montar consultório num lugarzinho simples e viver tranquilo cuidando dos meus pacientes.
LULA
Fui apresentado ao Lula no ambulatório por causa de um alemãozinho sardento com uma facada na região glútea. O rapaz, pálido, com uma águia de asas abertas tatuada nas costas, vinha deitado de bruços na maca, com as calças abaixadas e a cueca rasgada pela lâmina. O golpe tinha atingido a musculatura profunda mas poupado os nervos e vasos sanguíneos mais importantes; bastava lavar e suturar.
Com uma fila de doentes por atender, achei que devia encaminhar o doente para um pronto-socorro, pretensão imediatamente contraindicada pelo Edelso:
— A essa hora, já era, doutor. Vai ficar para amanhã. Por que o senhor não autoriza o Lula?
Lula era ladrão de longa carreira. Chegou na cadeia com foto escrachada no Fantástico, depois de cair baleado no saguão da agência Itaú de Santa Cecília, num assalto em que morreram dois ladrões. Baleados, ele e o chefe da quadrilha, um rapaz miúdo chamado Ferrinho, chegaram no Carandiru cercados de respeito.
Bandeco, figura popular do Cinco, que fala feito metralhadora, diz que nada é tão gratificante:
— Chegar numa cadeia e os companheiros te tratarem com todo o respeito é a coisa mais bonita na vida de um ladrão.
Menos de um mês depois, Ferrinho, torturado pela depressão, enforcou-se com um lençol na janela do xadrez. No bolso da calça, tinha o retrato de um menino pequeno e de uma loira de boca pintada.
Mal Edelso saiu, Lula entrou, sapato branco, correntinha de prata com crucifixo no peito desabotoado, e tinha pressa. Sem me dar muita atenção, observou o ferimento e aproximou várias vezes os bordos do corte.
— Dá para fazer, doutor, não ofendeu nenhum nervo. Facada na bunda é só para esculachar a vítima.
Foi nosso primeiro contato. Insisti que o segredo era anestesiar o ferimento e lavá-lo demoradamente com água e sabão. Quando terminou, veio me chamar para dar alta ao ferido. A sutura estava ótima, as distâncias entre os pontos perfeitas, o sangue escorrido cuidadosamente retirado.
Não sei quem o treinou — a verdade é que era operador talentoso. Com instrumentos precários e fio grosso de algodão, fazia delicadas suturas de cicatrizes imperceptíveis, drenava abscessos, extraía projéteis do corpo e, habilidosamente, retirava ciscos dos olhos com a ponta de uma agulha de injeção.
Uma vez, trouxe-me um paciente com um lipoma gigante nas costas. Era uma tumoração mole, gordurosa, de quinze centímetros de diâmetro. Queria que eu autorizasse a exerese. Achei difícil uma cirurgia daquelas sem anestesia geral. Disselhe que eram loucos, ele e o outro. Respondeu-me que já havia feito operações maiores, em locais menos acessíveis.
Meses depois, encontrei o rapaz do lipoma no pátio do Sete e ele, sorridente, levantou a camisa para me mostrar a cicatriz do tumor operado. Estava perfeita, em forma de Z para aliviar a tensão da pele repuxada sobre o corte. Perguntei-lhe quem o havia operado:
— Foi o Lula. Não ficou bom?
— Como, se eu não autorizei?
— Ele pediu para outro médico.
Trabalhamos muitos meses em contato. Ensinei-lhe princípios de assepsia, noções sobre as linhas de força da pele para orientá-lo nas incisões e emprestei-lhe um atlas de anatomia, que ele folheou com os olhos brilhando de curiosidade e nunca mais devolveu. Aprendi a admirar-lhe a habilidade cirúrgica e o prazer que tinha no aprendizado. Com o tempo, ficamos amigos.
Num final de ano, notei que seu comportamento se alterou. O riso espontâneo desapareceu; andava agitado e tenso. Na galeria, olhava desconfiado para trás e para os lados. No horário de trabalho, às vezes desaparecia. Ficou magro e com o rosto marcado.
Uma manhã, cruzei com ele no corredor:
— Lula, quero falar com você, em particular.
Entramos na sala do centro cirúrgico. Ele trancou a porta e guardou a chave no bolso.
— Você está fumando crack.
— Que é isso, doutor? Nem posso, ainda mais operando o pessoal aí.
— Lula, você entendeu mal, não é pergunta: estou afirmando que você fuma crack, todo dia, e muito.
Negou de novo, mas eu insisti que não ficava bem para nós, homens barbados, pais de família, brincarmos de enganar um ao outro.
— É, doutor, comecei fazem seis meses. No começo era de vez em quando; passava uma semana sem fumar. De uns tempos para cá, é todo dia.
— Toda hora.
— A bem dizer verdade, é toda hora. Acordo já na fissura de ir para o fundão, no Oito, atrás de pedra. Tem vez que eu falo, está me prejudicando, vou dar um tempo. Que nada, passa um dia ou dois, estou indo para o fundo na maior neurose. Gasto uma média de 20, 30 contos por dia nessa desgraça.
— E o dinheiro?
— Vem da cirurgia. Aqui nada é de graça, doutor.
— Mas você opera as pessoas e depois fuma essa praga: vai perder a habilidade manual.
— Desculpa, aí o senhor se engana. Eu não fumo crack depois de operar, eu fumo antes.
— Você é louco, irresponsável. O crack tira o controle dos movimentos.
— Doutor, aí o senhor está novamente enganado. Às vezes eu tenho que fazer uma sutura grande, difícil. Desço para o barraco e cachimbo. Subo, injeto o anestésico e lavo a ferida com água e sabão, conforme o senhor ensinou. Lavo sem pressa, chego a passar quinze minutos embaixo da torneira escovando, espuma alta, não me importo com o sangue. Seco bem, tudo limpinho, e quando vou operar, ó, maior barato, vejo os vasos brilhando fluorescente. Amarro um por um, mão firme no porta-agulha, não deixo escapar nada. Só quando a ferida fica seca, sem escorrer uma gota, as bordas bem aproximadas pelos pontos do subcutâneo, é que eu suturo a pele. Se o senhor medir a distância entre o buraco da passada da minha agulha e a borda do corte, de um lado e do outro da cicatriz, vai ver que não tem diferença nem de um milímetro, tanto é a precisão.
O crack acabou com ele. Dias depois o diretor do pavilhão o demitiu da enfermaria e o transferiu para o Oito. A permanência foi curta; privado da clínica particular, não teve como manter o vício, contraiu dívidas e perdeu a moral entre os companheiros.
Um dia, foi encontrado sem vida no xadrez. Ao lado do corpo, uma seringa suja de sangue. Overdose, foi a notícia que correu na cadeia. Achei muito estranho; o pessoal da enfermaria, que tinha trabalhado anos com ele, nunca soube que o Lula injetasse na veia.