História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 1 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

Apresentação

 

Este livro reúne as conferências proferidas durante o X Congresso Internacional de História Oral, intitulado "História Oral: Desafios para o Século XXI", realizado no Rio de Janeiro em junho de 1998. Os textos ora divulgados, não incluídos nos anais do congresso, permitem que o leitor tenha acesso às discussões mais recentes sobre o panorama e as perspectivas da história oral no mundo.

A realização do X Congresso Internacional de História Oral, que contou com mais de trezentos congressistas provenientes de 25 países, representou um marco importante no movimento da história oral. Como já é sabido, a história oral desenvolveu-se inicialmente de forma significativa nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, regiões que sempre sediaram os encontros internacionais, limitando assim a participação de pesquisadores da Ásia, da África e da América Latina. Uma maior institucionalização do movimento da história oral, com a criação da Associação Internacional de História Oral (IOHA - International Oral History Association) em Gotemburgo, na Suécia, em 1996, e a opção por privilegiar a realização das conferências fora do eixo Europa-Estados Unidos abriram um imenso espaço de renovação e de democratização deste campo de trabalho. Como acentuou Mercedes Vilanova, presidente da IOHA, em sua palestra de abertura aqui publicada (parte 1), esse deslocamento geográfico promoveu uma maior participação dos grupos de pesquisa até então pouco articulados com o debate internacional.

O Congresso de 1998 representou a consolidação dessa nova tendência, ao integrar um número expressivo de pesquisadores da América Latina, que contribuíram para o desenvolvimento e a divulgação de novas temáticas, articuladas aos problemas e desafios sociais existentes na região. Entre essas temáticas, podemos citar: a questão agrária, em especial o Movimento dos Sem-Terra; a questão étnica e a mestiçagem; os contrastesurbanos e a situação dos meninos de rua; as comunidades indígenas, o extrativismo e a problemática amazônica; novas manifestações religiosas; as ditaduras militares e o problema dos desaparecidos políticos, além de outras, é claro.

Mas, além da inserção de novas questões e abordagens ao campo da história oral, o evento permitiu o aprimoramento de temas já clássicos, como, por exemplo, as problemáticas de gênero, a imigração, as questões metodológicas, a subjetividade e a eloquência do silêncio, além de conjunturas históricas especialmente investigadas através da história oral, como é o caso da Segunda Guerra Mundial.

Os textos aqui publicados exploram e discutem uma gama variada de questões. A palestra inaugural de Roberto DaMatta (parte 1) compara a situação do Brasil no mundo em dois momentos: na entrada do século XX e na entrada do século XXI. Enquanto há cem anos as características híbridas da sociedade brasileira não eram bem-vistas pelos intelectuais impregnados dos valores de "pureza" e "compartimentalização" do mundo civilizado, hoje nossa mestiçagem tornou-se uma vantagem perante os países que não conseguem conciliar o nacional com o étnico. Procurando instigar os debates de todo o Congresso, o eixo central escolhido por DaMatta tem relação com o próprio campo da história oral, um campo multidisciplinar e miscigenado por excelência, em que diferentes tendências e abordagens se tornam possíveis.

A questão da miscigenação acabou sendo retomada por vários conferencistas, ao mapearem os desafios da história oral no século XXI, especialmente pelos autores dos textos reunidos na parte 2. Para Philippe Joutard, a história oral pode ajudar a introduzir elementos de mestiçagem e de diversidade, de maneira a impedir um fechamento das identidades em si mesmas. No seu entender, a vinculação estreita entre história oral e identidade apresenta-se como um desafio perigoso e sua proposta é que a supervalorização das identidades seja objeto de atenção e cuidado, pois, do contrário, as identidades podem tornar-se mortíferas; assim, é necessário que elas se misturem, isto é, que seja reconhecida a necessidade de um aporte externo, estrangeiro.

Alistair Thomson, ao também enfocar os desafios para o século XXI, direciona suas reflexões para a compatibilização entre o aperfeiçoamento teórico, que deve embasar a metodologia da história oral, e seu compromisso de atuar como um instrumento de ação social. No seu entender, é fundamental garantir o envolvimento da história oral com propostas comunitárias que possam mapear a realidade e fornecer instrumentos de ação para politicas de saúde, educação e assistência social. Seu texto proporciona ainda um painel de diferentes programas de história oral que cobrem essas áreas de trabalho e as possibilidades e riquezas daí resultantes.

Alessandro Portelli enfatiza a importância da história oral como uma ferramenta baseada na memória para questionar interpretações que, atualmente, estão empenhadas em retratar o século XX como o século dos horrores. No seu entender, a história oral é a metodologia que pode recuperar para o século XXI a visão de que o século XX produziu uma série de lutas importantes pela defesa da igualdade social. O desafio da história oral nesse sentido é mostrar, diferentemente do que costuma ser consagrado, que a memória não é apenas ideológica, mitológica e não confiável, mas sim um instrumento de luta para conquistar a igualdade social e garantir o direito às identidades.

Selma Leydesdorff analisa os desafios do transculturalismo e chama atenção para o fato de o transculturalismo não ser igual ao transnacionalismo. Pessoas podem ser transnacionais, mas isso não significa que sejam transculturais. O reforço das identidades locais ou regionais contrapõe-se à rápida globalização de uma comunidade mundial de pessoas que criam cultura e mudam culturas - uma comunidade que se tornou transnacional -, mas isso não conduz obrigatoriamente à afirmação do transculturalismo. Como as formas complexas de relações culturais são um campo privilegiado para a metodologia da história oral, a autora sugere, como agenda para a IOHA e para os próximos congressos, o desafio de estimular a montagem de pesquisas transnacionais que melhor elucidem a complexidade das relações transculturais.

A parte 3, dedicada à história oral na América Latina, inicia-se com o texto de José Carlos Sebe Bom Meihy, que ressalta a aproximação entre o advento da história oral na região e as conjunturas políticas de redefinição democrática que se seguiram às ditaduras militares. Um ponto negativo relativo à história oral na América Latina consiste, segundo ele, na excessiva dependência aos pensamentos europeu e norte-americano, levando a uma espécie de colonialismo cultural que tem ofuscado o livre reconhecimento do sentido público e social da história oral entre nós.

Dora Schwarzstein e Janaína Amado são unânimes em defender o aprofundamento das bases teóricas para a pesquisa, lançando os problemas com os quais a história oral se vê envolvida hoje, no campo da historiografia como um todo. A alternativa, para Dora Schwarzstein, não está na busca da elaboração de marcos teóricos necessariamente distintos e "nacionais", e sim no aprofundamento das pesquisas nos países latino-americanos. Traçando um panorama da história oral na Argentina, ela chama atenção para as diferentes realidades e experiências empreendidas nos países da região, defendendo a existência não de uma, mas de várias vozes da história oral na América Latina.

Janaína Amado relaciona a discussão com características próprias da construção da identidade latino-americana3/4 partida, bifurcada e problemática 3/4, cujas dificuldades podem ser superadas quando abandonamos a dicotomia entre tentar ser o outro (o europeu) e escandalizar-se com a imagem deformada de nós mesmos. Para ela, a especificidade da produção latino-americana repousa na variedade não só temática como teórica, incluindo a própria utilização da história oral, ora entendida como metodologia, como técnica ou como disciplina, ora aplicada a pesquisas na universidade, ora utilizada por historiadores, ou ainda por profissionais de outras áreas.

Articulada com os textos anteriores, a linha de argumentação de Eugenia Meyer, ao refletir sobre a história oral na América Latina, é a de chamar atenção para a nossa originalidade, dada pelo fato de povos latino-americanos serem produtos de múltiplas mestiçagens étnicas e culturais. Partindo desse ponto, defende que é preciso reconhecer a necessidade de seguir caminhos próprios com meios próprios, de maneira a evitar a reprodução de modelos inadequados à nossa realidade. Assim, o grande desafio é encontrar alternativas para superar a imensa desigualdade social que separa os povos latino-americanos e recuperar os silêncios e os esquecimentos impostos pelas ditaduras do século XX, como um instrumento para garantir a marcha de consolidação democrática.

Na parte 4, o grupo de artigos sobre depoimentos de sobreviventes do Holocausto e prisioneiros em campos soviéticos da antiga Alemanha Oriental trata de questões clássicas da história oral, surgidas nos casos concretos estudados pelos autores. Mark Roseman discute as diferenças entre depoimentos de história oral e documentos de época, como cartas e diários, no caso da biografia de uma sobrevivente do Holocausto radicada na Inglaterra. Para ele, a possibilidade de confrontar o depoimento de Marianne Ellenbogen com registros de época mostrou que as "falhas de memória" são, na verdade, tentativas de manter um controle sobre o passado, como uma espécie de "distância psicológica" que os entrevistados colocam entre si próprios e a insuportável realidade.

O texto de Friedhelm Boll examina de modo bastante pungente diferentes razões do silêncio de um sobrevivente do Holocausto que se recusava descrever sua experiência: desde a impossibilidade mesma de comunicação, que o impedia de contar, em linguagem cotidiana, o que aconteceu, porque não acreditava que pudesse ser compreendido, até a enorme culpa de ter sobrevivido. Essa culpa é, aliás, comum aos entrevistados que sobreviveram ao Holocausto, constituindo-se num dos fardos mais pesados que carregam ao se defrontar com seu destino.

Já os textos de Anne Kaminsky e Alexander von Plato tratam de outra dimensão da culpa, aquela que repousa sobre a sociedade alemã como um todo, englobando as "duas" Alemanhas: o trauma das mortes e da destruição causadas pelos regimes nazista e soviético. Como lidar com isso - com os milhares de mortos, refugiados, sem família, durante a guerra, e com os aprisionados depois de 1945 e transformados em vítimas do comunismo? Kaminsky discute a tomada de depoimentos em uma instituição destinada a guardar a memória de um campo de concentração que serviu posteriormente de campo de prisioneiros de guerra na zona soviética da ex-Alemanha Oriental. Percebe-se que os entrevistados mesclavam a seu depoimento informações obtidas a posteriori, procurando influenciar os entrevistadores, que, a seus olhos, eram os detentores da memória oficial.

Essa "competição entre memórias" (Michael Pollak fala de "memórias em disputa") também está na base do texto de von Plato, que destaca a rivalidade que se estabeleceu na Alemanha entre as vítimas do nazismo e as vítimas do regime soviético, com significados variados conforme o período - no imediato pós-guerra, durante a guerra fria, ou após a reunificação alemã. Nos dois textos fica claro que o uso da metodologia de história oral como recurso para elaborar (ou "digerir") o passado recente alemão exige todo cuidado da parte do intérprete e leitor das entrevistas.

A parte 5 traz para a discussão dois temas bastante atuais. De um lado, a associação da história oral à imagem fotográfica, que lança novos desafios, além daqueles que se apresentam ao uso de cada uma das fontes em separado. De outro lado, a globalização da economia, aqui analisada observandose seu reflexo sobre a (re)construção da identidade da classe trabalhadora, a partir da combinação entre história oral e fotografia.

O texto de Michael Frisch centra suas reflexões no trabalho do fotógrafo Milton Rogovin, traçando um paralelo entre sua produção e a do brasileiro Sebastião Salgado. Suas preocupações voltam-se para a imagem de operários do setor siderúrgico de Buffalo, diante dos novos problemas que a economia globalizada e reestruturada lhes impõe. Michael Frisch detém-se ainda sobre a resistência de editores quanto à publicação de trabalhos em que imagens de trabalhadores estão associadas a narrativas dos próprios trabalhadores.

Alicia Rouverol discute, a partir da relação entre texto e imagem, o declínio industrial e o impacto deste sobre as classes populares, tomando como exemplo uma indústria avícola fechada em um contexto de desindustrialização. O ponto de vista de suas reflexões é o da experiência de determinada operária, Linda Lord, incluída no processo de construção da pesquisa através de sua própria narrativa.

Comentando os textos de Michael Frisch e Alicia Rouverol, Ana Maria Mauad denuncia o papel durante muito tempo ocupado pela imagem, como "ancorada à palavra", seja ilustrando-a, seja servindo-lhe de legenda, e considera fundamental a intertextualidade para uma "compreensão integral da comunicação humana".

Dada a qualidade e importância do material aqui reunido, optamos por, após um rigoroso tratamento editorial, transformá-lo em livro. Assim, estão aqui publicadas todas as conferências feitas em plenário, à exceção da palestra de Devra Weber, proferida no painel "Desafios da história oral na América Latina", por opção da própria autora. Demais comunicações apresentadas em grupos de trabalho

já foram publicadas nos anais do congresso 1, distribuídos por ocasião do evento.

Esperamos que a leitura dos textos que se seguem torne possível traçar um perfil de parte da discussão que vem sendo travada nos últimos anos na área da história oral.

As organizadoras

1 Conferência Internacional de História Oral; 10:1998: Rio de Janeiro. Oral History: Chalknges for the 21 st Cenlury; Xth International Oral History Confercnce, proccedings. Rio de Janeiro, CPDOC-FGV/Fiocruz, 1998, 3 v.