História oral: desafios para o século XXI
Competições entre vítimas
Trabalhando como historiadores no memorial, utilizando a história oral, temos que nos confrontar com o fato de que, para os antigos prisioneiros, somos representantes da memória oficial em que eles não se vêem representados, e por isso tentam nos convencer a lhes dar um lugar adequado à sua própria memória, além de tentar nos convencer a equipará-los aos prisioneiros dos campos nacional-socialistas e a reconhecê-los como "vítimas".
A pergunta geral que aqui se coloca é: Será a história oral o método adequado para conseguir os conhecimentos históricos necessários ao trabalho científico nestes memoriais? Os prisioneiros dos campos soviéticos devem vencer maiores barreiras de credibilidade do que os prisioneiros dos campos nacional-socialistas? Além disso, aqui se manifestam claramente certas reservas (ou uma resistência geral) da "historiografia séria" contra a "história vivida".
Competições entre vítimas*
Alexander von Plato
Gostaria de falar sobre diferentes traumas, sobre "hierarquias de vítimas", sobre "competições entre vítimas" e sobre diferentes períodos de silêncio e de conversação sob diferentes sistemas
políticos na Alemanha Oriental e na Alemanha Ocidental.1 Com o passar do tempo, as duas Alemanhas do pós-guerra alteraram a aceitação pela sociedade das diferentes vítimas no Leste e no Oeste. Houve uma "evolução cruzada" de aceitação daqueles que estiveram em campos de concentração nazistas e daqueles que estiveram nos campos especiais soviéticos. A aceitação era determinada pela guerra fria; enquanto os sobreviventes do Holocausto tiveram experiências ruins ou mesmo novos traumas depois da guerra, os outros foram reconhecidos na Alemanha Ocidental como testemunhas, durante a guerra fria, por terem sofrido nos campos soviéticos. No final dos anos 60, com a política de détente, foi o contrário.
Dentro dessas evoluções cruzadas, houve tempos de silêncio e tempos de conversação para estas vítimas, porque houve diferentes padrões para julgar essas pessoas nas sociedades das duas Alemanhas no pós-guerra, nos anos 50 e hoje.
Estes padrões de julgamento e esta aceitação não apenas jogaram luz nestas sociedades, não apenas produziram diferentes "hierarquias de vítimas" no Leste e no Oeste, mas estas atitudes também influenciaram as formas de enfrentar as próprias experiências, influenciaram as recordações e as narrativas das histórias de vida dos antigos prisioneiros dos campos nazistas e dos campos especiais soviéticos: todos eles ficaram traumatizados, mas a aceitação pela sociedade foi crucial para estabelecer boas relações com as consequências deste passado brutal.
As histórias de vida demonstram uma das principais diferenças entre essas vítimas: a maioria dos sobreviventes do Holocausto perdeu toda a família, ao contrário dos internos dos campos soviéticos, e isto significa muito mais do que um lar para onde retornar; eles não tiveram ajuda para superar seus traumas. E no lado ocidental deve ter sido muito duro para eles que estas pessoas tidas como criminosas fossem aceitas, obtivessem indenização financeira e fossem mostradas por todo o país como vítimas do comunismo, enquanto eles próprios lutavam para conseguir pelo menos a indenização financeira. Este cenário geral mudou, porém, no final dos anos 60, no lado ocidental, enquanto no lado oriental os antigos internos dos campos soviéticos foram mantidos em silêncio durante os anos de existência da RDA.
Estas evoluções cruzadas produziram uma competição entre as vítimas, especialmente após a grande mudança de 1989, agora numa Alemanha reunificada. Isto pode indicar como é -e tem sido -importante a "digestão" do passado, como o passado pode se tornar explosivo quando falta digestão, porque na Alemanha estas experiências tão diferentes de vítimas tão distintas tiveram origem em diferentes sistemas políticos: duas ditaduras e uma sociedade com padrões democráticos ocidentais. E parece muito difícil que estas vítimas diferentes possam vir a ser capazes de se aceitar mutuamente. Não obstante, todas são parte da história alemã.
Finalmente, uma nota metodológica: a forte influência dessa evolução cruzada nas recordações e nas narrativas tinha que nos tornar mais críticos e desconfiados da própria entrevista oral: de qualquer modo, tivemos que utilizar diferentes métodos - neste caso tivemos que confrontar documentos de arquivos, outros textos, imagens e narrativas - e em vez de entrevistas temáticas, apenas entrevistas de história de vida podem fornecer mais do que "informações" questionáveis. Do contrário, não poderíamos sequer notar as mudanças de padrões e narrativas pessoais, as alterações da própria memória.
Vítimas do Holocausto
Depois da Segunda Guerra Mundial, vítimas sobreviventes do terror nacional-socialista que escolheram permanecer na Alemanha Ocidental enfrentaram todo tipo de dificuldade. Na maioria das vezes, encontraram-se sem seus parentes, sem suas antigas propriedades, e quase todos se sentiram desprotegidos pela maioria da população alemã ocidental, cuja maneira de lidar com o passado nacional-socialista eles não podiam compreender. A maioria considerou humilhante o processo de Wiedergutmachung (indenização) - de fato, para algumas vítimas, este processo representou um segundo trauma.
Gostaria de apresentar-lhes Hans Frankenthal. Aos 15 anos foi deportado para Auschwitz com sua família, toda ela moita em 1943, após a chegada; só ele e seu irmão sobreviveram - fazendo trabalhos perigosos e pesados em diferentes campos de concentração e de trabalhos forçados (Arbeitslager). No final ele estava quase morto e foi libertado em Theresienstadt em estado de coma, com um joelho permanentemente avariado. Seus libertadores lhe perguntaram, e ao irmão, por que queriam voltar para a Alemanha. Sua resposta: "Porque nosso pai nos pediu e por causa de nossa propriedade na Alemanha." Entretanto, quando ele e seu irmão voltaram para casa, os outros - a parte não-judaica da família tinham dividido entre si a propriedade da família dos dois. Pior de tudo: ninguém, nem sua família nem funcionários do governo, os apoiou quando tentaram conseguir a restituição da propriedade: "Tudo o que recebi foram cinco mil marcos pela perda de uma educação formal. Nada mais."
A explicação oficial de 1947: ele e o irmão eram jovens demais para herdar do pai quando este morreu. Ele não podia acreditar neste "esclarecimento". Não obstante, só depois de vários anos conseguiu de volta uma parte da propriedade de seus pais.
Ele estava frustrado e ansioso no final dos anos 40 e durante os anos 50, porque quase ninguém queria saber de nada sobre o destino deles, ninguém os ajudou naquele tempo a construir um memorial para os judeus mortos em sua terra natal.
Ele nos contou a seguinte história: no final dos anos 40 foi a um bar de sua cidadezinha, numa região rural, e todos os homens alemães, depois de se embebedarem, contavam histórias heróicas sobre suas experiências de guerra. No final, perguntaram-lhe onde estivera durante a guerra. Ele respondeu: "Estive em Auschwitz." Ninguém conhecia Auschwitz. Quando começou a falar sobre Auschwitz e outros campos de concentração, ninguém acreditou. Diziam que ele estava exagerando. Então ele disse: "Se algum dos antigos judeus da comunidade judaica (cerca de cinquenta membros) pudesse voltar para casa, ofereceria bebida de graça a todos, iria à praça do mercado e denunciaria a si próprio como mentiroso."
"Na minha opinião", ele nos disse mais tarde,"todas as cidades alemãs podiam ter sido bombardeadas durante a guerra, como Dresden", que ele tinha visto quando voltou de Theresienstadt.
Hans começou a perceber que as vítimas do nacional-socialismo e as da União Soviética enfrentaram diferentes graus de aceitação na Alemanha Ocidental nos anos 50: primeiro, havia os membros do "Grupo de resistência de 20 de julho" (os oficiais que tinham tentado matar Hitler e tomar o poder na Alemanha) e as vítimas da resistência da Igreja; a rememoração do extermínio dos judeus ocupava um nível "mais baixo"; às vezes até as vítimas alemãs da guerra ou da ocupação soviética na Alemanha ocupavam uma posição "mais alta" nesta hierarquia - especialmente durante a guerra fria.
Nessa situação, ele se casou com uma mulher não-judia em 1948, e ela deu aos filhos uma educação cristã, mas - como um compromisso - sem batismo. Teria sido possível dar-lhes uma educação judaica porque depois da guerra e do Holocausto todas as crianças de famílias mistas judaico-cristãs foram aceitas como membros da comunidade judaica. Em 1955 ele desistiu: seus três filhos foram batizados. Este era um novo tempo, de mimetismo, medo e doenças: "Transformei-me num eremita." Ele nunca falou com seus filhos sobre sua experiência em Auschwitz e sabe que estas experiências anteriores influenciaram seus sentimentos pessoais e relacionamentos para sempre: "Agora eles estão com mais de quarenta anos e sabem por que nunca os peguei no colo. E quase todos nós fomos maus cônjuges."
Acho que estas experiências são típicas de judeus que residem na parte ocidental da Alemanha.
Típico, também, foi que Hans Frankenthal percebeu que uma geração inteiramente nova estava surgindo no final dos anos 60: começou a se sentir menos estranho ou alienado na República Federal. A nova geração de professores, contou ele, começou a convidá-lo para dar conferências em escolas; jornais publicaram uma série de artigos sobre a história de sua vida, estações de TV o entrevistaram; ele se tornou membro da comunidade judaica que hoje dirige. Mas continuou a viver como eremita. Por outro lado, critica toda a Alemanha atual, da mesma maneira que costumava fazer nos anos 50. Uma vez ele me contou que sua lembrança das traumáticas experiências em Birkenau são mais fortes que sua nova experiência com os alemães mais jovens. Não conseguiu combinar estas atitudes entre si.
Na Alemanha Oriental a situação era diferente. Muitas vítimas que foram aprisionadas por motivos políticos ou raciais voltaram e começaram a participar da construção da República Democrática Alemã (RDA), muitas vezes em altos postos. Assim, generalizou-se um sentimento de aceitação no início da ocupação soviética, e talvez durante os primeiros anos da jovem RDA. Porém, poucos anos depois da Segunda Guerra Mundial, o clima político se alterou: vítimas judias foram confrontadas com o julgamento Slansky e com a luta contra o sionismo, e assustaram-se com a onda de anti-semitismo na União Soviética. Embora esta onda não fosse tão forte na RDA, os judeus
sempre foram cautelosos; a "hierarquia das vítimas" tinha mudado. Os sobreviventes souberam, então, que passaram a ser subordinados às vítimas políticas; duas categorias "oficiais" foram introduzidas na RDA: "os que lutaram contra o nacional-socialismo", principalmente comunistas, e "vítimas do nacional-socialismo". Isto significava que os membros dos dois grupos receberam, por exemplo, indenizações, pensões e outros serviços sociais diferenciados. Não obstante, a maioria tentou ser um "bom" cidadão da RDA ou um comunista leal, às vezes até de maneira oportunista. Muitos anos depois, após a grande mudança de 1989 - muitos conservaram lembranças muito positivas da RDA-, para uma grande maioria as dificuldades dos judeus na RDA perdeu importância.
Vítimas da ocupação soviética As experiências dos primeiros internos nos campos especiais soviéticos na Alemanha foram muito diferentes. Estes campos especiais existiram entre 1945 e 1950, na Zona de Ocupação Soviética; de acordo com as fontes soviéticas daquela época, cerca de 155 mil pessoas foram aprisionadas (incluindo "estrangeiros", principalmente russos), mas atualmente o número levado a sério
eleva o total para 185 mil pessoas.2 Muitos internos eram - como mencionei na introdução do painel - nazistas de escalão intermediário e inferior; um dos mais altos funcionários era Ritter von Halt, presidente do Comitê Olímpico Alemão. Hoje podemos entrevistar apenas os mais jovens entre os antigos prisioneiros, menos incriminados ou menos prejudicados por seu passado nazista, muitos dos quais foram enviados aos campos sob suspeita de ser um Werwolf, uma organização de jovens hitleristas, mais temida que real. Entretanto, não é mito o fato de que o principal interesse dos soviéticos em 1945 foi conseguir trabalhadores para a reconstrução da União Soviética. Mais tarde tentaram prender antigos nazistas, mas, por exemplo, no início membros da SS não eram aprisionados nesses campos, pois eram tratados como prisioneiros de guerra. Não obstante, a maioria dos internos era composta de antigos nazistas, principalmente Blockwarte. Tinham que ser punidos ou mantidos em Schweigelagern, para que não ocupassem altas posições no governo do pós-guerra. Nos campos, entretanto, não havia "reeducação antifascista". A arbitrária política soviética desses campos pode ser demonstrada por um dos interessantes resultados de nossa pesquisa: a maioria das pessoas mais velhas, com um passado nazista aparentemente ativo, não foi julgada pelos tribunais militares soviéticos, enquanto os que foram julgados eram principalmente mais jovens e sem este background
nazista.3
Gostaria de apresentar a vocês Ludolf Veberg, caso típico de interno bastante jovem. Nasceu em 1929 em Berlim; seu pai era um marceneiro e depois da Grande Depressão tornou-se chefe numa empresa de segurança. Ludolf frequentou escola secundária, ingressou no Deutsche Jungvolk, a seção infantil da Juventude Hitlerista, onde conseguiu uma patente mais baixa (Jungzugführer). Com 15 anos, durante os últimos meses da guerra, foi recrutado para o Volkssturm perto de Berlim, foi ferido seriamente no ombro e voltou para casa. Depois de um curto período no hospital, foi preso pela Polícia de Segurança Soviética. Razão: sua patente como Jungzugführer no Deutsche Jungvolk e um revólver encontrado na casa de um membro de seu grupo; foi interrogado e espancado pelo oficial, a despeito de seu ombro ferido. Foi transportado para diferentes campos soviéticos (Weesow, Landsberg/Warthe); no fim, estava em Buchenwald, o antigo campo de concentração nazista, usado pelos soviéticos como campo especial para todos aqueles que não tinham sido julgados por um tribunal militar soviético. Ludolf nunca soube por que era acusado e nunca foi a julgamento. Em 1948 foi libertado. Mas não fez as pazes com a vida sem sequelas. Depois de alguns anos, sua família e um grupo de jovens cristãos "trouxeram-me de volta à vida". Ele fez um rápido treinamento para escriturário e se tornou chefe de uma gráfica no fim de sua carreira. Até esse dia ele tinha estado traumatizado: "...Buchenwald ocupava frequentemente meus pensamentos... Só era preciso uma palavra,
por exemplo, Thuringen ou Weimar. 4 5 Só precisava ouvir 'KZ'-imediatamente Buchenwald ou Landsberg se faziam presentes... com todo o medo e outros sentimentos."
Assim como ele, todos estes prisioneiros dos campos especiais tiveram experiências traumáticas. Muitos ouviram que eram acusados de serem Werwõlfe, mas a maioria não tinha qualquer relação com esta organização. Algumas vezes foram torturados, frequentemente espancados, a maioria estava doente e todos passaram fome. Perto de 35% dos prisioneiros morreram; conferindo com fontes soviéticas, isto significa 42 mil entre 122 mil internos alemães. Os outros foram libertados depois de três ou cinco anos; mais tarde, muitos foram para a Alemanha Ocidental.
Na RDA sua experiência passada era tabu: durante toda a existência da RDA não foi permitido falar sobre esses campos. Os ex-prisioneiros nunca se sentiram aceitos como vítimas e nunca conseguiram uma indenização como seus "camaradas" ocidentais. Portanto, descrevem a si mesmos como "vítimas de segunda classe", quando comparadas aos antigos internos ocidentais, e mesmo em comparação às vítimas do nacional-socialismo. Talvez este longo período de silêncio possa explicar a forma agressiva com que muitos deles estão agora tentando ser aceitos, depois da mudança de 1989.
Entretanto, surpreendentemente, muitos de nossos entrevistados do Ocidente nos contaram que também não falavam sobre suas vidas nos campos de prisioneiros de guerra. Ludolf Veberg diz:
Bom, por que não falei sobre essas experiências? Isto é muito
difícil de responder, muito difícil. Basicamente, acho que pensei:
"Ninguém vai compreender você, afinal de contas, ninguém
pode imaginar como era aquilo.. ."Mesmo na Juventude Cristã,
depois da minha prisão, nunca falei sobre minhas experiências
ou lembranças, nunca. Nem com minha família... Tenho a
impressão de que ainda existe umaidéia na cabeça das
pessoas: "Eles devem ter feito alguma coisa, caso contrário não
teriam sido presos... Eles são responsáveis por 1945..."Mas no
final da guerra eu tinha 15 anos, por isso não podia ser culpado,
não mesmo, pois no início da guerra eu tinha dez anos. Quando
Hitler subiu ao poder, eu tinha quatro anos. Como você vê, não
posso explicar por que ninguém fala sobre isso nem por que
ninguém quer falar sobre isso.
Mais tarde:
Na RDA todos os antigos internos tiveram dificuldades. Mas,
mesmo na República Federal, durante todos aqueles anos
antes da grande mudança de 1989 muito pouco tinha sido
publicado sobre estes campos. Naquele tempo quase nada
chegou ao conhecimento do público... Tenho a impressão de
que nenhum dos lados tinha qualquer interesse nesse assunto.
Ele não fala apenas da época da détente, mas de todos os anos entre 1945 e 1989. Quase todos os antigos internos a quem pudemos perguntar responderam que tinham dificuldade de falar sobre suas experiências em campos.
As principais razões mencionadas são:
1) tinham medo de que não lhes fosse permitido visitar suas famílias na RDA ou tinham um medo generalizado da polícia secreta da Alemanha Oriental (Stasi). Ludolf Veberg: "Sempre ficava de coração na boca quando viajava através da RDA (Alemanha Oriental)";
2) mas a principal razão tem sido a política de détente entre Leste e Oeste desde o final dos anos 60, e
3) alguns deles tinham medo de serem chamados de nazistas até mesmo por seus próprios filhos.
Estas foram as razões que nos deram. Se entrássemos em detalhes, no entanto, perceberíamos que suas lembranças tinham mudado. Eles vêem o passado dos anos 50 à luz dos dias de hoje. Apesar de sua memória, suas experiências foram levadas a sério durante a guerra fria. Muitos deles fizeram relatos sobre seu passado em diferentes lugares, diante de públicos variados, como grupos do Partido Social-Democrata, grupos da Igreja etc. Às vezes, eles mantinham fotos de suas aparições em público nos seus álbuns de fotografias. Em resumo, apesar de suas recordações, foram aceitos como vítimas do comunismo, como testemunhas contra a União Soviética durante a guerra fria.
Parece, entretanto, que a segunda parte de suas lembranças pode ser mais "confiável". Depois dos anos 60 e início dos 70 -exatamente o contrário do que teria ocorrido com nossos entrevistados judeus - muitos deles não ousavam mais falar sobre seu período como prisioneiros porque temiam o julgamento de seus filhos, amigos, da imprensa ou de grupos políticos. Temiam ser julgados por terem sido nazistas ou - durante a détente entre Leste e Oeste - soldados da guerra fria. No entanto, aqueles que permaneceram na Alemanha Oriental passaram por um processo oposto. Incapazes de falar sobre suas experiências durante a existência da RDA, passaram a fazê-lo abertamente pela primeira vez depois da reunificação.
Mas hoje, não sendo tão aceitos como vítimas por uma geração mais jovem, eles estão compreendendo seu passado como se ele tivesse sido tratado dessa forma durante os últimos cinquenta anos. Suas recordações reais sugerem: mesmo nos anos 50 - assim são as principais declarações - ninguém queria ouvir suas histórias, todo mundo aceitava os judeus como vítimas, mas não as vítimas dos campos especiais soviéticos que eram, ao contrário, às vezes até chamados de "criminosos" (Täter). É por isso que muitos lutam vigorosamente pelo mesmo status de vítima que os judeus, lutam pelos mesmos conceitos (campos de concentração, política de extermínio, Vernichtungspolitik). "Não queremos ser vítimas de segunda classe" -é uma frase que ouvimos frequentemente dos antigos internos dos campos especiais. Por outro lado, a maioria dos membros da minha geração que criticou o silêncio sobre o Holocausto nos anos 50 e 60, assim como os próprios sobreviventes do Holocausto, não aceita os antigos internos dos campos especiais como vítimas, mesmo que esses internos fossem os mais jovens, anistiados pelos Aliados depois da Segunda Guerra Mundial.
Aqui podemos ver que existe uma competição verdadeira entre os chamados grupos de vítimas.
Gostaria de citar uma carta que recebi não de um entrevistado, mas de um outro antigo prisioneiro de um campo especial. Ele criticava -tal como nossos entrevistados -o número de mortos nos campos especiais soviéticos que estavam sendo usados por pesquisadores e continuava:
Os números verdadeiros de nossos camaradas mortos devem
ser conhecidos (! ) ... Não há razão para se adulterar o número
de mortos num campo da SS, de sessenta mil para cem mil,
isto para não mencionar que as circunstâncias de vida nos
guetos de Lodz e Varsóvia durante os amargos anos de 1941 e
1942 geraram muito menos vítimas mortas por habitantes do
que as que vivemos [nos campos especiais]. O que me
interessa é a verdade sobre nossos campos (especiais).
Este é um exemplo que parece partir de um radical de direita, porque ele esqueceu o "pequeno detalhe" de que a maioria dos habitantes desses guetos foi morta depois. Mas não tem que ser necessariamente a voz de um extremista de direita - mesmo que pareça assim para a maioria de nós. Talvez ele apenas se tenha tornado amargo porque ninguém quis ouvir os relatos sobre o sofrimento nos campos soviéticos, talvez nós mesmos presumamos inconscientemente que todo mundo que esteve num campo especial deve ter sido nazista.
* Tradução de Lucia Hippoiito.
1 Estes números têm sido contestados por novos estudos tchecos, por exemplo, Jan Kren. Tschechisch-deutschc Bezichungen in der Geschichte. Von Böhmen aus betrachtet, In: Aus Politik und Zeitgeschichte. Beilage zur Wochenzeitung Das Parlament B 28/96, Juli 1996. S 21 27.
1 Esta é a versão modificada de um paper originalmente apresentado no X Congresso Internacional de História Oral no Rio de Janeiro, em junho de 1998. Gostaria de agradecer à Fundação Nuffield por financiar minha viagem c parte da pesquisa necessária à elaboração deste paper. Agradeço também à Universidade de Keele pelo apoio à pesquisa e a Vivian Ellenbogen por me franquear o acesso aos documentos da família.
2 Langer, L. Holocaust Testimonies. The Ruins of Memory, 1991, p. XV Outros importantes trabalhos sobre depoimentos de sobreviventes incluem Bettelheim, B. Surviving the Holocaust, 1986; Caruth, C. (ed.). Trauma: explorations in memory, 1995; Hartman, G. R. (ed.). Holocaust Remembrance. The shapes of memory, 1994; Jacobson, K. Embattled selves. An investigation into the Nature of Identity, Through Oral Histories of Holocaust Survivors, 1994.
3 A família estava entre algumas centenas de judeus que receberam proteção da Abwehr.
4 O nome completo desse grupo baseado em Essen era Bund Gemeinschaft für sozialistisches Leben. Não tem qualquer relação com o conhecido grupo judeu Bund da Polônia.
5 Neste trabalho não fornecerei referencias detalhadas sobre as entrevistas com Marianne nem sobre os documentos que estavam cm sua posse, mas apenas sobre o material pesquisado externamente. Referencias completas serão incluídas cm minha biografia sobre Marianne, a ser publicada brevemente, e cujo título provisório c The Pasl in Hiding.
6 Muitas dessas fontes estavam com Marianne. Outras fontes consultadas encontramse na Alte Synagoge Essen, no Stadtarchiv Essen, no Hauptstaatsarchiv Dusscldorf, no Arquivo Federal Alemão, em Berlim, no Zentrum für Antisemitismusforschung, cm Berlim, no Yad Vashem, em Jerusalém, no Leo Baeck Institute, em Nova York, e na Wiener Library, em Londres.
7 As melhores fontes sobre Izbica em inglês são: Trzcinski, A. A Guide to Jewish Lublin and Surroundings, Lublin, Varsóvia: 1991; Arad, Y. Bezlec, Sobibor, Treblinka. The Operation of Reinhard Death Camps, Bloomington e Indianapolis: 1987; Blatt, T. From the Ashes of Sobibor. A Story of Survival, Evanston Illinois: 1997.
8 Em Brocke, E. Vögeler, B. Zimmermann, M. et alii. Stationen Judischen Lebens: von der Emanzipation bis zur Gegenwart. Katalogbuch zur Ausstellung "Stationen judischen Lebens". In: der Alten Synagoge Essen. Bonn: 1990.
9 Informação da sra. Hanna Aron, West Hartford, Connecticut.
10 Marianne Ellenbogen. Flucht und illegales Lebcn während der Nazi-Verfolgungsjahre 1943-1954. In: Das Münster am Hellweg,37, 1984, p. 135-42.
11 Haupt Staatsarchiv Düsseldorf (HstaD) RW58, 74234, página intitulada Betrifft: Flucht der Jüdin Marianne Sara Strauss.... Essen: 3.9.1943.
12 Entrevista com Lily Arras, Gcldcrn: 10.1.1997.
13 O Centro de Arquivos Escritos da BBC, Serviço Alemão, Sonderbericht scripts jan./43abr./45 confirma que cm 1944a BBC veiculou informações muito detalhadas sobre o destino dos ocupantes de determinados trens que foram de Theresienstadt para Auschwitz. Através de outras fontes, Marianne soube que seus pais estavam nesses trens. Agradeço a Gabriel Milland a referencia da BBC. Danuta Czech também cita os informes da BBC, captados até em Auschwitz. Ver Czcch, D. Kalendarium der Ereignisseim Konzentrationslager Auschwitz Birkenau 1939-1945. Hamburg: 1989, p. 800-1.
14 HstaD RW58 74234. Tradução de M. Roseman.
15 O informante de Enrique foi uma enfermeira da Cruz Vermelha na Suécia, Judith Koppel, originária de Essen. A partir do exame da correspondência de Marianne, fica claro que Koppcl dependia de informações da própria Marianne.
16 Schmalhauscn, B. Schicksale jüdischer Juristen aus Essen 1933-45. Essen: 1994, p. 81-2.
1 Estes não são os nomes verdadeiros.
2 Ver Königseder, A. e Wetzel, J. Leben im Wartesaal. Die jüdischen DPs im Nachkriegsdeutschland. Frankfurt am Main: 1994; Brenner, M. Nach dem Holocaust. Juden in Dcutschand 1945-1950. Munique: 1995 (ensaio).
3 Quindeau, I. Trauma und Geschichte. lnterpreíaíionen autobiographischer Erzählungen von Überbenden des Holocaust. Mit einem Vorwort von Judith Kestenbcrg. Frankfurt: 1995; Sdclacsck, D. "...das Lager läuft dir hinterther". Leben mit nationalsozialistischer Verfolgung. Berlim: 1996.
4 Klüger, R. Weiter Leben. Eine Jugend. Göttingen, 1992; ver ainda Munique: 1994, p. 140.
5 Idem.
6 Klüger, R. Weiler Leben. Eine Jugend. Gõttingcn, 1992; ver ainda Munique: 1994, p. 140.
7 Diner, D. Jenseits dcs Vorstellbaren - der 'Judenrat' als Situation, In: Loewy, H. e Schenberner, G. (Redaction). Unser einziger Weg ist Arbeit. Das Getto in Lódz 19401944. Frankfurt am Main/Wien: 1990, p. 32-40.
8 Scheffler, W. Das Getto Lódz in der nationalsozialistischen Judenpolitik, In: Idem, p. 15.
9 Anexo, In: Idem, p. 270.
1 Stéphane Courtois. Le livre noir du comunisme. Paris: 1997, edição alemã 1998.
2 Bericht und Empfchlungen der 1. Enquetckommission des deutschen Bundestages zur Aufarbeitung der DDR - Geschichte, Bonn, 1991.
3 BDM (Bund deutscher Mädchen): organização juvenil feminina nacional-socialista.
4 GPU: polícia secreta soviética.
1 Quero agradecer a Alice von Plato por várias observações ao conteúdo deste artigo.
2 Na Zona Americana cerca de cem mil pessoas foram enviadas para campos de prisioneiros de guerra, na Zona Britânica, cerca de 93 mil. Mas a taxa de mortalidade nesses campos era muito mais baixa, c os internos eram frequentemente libertados depois de um período mais curto do que o que ocorria nos campos soviéticos. Americanos e ingleses começaram logo a checar cada caso. Ver a Introdução de Plato, A. von (ed.), Sowjetische Spezialllager in Deutschland 1945 bis 1950, Band 1. Studien und Berichte, Bcrlin (Akademic Verlag) 1997.
3 Kersebom/Niethammer, In: Plato, 1997.
4 Buchenwald (perto de Weimar) fica em Thüringen.
5 Interessante que ele usa a expressão "KZ" (campo de concentração) e não "campo especial". Ele é muito solidário com os prisioneiros dos campos de concentração alemães, porque tiveram -na minha opinião - experiências semelhantes.