História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 13 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

Memória sobrevivente: verdade e inexatidão nos depoimentos sobre o Holocausto

Como o governo e a população da Alemanha Oriental e Ocidental lidam com as vítimas do nacional-socialismo? Qual foi a capacidade da população - que enfrentava suas próprias dificuldades, vivendo o luto das mortes em suas famílias - de compreender o trauma das vítimas do nacional-socialismo? De que maneira os alemães lidaram com as vítimas da repressão soviética durante diferentes períodos, desde a guerra fria até hoje?

Como as próprias pessoas traumatizadas viveram com seus traumas, como puderam conviver com os alemães "normais"? De que maneira sua memória foi influenciada pelos traumas e pelas circunstâncias sociais?

Mark Roseman, inglês, especialista em história contemporânea da Alemanha, é conferencista sênior na Universidade de Keele. Trabalha atualmente numa detalhada pesquisa sobre a história de vida de uma mulher judia.

Friedhelm Boll trabalhou, como historiador, na desnazificação e com as vítimas dos campos de concentração nazistas e dos campos soviéticos de prisioneiros de guerra. Ele pertence à equipe da Fundação Friedrich-Ebert em Bonn e leciona em Kassel.

Anne Kaminsky trabalha no Memorial de Sachsenhausen. É especialista em repressão nazista e soviética, além de possuir vasta experiência em história oral.

 

Memória sobrevivente: verdade e inexatidão nos

depoimentos sobre o Holocausto*

Mark Roseman

Este paper nasceu de minha recente experiência escrevendo a biografia de um sobrevivente do Holocausto, Mrs. Marianne

Ellenbogen, nascida Strauss. 1 Um dos mais inesperados e chocantes aspectos da pesquisa foi a descoberta de muitas espécies diferentes de registros escritos que poderiam ser justapostos ao depoimento oral de minha biografada. Talvez se possa falar em justaposição de fontes de diferentes tipos de contemporaneidade, uma vez que o que é revelador frequentemente não é o contraste específico entre o "escrito" e o "falado", mas entre percepções e lembranças já "consolidadas" ou registradas em diferentes pontos de distância dos acontecimentos descritos, isto é, em relatos e cartas "da época", em entrevistas e conversas "de hoje". Em todo caso, quando comparei o que minha entrevistada me contou com o que diziam as fontes contemporâneas, emergiram inúmeras diferenças e discrepâncias relevantes. A tal ponto, que o processo pelo qual o passado de Marianne ganhou forma no presente às vezes parece uma história de detetives (embora angustiante e trágica), à medida que uma cadeia de pistas e testemunhas me conduzia a consecutivas reavaliações de acontecimentos de mais de cinquenta anos atrás.

As discrepâncias entre registros e depoimentos tomaram inúmeras formas. Muito frequentemente o depoimento de Marianne ou de outra testemunha mostrava que os registros contemporâneos eram enganadores, ou porque fossem deliberadamente elaborados para enganar - documentos da Gestapo, por exemplo - ou porque faltou alguma informação ao autor. Algumas vezes as discrepâncias não tinham nada de inexatidão e refletiam apenas as diferentes percepções do observador contemporâneo e do retrospectivo. Mas o foco deste paper atinge particularmente uma terceira discrepância, qual seja, onde os registros contemporâneos revelam que as lembranças de Marianne e de outros sobreviventes eram imprecisas e mudaram com o passar do tempo.

Estes tipos de inexatidão me pareceram importantes e reveladores, mas quando recorri à bibliografia, e especificamente a análises recentes de depoimentos de sobreviventes do Holocausto, descobri que outros pesquisadores lhes tinham dado pouca atenção. Na verdade, muitos estudos lançam dúvidas sobre a conveniência de se falar sobre a confiabilidade da memória. Isto é claro e explicitamente defendido por Lawrence Langer, um dos menos pretensiosos e mais impressionantes estudiosos dos depoimentos do Holocausto:

Permanece uma questão preliminar, que é a confiabilidade da

memória na qual esses depoimentos devem apoiar-se para a

exatidão e a intensidade de detalhes. Até onde se pode

acreditar numa lembrança estimulada para reviver

acontecimentos muitas décadas depois do ocorrido? Acho que

a própria terminologia é incorreta, pois não há necessidade de

reviver aquilo que nunca morreu. Mais ainda, embora

lembranças adormecidas possam despertar furiosamente, nada

é mais claro nessas narrativas do que o fato de que a

lembrança do Holocausto é insone, e seus olhos mentais jamais

se fecharam. Além disso, uma vez que depoimentos constituem

documentos humanos, muito mais do que históricos, a

interação perturbada entre passado e presente atinge uma

gravidade que ultrapassa a preocupação com a exatidão. Erros

factuais acontecem de tempos em tempos, como acontece com

lapsos banais; mas eles parecem triviais quando comparados

às complexas falhas de memória que geram as versões do

indivíduo, que estaremos estudando neste livro.2

Meu objetivo não é criticar o trabalho de Langer. Obviamente existem muitas questões envolvendo memória e identidade que podem ser respondidas sem levar em conta a questão da exatidão dessas lembranças. Mas minha experiência -e este é o ponto central deste paper - é a de que a "preocupação com a exatidão" que Langer despreza ajuda a compreender aquelas "complexas falhas de memória" que ele procura revelar.

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Vou apresentar rapidamente Marianne Ellenbogen, cuja biografia representa o ponto de partida para essas observações. Marianne nasceu em 1923, numa próspera família judaica em Essen, na região do Ruhr. Mais velha de dois irmãos, cresceu em Essen. Seus pais eram judeus-alemães extremamente patrióticos - seu pai tinha recebido a Cruz de Ferro durante a Primeira Guerra Mundial -e não tentaram deixar o país, até que era tarde demais; como resultado, toda a família foi apanhada na armadilha da Alemanha nazista. Marianne sobreviveu à guerra e deixou o país apenas em dezembro de 1946, quando foi para a Inglaterra. Viveu os cinquenta anos seguintes em Liverpool, até sua morte em 1996.

Embora sua vida apresente vários aspectos extraordinários, para nossos propósitos dois deles merecem destaque. O primeiro é que, ao contrário da maioria dos membros de sua família e de muitos de seus amigos mais íntimos, ela nunca esteve num campo: passou toda a guerra vivendo, primeiro, com a família sob a proteção oficial- caso pouco comum - da Abwehr, a organização de contra-

inteligência do Wehrmacht;3 depois de 1943, quando a família foi deportada para Theresienstadt e de lá para Auschwitz, Marianne escapou, ajudada por um grupo de esquerda pouco conhecido

chamado de Bund.4 Passou dois anos em movimento, viajando através da Alemanha, ficando poucos dias de cada vez com diferentes membros desse grupo. Durante esse período viveu com uma energia e uma coragem incríveis, e não com a passividade ou inatividade que se possa associar a alguém que se esconde. Por isso, pode ser que faltem à sua experiência algumas das características que definem o típico sobrevivente do Holocausto. No entanto, afirmo que muitas das experiências traumáticas características - tais como ser identificada, apontada e perseguida pelo Estado, viver em permanente ameaça e ansiedade, passar pela perda e incerteza em relação a entes queridos, ter que lidar com lembranças traumáticas e com a culpa por ter sobrevivido quando tantos não conseguiram - dominaram daí por diante a vida e o depoimento de Marianne de maneira semelhante à de outros sobreviventes do Holocausto. Como muitos outros sobreviventes, ela nunca falou sobre suas experiências até bem perto da morte - e, mesmo então, sua extrema relutância em falar só era superada pela convicção de que um registro tinha que ser feito. Tão completo tinha sido seu silêncio até suas conversas comigo, que depois de sua morte descobri que nem mesmo seu filho e seus netos tinham a mais vaga idéia sobre sua vida antes de ir para a Inglaterra.

O segundo aspecto marcante é a extensão das fontes sobreviventes. O ponto de partida para minha pesquisa foi, é claro, o depoimento de Marianne, obtido numa série de entrevistas em

1989 e 1996. 5 Mas complementei com outras fontes orais, inclusive depoimentos pessoais ou de especialistas, através de entrevistas, conversas ao telefone e correspondência com mais de cem pessoas na Inglaterra, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Suécia, França e Argentina. As fontes escritas, igualmente numerosas, vieram em

diferentes formas. 6 Há documentos oficiais, incluindo os extensos relatórios da Gestapo sobre a família, assim como registros municipais da expropriação de sua propriedade. Os papéis pessoais de Marianne estão entre as fontes mais dramáticas, incluindo dois ricos diários dos tempos da guerra, um deles do seu período na resistência, e muita correspondência, incluindo as cartas trocadas desde 1942 entre ela e o noivo em Izbica. Existe ainda alguma correspondência dos tempos da guerra trocada entre ela e membros do Bund, grupo que a protegeu, além da agenda pessoal de Artur Jacobs, o homem por trás do Bund. Os documentos de indenização são volumosos, fornecendo muitas informações sobre a vida da família antes da guerra. Há também muitas cartas familiares, incluindo cartões enviados à Suécia de Theresienstadt e até mesmo um de Auschwitz-Birkenau.

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A primeira coisa que emerge da comparação entre as lembranças de Marianne e relatos contemporâneos é que em alguns casos um tipo de polarização aparece em seu depoimento. De um lado, havia pequenos exageros ou supervalorizações de experiências. Particularmente em relação a algum acontecimento traumático, as circunstâncias que envolviam aquele evento muitas vezes assumiam dimensões maiores na lembrança de Marianne. Períodos de tempo eram duplicados ou triplicados -a duração da prisão de seu pai em Dachau depois da Noite dos Cristais em 1938 transformou-se em dois meses em sua memória, mas na realidade foram três semanas. Da mesma forma, depois de sua fuga em 1943 sua família foi mantida prisioneira em Essen enquanto a Gestapo esperava que ela pudesse voltar. Este período de prisão temporária antes da deportação para Theresienstadt durou na realidade apenas uma semana, enquanto Marianne o relembra como sendo de três semanas. Pude observar, não apenas a partir de seu próprio depoimento, mas do de outras testemunhas judias que consultei, que os homens fardados com uniformes de diferentes proveniências metamorfosearam-se em "homens da SS". Soldados do Exército, funcionários da estrada de ferro, policiais nos trens e outros fundiram-se na típica figura ameaçadora: homens da SS. Mais sutilmente, os relatos de Marianne sobre seus tempos de escola também exageraram retrospectivamente o grau de perseguição. Entretanto, declarações de outras testemunhas são contraditórias. E aqui, quando se trata mais de uma questão de impressões do que de incidentes específicos, é possível que a memória de Marianne reflita com precisão sua própria percepção subjetiva à época.

De outro lado, em outras coisas a memória serviu mais para diminuir ou desconsiderar fatos da época. Por exemplo, relatos orais de Marianne sobre aqueles que a ajudaram, sobretudo os vários membros do Bund, que a abrigaram por algumas semanas (e algumas vezes em mais de uma ocasião), não contêm qualquer pista das tensões e conflitos que estão retratados em seu diário da resistência e na correspondência ali contida. O que emerge do diário é que Marianne lutava continuadamente para esquecer de si própria e pensar nos outros, para superar sua tristeza e dor subjetivas. Ao fazer isso, tornou-se conselheira e confidente de seus hospedeiros -coisa que teve alguns resultados tristes, pois a linda e corajosa moça era tão entusiasmada na ajuda a seus amigos do Bund, com seus variados problemas de relacionamento, que mais de uma vez causou algumas brigas. Na ocasião, também aconteceram disputas de natureza mais filosófica. Mas todas estas questões desapareceram da memória, pelo menos como um desejo de não manchar, de forma nenhuma, a imagem dos que a ajudaram.

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Mais interessante que esta tendência da memória a polarizar entre o bom e o mau, entretanto, foram os vários pontos em sua narrativa pessoal em que a cadeia de eventos, tal como descrita por ela, não combinava com a descrição dos eventos feita por outras fontes.

Por exemplo, em abril de 1942, enquanto a família de Marianne estava vivendo sob proteção oficial, seu noivo, Ernst Krombach, e seus pais foram designados para deportação para o Leste. Seu destino seria Izbica, pequeno gueto polonês para o qual foram deportados milhares de judeus alemães, austríacos e tchecos, e que funcionava como estação intermediária no caminho para os campos

de extermínio.7 Segundo Marianne, na noite anterior a deportação, os Krombach foram levados ao quartel onde muitos judeus de Essen estavam presos, e no dia seguinte foram para a estação ferroviária. Marianne conta que foi para o quartel com eles e lá passou a noite com Ernst, insistindo com ele para que fugisse. Ela me contou que já sabia que o Bund tinha se oferecido para fornecer ajuda, caso fosse necessário. Acompanhar a família à prisão pareceu um incrível ato de coragem, pois, se fosse apanhada, seria deportada junto com os Krombach. Mas logo em seguida descobri vários documentos que provavam que a última noite dos Krombach foi passada em seu apartamento e que Marianne não tinha passado a noite com eles. De fato, durante aquela noite, Ernst lhe escreveu uma carta de despedida que - sua correspondência deixa claro - ela recebeu um ou dois dias depois. Não resta dúvida, portanto, sobre a localização da família nem sobre a ausência de Marianne.

Depois encontrei nas reminiscências publicadas de outros judeus de Essen um relato de alguém chamado Hanna Aron sobre a deportação de seu namorado, também para Izbica, em junho de

1942. 8 Ela descreve como passou a noite no quartel Steele com seu namorado, na véspera da partida dele. Este relato era substancialmente igual ao que Marianne me fez e, neste caso, não havia evidências que sugerissem que tal fato não tivesse acontecido. Mas não tenho qualquer razão para acreditar que Marianne tivesse lido as reminiscências de Hanna Aron; a coletânea de Essen não estava na sua estante. Entretanto, fiquei sabendo que Hanna Aron e sua mãe tinham chegado a morar com a família de Marianne em março de 1943, um ano depois deste incidente, e passaram lá seis meses, antes que a própria família de Marianne

fosse deportada.9 Conversações posteriores com a sra. Aron, hoje morando em Connecticut, confirmaram que Marianne deve ter escutado a história e adotado como sua.

Eis um segundo exemplo. Em agosto de 1943, terminou a proteção da Abwehr, e a família Strauss ficou vulnerável à deportação. Em 31 de agosto dois oficiais da Gestapo chegaram à casa e deram à família duas horas para se preparar para a partida para o Leste; o destino seria Theresienstadt. Na memória de Marianne, estas duas horas de preparação e sua fuga eram, indiscutivelmente, as duas horas mais intensas de sua vida; frequentemente retornava a elas nas conversas comigo. No único relato escrito de sua vida, publicado nos anos 80, as mais vibrantes e dramáticas passagens

são as que descrevem esse momento. 10 Minha impressão ao ouvi-las era a de que cada detalhe estava gravado em sua memória - e certamente o que me contou nos anos 90 combinava com o que tinha escrito nos anos 80.

Marianne me contou que seus pais conheciam seus planos. Ela perguntou ao pai se podia levar consigo o irmão. Ele concordou e lhe passou um gordo maço de dinheiro que estava guardando ilegalmente. Mas Marianne disse que Richard, de 17 anos, não quis abandonar os pais. Os dois homens da Gestapo desceram ao porão para inspecionar todo o conteúdo das malas, e, nessa hora, Marianne viu sua chance; acenou para a mãe na cozinha e correu, esperando um tiro de pistola a qualquer momento, mas não houve nenhum.

Quando fui a Dússeldorf depois da morte de Marianne e encontrei os volumosos arquivos da Gestapo, descobri que em 3 de setembro um dos dois homens da Gestapo, Kriminalsekretär Kosthorst, tinha sido solicitado a enviar um detalhado relatório sobre seu

desaparecimento.11 Seu relato, um pouco diferente do de Marianne, dizia que ele estava no primeiro andar, tomando conta da família de Siegfried Strauss, enquanto o Kriminal Ober-Assistent Hahn estava no segundo, com a família de Alfred Strauss, tio de Marianne. Marianne pediu para ir à cozinha pegar alguma comida para a viagem. Ele concordou, e ela desapareceu. Parecia que eles queriam disfarçar sua própria negligência. Em vez de estarem revirando as riquezas da família no porão, estavam nos andares superiores e "generosamente" permitiram que Marianne fosse pegar alguma comida; sua confiança tinha sido traída. Fiquei chocado ao perceber que provavelmente eu era a primeira e única pessoa a ler aquilo sabendo que o relatório da Gestapo era mentiroso. Algum tempo depois, entretanto, encontrei outra testemunha que me contou que tinha estado rapidamente com Marianne depois da

guerra. 12 Sem qualquer indução de minha parte, ela me ofereceu sua própria recordação do relato de Marianne a respeito da fuga -como a Gestapo tinha estado com a família, como ela tinha pedido para ir pegar pão, e então tinha desaparecido. Isto sugeria que, logo depois da guerra, o relato de Marianne sobre sua fuga coincidia com o da Gestapo - e só mudou mais tarde.

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Obviamente, meu objetivo não é desafiar a veracidade fundamental do testemunho dos sobreviventes do Holocausto. Comparados aos aspectos essenciais de perseguição e perda, os tipos de discrepância que estou apontando são triviais. Na essência, as lembranças de Marianne são quase totalmente confirmadas por outras fontes. Muitas coisas que ela disse pareceram improváveis à primeira vista, mas foram depois corroboradas. Por exemplo, suas alegações sobre o papel da Abwehr na proteção da família pareciam implausíveis até para ela própria, no entanto os arquivos da Gestapo provam sua veracidade. Parecia improvável que ela pudesse, como alegava, ter-se graduado no Seminário Judaico para professores de jardim de infância e Hortnerinnen em fevereiro de 1942, com um exame oficial do governo alemão; a descoberta do diploma carimbado com a suástica provou que, de fato, ela falava a verdade. Talvez mais difícil de acreditar era sua lembrança de que, em 1944, ela conseguiu obter, através da BBC, informações bastante precisas sobre o destino de seus pais em Auschwitz. Mas

mesmo isto foi confirmado por outras evidências.13 Assim, todas as discrepâncias que estou apontando precisam ser vistas contra o pano de fundo desta veracidade subjacente. Nisto, minha limitada experiência auxilia muito a de Langer.

Outra importante qualificação deve ser feita. Como a introdução já anunciava, este processo de elucidação e corroboração não é de mão única. Os registros escritos não podem ser tomados como "evangelho", contra o qual o "falho" depoimento oral pode ser considerado deficiente. Ao contrário, muitos dos informes da Gestapo e outros materiais eram elaborados para confundir. Quando lemos no relatório do Kriminalsekretär Kosthorst que ele apresentou à família Strauss "um prazo fatal (befristeteAuflage) para fazer as

malas", 14 só o relato de Marianne de como em apenas duas horas ela e sua família tiveram que, em atividade febril, recolher o mínimo indispensável fornece as cores apropriadas do acontecimento. E mesmo onde os autores de relatórios não disfarçam sua barbaridade através de linguagem oficial, há enormes gaps, que relatos e cartas nos dizem que só podem ser preenchidos pelo depoimento de Marianne.

Permanece, no entanto, o fato de que "existem" estas interessantes imprecisões em sua memória. Em nenhum momento elas ameaçam frontalmente seu depoimento. Em vez disso, mostram como a memória vagueia em torno de um núcleo incontrolável, tentando manter experiências traumáticas sob alguma espécie de controle. Pois não me pareceu que os tipos de discrepância que apontei -e há muitas outras - fossem simplesmente uma deterioração ou flutuação de memória numa pessoa mais velha. "Houve" estas escorregadelas também, é claro; mas aqui parecia existir um padrão, e essas discrepâncias pareciam ocorrer em situações em que a lembrança de Marianne era tão vívida quanto na véspera.

O que significam essas diferenças? Parece bastante claro que as mudanças ocorreram em momentos de grande trauma. Para Marianne, as lembranças traumáticas nunca diziam respeito ao que tinha acontecido diretamente com ela - afinal de contas, tinha sido poupada do pior, e sua habilidade para enfrentar a ameaça permanente à sua segurança foi absolutamente notável. Mas o trauma de Marianne era sobre culpa, sobretudo a culpa por ter abandonado a família, e por ter permitido que outros a abandonassem. Para ela, foi insuportável ter permitido que seu noivo fosse levado. E era insuportável ter abandonado sua própria família.

O enorme fardo de ter sobrevivido sob estas circunstâncias era algo para o qual ela retornava explícita e implicitamente muitas vezes em nossas conversas. "Coloquei meus pais em risco, coloquei minha família inteira num risco pavoroso. Eles [a Gestapo] podiam ter feito o que quisessem", era uma expressão típica desses sentimentos.

As pequenas alterações em seu depoimento mostram como Marianne lutou para enfrentar esses sentimentos de perda e culpa. Assim, em seu depoimento, tomou emprestado a história de Hanna Aron (e acreditava sinceramente ser sua própria recordação, estou certo disso) de ter acompanhado seu noivo ao quartel antes da partida; foi um pouco mais longe com ele do que realmente tinha ido. A história de sua fuga de casa era um pouco mais complexa, e fiquei pensando o que significava aquela alteração. Será que Marianne queria negar o fato de que sua fuga dependeu de uma espécie de "abuso" de confiança, isto é, de que ela trapaceou com a Gestapo? Pouco provável, pois frequentemente ela estava muito atenta às "nuanças" de bondade e maldade nas pessoas à sua volta. Em vez disso, cheguei à conclusão de que ela inventou um caminho que seu irmão também poderia ter percorrido; ambos poderiam ter escapado enquanto a Gestapo estava no porão. Mas pedir permissão para ir à cozinha pegar pão era um ardil que dificilmente legitimaria a idéia dos "dois" jovens podendo fugir -permitiria que apenas um escapasse.

Em outras palavras, as discrepâncias sugerem que, onde sua experiência foi mais traumática, o trauma resultou numa incapacidade de enfrentar as lembranças tais como eram, uma pressão que levou, de um lado, a uma inapetência de falar sobre isso com o mundo exterior, e, de outro, a esse processo de mudanças sutis.

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Embora possamos compreender o processo pelo qual acontecem alterações de memória, sentimos que, mesmo que essas versões alternativas fossem verdadeiras, não a fariam menos "culpada". Do nosso ponto de vista como observadores externos, ela não era culpada de nada. De outro lado, em sua percepção pessoal, mesmo se tivesse escapado da casa por um caminho que Richard poderia ter tomado mas não tomou, mesmo se tivesse passado a noite com Ernst, provavelmente Marianne não sentiria menos culpa depois da guerra. Ela pode muito bem ter sentido necessidade de promover outras mudanças, outros ajustes, para poder enfrentar o passado. Os detalhes não são cruciais em si, portanto, e não fazem diferença para sua posição. O mais importante, creio eu, era colocar alguma distância psicológica entre si própria e a insuportável realidade -impor algum controle sobre a memória e sobre os momentos que causaram aquela dor.

Que essa fosse a questão - tentar impor algum controle a uma recordação que não poderia ser vista de outra forma -, creio que é sugerido por um outro aspecto de seu depoimento, e de outros, a saber, o surgimento de lendas sobre o destino das pessoas que ela amava. Considerem, por exemplo,

o destino de seu noivo, Ernst. Como já mencionei, Marianne conseguiu, através de vários caminhos, manter uma correspondência com Ernst em Izbica. Em agosto, novembro e dezembro de 1942, um contato no Wehrmacht visitou o gueto, trazendo de volta cartas de Ernst em agosto e notícias de Ernst e família em novembro e dezembro. Marianne me contou que, em dezembro de 1942, soube que Ernst tinha ficado cego, como cobaia de experiências médicas. Sabe-se muito pouco sobre o gueto, mas não tenho informações de que tenha havido experiências médicas no local. Troquei correspondência com Thomas Blatt, sobrevivente de Izbica, muito bem informado, e um entre o punhado de sobreviventes da revolta de Sobibor, hoje vivendo nos Estados Unidos. Ele negou veementemente a ocorrência de experiências médicas. Depois consegui um contato com um irmão de Ernst, Heinz (mais tarde Enrique Krombach), que emigrou para a Argentina nos anos 30. Sua história - baseada em informação mais remota ainda - era a de que Ernst tinha sido cegado pela SS após uma

tentativa de fuga.15 Esta versão acaba de aparecer em forma escrita na publicação da vida de seu pai, parte de um volume

memorialístico sobre advogados judeus em Essen.16

Mas a descoberta da correspondência de Marianne e do diário do líder do Bund, Artur Jacobs, deixa claro que enquanto os fatos básicos relatados em ambos parecem verdadeiros - Ernst parece ter ficado cego em dezembro de 1942 - ambos deram ao trágico fim de sua vida um toque extrapersecutório. Parece que Ernst ficou cego num acidente de fábrica. Em 1942, Marianne já sabia disso, da mesma forma que Enrique Krombach ficou sabendo no imediato pós-guerra. Ao longo dos anos, ambos elaboraram suas próprias e distintas versões.

Num filão similar, encontrei nos papéis de indenização de Marianne e em outros documentos quatro versões diferentes para a morte de sua tia. Mas numa carta da Suécia, escrita por alguém que acompanhou sua tia até Theresienstadt, Auschwitz e campos de trabalho forçado, Marianne obteve em 1946 os detalhes exatos de seu fuzilamento pela SS, porque sua tia estava doente demais para ser enviada numa marcha para a morte. Nenhuma das versões era em si mais "suportável" que a outra; a questão, mais uma vez, era "manter controle" sobre o passado.

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Para muitos sobreviventes do Holocausto não é possível fazer o tipo de justaposição que eu arrisquei rapidamente aqui. A grande quantidade de registros remanescentes que jogaram luz na experiência de Marianne na Alemanha nazista é bastante incomum. Por conseguinte, muitas vezes temos que nos contentar com o depoimento solitário de um sobrevivente e fazer as perguntas sobre exatidão apenas a um dos lados da história. Meu argumento é o de que, quando é possível comparar depoimentos de testemunhas com outras fontes, fazê-lo não constitui desrespeito aos sobreviventes. Fazer isso não implica um desejo ou uma expectativa de ameaçar a veracidade fundamental de seu depoimento. Ao contrário, contribui para iluminar os muitos processos da memória que procuramos compreender.