História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 11 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

Balanço e novos desafios

Eugenia Meyer

Agradeço aos colegas brasileiros o convite para participar do encerramento desta esplêndida e impecável conferência, que me permite um reencontro com meu passado, com minha memória, aqui, na Fundação Getulio Vargas e em seu CPDOC, e me permite contradizer a letra daquele tango que afirmava que "vinte anos não eram nada". Falso: são muitos, e muitos; e fazem parte de uma experiência rica, profunda e emocionante a que dou imenso valor.

Sim, estas duas décadas transcorridas desde que um entusiasmado grupo de pesquisadores do CPDOC pediu-nos, a mim e a dois historiadores dos Estados Unidos, que apresentássemos um primeiro seminário sobre a metodologia da história oral a especialistas da América Latina têm enorme significado. Afortunadamente, esta reunião, a presença múltipla e plural de todos vós, de tantas partes do mundo, atestam a maioridade da história oral em nosso continente. Já lá se vão os anos em que tínhamos de reclamar atenção para sermos considerados no complexo e fechado mundo acadêmico.

Os desafios para o século XXI, parece-me, só podem partir de uma balanço real e objetivo do que temos sido e feito, tanto como protagonistas quanto como historiadores. As novas metodologias e teorias aplicadas ao trabalho histórico - na história econômica, política ou social; na das mentalidades, dos sem história, dos operários, dos camponeses, das classes subalternas, dos biografados no poder; dos assuntos de gênero; ou dos ismos que nos enquadraram, fossem eles cientificismo, positivismo, marxismo, estruturalismo etc. - nos levam a pensar, no fim do século e do milênio, em uma tarefa obrigatória e permanente: revisar a história, aspirando a uma história total, integral, plena, inclusiva, que reconheça, em consequência, a história oral como um método de investigação, ferramenta que se integra em outras formas de recursos heurísticos para construir permanentemente a história.

É por isso que insisto em negar a categoria excludente de "historiadores orais": no final das contas, a questão é que ou se é ou não historiador. O que talvez nos diferencie é a responsabilidade complementar quanto à reserva, à ética, à preservação de testemunhos, à proteção dos informantes e ao compromisso de buscar maneiras de devolver-lhes sua história.

Se o século XX é o das grandes inovações e das grandes destruições, é, também, o dos grandes desencontros e é, por excelência, o século das comunicações e da velocidade em comunicar, desinformar, negar, destruir, viver e matar.

Se a Europa está marcada, nestes cem anos, por duas guerras mundiais, pelas balcanizações e pela redefinição continental, a América Latina está assinalada pela violência, pela pobreza, pela marginalização, pelas ditaduras e pela repressão, como também a aceitação de que este século é o do fim das utopias.

Desde a revolução mexicana -a primeira grande revolução socialdo século XX - até a revolução cubana, passando pela experiência singular dos múltiplos "68", das ditaduras militares, das guerras sujas do Sul do continente, até o esforço para estabelecer, ou restabelecer, as democracias, descobrimos que tudo pertence a um passado longínquo, de imitação de modelos ou de exaltação de paradigmas distantes e alheios.

Por fim, é preciso reconhecer a necessidade de seguirmos nossos próprios caminhos, com nossos próprios meios; busquemos a originalidade, a autenticidade; deixemos para trás os rastros da imitação, da cópia, ou do plano de um colonialismo cultural desgastado e obsoleto; chega de insistir na reprodução de modelos. Demos crédito a nossa(s) própria(s) originalidade(s); originalidades surgidas de uma permanente miscigenação cultural.

Nossos povos - por que duvidá-lo? - são produto de múltiplas mestiçagens, étnicas e culturais, que nos tornam profundamente zelosos de nossas identidades e de nossas nacionalidades.

Deixamos de nos valer de parâmetros estrangeiros e, em consequência, estamos na busca permanente e no reencontro com o que é nosso. Paradoxalmente, nossa pluralidade cultural não se expressou plenamente aqui, neste foro; é notável, nesse sentido, a ausência entre nós de cubanos, portoriquenhos, costarriquenses, chilenos, peruanos e tantos outros latino-americanos que desenvolveram um significativo trabalho de história oral nesta última década.

Tivemos, neste continente, tantos projetos como pesquisadores interessados e comprometidos que se lançaram à aventura de recuperar a memória e desafiar as formas tradicionais da pesquisa social.

Não resta dúvida de que a responsabilidade dos historiadores latino-americanos, devido às peculiaridades de nosso mundo, está na recuperação da história não-oficial, da história que foi oculta ou silenciada, aquela que vem contradizer os discursos esgotados de ditadores e governantes circunstanciais ou espúrios.

É nossa responsabilidade socializar as fontes e continuar os combates pela história, impedindo que triunfe o esquecimento oficializado, tão conveniente para muitos governos - por exemplo, o do México em 68, o do Chile de Pinochet, ou o de Videla, na Argentina.

Os silêncios, os esquecimentos, a obstinação em negar a história -ou em descobri-la -, os desaparecidos, as negações, as vozes, os gestos e imagens que têm personalidade e força próprias constituem um acervo valioso para se escrever a história do século XX a partir do presente.

Este é nosso desafio, mas também nosso compromisso. Há que integrar os velhos e os novos tempos e encontrar uma lógica sequencial. Se a todos nós preocupam os mecanismos de que se valem as classes no poder para imprimir um selo à história, isto nos insere na construção permanente de uma história clandestina e rebelde, um quilombo da história; uma história, enfim, de denúncia e inconformismo.

Mas é, também, a história que busca legitimar outras formas de revisar o passado, de entender, de propor e propiciar as mudanças. Poderemos, assim, passar às novas gerações uma pauta plural e imaginativa, legar-lhes um verdadeiro arsenal para as novas batalhas, para os combates permanentes.

Para estarmos melhor armados para estas batalhas e combates, devemos insistir na necessidade da interdisciplinaridade e da multidisciplinaridade. Nós, os historiadores, nos vemos na premente necessidade de pedir recursos emprestados à psicologia, à antropologia, à etnologia, à sociologia, à geografia, à demografia etc, para compreender os relatos e interpretar os silêncios, os esquecimentos, as intenções, as tergiversações.

Teremos de trabalhar de braços dados com outros cientistas sociais, para desconstruir a memória, de uns e de outros - de todos -e construir a história, porque, contas feitas, nos recusamos a aceitar que nos rotulem de memorialistas ou colecionadores de lembranças. Resta, pois, como compromisso permanente, preservar as fontes, proteger testemunhos e assumir o desafio e o privilégio de sermos, alternadamente, protagonistas, testemunhas, críticos e historiadores de nosso tempo.

*Uma versão reduzida deste artigo foi publicada em Oral History Review (New York, Oral History Association), n. 26/2, verão-outono, 1999, p. 127- 136, sob o título "Oral History in Brazil: development and challenges"

1 Existem alguns textos escritos sobre o tema. Leia-se, principalmente, o texto introdutório assinado por mim, (Re)Introduzindo a história oral no Brasil, c o de Ferreira, M. de M., História oral e tempo presente, ambos publicados, In: Meihy, J. C. S. B. (org.), (Re)lntroduzindo a história oral no Brasil. São Paulo: FFLCH/USP, 1996, p. 1-10 e 11-21, respectivamente.

2 Thompson, R The voice of lhe past, oral history, Oxford: Oxford Univcrsity Press, 1988, p. 2.

3 Sobre o tema, leia-se Meyer, E. Los nuevos caminos de la historia oral en America Latina, In: Historia y fuente oral (13). Barcelona: Publicacións, Universidad de Barcelona, 1995, p. 97-102.

4 O modelo da Universidade de Colúmbia tem sido proposto como exemplo para o Brasil e para a America Latina.

5 O processo de publicação de textos estrangeiros sobre história oral c uma das práticas mais comuns que mostram a dependência de algumas correntes brasileiras da visão estrangeira.

6 A "antropofagia" foi uma das metáforas preferidas dos modernistas brasileiros para representar a "devoração" dos estrangeiros feita pelos índios. No sentido da história oral, pretendia-se que os textos estrangeiros fossem lidos pelos "nativos" com o sentido de reverter a força dominadora.

7 Cavalcante, U; Celso, P. c, Jovclino R. (orgs.). Memórias do exílio: muitos caminhos, São Paulo: Editora Livramento, 1978; Costa, A. de O. de et al. Memórias das mulheres do exílio. Rio de Janeiro: Paz c Terra, 1980.

8 Patai, D. Brazilian women speak: coníemporary life stories. New Bruswick: Rutgers Univcrsity Press, 1985.

9 Alberti, V História Oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: FGV, 1990.

10 O importante trabalho feito na área de psicologia social por Ecléa Bosi, sem se referir à história oral, abriu caminho para a inspiração de muitas pesquisas. Bosi, E. Memória e sociedade. São Paulo: TA Queiroz, 1979.

11 Sobre este debate, leia-se o texto História Oral: por que, de quem, para quem?, de Pessanha, E., In: Meihy, J. C. S. B. (Re) Introduzindo a história oral no Brasil, op. cit., p. 71-82.

* Tradução de Paulo Martins Garchet

1 O grupo foi criado no final dos anos 70 na Inglaterra c pouco depois começou a editar cm Deli uma publicação periódica chamada Subaltern Studies. Wriíings on South Asian History and Sociely. Sua sede foi transferida para a Índia.

2 Between Idenlilies, Homi Bhabba entrevistado por Paul Thompson. In: Migration and Ideníily. International Yearbook of Oral History and Life Stories. Oxford University Press, v. III, 1994, p. 183-199. Também Homi Bhabba. The location of culture, Routledge, 1994.

3 Cf. Shahid Amin. Event, Melaphor; Memory, Carl Chaura 1922-1992, Berkcley e Los Angeles: Univcrsity of California Press, 1995.