História oral: desafios para o século XXI
Desafios do transculturalismo
Para terminar. Nossa publicação periódica chama-se Words and Silences, e acredito que um dos desafios que colocamos à era da informação total é o silêncio. Há um pequeno grupo de jovens anarquistas em Turim, que fazem coisas um pouco irresponsáveis, mas inócuas, em última análise. Entretanto, causa certo escândalo na imprensa e na TV italianas o fato de que eles se recusam a ser entrevistados; não falam à mídia. Acho que isso é um atestado de resistência contra a onisciência das tecnologias dominantes, contra a arrogância da mídia e, claro, contra as técnicas de espionagem, que fazem com que os centros de poder saibam tudo sobre nós. E nós sabemos cada vez menos sobre eles.
O poder, e estou usando o termo em geral, sabe tudo o que fazemos. Não sou paranóico, mas a informação sobre nós está cada vez mais acessível, enquanto a informação sobre quem tem a informação sobre nós está cada vez menos acessível. Por isso mesmo, a metodologia da história oral, em que as pessoas não revelam informações sobre elas mesmas a menos que queiram, porque está baseada na luta por igualdade e na busca do diálogo, significa também uma defesa dos direitos das pessoas de não revelar tudo a respeito delas próprias.
Felizmente, nós desenvolvemos e talvez devêssemos pensar mais sobre isso, ao longo desse movimento, um grande respeito pelas reticências e pelos silêncios. O artigo pioneiro de Luisa Passerini, Silences, estabeleceu a metodologia sobre os significados dos silêncios. Creio que um dos desafios à era da informação total e da informação como uma commodity é, de um lado, a palavra e, de outro, o silêncio.
Desafios do transculturalismo*
Selma Leydesdorff
Neste curto discurso analisarei as atuais fronteiras da história oral, buscando as oportunidades para sua expansão. A história oral, como está posta hoje e como é apresentada nos volumes desta conferência, é uma tendência mundial de regionalização da identidade, da consciência e das noções de história. Minhas idéias
foram influenciadas pelo 1 Jihad versusMcWorld, de Barber, no qual ele descreve duas tendências simultâneas: a fragmentação cultural -que frequentemente é antimoderna, e está ocorrendo juntamente com a unificação econômica, a integração de tecnologias e a uniformização -, e o que ele chama o McWorld dos computadores e do entretenimento internacional. Este ataque vindo de duas direções está erodindo o Estado nacional e, por conseguinte, a democracia. Irei argumentar que muito da história oral trata da fragmentação cultural, mas que devemos usar as lições aprendidas com a tendência em direção a uma padronização cultural mundial para enriquecer nossa pesquisa acadêmica.
Mais ainda, uma vez que estou convencida de que a prática histórica reforça a democracia, na medida em que abre aos que foram silenciados o acesso à tribuna, irei propor uma nova utilização dos pequenos estudos históricos . como contrapeso à política de unificação cultural do McWorld.
Qual foi minha reação como historiadora confrontada com as mudanças descritas acima? Alguns anos atrás tive um breve período de colaboração com a multinacional Philips; eles estavam convencidos de que a identidade regional era um dos pilares da coesão social e da construção de identidade no futuro. Os iniciadores do projeto viam a história como um instrumento para o estabelecimento de comunidade e identidade em um mundo pulverizado e em desintegração, onde um passado compartilhado ou, antes, um contar compartilhado de histórias do passado poderia fortalecer as forças sociais e um sentimento de comunidade. O objetivo era desenhar um utensílio (não estou sugerindo um computador, deveria ser algo novo) com o qual as pessoas pudessem gravar suas próprias histórias na memória coletiva de uma comunidade, de uma vizinhança, de uma rua ou de outra comunidade regional. Esta política deveria se encaixar no programa cultural da comunidade européia, onde a cidadania seria redefinida como o pertencer-se a uma comunidade e onde se reforçaria o senso de pertencer.
Por muitas razões, este empreendimento ou jamais decolou ou foi transformado em um projeto McWorld após minha partida. Nunca acreditei nele, porque esta idéia de reforço da identidade local ou regional é diametralmente oposta à rápida globalização de uma comunidade mundial de pessoas que consomem cultura, mudam culturas e que se tornou transnacional. Acredito firmemente que esta oposição é um desafio a nossas idéias sobre comunidade e identidade. Qualquer fixação sobre o local e o conhecido torna-se estéril e faz parte de um programa que não é o meu. Este vocabulário do conhecido e das coisas próprias e familiares subjaz às muitas formas de xenofobia que conhecemos bem demais nos dias de hoje. E nem o outro extremo oferece uma solução: eu não estava disposta a submeter minhas idéias a um projeto de cultura de massa em que a história não seria mais, pode-se dizer, que um gatilho. O desafio está nos símbolos culturais e nas ações que significam uma abordagem crítica a essas mudanças aparentemente contraditórias.
A grande questão tem a ver com nosso objetivo na combinação de nossa ambição transcultural com uma visão crítica da influência mesmerizante da moda e da cultura modernas. Seremos capazes de encontrar um meio que reconheça o transcultural e, ainda assim, seja de utilidade na articulação da identidade que as pessoas tanto parecem necessitar, e pela qual se apóiam em histórias sobre a história?
Sempre existiram pessoas transculturais e pessoas transnacionais; transcultural não é transnacional. Alguns chineses e vários judeus exemplificam indivíduos transnacionais que por séculos não foram transculturais. O tráfico afro-americano de escravos e o colonialismo criaram diversas combinações dos dois, nas quais o grau de afastamento da própria cultura tornou-se um desafio político e pessoal e até, muitas vezes, uma luta. A mídia moderna, as comunicações e o transporte, contudo, deram ao transculturalismo nova ênfase e novos significados. Além dos migrantes, dos refugiados e da elite, indivíduos de classe média, sem nenhuma razão especial para deixarem seus países, hoje também viajam peio mundo inteiro. Falar sobre culturas diferentes ficou na moda e tornou-se parte da vida cotidiana. Mesmo quando não estamos viajando recebemos impulsos de todas as partes do mundo. Nossas vidas não estão mais confinadas regionalmente.
Apesar da unificação, as pessoas se agarram a suas próprias culturas e costumes. Parecem ter necessidade de sua própria história e de sua própria cultura. Este sentimento é especialmente forte entre migrantes que não abandonaram seu velho modo de vida para abraçar a cultura de massa. Ao contrário, muitos deles frequentemente negociam incessantemente entre sua própria cultura e a cultura regional da sociedade que os acolhe. Mais uma vez, este não é um hábito novo, mas generalizou-se. Superando suas posições de fraqueza, muitos migrantes, entre as décadas de 30 e 80, expressaram estas necessidades e estes problemas do modo mais pungente. Surgiu uma vasta e rica literatura, como as histórias em francês da cultura do Magreb, que relata a nostalgia e a adaptação a uma nova língua e a uma nova cultura, bem como a
resistência a tal mudança. 2 Outro exemplo é a bem difundida literatura produzida por imigrantes chineses, entre os quais Amy
Tan 3 parece ser a mais ambivalente. Esta literatura é, frequentemente, biográfica ou autobiográfica. Nesta situação, não foi só a história de vida dos migrantes que se tornou mais polifônica e volátil. Raramente entrevisto indivíduos que realmente poderiam ser considerados expressões das vidas de pessoas originárias ou endógenas da classe trabalhadora. A interferência com a cultura do outro sempre subsiste, embora possa se manifestar apenas como uma simples confirmação do antigo.
Prevejo que ouviremos cada vez mais em nossas entrevistas a
história do outro que relata uma mistura cultural.4 Estou convencida de que a força das histórias de vida está na habilidade de analisar um caleidoscópio de representações culturais. A história oral e as histórias de vida tiram sua força do fato de acomodarem a singularidade da experiência individual e oferecerem uma alternativa às ciências comportamentais que são impotentes, em seus esforços de generalização, para lidar com a imensa variedade de experiências. Apresentar uma variedade de experiências, contudo, não será suficiente, mesmo que uma determinada história de vida possa, às vezes, propiciar um maior insight sobre transformação cultural que uma amostragem de diversas histórias. Como historiadores e cientistas sociais, seremos instados a apresentar mais, se quisermos que a validade do método seja reconhecida. Precisaremos explorar o debate entre historiadores como Cario Ginzburg e Natalie Zenon Davis, que repetidas vezes demonstraram que a pequena amostra pode fornecer insights sobre as transformações mentais e culturais de um período.
Nas ciências sociais, esta tarefa é mais difícil. O sociólogo francês Daniel Bertaux em seu trabalho sobre a Rússia, por exemplo, tentou
generalizar a partir de uma multidão de histórias individuais de vida5 em que transmite a mensagem sobre os mecanismos de classe e genealogia sob o antigo sistema comunista. Ele e Paul Thompson
tentaram relacionar, no Anuário sobre Gerações,6 o significado da transmissão cultural com o papel das gerações. Neste volume encontramos também generalizações sobre a representação simbólica do dinheiro ou sobre o papel da família na mobilidade social.
Estas tensões entre generalização e histórias de vida individuais são visíveis também no trabalho do sociólogo francês Pierre Bourdieu,
que em seu 7 La Misère du Monde nos apresenta várias histórias de vida individuais, mas as interpreta em um quadro sociológico geral. Seu livro nos fornece uma riqueza de insights sobre as vidas de imigrantes e indivíduos da classe trabalhadora que se encontram nas ruas e nas reuniões de escolas. Conquanto novas perguntas possam ser claramente respondidas pela história de vida, ainda não é certo como este conjunto de questões se compara com o das pesquisas das ciências sociais mais aceitas.
A mesma tensão pode ser vista nas contribuições da história oral e das histórias de vida para os paradigmas dos, assim chamados, estudos de desenvolvimento. Em Listening for a Change, Oral
Testimony and Development,8 Hugo Slim e Paul Thompson argumentam que precisamos conhecer as vozes e histórias dos sujeitos do desenvolvimento. A história oral pode nos dizer qual a sensação de se estar na fronteira do desenvolvimento. Os autores sugerem que falar é um ato de protesto contra o fato de que as pessoas não são consultadas vezes suficientes, uma vez que o debate principal ocorre em documentos que não escrevem e em reuniões das quais não participam. Em certas sociedades, as vozes ocultas das mulheres são relegadas ao reino da "fofoca", quando se fazem ouvir. Contudo, frequentemente as mulheres são âncoras da economia do lar ou da fazenda. Seus padrões de fala diferem daqueles dos homens, assim como diferem os lugares e horas em que é socialmente aceito que se manifestem. Entrevistas com mulheres em ambientes privados (isto é, no lar e em áreas
comunitárias de trabalho) elucidam esferas ocultas de experiência,9 aspectos culturais e seus efeitos na vida privada. Slim e Thompson argumentam que certos aspectos da vida, como relações de família e trabalho, amizade, amor e sexualidade, parto e paternidade, passam frequentemente despercebidos em estudos de viabilidade de projetos que tendem a assumir uma visão mecanicista das comunidades, de suas necessidades e das possíveis soluções. Eles acreditam que a variedade de informações aumenta nosso entendimento, se ousarmos questionar a terminologia social-científica, tal como "amostras representativas". Pierre Bourdieu declarou que até poucos anos atrás o enfoque que dava às noções tradicionais de representatividade o havia cegado, impedindo-o de ver aqueles lugares na sociedade que são difíceis de descrever e ainda mais difíceis de se pensar a respeito, ou de imaginar.
Passerini, Thompson e eu 10 argumentamos que a história das mulheres pode mudar nosso entendimento global da história. "Toda voz feminina é potencialmente dissonante das histórias existentes. As dissonâncias são parte da contínua 'modernização' da música e da arte de nosso tempo: a multiplicidade e a pluralidade das vozes que fazem a narrativa." Mesmo décadas depois, o método da história oral nos ajuda a melhorar nosso entendimento da estrutura intelectual e ideológica de uma era e oferece base para uma crítica às noções comuns de "realidade". As histórias parecem intermináveis e as informações inesgotáveis. Sabemos, tanto na teoria feminista como agora, que as histórias das mulheres variam imensamente de acordo com classe, geografia e cultura. Ouvir as mulheres torna mais fácil entender suas ações. Passerini argumentou que a democracia não é apenas uma questão de direito de falar, mas, em nossa sociedade, é muito mais uma questão de ânsia de ser ouvido.
Que informação recebemos? Quando ouvimos histórias de vida, ouvimos a maneira como as pessoas pensam que experimentaram suas vidas e certos eventos, tantas são as transformações que dependem de quem está falando com quem. A idéia inteira de experiência narrada é tão crucial para a história oral quanto o é para a teoria e o movimento feministas. A conexão epistemológica é apenas uma entre muitas, na importância atribuída à subjetividade da narrativa como fonte de entendimento, conhecimento e, em última análise, também de democracia. Contudo, a maioria dos problemas relativos ao valor epistemológico dessas histórias persiste. Surgem questões sobre o status dessa experiência narrada. O que queremos dizer quando usamos esse termo? Até que ponto a experiência narrada é válida para nosso entendimento? Estamos lidando com uma experiência essencial que nos é transmitida por palavras, e de várias maneiras? Quanto do significado dessas palavras entendemos? Não somos a mesma pessoa que aquela que entrevistamos, nem temos o mesmo background. As palavras ditas pelo outro podem ter significado simbólico bem diferente e podem representar sentimentos muito diversos daqueles que pensamos que elas transmitem. As experiências da outra pessoa entrelaçam-se com as nossas durante a entrevista. Olhamos o outro, mas a impressão que absorvemos é, em parte, trabalho de nossa imaginação. Aqui, ocorre o mesmo problema epistemológico que foi observado na antropologia por
Malinowsky,11 que estava perfeitamente consciente de que a experiência do outro era visível de certa distância e era
inevitavelmente remodelada pelo pesquisador. 12
Nos casos em que os entrevistados são migrantes, o status da experiência narrada torna-se mais complicado. Frequentemente lidamos com relações do poder, e a representação do poder está de nosso lado. Com frequência, as histórias são escolhidas com cuidado e inseridas em narrativas e gêneros que podem ser conformados segundo as percepções de nossos entrevistados com relação ao que queremos ouvir. Uma interação imanente é combinada com o conflito cultural entre entrevistador e narrador. A tensão torna-se visível através da análise das transcrições que expressam sentimentos e histórias pessoais ao mesmo tempo que revelam maneiras de representar, ou de tentar representar, outros mundos: um que foi deixado para trás no passado, outro encontrado no presente, e outro ainda em que o antigo e o novo estão sendo negociados. Em essência, o contexto e a experiência que está sendo articulada refletem esta ambivalência, por si só frequentemente dolorosa e que não tem forma de expressão. Não importa quanto se confie e aceite o entrevistador, ele, ou ela, é percebido pela natureza como parte de uma relação de poder negada a muitos dos que são entrevistados. A história da experiência é também um ato de imaginação e negociação criativa. Estes relatos transformam o passado em presente e a memória em realidade. Os entrevistados têm dificuldade em escapar dos limites de seu "nós" cultural. Parte da solução é a criação de uma história de vida expressa nos gêneros de migração, nostalgia e antecipação do futuro, e uma crítica às regras e regulamentos que impedem tal curso. É, por conseguinte, tarefa dos historiadores identificar este problema e revelar os significados e códigos intrínsecos.
Para concluir, falarei de dois projetos em que estou envolvida. O primeiro está em andamento e elucida os problemas da pesquisa transnacional já mencionados. O outro, embora não seja intrinsecamente um projeto de história de vida, engajou-me desde o início como historiadora oral.
Alguns anos atrás demos início a um estudo comparativo das vidas de moças migrantes em seis países europeus. Usamos histórias de vida para procurar diferenças e similaridades nas vidas de nossas entrevistadas e estudamos a maneira como a assimilação da cultura anfitriã as tinha afetado. Muito pouco se sabe sobre a vida de moças migrantes: em contraste com os rapazes, elas não são consideradas "problemáticas", isto é, não são vistas envolvidas em pequenos crimes. Conquanto saibamos, por exemplo, que as moças hindus na Holanda têm uma impressionante taxa de suicídio, não sabemos por que. Podemos especular, mas ninguém parece ter perguntado às próprias jovens. Conduzimos entrevistas em todos os seis países e estamos obtendo os resultados preliminares.
Nosso primeiro problema sério é a variedade de idiomas. Para discutir as entrevistas uns dos outros, temos necessidade de levantar enormes somas de dinheiro para traduzir as transcrições. Esperamos obter esse financiamento no futuro. Até o momento, não sabemos o que temos em nossas mãos, em termos de informações. Estamos tendo a maior dificuldade em determinar como comparar essas vidas individuais e começamos, até, a nos perguntar se elas podem ser comparadas. No início, formulamos intermináveis perguntas globais e campos de interesse. Será que este esforço irá garantir entrevistas comparáveis, ou será que iremos terminar com um caleidoscópio de vidas, culminando com um mero relatório que revele que a vida dessas mulheres apanhadas entre duas culturas é difícil, e de que se arranjam da melhor maneira que podem? Os relatórios individualizados por país continuam sendo uma opção, mas o desafio era conseguir mais. Ainda mais: algumas entrevistas foram conduzidas com a assistência de entrevistadores da mesma cultura não endógena que as entrevistadas e podem, portanto, ter gerado um tipo de informação totalmente distinto. Em tais casos, o equilíbrio de poder é bastante diferente do que se vê em entrevistas com acadêmicos, que representam a sociedade anfitriã. Resumindo, falar de superar nossas fronteiras e aceitar o transnacionalismo e o transculturalismo como um desafio é mais fácil, na verdade, que realmente fazê-lo em nossas próprias pesquisas. Tal ação pode ser mais fácil na Europa do que na América Latina, onde a diversidade de idiomas é menor.
O outro projeto é sobre o significado do Islã nas vidas das mulheres, migrantes e não migrantes. A Ministry of Development Cooperation (Cooperação do Ministério do Desenvolvimento) patrocinou este projeto como parte de outro mais amplo, sobre as mulheres e o Islã. Nosso papel envolve colaboração com o Royal Tropical Institute (Instituto Tropical Real) - antigo Colonial Institute (Instituto Colonial). Em oito países, mulheres de origem migrante conduzirão entrevistas sobre o significado que o Islã adquiriu aqui, e o modo como a posição da mulher no Islã é definida no país de origem. Após o treinamento, as mulheres selecionadas conduzirão entrevistas na Holanda e em seus países de origem. Esperamos ser capazes de elucidar o significado do Islã e da religião nas vidas das mulheres entrevistadas para imaginarmos ferramentas para uma política de afirmação pessoal dentro dos princípios da religião islâmica. A vantagem, nesse caso, é que estaremos trabalhando apenas com mulheres da cultura das entrevistadas. Esta abordagem revela imediatamente os problemas de pesquisa que podem surgir com uma investigação tão orientada para a política. Contudo, estou ansiosa por descobrir a possível transformação do significado, da representação e do simbolismo religiosos. Espero poder comparar as entrevistas feitas na nova e na antiga sociedade e estou particularmente curiosa quanto a saber se novos gêneros de contar histórias terão surgido com a migração. Esta última pergunta pode ser respondida e pode revelar mais sobre a identidade cultural das pessoas que estiverem falando. A participação nestes projetos deu-me uma oportunidade única de ouvir e ler material que, não fosse isso, jamais teria estado disponível. Tal pesquisa é extremamente difícil de organizar (são precisos contatos e uma rede de organizações em diversos países) e muito cara. Desde já, as pessoas que lêem sobre as mulheres e o Islã aprenderão, com seus depoimentos, que usar um véu não é puramente um sinal de opressão, como alguns políticos ingênuos querem que acreditemos. E só pudemos aprender isto porque elas falaram, e porque nós as ouvimos.
Como podem ver, o desafio transnacional que promovi aqui ainda se refere a um uso crítico da história oral. Como historiadores orais, parece que confrontamos mais que as duas tendências que mencionei no início. As histórias são cruciais na luta ideológica entre as duas. Estou convencida de que uma sociedade de história oral deveria enfrentar estes temas e coordenar e promover estudos internacionais que examinem a fundo estas tendências. As pesquisas transnacionais e transculturais podem fornecer diretrizes para a busca de uma história que transcenda e explore o regional sem se tornar instrumental em uma pseudociência internacional do McWorld. Tal pesquisa pode revigorar a luta contra as correntes antidemocráticas, dando a palavra às forças locais, e transcendendo-as. Este tipo de prática histórica ouvirá os que não têm nenhuma história própria já pronta, as mulheres e os subalternos e aqueles que não são ouvidos. Evitará que fiquemos centrados demais em pequenas pesquisas regionais, como muitos de nós hoje estamos, e combinará a força do pequeno com o desafio da pesquisa "importante" atualmente em curso. Insisto com os organizadores da próxima conferência internacional para que abram espaço para discussões sobre potenciais projetos deste tipo, e para que ajudem a organizá-los.
* Tradução de Paulo Martins Garchct.
1 Ver a comunicação: A voz de Itapuã: dinâmica de um discurso de identidade cultural, In: st Oral History: chanlknges for the 2l century, Atas, Rio de Janeiro: CPDOC/ Fundação Getúlio Vargas; Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, 1998, p. 1.354-1.358.
2 Ver: El combate en España por una historia sin adjectivos con fuentes orales, Historia y Fuente Oral, v. 14, 1995, p. 113-116.
3 Ver toda uma série de exemplos no texto: Al Margen: La Historia de la Discapacidad. Historia y Fuenie Oral, v. 13, 1995, p. 5-95.
4 O que chamamos na França recleur d'académie, que, ao contrário de outros países, não dirige uma universidade, mas os ensinos primário e secundário.
5 st ComparaF: Oral History: Challenges for the 21 century, op. cit. grupo de trabalho 7; trajetórias de intelectuais, p. 321 e as comunicações de: Abreu, A. A. c de Ferreira, M. de M. Ver, também, os videoteipes de Graciela de Garay, Traición o Modernidad: Reto de Una Generación, no marco do Proyecto Historia Oral de la Ciudad de México, Testimonios de sus Arquitectos (1940-1990).
6Descrito em belíssimo livro que se tornou um clássico da historiografia francesa, La Grande Peur, de G. Lefebvre, publicado em 1932 pela Armand Colin.
7 Um belíssimo exemplo c dado por Pollack, M. L'Expérience Concentrationnaire, Paris: Metaillé, 1993.
8 Histoire orale: bilan d'un quarl de siècle de réflexion méthodologique et de travaux, atas do XVIII Congresso Internacional de Ciências Históricas. Montreal: 1995, p. 214-215, reproduzido em Historia, Antropología y Fuentes Orales, v. 15, 1996, p. 166-167.
9 La Historia Oral en América Latina; Debate sobre fuentes orales en Italia; Archivistica e Historia Oral. Historia y Fuente Oral, p. 48-49, 90, 8-9.
10 La Inter Disciplinariedad de la Historia Oral en Estados Unidos. In: Historia y Fuente Oral, p. 14, p. 27-31.
11 Ver Joutard, G. L'enquête orale en classe. Historienset Géographes, julho de 1981 e os videoteipes: De L'Orient à l'Occident, un jour, elles ont eu vingt ans (1984), et Le Vent de l'exil (1987), Productions C.R.D.P. de Marselha.
12 Archivistica e Historia Oral . Historia y Fuente Oral, vol. 14, p. 19.
13 Dominiquc Veillon, pesquisadora do Institut de l'histoire du temps présent cm Paris, aborda bem isto em um texto inédito, para sua tese de habilitação, a propósito de Jean-Pierre Lévy, um dos chefes do movimento de franco-atiradores da resistência.
14 Com este congresso em vista, os arquivistas franceses haviam refletido sobre a questão em dois encontros preparatórios, cm 1985 c 1986, cf. Directions des Archivcs de Franco, e Actes dy XXU Congrès National des Archivistes Français. Paris: Archivcs Nationales, 1986, e e Actes du XVIII Congrès National des Archivistes Français. Paris: 1987.
15 Sharing Oral History: Archives and New Technology.
16 Fiz esta contagem a partir das atas do encontro distribuídas no início da conferência. Trata-se dos seguintes grupos de trabalho: Identidade, trabalho e migração; Tradição oral, arte e identidade étnica; História de gênero 1 e 2; Identidade e trabalho; Religião e identidade, st Oral History: Challenges for lhe 21 Cenlury, p. 97-174, 215-264, 685-764, 1.3591.404, 1.405-1.462, 1.665-1.714, ao qual podemos acrescentar Ethnicity 2, p. 1.291-1.358.
17 Introduzido na França pelo grande etnólogo Roger Bastide, que os brasileiros conhecem bem, c com prefácio de Lucien Febvre, um dos fundadores do Annales.
* Anteriormente publicado em The Journal of American History, September, 1998, p. 1-15. Tradução de Paulo Martins Garchet.
1 Esta pesquisa se beneficia do levantamento que cu e Robert Perks realizamos durante a preparação de uma antologia internacional dos escritos publicados anteriormente sobre teoria e prática de história oral: Perks, R. c Thomson, A. (eds.). The Oral History Reader. Nova York: 1998.
2 Ver, por exemplo, Thompson P. The Voice of íhe Past: Oral History. Oxford: 1978; e Baum, W. K. Oral History for the Local History Society, Nashville: 1969.
3 Morrissey, C. T. On Oral History Interviewing. In: Perks c Thomson (eds.). Oral History Reader, 1970, p. 107-108.
4 Chew, D. Thoughts on thc International Oral History Movcment, trabalho apresentado na Conferencia Internacional de História Oral, Nova York, 1994, anotações feitas por Alistair Thomson (em poder de Alistair Thomson); Slim, H. c Thompson, P. com Bcnnctt, O. e Cross, N. Ways of Listening, In: Perks c Thomson (eds), Oral Hislory Reader, 1993, p. 114-15. Para a orientação aos historiadores namibianos, ver Hayes, P. Speak for Yourself. Windhoek: 1992; Bozzoli, B. Intervicwing the Women of Phokeng, In: Perks e Thomson (eds.). Oral History Reader, 1986, p.147.
5 Slim e Thompson com Bcnnctt e Cross. Ways of Listening, p. 114-15; Wilton, J. Identity, Racism, and Multiculturalism: Chincsc-Australian Responses, In: Migration and Identily, Benmayor, R. c Skotnes, A. (eds). Oxford: 1994, p. 85-100; Nicola North. Narratives of Cambodian Refugees: Is sues, In: the Collection of Refugee Stories. Oral History 23 (outono de 1995), 34; Akemi Kikumura, Family Life Histories: A Collaborative Venture, In: Perks e Thomson (ed.), Oral History Reader, (1991) p. 141.
6 Minister K. A Fcminist Frame for thc Oral History Interview, In: Women's Words: The Feminist Practice of Oral History, Gluck, S. B. e Patai, D. (eds.). Nova York: 1991, p. 31; Smith, G. The Interwar Years, trabalho apresentado na Voices, Narralives, Idenlities: Women's History Network Sixth Annual Conference, Brighton, Inglaterra: 1997, anotações feitas por Thomson (em poder de Thomson).
7 Grele, R. J. Directions for Oral History in the United States, In: Dunaway, D. K. e Baum, W. K. (eds). Oral History: An Interdisciplinary Anthology. Walnut Creek, 1996, p. 63.
8 O'Farrell, P. Oral History: Facts and Fiction. Oral History Associalion of Australia Journal n. 5, 1982-1983, p. 3-9.
9 Passerini, L. Work Ideology and Conscnsus under Italian Fascism, In: Pcrks c Thomson (eds.)- Oral History Reader. 1979: p. 53-62; Portelli, A. What Makes Oral History Different. 1979, ibid., 69.
10 Frisch, M. A Shared Aulhority: Essays on lhe Craft and Meaning of Oral and Public History. Albany: 1990, p. 188. Ver, também, Grele, R. Envelopes of Sound: The Art of Oral History. Chicago: 1991.
11 Grele, R. Memories of a Movement. Words and Silences, Bulktin of the International Oral History Association, n. 3, junho de 1998: p. 6; Thompson, P. I Piccoli c Il Grande. Oral History, 23, outono de 1995, p. 27-28.
12 Sobre a literatura nesses campos, ver Perks, R. c Thomson, A. Introduction, In: Perks e Thomson (eds). Oral History Reader, p. 5.
13 Frisch, M. Oral History, Qucstions of Idcntity, and the Represcntation of Culture, trabalho apresentado na Conferência Internacional de História Oral, Nova York: 1994, anotações feitas por Thomson (cm poder de Thomson). Ver também Dunaway, D. K. The Intcrdisciplinarity of Oral History In: Dunaway c Baum (cds.), Oral Hislory, p. 9.
14 Sangster, J. Telling Our Stories: Feminist Debates and the Use of Oral History, In: Pcrks e Thomson (eds.). Oral History Reader, 1994.
15 Kennedy, E. L Telling Tales: Oral History and the Construction of Pre-Stonewall Lesbian History, ibid., 1995, p. 344-56.
16 Bornat, J. Oral History as a Social Movement: Reminiscence and Older People, ibid., 1989, p. 191.
17 Ibid., p. 192. Ver Butlcr, R. The Life Review: An Intcrpretation of Reminiscence in the Aged, Psychiatry, n. 26, fevereiro de 1963, p. 67-76.
18 Haight, B. K. e Webster, J. D. (eds.), The Art and Science of Reminiscing: Theory, Research, Methods and Applications. Washington: 1995. Por comparação, ver Bornat, J. (ed.), Reminiscence Reviewed: Pespectives, Evaluations, Achievements. Buckingham: 1994; Oral History Reader, Perks c Thomson (eds.) p. 183-4; e Bcnmayor, R. Tcstimony, Action Research, and Empowerment: Puerto Rican Women and Popular Education, In: Women's Words, Gluck e Patai (eds.), p. 159-74. Bornat, Oral History as a Social Movement, 195.
19 Cross, N. e Barker, R. The Sahel Oral History Project, In: Perks e Thomson (eds.). Oral History Reader, 1991, p. 246. Ver, também, Read, P Returning to Nothing: The Meaning of Lost Places. Cambridge, Eng. 1997; c Pcrks R, e Thomson, A. Advocacy and Empowermcnt: Introduction, In: Pcrks e Thomson (eds.). Oral Histoty Reader, p. 185-88.
20 Kakar, S. Leprosy in índia: The Intervention of Oral History, In: Perks c Thomson,(eds.), Oral Hislory Reader, 1995, p. 266. Ver número especial Health and Welfare, Oral History, n. 23, primavera de 1995; e Bornat, (ed.). Reminiscence Reviewed.
21 Westerman/ W. Central American Refugee Testimonies and Pcrformed Life Histories in Sanctuary Movement, In: Perks c Thomson (eds.), Oral History Reader, 1994, p.224-34. Ver, por exemplo, Anguiera, K., To Make the Personal Politicai: The Use of Testimony as a Consciousness-Raising Tool against Sexual Aggression in Pucrto Rico, In: Oral Hislory Review, n.16, outono de 1988, p. 65-93; Ann McGrath. Stories for Country: Oral History and Aboriginal Land Claims, Oral Hislory Associa lion of Austrália Journal, n. 9, 1987, p. 3446; e Julie Cruikshank. Oral Tradition and Oral History: Reviewing Some Issues, Canadian Historical Review, 75, n. 3, 1994, p. 403-18.
22 Sherbakova, I. The Gulag in Memory, In: Perks e Thomson (eds.), Oral History Reader, 1992, p. 235-45; Jan Coetzee c Otakar Hulec. Oppression, Rcsistance, Imprisonment: Different but Similar Stories in South Africa and Czechoslovakia, In: Trauma and Narrative. Lcydcsdorff, S. e Rogers, K. L. (eds.), Londres: 1998, (no prelo). Ver, também, Passerini, L. (cd.), International Yearbook of Oral History and Life Stories, v. I: Memory and Totalitarianism. Oxford: 1992; e Perks, R., Ukraine's Forbidden History: Memory and Nationalism, Oral Hisíory, 21, primavera de 1993, p. 43-52.
23 Para referências extensas, ver Perks c Thomson, Advocacy and Empowerment, p. 184-87. Hirsch, K., Culture and Disability: The Role of Oral History, In: Pcrks e Thomson, (eds.), Oral History Reader, 1995, p. 214.
24 Frisch, Shared Authority. Ver, também, Popular Memory Group. Popular Memory: Theory, Politics, Method, In: Perks e Thomson (eds.), Oral History Reader, 1982, p. 75-86; Borland, K. That's Not What I Said': Interpretative Conflictin Oral Narrative Research, ibid., 1991, p. 32032; Gluck c Patai (eds.), Women's Words, p. 137-220.
25 Blee, K. Evidence, Empathy, and Ethics: Lessons from Oral Histories of the Klan, In: Pcrks c Thomson (eds.), Oral History Reader, 1993, p. 333-43.
26 Para amplas referências, ver Robert Perks e Alistair Thomson. Making Histories: Introduction, In: Pcrks e Thomson (eds.), Oral History Reader, p. 357-63.
27 Mace, J. Reminisccnce as Literacy: Intersections and Creative Moments, ibid., 1995, p. 393; Shostak, M. 'What the Wind Won't Take Away': The Genesis of Nisa: The Life and Words of a !Kung Woman, ibid., 1989, p. 406.
28 Green, A. The Exhibition That Speaks for Itself: Oral History and Museums, ibid., p. 449; Nethercott, S. e Leighton, N. Out of the Archives and onto the Stage, ibid., 1990, p. 457-64.
29 Sipe, D. The Future of Oral History and Moving Images, ibid., 1991, p. 378-88. Ver, também, Thomson, A. Ten Pound Poms* and Television Oral History. Oral History, n. 25, outono de 1997, p. 85-89; e Hussey, S. Making Television Oral History: An Interview with Paul Neuburg, ibid., p. 90-92.
30 Ver Flick, K. c Goodall, H. Agledool Stories: Aboriginal History in Hypermedia, In: Perks c Thomson (eds.), Oral History Reader. p. 421-31; Smith, G. Mega-Memories on CDROM, Oral History, n. 26, primavera de 1998, p. 93-95; c Brier, S. Oral History and Public History: The Intellectual Possibilities of New Media, ibid., outono de 1998, (no prelo).
* Transcrição, tradução e edição de Lucia Hippolito.
1 Barber, B. J. Jihad vs. McWorld. Toronto: Random House, 1995. Ver, também, Kepel, G. Allah in the West, Islamic Movements in America and Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
2 A mais conhecida e Assia Diebar, mas há tantas, como Marlène Amar que escreveu minha favorita, La femme sans tête. Paris: Gallimard, 1993.
3 Tan, Amy. The Joy Luck Club, Nova York: Ivy Books, 1993.
4 Elaborei este assunto In: Leydesdorff, S. Gemes of Migration; In: Chamberlain, M. (ed.), Caribbean Migrations, Globalised Identities. Londres: Routledge, p. 81-95. Ver, também, neste volume: Lutz, H. The Legacy of Migration: Immigrant Mothers and Daughlers and the Process of Inlergenerational Transmission, p. 95-109.
5 Bertaux, D. c Thompson, R, na série Memory and Narrative, da Routledge (no prelo).
6 Bertaux, D. c Thompson, P. Between Generations, Family Models, Myths and Memories. Oxford: Oxford University Press, 1993 (International Yearbook of Oral History and Life Stories, v. II).
7 Bourdieu, P. La Misère du Monde, Paris: Seuil, 1993.
8 Slim, H. e Thompson, P. Listening for a Change, Oral Testimony and Development, Londres: Panos, 1993.
9 Mukhopadhyay, M. Legally Dispossessed, Gender, Identity and lhe Process of Law, Calcutá: Stree, 1998. Antherjanam, L. Casl me out of your will, Slories and Memory, Calcutá: Stree, 1998.
10 Leydesdorff, S.; Passerini, L. e Thompson, P. Gender and Memory. Oxford: Oxford University Press, 1996 (International Yearbook of Oral History and Life Stories, v. IV).
11 Malinowsky, B. The Dynamics of Cultural Change: an Inquiry into Race Relations in Africa, New Haven: Yale University Press, 1945.
12 Stanley, L. Writing the Borders: Episodic and Theoretic Thoughts on Not/Belonging, In: Stanley, L. (cd.). Knowing Feminism, Londres: Sage, 1997.