História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 6 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

Memória e diálogo: desafios da história oral para a ideologia do século XXI

A prática internacional da história oral nos últimos cinquenta anos, como foi passada em revista neste artigo, indica que a história oral combate perpetuamente qualquer tendência para isolar a prática e entendimento históricos da vida e das necessidades dos homens; mostra que as entrevistas fornecem mais que apenas outro conjunto de documentos - são uma maneira de promover a conscientização, histórica e social; demonstra que, conquanto a maneira de entrevistar possa variar em culturas e circunstâncias diversas, os historiadores orais podem aprender com o intercâmbio internacional sobre questões e debates comuns; e revela a extraordinária capacidade que tem a história oral de interagir com outras iniciativas e disciplinas, da antropologia à assistência na área da saúde, ou à cinematografia. Como historiadores orais, precisamos lembrar nosso passado recente e adaptar as lições aprendidas sobre memória e história -e sobre a dimensão humana de nossa atividade.

 

Memória e diálogo: desafios da história oral para

a ideologia do século XXI*

Alessandro Portelli

Estou contente por estar aqui renovando laços de amizade, trocando idéias, planos e projetos com todos os amigos que fiz, ao longo dos anos, no Rio, em São Paulo, em Salvador e, uma vez mais, confirmar minha sensação de que neste continente a história oral está mais afiada no momento, onde as coisas mais novas estão sendo feitas e onde a significação social de nosso trabalho é mais visível e imediata.

Quando tomei conhecimento do tema da conferência, não o li em termos de "quais são os desafios do século XXI para a história oral?", mas "quais são os desafios da história oral para o século XXI?". Ou seja, de que maneira a história oral pode ser uma alternativa crítica, uma presença radical no século XXI? Como podemos ajudar a enfrentar o que está se tornando o pensamento dominante, o único legítimo, a visão de mundo autorizada, o modo oficial de pensar no século XXI?

Vou dar um exemplo: no meu país, a Itália, a discussão política atual está baseada na questão do revisionismo histórico. Entraremos no século XXI com uma revisão radical dos fundamentos históricos de nossa democracia. A democracia italiana nasceu das lutas contra o nazismo e o fascismo, das lutas dos partidários da democracia, do comunismo e do socialismo, que lutaram pela liberdade e pela dignidade da Itália.

Esta revisão atual tem uma versão inteiramente diferente, que diz o seguinte: de um lado há um punhado de criminosos, os nazistas, a quem os fascistas se juntaram de boa fé, lutando por honra e pelo orgulho nacional com os nazistas. E do outro lado há assassinos comunistas. Nazistas, fascistas e comunistas mataram-se uns aos outros, e os verdadeiros heróis, assim como as verdadeiras vítimas, foram os que ficaram no meio, e que não são culpados de coisa alguma. É um pouco mais sofisticado que isso, mas demora mais de 15 minutos para explicar.

Basicamente, o resultado disso é o cancelamento de todas as experiências históricas que, de algum modo, situam-se além dos limites impostos pelas ideologias liberais de livre mercado. Para entrar no século XXI precisamos esquecer que houve qualquer outra coisa; todo o resto foi um crime, todo o resto foi criminoso.

Há duas maneiras nas quais penso que a história oral pode apresentar o desafio a esta ideologia do século XXI e são essencialmente baseadas em nossa ferramenta da memória. Uma maneira importante, porém fácil, é: talvez devamos também começar a escrever o "livro negro" do liberalismo, começar a contar quantas crianças estão morrendo exatamente hoje, por causa da ideologia do livre mercado. Estou certo de que a América Latina sabe disso melhor até do que nós, europeus. Esta é uma boa maneira de conseguir aplauso fácil, mas há uma coisa um pouco mais complicada: não se trata simplesmente de "quem matou mais", "quem cometeu mais crimes". Trata-se da natureza da história, de como estamos sendo ensinados a pensar na história, à medida que vamos caminhando para o século XXI. A forma dominante de pensamento histórico é: "História é apenas uma sequência de crimes, e o único julgamento histórico possível é um julgamento de tribunais, de cortes, sobre criminosos." "O século XX é um século de horrores, de crimes. Devemos nos desfazer dele, esquecê-lo e entrar no progresso do século XXI."

Penso que estamos em situação de ajudar a questionar isso. Estamos em situação de lembrar que, de fato, o século XX foi um século de crimes de todos os lados, guerras etc. Mas foi também o século dos direitos civis, de Martin Luther King e Malcolm X; foi o século do antiimperialismo, de Ernesto Che Guevara; foi o século da luta pela igualdade social e da luta, muitas vezes mal conduzida, muitas vezes criminosa, por alternativas ao capitalismo. Foi o século de uma renovada conscientização dos direitos da mulher. Tudo isso eu me recuso a permitir que seja esquecido, apagado, numa destruição de toda a sabedoria de onde viemos, em nome do fim das ideologias e da livre competição no mercado.

Basicamente, o século XX tem sido e espero que o próximo continue a ser uma época em que não estamos convencidos de que os derrotados vão permanecer derrotados para sempre. E por isso mesmo, o desafio da memória às ideologias dominantes é também uma parte do desafio de movimentos políticos de indivíduos aos poderes dominantes na economia e na política. E penso que isto se relaciona também com a questão metodológica, porque acredito que a metodologia é uma extensão da política. E tem a ver igualmente com toda a discussão de história versus memória. Essencialmente, disseram-nos que uma memória individual é ideológica, mitológica, não confiável - razões pelas quais, aliás, eu a aprecio -, mas isto é a memória. A história, no entanto, é propriedade de instituições e de historiadores profissionais. Em outras palavras, não estamos sendo convidados a substituir uma memória muitas vezes falha e não confiável pela história científica; estamos sendo convidados a substituir a memória de vários bilhões de indivíduos que vivem nesse planeta pela memória profissional de um grupo de historiadores profissionais ou pelas memórias institucionais dos centros de poder.

Acredito na história oral precisamente porque ela pesquisa a memória de indivíduos como um desafio a essa memoria concentrada em mãos restritas e profissionais. E penso que parte de nosso desafio é o fato de que realmente encaramos a memória não apenas como preservação da informação, mas também como sinal de luta e como processo em andamento. Encaramos a memória como um fato da história; memória não apenas como um lugar onde você "recorda" a história, mas memória "como" história. Nisto é que temos trabalhado constantemente. De um lado, construindo arquivos e fico feliz por Verena ter mencionado isso, porque se trata de um recurso inestimável para que a memória não seja esquecida; de outro, insistindo no fato de que a memória é um processo, algo que está acontecendo agora, do qual todos participamos.

O segundo elemento de desafio está, de certa forma, relacionado: é que, felizmente, estamos entrando numa era de informação total. Não me preocupa muito o fato de que as novas tecnologias possam ser excludentes, de que nem todos possuam um computador, nem todos possuam acesso à Internet. Isto é inerente a todas as tecnologias, inclusive à escrita. Todas as tecnologias tendem a ser excludentes, e em todos os casos é necessário lutar pelo acesso e democratização da tecnologia. Espero, pelo menos, que a história oral seja uma presença contra a monopolização da indústria de informática e de computadores.

O tipo de desafio que apresentamos está baseado no fato de que há um instrumento, o discurso humano, que é universal, não é restritivo nem tecnológico. Alguém mencionou há pouco que devemos nossa existência à invenção do gravador, e continuaremos a devê-la ao vídeo, ao CD-ROM, a todas essas coisas. Mas tudo isso para nós seria inútil sem o discurso humano. E esse discurso humano nos lembra que nem todas as soluções são tecnológicas, nem toda comunicação é tecnológica. E que, portanto, os problemas que podemos apresentar não são os únicos a terem uma resposta tecnológica.

Devemos insistir no fato de que a comunicação é multipolar. Na era da informação total, a comunicação avançou enormemente, de alto a baixo, do centro para a periferia. A Internet está mudando tudo isso, e penso que devemos aplaudir esse desenvolvimento.

Mas a voz humana já mudou tudo isso, muito tempo atrás. Devemos insistir nisso, e devemos insistir no fato de que, para ter uma comunicação oral, é preciso que as pessoas falem umas com as outras. Por isso, a essência do nosso desafio é renovar a questão do diálogo. Essa questão significa, novamente, a luta por igualdade. Não há diálogo quando não há igualdade. Assim, para ter diálogo, precisamos continuar a lutar por igualdade. E não há identidade onde não há igualdade. Uma das coisas mais excitantes que têm me acontecido é que não passo mais pelo controle de passaportes quando vou à França ou à Alemanha, ou a outros países da União Européia. Isto é muito excitante, mas há também o outro lado da moeda: nós estabelecemos uma outra fronteira contra a África, contra o Oriente Médio. De um lado, nós, italianos, não precisamos mais de passaporte para ir à Alemanha, mas de outro, navios de guerra italianos patrulham o mar Adriático e afundam barcos albaneses que tentam entrar na Itália. Dessa forma, verifico que a abolição das fronteiras muito frequentemente tem afastado essas fronteiras e as fixado mais adiante.