História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 5 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

Aos cinquenta anos: uma perspectiva internacional da história oral

francês, em 1952, com o título 17 Maitre et esclave, tradução em que se perdeu parte do sentido, muito mais rico, do original, e que não revela o conteúdo de um livro de múltiplos sentidos. Esta obra revela quanto da profunda riqueza deste país nasceu de sua mestiçagem. Não estamos longe de nosso último desafio. Prestei bastante atenção, durante nossa discussão, ao uso do termo mestiçagem por Alessandro Portelli. A mestiçagem, originalmente, é o resultado de uma opressão sexual agregada a todas as demais opressões engendradas pela barbárie da escravidão. Mas, de certa maneira, a mestiçagem cultural é uma revanche dos fracos contra a mestiçagem genética, pois consiste em reconhecer pleno valor à cultura do escravo que influencia, às vezes de forma determinante, a cultura do senhor. Daí que as ideologias mais racistas -o nazismo, por exemplo - execram a mestiçagem cultural e acusam, por exemplo, a arte moderna de ser decadente porque é mestiça e, particularmente, influenciada pela arte africana.

Para que as identidades não sejam "mortíferas", quer dizei; portadoras da morte, é preciso que saibam mestiçar-se, ou seja, reconhecer a necessidade de contribuições exteriores, estrangeiras. A história oral, que por seu permanente recurso à memória é um poderoso vetor de identidade, pode ajudar as identidades a efetuar esta mestiçagem necessária, antídoto do fechamento: em primeiro lugar, ela demonstra que em suas próprias construções as identidades já são mestiças, e que basta, portanto, que permaneçam fiéis a esta origem; assim, ela pode ajudá-las assumindo completamente sua própria mestiçagem, suas ambiguidades (a ambiguidade do próprio nome "história oral") e sua diversidade.

Faço votos, em todo caso, que durante estes quatro dias possamos aceitar nossa diversidade, aferir suas possibilidades e dela tirar o máximo proveito.

 

Aos cinquenta anos: uma perspectiva

internacional da história oral*

Segundo a tradição registrada pela North American Oral History Association, "a história oral, como técnica moderna de documentação histórica, foi estabelecida em 1948 quando Allan Nevins, historiador da Universidade de Colúmbia, começou a gravar as memórias de pessoas importantes da vida americana". Este ensaio explora, cinquenta anos depois, temas relevantes da história oral. Enfoca quatro desdobramentos que estão no cerne das atuais preocupações dos historiadores orais, tirando lições de projetos de todo o mundo. Em primeiro lugar, os acadêmicos reconhecem hoje que o processo de entrevista opera dentro de sistemas de comunicação culturalmente específicos, de modo que não há, necessariamente, uma única, ou universal "maneira certa", de se fazer história oral. Em segundo, novas reflexões sobre memória e história apresentaram outras oportunidades e dilemas à interpretação dos testemunhos orais. Em terceiro lugar, uma crescente ênfase dada à importância do ato de recordar para o narrador ampliou a prática da história oral, permitindo-lhe ser mais que uma metodologia de pesquisa. Finalmente, à medida que novas tecnologias multiplicam os modos de registrar entrevistas e apresentar história oral, os acadêmicos trazem para o centro de suas preocupações as maneiras como as memórias das pessoas são usadas, ou abusadas, na apresentação pública. Esta pesquisa não apresenta conclusões nem recomendações definitivas; o que se

pretende é sugerir indicações para um debate continuado.1

A "maneira certa" de fazer história oral?

Atendendo à feroz crítica de cientistas sociais positivistas e historiadores documentalistas tradicionais, alguns dos primeiros manuais de entrevistas procuraram legitimar a história oral advogando um modelo "científico" para a entrevista de pesquisa: o entrevistador deveria usar um questionário consistente e cuidadosamente estruturado de modo a facilitar a análise comparativa; ele, ou ela, deveria controlar o enfoque e o fluxo da entrevista, mantendo, porém, uma presença neutra e objetiva, evitando, assim, afetar adversamente as histórias contadas; deveria conduzir entrevistas individualmente e fazer o mínimo de

interrupções possível.2

Na prática, os historiadores orais geralmente achavam difícil fazer as entrevistas seguindo um conjunto único de técnicas ou regras. Como escreveu, em 1970, Charles T. Morrissey, o pioneiro da história oral norte-americana: "reduzir o ato de entrevistar a um conjunto de técnicas é ... como cortejar seguindo uma fórmula ... Há o perigo de se confiar demais nos instrumentos, e de menos na intuição, à antiga, sobre quais instrumentos usar em que situação... as técnicas e outros aspectos da história oral variam conforme o tipo de pessoa que se estiver entrevistando." Ainda assim, Morrissey resumiu sua experiência pessoal em entrevistas sobre as presidências de Harry S. Truman e John F. Kennedy em conselhos práticos para entrevistadores da história oral: a importância da preparação; a necessidade de estabelecer rapport e intimidade, de ouvir e de fazer perguntas abertas, de refrear os impulsos de interromper; a importância de permitir pausas e silêncios, de fugir dos jargões, de evitar ser inquisitivo e de minimizar a presença do

gravador.3

À primeira vista, parece difícil discordar de conselhos de tanto bom senso. Contudo, os historiadores orais vieram a perceber, nos últimos anos, o fato crucial - derivado, em parte, da antropologia e de estudos sobre as comunicações e promovido por pesquisadoras feministas - de que a entrevista é uma relação que se insere em práticas culturais particulares e que é informada por relações e sistemas de comunicação específicos. Em outras palavras, não existe uma única "maneira certa" de entrevistar, e a maneira que o "bom senso" indica como "certa" para entrevistas com membros da elite política branca do sexo masculino pode ser completamente inadequada em outros contextos culturais.

As experiências de história oral em contextos fora do mundo ocidental confirmam a opinião de que as técnicas desenvolvidas no Ocidente podem ser incompatíveis com sistemas e relações de comunicação autóctones. Na Conferência Internacional de História Oral realizada em Nova York, em 1994, o historiador oral cingapuriano Daniel Chew argumentou que as perguntas incisivas, que são parte integrante de uma entrevista ocidental, podem ser inadequadas - e até impossíveis, na verdade - em um contexto asiático, onde poderiam infringir fortes expectativas culturais a respeito da deferência devida à autoridade dos mais velhos. Escrevendo sobre compilação de testemunhos orais em países em desenvolvimento, Hugo Slim e Paul Thompson caracterizam a entrevista individual como potencialmente um "encontro perigosamente íntimo" e argumentam que a recordação em grupo pode ser uma abordagem mais aceitável e conhecida em determinadas sociedades. Fundando-se no trabalho de antropólogos, explicam que os pesquisadores precisam ter em mente as hierarquias locais e as "normas relativas a rodízios, ordem de discussão dos tópicos, ou vários rituais pertinentes às narrativas de histórias", que podem divergir substancialmente da etiqueta da conversação nos países ocidentais. Em algumas sociedades africanas, há uma estação própria para contar histórias (o entrevistador bem preparado chega no inverno) e contá-las gera uma expectativa de recompensa ou prêmio. Circunstâncias objetivas podem, também, ditar a boa prática para uma sociedade particular: os historiadores orais namibianos recebem a orientação de usar lápis e papel para registrar suas entrevistas visto que, frequentemente, faltam-lhes condições para ter um gravador de áudio ou videoteipe. Em alguns contextos, uma identificação como membro do grupo (insider) pode ser pré-requisito para uma entrevista bem-sucedida. Belinda Bozzoli, historiadora e socióloga sul-africana, descobriu que as anciãs da aldeia de Phokeng sentiam-se mais confortáveis e se abriam mais quando entrevistadas por uma assistente de pesquisa, Mmantho Nkotsoe, porque ela era " 'uma menina de Mabeskraal', a aldeia próxima". 'Assim, o que poderia parecer uma deficiência de Mmantho para os positivistas (seu envolvimento subjetivo com as vidas das informantes e a percepção que estas tinham dela como uma pessoa com significado particular em suas vidas)", escreve Bozzoli, "provou-

se sua maior vantagem." 4

Slim e Thompson concluem que é "fundamental ter em mente estas diferentes dimensões conceituais e culturais das entrevistas e da informação histórica":

Uma parte vital de qualquer preparativo para um projeto de

teste unho oral é obter informações sobre o que o antropólogo

britânico Charles Briggs descreve como "repertório

comunicativo" das pessoas: suas formas particulares, seus

eventos especiais, suas categorias de fala e seus tabus. A

regra mais fundamental é ter sensibilidade para com os modos

habituais de fala e comunicação e permitir que as pessoas

falem segundo seus próprios termos.

É igualmente necessário que o historiador oral esteja atento às nuanças culturais quando realiza entrevistas dentro de sua própria sociedade, que dificilmente será culturalmente homogênea. Os entrevistadores precisam ter sensibilidade para com os padrões de relacionamento e comunicação de subculturas definidas porgênero, classe, raça e etnia, região, sexualidade, deficiências e idade. Janis Wilton escreve que há forte resistência entre as pessoas mais velhas da comunidade chinesa na Austrália, homens e mulheres, a se referirem a experiências negativas de racismo em suas entrevistas, em parte porque tal franqueza pode solapar uma aceitação social conquistada a duras penas e, em parte, também, devido a uma preferência cultural por não falar mal do passado. Em entrevistas com refugiados cambojanos na Nova Zelândia, Nicola North também encontrou "diferenças culturais sutis que influenciam a franqueza de informações", em particular devido à insegurança dos refugiados com as revelações. Quando Akemi Kikumura entrevistou sua própria mãe, uma issei que emigrara para os Estados Unidos em 1923, percebeu que ela só falaria sobre certos aspectos significativos de sua vida com outro membro da família, porque "a gente não revela a alma para um tanin (pessoa que não é

parente)". 5

Numa perspectiva feminista, Kristina Minister afirma que "o método de história oral continua a se assentar sobre a premissa de que os entrevistadores conduzirão as entrevistas da maneira como os homens conduzem entrevistas". Ela argumenta, por exemplo, que os padrões de conversação das mulheres norte-americanas não são iguais ao padrão masculino de rodízio nas entrevistas, e que, com estas mulheres, uma estratégia de entrevista mais interativa propiciará comunicação e narrativas mais eficazes. O historiador oral escocês Graham Smith argumenta que as mulheres da classe operária das gerações de sua mãe e de sua avó na cidade de Dundee estão habituadas a falar de suas vidas em grupos de mulheres - no local de trabalho, na vizinhança, na lavanderia -e há maior possibilidade de que venham a se abrir e instigar as memórias, histórias e interpretações umas das outras em entrevistas em grupo. Se houver um conselho universal sobre entrevistas de história oral, este será que o entrevistador precisa estar constantemente alerta para perceber qual a boa prática de

entrevista em culturas e circunstâncias particulares. 6

"Memórias não confiáveis" vistas como recurso, em vez de problema

A história oral, definida por Ronald J. Grele como "entrevistas com participantes, testemunhas oculares dos eventos do passado, visando a reconstrução histórica" é um valioso método de pesquisa,

imprescindível para a história do século XX.7 Ela permite acesso à experiência não documentada - inclusive as vidas de líderes que ainda não escreveram suas autobiografias - e, mais importante, às "histórias ocultas" dos marginalizados: trabalhadores, mulheres, indígenas, minorias étnicas e membros de outros grupos oprimidos, ou excluídos. As entrevistas de história oral também permitem explorar aspectos da experiência histórica que raramente são registrados, tais como relações pessoais, vida doméstica e a natureza de organizações clandestinas. Elas oferecem uma rica evidência sobre os verdadeiros significados subjetivos, ou pessoais, de eventos passados: qual a sensação de casar-se, de estar na linha de fogo, de enfrentar a morte em um campo de concentração. Os historiadores orais são singulares em sua capacidade de questionar seus informantes, de fazer perguntas que podem não ter sido imaginadas no passado e de evocar reminiscências e entendimentos anteriormente silenciados ou ignorados. Usufruímos os prazeres -bem como os consideráveis desafios - de nos engajarmos em relacionamentos humanos ativos no curso de nossas pesquisas.

Contudo, esses relacionamentos e o uso de memórias como evidência histórica têm sido severamente criticados. No centro das críticas à história oral no início dos anos 60 estava a convicção de que a memória seria distorcida pela deterioração física, na velhice, pela nostalgia, pelos preconceitos pessoais tanto do entrevistador quanto do entrevistado -e pela influência das versões retrospectivas e coletivas do passado. O historiador australiano Patrick O'Farrell, por exemplo, escreveu, em 1979, que a história oral estava se deslocando para "o mundo da imagem, da memória seletiva, por camadas superpostas de puro subjetivismo... E onde nos levará?

Não à história, mas ao mito". 8

Garrochados pelas censuras dos historiadores documentalistas, os primeiros historiadores orais desenvolveram diretrizes para avaliar a confiabilidade da memória oral (ao mesmo tempo que, perspicazes, lembravam aos tradicionalistas que as fontes documentais não são menos seletivas e tendenciosas). Baseados na psicologia social e na antropologia, mostraram como determinar a tendenciosidade e a fabulação da memória, o significado da retrospecção e a influência do entrevistador. Da sociologia, adotaram métodos de amostragem, e da história documental trouxeram regras para verificar a confiabilidade e a coerência interna de suas fontes. As diretrizes propiciaram marcos úteis para a leitura de memórias e para sua combinação com outras fontes históricas para descobrir o que aconteceu no passado.

Durante os anos 70, historiadores orais em distintas partes do mundo começaram a questionar a ênfase nas "distorções" da memória, e a encarar "as peculiaridades da história oral" como um ponto forte, em vez de fraqueza. Uma das mudanças mais significativas nos últimos 25 anos de história oral foi o reconhecimento de que a, assim chamada não confiabilidade da memória pode ser um recurso, em vez de um problema para a interpretação e a reconstrução históricas. Luisa Passerini, por exemplo, analisou os silêncios e as incoerências das memórias da classe trabalhadora durante o regime fascista de Benito Mussolini no entreguerras para mostrar como a ideologia fascista havia se entranhado profundamente na vida cotidiana e na identidade pessoal, e para revelar a dificuldade de se lembrar de envolvimentos com um regime desacreditado. Outro italiano, Alessandro Portelli, observou que os entrevistados do centro industrial de Terni lembravam "erradamente" a data da morte do trabalhador Luigi Trastulli. Este morrera durante uma pequena manifestação contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em 1949, mas a população local recordava sua morte como um martírio durante greve e lockout catastróficos que envolveram toda a cidade em 1953 e terminaram com a derrota do sindicato e o fim da garantia de emprego. Portelli argumentou que a memória enganada era uma chave fundamental para a compreensão dos verdadeiros significados desses eventos para os indivíduos e para a comunidade da classe trabalhadora, de como haviam acontecido e como ficaram na memória. Concluiu que "o que realmente importa é que a memória não é um depositário passivo de fatos, mas um processo

ativo de criação de significados".9

Embora não tivessem conhecimento desses escritos europeus, alguns historiadores orais norte-americanos começaram, nos anos 70, a imaginar possibilidades mais sofisticadas para interpretação e uso da memória. Escrevendo, em 1972, sobre o influente livro Hard Times: An Oral History of the Great Depression (Tempos Difíceis: Uma História Oral da Grande Depressão) de Studs Terkel, Michael Frisch argumentou contra a atitude de que a memória oral seria "a história como realmente ocorreu", e afirmou que a memória -"pessoal e histórica, dos indivíduos e de sua geração" - deveria ser posta no centro do palco "como objeto - não apenas método - da história oral": "o que acontece à experiência quando se vai tornando memória? O que acontece às experiências quando se vão tornando história? À medida que uma era de intensa experiência coletiva vai fazendo passado, qual é a relação da memória com a generalização histórica?" Se as memórias forem tratadas como um objeto de análise histórica, a história oral pode se tornar "um poderoso instrumento para a descoberta, exploração e avaliação da natureza do processo de memória histórica - como as pessoas compreendem seu passado, como vinculam a experiência individual e seu contexto social, como o passado torna-se parte do presente, e como os indivíduos o utilizam para interpretar suas vidas e o mundo à sua

volta".10

Uma história cultural e intelectual mais detalhada é necessária para se explicar como e por que asidéiase abordagens exemplificadas nos trabalhos de Passerini, Portelli, Frisch e outros passaram, em uma década, das margens ao centro da história oral. Nas memórias de diversas figuras-chave sobressai um evento: a Conferência Internacional de História Oral realizada na Universidade de Essex, em 1979, que reuniu historiadores orais norte-americanos e europeus em significativo intercâmbio cultural. Ron Grele recorda este evento como uma "epifania":

Acho que o que excitava a maioria de nós era que estivéramos

todos trabalhando em torno do mesmo conjunto de problemas

em história oral, quase sozinhos em nossos respectivos países,

e agora nos encontráramos uns aos outros. Na verdade, nosso

interesse girava em torno da questão de como lidar com o

material das entrevistas para além de algum tipo de atitude

empírica e positivista - o que hoje chamaríamos subjetivismo.

Lembro-me de ouvir Luisa (Passerini) apresentar seu ensaio

sobre os trabalhadores italianos e o fascismo e me pegar

dizendo a mim mesmo: é claro, é claro. É isto. A maior parte da

excitação em Essex era política. A maioria de nós era produto

dos movimentos dos anos 60 e muitas das questões que

trouxéramos para nossos trabalhos eram temas dessa geração:

subjetivismo, espontaneidade, populismo versus elitismo,

memória coletiva, cultura da classe trabalhadora, problemas da

cultura em geral e o que hoje chamamos reflexividade. ... Como

vínhamos da mesma posição, politicamente, não tardamos em

descobrir que nossos trabalhos eram ecos uns dos outros. As

ligações eram intrínsecas; baseavam-se nas experiências.11

A rica polinização cruzada de novas abordagens teóricas que se tornou evidente em Essex repetiu-se em conferências internacionais subsequentes e diversos trabalhos enunciando estas abordagens foram publicados, ao longo dos anos seguintes, nos periódicos britânicos History Workshop e Oral History, na Oral History Review e no novo International Journal of Oral History publicado nos Estados Unidos. Por volta do início dos anos 90, a literatura crítica sobre teoria e prática da história oral estava amplamente informada por esses primeiros escritos e os artigos e livros demonstravam, frequentemente, uma impressionante sofisticação teórica em suas interpretações e usos do testemunho oral.

Os historiadores orais não caminharam sozinhos neste desenvolvimento de abordagens teoricamente sofisticadas às reminiscências de histórias de vida. Nas décadas de 80 e 90 houve uma explosão de pesquisas utilizando histórias de vida, orais e escritas, em uma ampla gama de campos intelectuais, geralmente os que atravessavam fronteiras disciplinares tradicionais, como a sociologia de história de vida, as abordagens biográficas e autobiográficas em estudos literários, a antropologia, estudos culturais, psicologia narrativa, estudos de linguística e comunicação e trabalhos conexos que exploravam as relações entre identidade,

memória e narrativa pessoal. 12

Enquanto os desenvolvimentos teóricos e metodológicos nesses campos enriqueciam a prática da história oral, os historiadores orais contribuíam para a teoria, o método e as políticas da pesquisa de história de vida através de suas reflexões interdisciplinares sobre o relacionamento nas entrevistas e sobre as maneiras de interpretar e utilizar o testemunho oral.

Tem-se ouvido reclamações de que talvez esta teorização tenha ido longe demais e que as importantes motivações iniciais da história oral - proporcionar evidências empíricas sobre experiências não documentadas e potencializar grupos sociais que haviam sido ocultos da história - estariam ficando submersas sob o peso de teorias pós-estruturalistas e pós-modernistas. Na Conferência Internacional sobre História Oral de Nova York, em 1994, Frisch observou que os debates teóricos sobre subjetividade e narrativa tinham, algumas vezes, conexões de transferência com "a cultura e as vidas reais" e alertou para o perigo de se tomar experiência por teoria, em vez de se usar a teoria para entender a experiência e

possibilitar mudanças.13

Uma importante tendência emergente é o esforço renovado para ligar a sofisticação teórica em torno de narrativa e memória com o compromisso político com a história dos grupos oprimidos e marginalizados, que motivou a primeira geração de historiadores orais feministas e socialistas. Em um artigo sobre operárias fabris, por exemplo, a historiadora canadense Joan Sangster explorou os debates feministas sobre a construção social da memória e dilemas teóricos postos, à lingua e à representação, pelas abordagens pós-estruturalista e pós-modernista. Ela concluiu que "sem uma firme base de narrativas orais, e sem contexto social -e sem uma análise penetrante da relação entre os dois - os insights sobre forma de narração e apresentação podem permanecer desvinculados de

qualquer crítica produtiva à opressão e à desigualdade". 14

Em impressionante artigo recente, Elizabeth Lapovsky Kennedy demonstra como sua história oral de lésbicas da classe operária em Nova York foi enriquecida por estratégias interpretativas que observam as qualidades empírica, subjetiva e narrativa do testemunho oral. O cativante estilo das narrativas de suas informantes revela a importância do contar histórias em uma comunidade que precisava criar identidades alternativas e "diretrizes para viver". Abraçando a singular natureza subjetiva das histórias de vida, Kennedy pôde analisar como suas narradoras enfrentaram e resistiram à discriminação heterossexual e à homofobia e como os indivíduos "decidem construir e expressar sua identidade". Precisamente, onde as memórias das narradoras apresentavam contradições internas, ou entravam em conflito umas com as outras, elas "transmitiam a liberdade e a alegria, e a dor e a limitação que caracterizaram a vida de bar de meados do século XX". As divergências entre as memórias dos homossexuais masculinos e das lésbicas sobre os distúrbios de Stonewall, em Nova York, em 1969 (um momento crucial da liberação homossexual), bem como a exclusão de algumas histórias do mito, ou metanarrativa, de Stonewall, expressaram "a posição ambígua das mulheres na culturagay"e capturaram "os processos culturais de se fazerem as lésbicas e as mulheres invisíveis na história". Kennedy demonstra que "há muito que aprender através da análise integral das naturezas subjetiva e oral das histórias orais". Sua conclusão - de que os valores empíricos e subjetivos da evidência oral são "inteira e mutuamente complementares", e de que não devem ser "erroneamente polarizados" - é uma recomendação fundamental

para todos os historiadores orais.15

Mais que um método de pesquisa: história oral, defesa (Advocacy) e afirmação (Empowerment)

O fato de que a pesquisa histórica exige um relacionamento humano levou alguns historiadores orais a considerar as consequências do recordar para os narradores, e os benefícios para os pesquisadores. A historiadora oral britânica Joanna Bornat escreve eloquentemente sobre a transformação de seus próprios entendimento e prática:

Voltando os olhos para o início dos anos 70, o que parece

notável agora é o fato de que nós, historiadores orais,

tenhamos levado tanto tempo para perceber que estávamos

envolvidos em um processo com trânsito em mão dupla. Era um

relacionamento com pessoas que estavam entregando alguma

coisa que era pessoal e, frequentemente, muito íntimo. Muitos

de nós víamos as entrevistas como apenas outra fonte de

evidência a ser explorada.... Havia boa intenção, mas um único

objetivo em mente: a obtenção de material "aproveitável".

Invariavelmente, era o entrevistado que lembrava ao historiador

que se tratava de uma experiência compartilhada. A operária

têxtil aposentada de West Riding que agradecia - a mim - por

fazer-lhe perguntas sobre seus dias como jovem trabalhadora

fabril fez-me perceber que a história oral pode ser agradável e

excitante de ambos os lados do microfone.16

Bornat delineia o desenvolvimento, na Grã-Bretanha, de um movimento social que ligou historiadores orais acadêmicos e editoras comunitárias ao "trabalho de reminiscência" em ambientes de atendimento a idosos. Ela observa o crucial reconhecimento, nos anos 60 e 70, de que a recordação poderia ser um processo valioso de afirmação para os mais velhos. Progressos na psicologia dos idosos haviam desafiado uma visão ortodoxa de que a reminiscência era uma "atividade anormal e patológica, algo a ser desencorajado", sugerindo, ao invés, que a recordação orientada

poderia ter benefícios terapêuticos; 17 que poderia, também, aprimorar o tratamento, permitindo àqueles que serviam aos idosos vê-los como mais que montes de problemas e desenvolverem estratégias baseadas no conhecimento das ricas experiências de vida dos pacientes. Bornat descreve a explosão do interesse pelo trabalho de reminiscência com pessoas mais velhas, na Grã-Bretanha, nos anos 80, em asilos e hospitais, em trabalho de campo de assistência social e através da educação de adultos e grupos de auto-ajuda.

Os vínculos entre a história oral e os trabalhos de reminiscência são especialmente fortes na Grã-Bretanha e, em menor medida, na Austrália e na Nova Zelândia, porque alguns dos mais entusiásticos defensores do trabalho de reminiscência nesses países têm sido também historiadores orais e porque vibrantes projetos comunitários de história e educação têm enfatizado, ali, o valor da recordação, tanto para os participantes, como para a pesquisa histórica. É revelador que uma recente antologia norteamericana sobre teoria e prática do trabalho de reminiscência (geralmente chamado "revisão de vida" [life review] nos Estados Unidos) seja dominada por profissionais de saúde e assistência que aparentemente operam isolados dos historiadores. Como argumenta Bornat:

A separação entre história oral e reminiscência provoca o risco

de distanciar as pessoas mais velhas do processo, e

enfraquece seu controle sobre o que está sendo produzido. A

busca da história oral é uma meta que todos perseguimos, quer

trabalhemos como pesquisadores individuais de qualquer idade,

ou em grupos com pessoas mais velhas. O trabalho de

reminiscência (ao contrário da história oral convencional,

acadêmica) implica um papel mais ativo para aqueles cujas

memórias se buscam e introduz metas e objetivos que podem

ser pessoais, sociais e -é claro - históricos.18

Há práticas correlatas em que os benefícios pessoais e sociais da recordação são considerados de igual importância para a informação histórica. Em países do terceiro mundo, no "Sul", a história oral é utilizada em projetos de desenvolvimento, para garantir que intervenções de ajuda externa - tais como novas tecnologias agrícolas - aproveitem o conhecimento local e complementem o uso tradicional da terra. Por exemplo, Nigel Cross e Rhiannon Barker descrevem como o SOS Sahel Oral History Project (Projeto SOS História Oral do Sahel) registrou histórias de homens e mulheres da África ao sul do Saara, sobre as mudanças que estão ocorrendo em seus ambientes e modos de vida. "Nossa intenção não foi acumular fatos", explicam, "mas, ao contrário, descobrir histórias, aprimorar as técnicas para coligi-las e, mais importante de tudo, demonstrar seu valor e sua utilidade." Através do projeto de história oral, os aldeões participaram ativamente da criação de estratégias de desenvolvimento informadas e adequadas. Esses objetivos e as abordagens de participação não são diferentes daqueles dos projetos mais sensíveis de renovação urbana no "Norte" industrializado. Na verdade, memórias de relações sociais e usos eficazes da terra tornam-se uma fonte para sobrevivência da

comunidade e do meio ambiente.19

Programas de promoção da saúde também utilizam, cada vez mais, as experiências dos clientes para melhor compreensão da experiência vivida da doença, e para desenvolver estratégias mais adequadas de tratamento ou prevenção. O historiador oral Sanjiv Kakar, por exemplo, demonstra a utilidade das histórias de vida em projetos de erradicação da lepra, na Índia. Entrevistas com os aldeões fornecem as informações essenciais sobre as condições e atitudes locais que conformam a experiência da lepra e asseguram que as estratégias de erradicação sejam as mais adequadas para as comunidades específicas. Na verdade, os projetos de história oral ajudaram a reduzir o silêncio e o estigma que cercam a lepra, e os entrevistados tornaram-se ativistas nos planos de saúde e educação da comunidade. Kakar mostra, também, como o testemunho oral dos pacientes com lepra pode "permitir uma leitura mais sensível dos arquivos coloniais" e "ajudar a preencher os hiatos nas histórias coloniais", que ignoraram a experiência dos portadores de lepra dessas comunidades. Este uso em duas direções das histórias orais para melhorar a compreensão histórica e as estratégias contemporâneas de assistência - é um importante progresso recente na prática de saúde e assistência social em muitos países. Apesar de tais usos profissionais da história oral parecerem distantes de suas origens em projetos comunitários, acadêmicos e arquivológicos de história, o respeito pelas histórias de vida de pessoas que seriam, não fossem eles, ignoradas - pela história, pela sociedade, pelos profissionais de saúde e assistência -

é um poderoso elo comum.20

Projetos que registram as histórias de vida dos oprimidos e não documentados também tiveram objetivos e resultados políticos explícitos. Os refugiados centro-americanos, no movimento Sanctuary (Santuário) dos anos 80, usaram seus próprios depoimentos de histórias de vida para informar os norte-americanos sobre a situação em seus países e obter apoio político e financeiro. Estes testemunhos foram construídos de modo a alcançar o máximo efeito político e foram apresentados através de várias formas narrativas: em representações, por escrito e pela exibição das marcas nos corpos das vítimas de torturas. Além de conseguir apoio para sua causa, os narradores, contando suas histórias, alcançaram afirmação (empowerment) pública e benefícios terapêuticos. Refugiados, ou outras vítimas de opressão social e política que "dão testemunho", podem se afirmar (empower) à medida que descobrem palavras e significados para suas experiências e estimulam o reconhecimento público e a potencialização de experiências que haviam sido anteriormente ignoradas ou silenciadas. Os testemunhos podem, também, ter resultados sociais e políticos diretos, como ficou evidenciado nos esforços do movimento Sanctuary, nos das mulheres que se expuseram na luta contra o abuso, ou nos dos povos indígenas na campanha por sua

terra e por seus direitos culturais.21

Em alguns países, as histórias orais ajudaram a desafiar o controle do Estado sobre o passado e contribuíram para a democratização da memória e da história. A historiadora russa Irina Sherbakova argumenta, por exemplo, que o passado era continuamente reinventado pelo regime soviético e descreve a liberalização, feita aos arrancos, que tornou possível desafiar tais ficções. Utilizando-se de entrevistas que conduziu a partir dos ano 70, com sobreviventes dos campos de prisioneiros e trabalhos forçados soviéticos, Sherbakova explica como o medo e a distorção afetam a recordação individual e como os sobreviventes se angustiavam no dilema entre o impulso de falar e o medo de fazê-lo. Para os sobreviventes, recordar envolve luta dentro da vida política e social de uma nação. Organizações que reúnem sobreviventes e famílias de vítimas -como o movimento Memorial na antiga União Soviética - têm apoiado o difícil processo de recordação individual e coletiva. Por toda a Europa central e no Leste Europeu, a história oral tem sido usada como fonte para localização e escavação de túmulos coletivos, como maneira de "reabilitar" as reputações das vítimas de perseguições e restaurar seus direitos, e como prova nas ações judiciais contra os perpetradores de injustiças. O trabalho da Truth and Reconciliation Commission (Comissão da Verdade e Reconciliação) na África do Sul oferece um paralelo internacional. A história oral pode ajudar os indivíduos e as sociedades a melhor

lembrar e entender passados traumáticos. 22

Tais usos políticos da história oral - em que a reafirmação de histórias anteriormente silenciadas pode permitir a afirmação de indivíduos, grupos sociais ou sociedades inteiras - estão ligados a uma tradição significativa e continuada em que a história oral tem se mostrado uma importante fonte para grupos políticos e movimentos sociais: no movimento das mulheres, para os sindicalistas e comunidades de classes trabalhadoras, para povos indígenas, para comunidades étnicas e de imigrantes, em política de gays e lésbicas, e para deficientes. Karen Hirsch, por exemplo, explica como o uso comparativamente recente da história oral em estudos de deficiências "pode permitir que ainda outro grupo encontre sua voz, pode levar a uma nova visão da história local e social e pode ajudar a criar um entendimento mais profundo das condições

culturais que afetam a todos".23

Contudo, Hirsch e outros observaram que há tensões significativas na história oral com motivação política, entre a celebração dos sucessos individuais e a exploração de padrões sociais de discriminação, e entre a postura acadêmica(scholarship) e a de defensor (advocacy). As histórias orais 'Vindas de baixo" que foram escritas por pesquisadores "de cima" podem anular a afirmação (disempower) dos objetos da pesquisa. Mesmo em projetos participativos, pode ser extremamente difícil combinar análise crítica e afirmação pessoal ou coletiva e sustentar uma "autoridade compartilhada" (para usar a sonora frase de Michael Frisch) na

interpretação e na produção históricas.24 E quando as conclusões interpretativas do historiador oral conflitam com aquelas de seus narradores - como no filme documentário Shoah de Claude Lanzmann, ou na pesquisa de Kathleen Blee sobre mulheres na Ku Klux Klan - os historiadores orais podem ser forçados a escolher entre a responsabilidade para com seus informantes e a

responsabilidade frente à história e à sociedade. 25

Contudo, a história oral - no que tem de melhor - exige que reconheçamos e negociemos esses dilemas e que ponderemos as consequências pessoais e políticas da pesquisa histórica. Tais negociações podem ser desafiantes e até dolorosas, mas, para mim, são compensadoras e meu espírito se eleva quando um aluno volta de sua primeira entrevista arrebatado pelo conta to com a história viva, quando a filha de um entrevistado telefona para dizer quanto seu pai apreciou a oportunidade de voltar os olhos para seu passado, ou quando uma nova publicação de história oral destrói mais um mito, ou rompe mais silêncio.

Futuros tecnológicos, dilemas humanos

Uma das características mais instigantes da história oral é seu potencial para uso na história pública. As apresentações através de uma variedade de meios de comunicação, que evocam os ricos significados multidimensionais de texto, voz, imagem e representação, podem cativar imensamente o público e facilitar a participação, seja em sua criação, seja através de uso interativo. Uma literatura substancial, e crescente, aborda o uso da história oral em livros comunitários e acadêmicos, em exposições e dramatizações, no rádio, na televisão e em filmes e, mais recentemente, nos formatos multimídia de CD-ROM, CD's

interativos e na World Wide Web. 26

Várias questões surgem da transformação do testemunho oral em livros de história oral. Jane Mace, por exemplo, descreve a "série de passos entre o falar, o ouvir, o escrever e o ler" na produção de livros autobiográficos por membros de grupos de reminiscências em Londres. Mace está interessada em "como os relatos orais se transformam em textos escritos através de um processo em que os participantes têm tempo para refletir e elaborar a primeira versão de uma história - e, se assim o quiserem, editá-la, emendá-la e desenvolvê-la como peça escrita". Em contraste, a antropóloga Marjorie Shostak escreve sobre sua coleta, tradução, edição e publicação da história de vida de Nisa, uma mulher Kung (nômade das regiões áridas) do Botswana. Ela indaga, entre outras perguntas desafiantes, se a publicação de narrativas pessoais é "um butim para os pesquisadores, enquanto não passaria de uma mal disfarçada exploração dos informantes"; como a tradução, a edição e a publicação afetou a história de Nisa; e até que ponto Nisa teve

papel ativo nesses processos. 27

Da Nova Zelândia, Anna Green descreve como um projeto de curso de graduação em história oral, em uma cidade que fora importante entroncamento ferroviário, produziu uma "exposição que fala por si só... usando testemunhos como fonte oral: em outras palavras, som e audição tendo precedência sobre visão e olhar". Em cinco salas de galerias de um museu, antigos assentos vermelhos de vagões de estrada de ferro tornaram-se unidades de som independentes, cada um com um toca-discos CD por baixo e pequenos alto-falantes fixados em cada lado, em mãos-francesas, na altura da cabeça -tocando sequências de trechos de entrevistas, cuidadosamente escolhidos, que enfocavam temas da história social da cidade. Essas memórias orais estavam relacionadas com a evidência de fotos e imagens de vídeo reproduzidas nas paredes adjacentes, mas também as contradiziam. As fitas estimularam animadas recordações e discussões entre antigos e atuais residentes que acorreram em grande número à exposição. Para comunicar e explorar a história de outro local de decadência industrial, Shaun Nethercott e Neil Leighton encenaram uma dramática reconstituição de uma greve, em 1936-37, em que os trabalhadores se recusaram a deixar seus postos de trabalho, na cidade de Flint, centro de indústria automobilística no Michigan. "37-87" é uma "peça baseada na história oral, em que a história oral forneceu

o modelo para a forma, o conteúdo e a retransmissão do assunto tema" e na qual "a interpretação é construída através de improvisação em torno de um repertório de imagens e formas. Canções foram combinadas com imagens fotográficas e reforçadas com as histórias das fitas". O objetivo da peça era envolver estudantes, sindicalistas e antigos grevistas na "recuperação ativa"

de uma história esquecida.28

No momento atual, a televisão é, provavelmente, o meio mais influente para apresentação de história oral, embora seja notório que os que fazem filmes de história oral parecem relutar em expor sua metodologia ao escrutínio e ao debate em público, enquanto as pressões das indústrias da televisão e do cinema deixam poucas oportunidades para que publiquem suas reflexões e autocríticas.

Dan Sipe argumenta que "história oral e imagens em movimento têm considerável potencial sinérgico", baseado na "constatação paradoxal de que, em seu âmago, a oralidade não é um conceito baseado exclusivamente no som. A palavra falada está inserida em um cenário, uma situação, um contexto. As pessoas falam com linguagem corporal, expressão e tom. Reagem e fazem referência a seus ambientes e objetos", e à interação coloquial da entrevista. Sipe fornece um ilustrativo exemplo de filme documentário histórico sobre uma aldeia da China:

Simples transcrições não teriam podido comunicar, como o faz

a combinação de palavras e imagens, o tempo, o ritmo ou as

superposições do diálogo da entrevista. Pergunta-se a três

anciãs, sentadas em fila, com pés enfaixados, se quando

meninas, na China pré-revolucionária, haviam querido que seus

pés fossem enfaixados. Irrompem simultaneamente, dizendo

que, claro, haviam querido. Mas é a rapidez e a simultaneidade

de suas respostas, bem como suas emoções e o tom de suas

vozes, que mais nos revelam sobre seus sentimentos. Para

essas camponesas - as pessoas "não ouvidas" por excelência -

a dimensão visual é absolutamente essencial para suas

histórias, e as imagens em movimento reduzem o papel

mediador do entrevistador.29

A multimídia tem o potencial de expandir estas possibilidades. Os formatos multimídia podem incluir maciça quantidade de material textual, oral, visual e de vídeo. Eles facilitam a justaposição simultânea de diversas formas de evidência, inclusive relatos e interpretações complementares e contraditórios. Não requerem, para navegação, conhecimento da linguagem escrita (requerem, ao invés, outros tipos de conhecimento). Talvez mais importante, eles permitem aos usuários escolher seus próprios roteiros, fazer suas próprias interpretações e conexões e, até, questionar a construção da história: como e por que os historiadores contam determinadas histórias e não outras, e como a forma afeta o significado da

história.30

Alguns pioneiros da história oral em CD-ROM já estão ficando frustrados com os limites tecnológicos deste meio e começam a explorar as impressionantes possibilidades que a realidade virtual oferece à história oral. O American Social History Project de Nova York, por exemplo, vem apresentando publicações na Internet, e outros historiadores orais deram início a intercâmbios interativos de memórias que estão gerando uma espiral de novas vozes na Internet. Muitos programas de história oral têm home pages na World Wide Web que facilitam o acesso a coleções guardadas em recônditos cantos nas bibliotecas. Alguns colocam transcrições e até a íntegra de gravações de som digitalizado na Web e planejam adicionar entrevistas de história oral gravadas em videoteipes assim que for superado o gargalo tecnológico que restringe este uso. O texto, o som e a imagem das entrevistas de história oral poderiam ser, assim, utilizados em conjunto e postos à disposição de um vasto público. Mais ainda, entrevistas virtuais através da Internet -usando escrita ou som - começam a permitir uma alternativa bem distinta às entrevistas individuais gravadas, único recurso, praticamente, de que os historiadores orais dispuseram durante cinquenta anos: qualquer pessoa poderá "entrevistar" qualquer outra em qualquer parte do mundo (desde que entrevistador e entrevistado tenham acesso à tecnologia da rede). Se um dos objetivos originais da história oral foi dar às vozes silentes uma audiência pública, esta será então uma extraordinária e talvez inesperada apoteose.

Abre, também, uma série complexa de questões jurídicas, políticas e éticas. Se trechos sonoros forem colocados na Internet, de quem será a agenda a determinar a seleção? As fórmulas de autorização assinadas antes que a Internet fosse sequer concebida cobrem a "publicação" eletrônica? Pode haver consentimento informado quando os entrevistados mal conseguem imaginar como suas palavras podem ser tomadas e utilizadas por um vasto público anônimo? Como podem os arquivistas fazer respeitar as restrições de direitos autorais (códigos de acesso e páginas restritas são soluções apenas parciais), e como poderão os indivíduos ter recurso jurídico caso suas histórias sejam exploradas? Como podem as pessoas contar suas histórias de diferentes maneiras a um entrevistador que só conhecem através de seus computadores? Quem terá acesso à Internet e poderá usá-la e como pode a marginalização - e o silêncio histórico - de grupos particulares ser reforçada pela exclusão tecnológica? Nenhuma destas perguntas pertence exclusivamente à história oral, mas elas exigem que os historiadores orais estendam seus entendimentos éticos e suas diretrizes para cobrir novas situações. Mesmo se o futuro da história oral estiver no espaço virtual digital, seu coração continuará sendo a dimensão extremamente humana da recordação em relacionamento com outras pessoas.