História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 15 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

A integração de conhecimentos históricos na narrativa da própria vida: entrevistas com prisioneiros dos campos soviéticos entre 1945 e 1945 na Alemanha

SS e a máquina de guerra alemã. E, de fato, publicações recentes sobre o gueto de Lodz enfatizam que as táticas protelatórias dos conselhos judaicos poderiam ter salvado cerca de setenta mil judeus, se o Exército Vermelho não tivesse (por razões inexplicadas) interrompido seu avanço entre julho de

1944 e janeiro de 1945. 8

5. Feliks Fischer referiu-se, a esse respeito, a um inacreditável

discurso que ouviu do administrador do gueto de Lodz, Hans Biebow, pouco antes da evacuação de um grande grupo de judeus. De acordo com uma cópia autêntica, Biebow explicou: "Asseguro a vocês que faremos tudo o que pudermos e continuaremos a fazer o máximo para salvar suas vidas através

da transferência do gueto (para o Ocidente)."9 O transporte não conduzia os judeus a fábricas de munição no Ocidente, como prometido, mas ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

6. Finalmente, gostaria mais uma vez de dizer alguma coisa sobre

as razões sociais do silêncio de Feliks. Se devemos levar a sério o aparente esforço de Feliks para testemunhar, devemos igualmente respeitar seu desejo de não intensificar o extremo sofrimento de sua experiência com o relato de suas memórias do período de sua perseguição. Há um sentido, que deve ser levado a sério, em suas alusões, seu discurso limitado e as razões que apresentou para seu silêncio. Tudo isso ressalta melhor a extrema desesperança de sua experiência do que uma polida "história expiatória" (segundo a observação de Ruth Klüger).

 

A integração de conhecimentos históricos na

narrativa da própria vida: entrevistas com

prisioneiros dos campos soviéticos entre 1945 e

1945 na Alemanha*

Anne Kaminsky Como acredito que esta temática seja particularmente alemã, pri meiro apresentarei uma curta descrição da situação histórica e da discussão atual sobre esse tema na Alemanha.

Há algumas semanas, debate-se veementemente na Alemanha a respeito de um livro francês: O livro negro do comunismo, que fornece um balanço das vítimas do comunismo e as compara com

as vítimas do fascismo.1 O resultado é bastante chocante: a autora fala de cem milhões de mortos pelos comunistas e de 25 milhões de mortos pelos nacional-socialistas. Com esta cifra, a tradicional discussão sobre o que foi mais horrível, o fascismo ou o comunismo, recebe novos argumentos. Este debate adquire uma força particularmente explosiva na Alemanha, manifestando-se sobre o pano de fundo das duas ditaduras e dos sistemas de campos de concentração de antes de 1945 e dos 11 campos especiais soviéticos de depois de 1945. Os campos dos outros aliados não desempenham qualquer papel nesta discussão.

Pano de fundo histórico

Entre 1933 e 1945 - período no qual o regime de Hitler e seu nacionalsocialismo governou a Alemanha - milhões de pessoas foram encarceradas e morreram em campos de concentração. As imagens de Auschwitz, Bergen -Belsen e Dachau são bem conhecidas; menos conhecidos são os "campos especiais" do Ministério do Interior soviético na Alemanha, instalados após a derrota de Hitler nos mesmos campos de concentração para realizar as medidas de desnazificação e para isolar os nazistas. Em 1945, todos os aliados - Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética - decidiram realizar "medidas de desnazificação", com que trataram de identificar e castigar ativistas do regime nacional-socialista - seja por meio de tribunais e penas de prisão, seja com medidas de sanção e expiação. Uma dessas medidas foi a internação de "pessoas perigosas" naqueles campos, com o objetivo de isolá-las de seu meio.

Ainda hoje essas medidas são discutidas com muita veemência na Alemanha, por seus aspectos legais, morais e históricos. A questão geral discutida por cientistas, políticos e sobretudo por aqueles que foram encarcerados nos campos é: quem esteve internado realmente nos campos de prisioneiros de guerra depois de 1945? Que campos foram mais espantosos, os nazistas ou os soviéticos? No caso dos campos instalados pelos outros aliados não existe discussão similar.

Esta fase da história alemã começou a ser discutida apenas em 1990, pois tem relação com a divisão da Alemanha em dois estados separados por uma das mais guardadas fronteiras do mundo. Começou com a descoberta de grandes covas com milhares de cadáveres, pouco depois da derrota do sistema socialista na parte oriental da Alemanha, localizadas a partir de relatos de prisioneiros dos campos soviéticos.

Com isso iniciou-se pela primeira vez uma discussão comum desse passado na Alemanha, e com isso pudemos prosseguir com a formação de uma "memória coletiva" e de uma "cultura memorialística", unidas a uma avaliação histórica destes campos e das pessoas ali encarceradas. O confronto e a aproximação ao que se chama "a verdade histórica" na Alemanha se vêem acompanhados de uma "competição de memórias" (ou lembranças) entre os dois grandes grupos de perseguidos, os de antes de 1945 (perseguidos pelo nacional-socialismo) e os do pós-guerra (perseguidos pelo comunismo). Existem, em geral, entre eles grandes aversões e reservas, chegando às vezes ao ódio e a ataques verbais contra representantes do outro grupo. Para o primeiro grupo, os membros do segundo são "militantes nacional-socialistas" responsáveis por seu sofrimento durante o regime hitlerista. O segundo luta para ser reconhecido como "grupo perseguido" e está convencido de que o primeiro grupo o impede. Além disso, seus membros acreditam que o primeiro grupo obteve mais facilmente uma compensação financeira por sua detenção. Pode-se dizer que, para o público alemão em geral, o primeiro grupo abriga as vítimas "boas" com as quais ele pode identificar-se, e o segundo engloba as vítimas "más", os culpados. Embora se reconheça

que um ou outro indivíduo do segundo grupo possivelmente não tivesse culpa pessoal, seja pela idade ou pela evidência da incriminação, em geral mantém-se as reservas contra o grupo como um todo.

O trabalho com entrevistas biográficas em memoriais dos campos de concentração e campos especiais -Memoriais com "duplo passado"

Na Alemanha Oriental, os russos estabeleceram seus campos especiais de "internação de pessoas perigosas" nos maiores campos de concentração. Em dois deles - Buchenwald e Sachsenhausen - encontram-se atualmente grandes memoriais nacionais. Até 1990 só estavam representados na memória oficial da República Democrática Alemã (RDA) os campos de concentração; não eram mencionados os campos soviéticos. Mas com a descoberta da existência da "segunda história" desses campos, os memoriais obtiveram uma nova missão: devem recordar os campos soviéticos, sem "relativizar os crimes dos nazistas nem

menosprezar os campos soviéticos" (Faulenbach). 2

Nesta situação complicada se situa o trabalho do historiador nos memoriais que guardam o "passado duplo" desde 1990.

Entre os pólos descritos -e observados zelosamente por todas as partes se localiza o trabalho científico nos museus memoriais, em que as entrevistas biográficas constituem hoje em dia uma parte integrante do trabalho. Também os historiadores trabalhando com um ou outro grupo são identificados com o grupo respectivo e são, às vezes, atacados da mesma maneira.

Porém o trabalho ainda apresenta outras particularidades. Primeiro, quase não há base documental. Até 1993 não havia documentos arquivados sobre os campos soviéticos; encontravam-se lacrados em arquivos russos. Em 1993 parte dos documentos russos sobre os campos e os prisioneiros chegou à Alemanha; continham principalmente listas com os nomes dos detidos, listagem de mortos etc. Ou seja, eram mínimas as referências pessoais aos prisioneiros. Com essa parca informação, trabalhamos como detetives, tratando de reconstruir biografias. Além disso, quase não há documentos que revelem o "interior" dos campos, a vida cotidiana, a administração etc. Ademais, dado o isolamento quase total dos campos, há apenas uns poucos artigos em jornais contemporâneos, e tampouco existem documentos alemães ou fotografias dos campos; conhecem-se raras fotos contemporâneas do campo soviético de Sachsenhausen. Como papel e lápis eram proibidos e sua posse punida com prisão, também não há escritos autênticos daquele tempo; não existem cartas nem diários.

Tendo em vista esta situação, as entrevistas biográficas devem cumprir pelo menos duas funções: elaborar a narrativa do destino de uma pessoa e a classificação de experiências de vida e fornecer novas informações sobre os campos, ajudando a criar uma base de dados sobre eles. Aqui interessam dois pontos: o destino pessoal, o sentir e trabalhar subjetivo, e os "dados objetivos", informações concretas que podem ajudar a reconstruir o que estes campos representaram - para o indivíduo e para a sociedade. Tratamos de trabalhar com dois métodos, a entrevista biográfica e conferências temáticas sobre o interior dos campos, seja a topografia, aspectos higiênicos, médicos, relações humanas, trabalho etc.

Para nosso trabalho nos memoriais coloca-se uma grave contradição: necessitamos saber, dos prisioneiros que sobreviveram, muitos detalhes, mas se eles nos dão estes detalhes, vêem-se confrontados com um grande desafio.

Temos que trabalhar com esta fonte "histórica" viva e variável em suas lembranças, estimativas e avaliações. Nossa experiência é a de que ela é não apenas fonte para nós, como também tenta nos influenciar. Com a entrevista, tentam encontrar uma forma de publicidade e de servir-se do entrevistador para oferecer sua interpretação da história em geral e de seu destino em particular. Assim, as tentativas de atingir uma nova "cultura memorialística" e uma memória coletiva quanto aos campos soviéticos e aos prisioneiros têm uma força explosiva desde 1990, porque até há pouco a opinião pública e política acreditava que os prisioneiros fossem em sua maioria "militantes nazistas, líderes do BDM e

criminosos".3

Sobre esse ponto, existem hoje grandes controvérsias entre os museus e os prisioneiros. A maioria deles não se vê representada com seu destino individual e coletivo nas exposições e publicações. Não apenas se defendem contra a classificação de "nazistas", como tentam provar que os campos soviéticos foram também campos de extermínio -e que eles são, consequentemente, vítimas do regime comunista ou stalinista como os prisioneiros do regime nazista.

As dificuldades de poder representar as condições de detenção nos campos origina-se na quase total inexistência de documentos, filmes ou fotografias da época. Com isso, os prisioneiros do período pós-45 tentam visualizar suas experiências por intermédio dos bem documentados depoimentos dos campos de antes de 1945. Isso significa uma ofensa para a maioria dos prisioneiros dos campos de concentração, porque para eles foram os nazistas que estiveram nos campos soviéticos. A dificuldade é maior pelo fato de que a maioria das pessoas ainda vivas hoje esteve como menor nestes campos -e declaram que na idade de 14, 15 ou 17 anos não tinham podido cometer crimes...

Para nosso trabalho significa que, para os prisioneiros do pós-45, somos representantes do público e temos poder para influenciar a imagem histórica deles como grupo e como pessoas. Isso se expressa em dois pontos principais: primeiro, tentam provar que quase não havia nazistas nos campos; segundo, tentam provar o que já se conhece dos campos nazistas: o caráter de extermínio. Para as pessoas que estiveram nestes campos, chegou a ser uma questão fundamental. Narrando-nos seu destino e sua vida, concentram-se muito nestes dois pontos. Além disso, para elas representamos o memorial, que se recusa a representar seu destino de uma maneira aceita por elas, ou seja, reivindicam um espaço tão representativo de seu sofrimento quanto o que já possuem os prisioneiros de antes de 1945. Para fundamentar seu ponto de vista, reúnem argumentos.

Uma avaliação das entrevistas e lembranças arquivadas no Memorial de Sachsenhausen demonstrou que a maioria deles recorre cada vez mais a dados e conhecimentos históricos e os integra na apresentação de seu destino; isto apenas aumentou a discrepância entre a avaliação oficial e a apreciação pessoal dos prisioneiros. Quer dizer, as primeiras entrevistas gravadas entre 1990 e 1992 são realmente descrições da trajetória pessoal e de circunstâncias concretas da vida no campo. Quanto mais tempo passa, mais detalhes históricos se revelam, mais detalhadas são as descrições e lembranças. Pode-se constatar que as comparações com os campos de concentração aumentam junto com a decepção de não serem representados nos museus de maneira adequada.

De onde tiram essas comparações?

Os antigos prisioneiros relatam constantemente que lêem todas as publicações sobre o período nacional-socialista, recordações pessoais dos prisioneiros dos campos de concentração, vão de um memorial a outro, conhecem Auschwitz, Dachau, Bergen-Belsen... Conhecem muitos detalhes da vida nos campos de concentração antes de 1945. Comparam suas experiências com isso e frequentemente concluem: "É a mesma coisa." Quanto aos memoriais da Alemanha Oriental - Buchenwald e Sachsenhausen -, que oficialmente devem representar a história dos campos soviéticos, não os aceitam e não se sentem representados por eles.

Atualmente, pode-se encontrar o conhecimento histórico sobretudo nas comparações realizadas pelos prisioneiros dos campos do pós-45 com os campos pré-45. Estas comparações abrangem três temas principais:

1. A comparação entre os campos e as experiências de detenção. A pergunta subentendida é: Qual foi mais horrível? Para isso, identifica-se uma causa na política oficial de memória, que declara a subordinação dos campos soviéticos aos campos nazistas. O efeito é uma hierarquia de memórias e - do ponto de vista dos indivíduos -das experiências pessoais e subjetivas. Os prisioneiros soviéticos sentem-se obrigados a medir suas experiências e sofrimento aos dos prisioneiros durante o nacional-socialismo e a legitimá-los através disso. Esta comparação é evidente pela identidade dos lugares e das condições similares de detenção. E provocada pela reação e, às vezes, pelos preconceitos do ambiente. As experiências dos prisioneiros soviéticos lhes dizem que seu sofrimento só recebe atenção quando podem provar que foi muito mais horrível que nos campos nacional-socialistas. Além disso, defrontam-se frequentemente com a opinião de que, para culpados, é justo sofrer e morrer. Sua experiência ainda lhes demonstra que, se tentam ilustrar suas lembranças, o veredicto é: estão tentando menosprezar o sofrimento dos campos nacional-socialistas. Entretanto, nas entrevistas dos anos anteriores, quase todas as descrições ou comparações são acompanhadas por desculpas e explicações: que não se trata de menosprezar a outra experiência, que o que se passou com os judeus foi muito mais horrível que tudo, porém...

2. A comparação da vida cotidiana nos campos que, para os prisioneiros soviéticos é, em sua essência, tão ameaçadora quanto antes de 1945. Baseiase, em geral, em instituições existentes nos campos de concentração: barraca e cantina ou instalações médicas que, para os prisioneiros soviéticos, provocam a avaliação de que os prisioneiros de campos de concentração "estiveram em um sanatório". O inusitado é que esta palavra - sanatório origina-se na fase inicial dos campos de concentração alemães e foi utilizada pelos prisioneiros que por eles passaram e com isso comparam com a fase posterior, quando havia um sistema eficaz e organizado nos campos. Prisioneiros dos campos soviéticos constantemente recorrem a isso e descrevem seus sentimentos vendo o padrão técnico da enfermaria. Prisioneiros que viveram em ambos os campos sustentam essas comparações. A respeito de Sachsenhausen, em muitas entrevistas cita-se um médico judeu que disse: 'As condições de vida no campo soviético foram muito piores que no campo de concentração."

3. Significa que a investigação histórica é em geral percebida como útil tanto para ilustrar como para provar a própria experiência. Quase sempre nas entrevistas eles se referem às fotografias com mortos de Bergen-Belsen e comentam: "Aconteceu o mesmo nos campos soviéticos. Mas os russos proibiram que seus crimes fossem documentados." Para o historiador que fala com eles é estranho saber depois que a situação higiênica era horrível porque não havia papel higiênico durante quatro anos.

Ao longo de muitos anos um ponto principal na discussão e comparação entre os campos foi o número de mortos. A primeira frase é muito comum: "Stalin matou muito mais gente do que Hitler." Até a publicação do Livro negro, reduziam-se a 22 milhões de mortos no Gulag e seis milhões nos campos de concentração. No caso de Sachsenhausen, contam-se trinta mil mortos entre duzentos mil prisioneiros entre 1936 e 1945, e trinta mil mortos entre sessenta mil prisioneiros depois de 1945; proporcionalmente, são 17% de mortalidade no primeiro caso contra 50% no segundo. É evidente que estas comparações não valem muito; os historiadores, pelo menos, desconfiam delas, sobretudo porque ali não estão refletidas as circunstâncias históricas e locais dos campos, e além disso até hoje não existem cifras exatas, nem para os campos de concentração nem para os campos soviéticos.

Incorporadas à comparação entre os campos vêm as experiências médicas - especialmente nos campos nacional-socialistas. Os prisioneiros dos campos soviéticos se referem a elas e relatam que no momento de sua detenção não sabiam de nada: nem sabiam que havia campos, não sabiam do extermínio dos judeus nem de outros crimes. Apesar de isto poder ser interpretado como tentativa de mostrar sua própria inocência, descrevem sua prisão, relacionam-na a experiências médicas e as comparam com experiências nazistas. As experiências soviéticas servem novamente para demonstrar que os campos soviéticos tiveram o mesmo caráter exterminador dos campos nazistas. O que relatam são em geral tentativas da administração russa de compensar a falta de vitaminas e de nutrição. Contam sobre "experiências" com um extra to de pinhões (rico em vitamina C), ou da alimentação com chucrute para provocar diarréia e disenteria. Ou se relata a redução de rações no inverno de 1946-47 como tentativa de assassinato. Não querem aceitar o fato de que naquele ano uma colheita ruim reduziu os alimentos em toda a Alemanha.

O que quase não aparece nas narrativas são as circunstâncias concretas do pós-guerra, com imensas destruições, fome, epidemias etc. Os campos são lembranças isoladas da situação geral, explicada pelo isolamento quase total dos prisioneiros soviéticos: não havia correspondência, nem contatos com a família, nem jornais - estavam totalmente isolados nos campos. Diferentemente dos conhecimentos históricos que possuem sobre os campos,

não integram nesse caso conhecimentos sobre a situação política e social do pós-guerra. A já citada redução de rações alimentares, epidemias de disenteria ou tuberculose se reduzem aos campos -e são tentativas de assassinato em massa. A falta de papel, sabão e outros produtos de higiene é interpretada como ato de desumanidade dos russos.

Outra forma de integrar conhecimentos históricos às lembranças de campo é a referência a biografias de outros prisioneiros. Existem três grupos:

1) expoentes culturais ou intelectuais do nacional-socialismo, com certa reputação internacional: por exemplo, os atores Heinrich George e Gustav Grúndgens, o cineasta Hans Fischerkõsen, o jogador de futebol Otto Nerz;

2) prisioneiros ou vítimas do nacional-socialismo: judeus, comunistas, prisioneiros políticos, e

3) verdadeiros nazistas, verdadeiros "culpados''.

Os dois primeiros grupos são normalmente representados por uns poucos indivíduos que se concentram nos últimos anos em duas pessoas, um judeu e um ator alemão. O terceiro grupo quase não tem nomes, mas grupos. Por exemplo, o batalhão policial que cometeu assassinatos em massa na Rússia. Não obstante, há raros exemplos para o terceiro grupo ("tivemos 23 guardas de campos de concentração entre sessenta mil prisioneiros" ou a definição de "crime" é reduzida a assassinatos: "Um criminoso do nacional-socialismo é uma pessoa que assassinou outra pessoa"). Assim, ao trabalhar com os prisioneiros, o pesquisador chega a saber o que muitos soldados aliados notaram imediatamente após a derrota do nacional-socialismo: não havia nazistas, ninguém viu nada, ninguém sabia de nada.

Agora quero apresentar o exemplo de uma mulher detida na idade de 23 anos pelos russos. Durante o nazismo exerceu a função de líder BDM. Entre 1990 e 1998 dava diversas entrevistas gravadas no memorial. No total há seis diferentes versões de sua vida e de suas lembranças: quatro em áudio e duas em vídeo.

Rosa (como a chamo) foi presa pelo serviço secreto soviético em junho de 1945, depois de ter suas atividades delatadas por um membro de seu grupo BDM. Passou por diferentes prisões - onde foi violentada várias vezes - e viveu sob ameaça de morte até chegar a Sachsenhausen em setembro de 1945, onde ficou até o fechamento dos campos em 1950. No essencial, os temas de que falava são os mesmos em todas as entrevistas. O que muda, porém, é a importância e o volume que se obtém em diferentes versões. Estas mudanças demonstram seu processo individual de construir sua identidade nas variadas circunstâncias políticas na Alemanha que têm influência em suas lembranças.

Nas primeiras entrevistas, Rosa falava muito de sua juventude durante o período nacional-socialista e do fim da guerra; havia espaço também para falar de sua detenção e do que sofreu na prisão e no campo. Não falava quase nada do tempo posterior a 1950 e das consequências da detenção.

Em todas as entrevistas, Rosa se coloca em situação de responder a uma pergunta que jamais foi feita. Ela responde - sem haver sido diretamente perguntada - à pergunta: "Você foi nazista?" Ela tenta descrever sua juventude e como viveu durante o período de Hitler:

Pertenci ao BDM para estar entre jovens. Eu também era jovem

e queria passar meu tempo com eles. Cantávamos,

dançávamos e viajávamos. Dedicávamo-nos ao esporte. Nada

mais. Era feliz, me sentia querida. Eu me eduquei acreditando

que Hitler não era um criminoso. Tudo o que ele fez, eu soube

depois. Não sabia que existiam campos de concentração. Além

disso, nossa gente no campo parecia com os mortos dos

campos de concentração: só ossos. Exceto as mortes por gás.

Isto não havia. Quanto ao resto, foi a mesma coisa (entrevista

1/1993, II A).

O assunto principal em todas as entrevistas é sua própria integridade e a demonstração de não ter sido anti-semita e nazista. Ela não o faz apenas por si mesma, mas se integra na absolvição de todo o grupo. Não apenas ela, mas, com raras exceções, todo o grupo de prisioneiros dos russos era inocente. Consequentemente, o tema "nazismo" não ocupa muito espaço e perde progressivamente importância em suas reminiscências. Se em 1993 ela declarou: "Quando chegamos ao campo, todos eram do BDM, todos líderes, mas hoje ninguém quer ser, ignoram-no. Às vezes me envergonho"; já em 1997 afirmou:

Quase não havia nazistas, apenas uns poucos. Das duas mil

mulheres, havia apenas 17 guardas de campo de concentração.

Os russos as transferiram para o Leste para confrontá-las com

prisioneiros de campos de concentração e processá-las por

seus crimes. Mas, exceto duas, todas voltaram; não foram

reconhecidas como criminosas; não eram culpadas. Nazistas

são aqueles que assassinaram alguém. Não havia ninguém

assim entre nós (entrevista 1997).

Rosa exibe a prova da própria integridade e inocência sobretudo com duas pessoas: uma é o célebre ator Heinrich George, a outra é um médico judeu, o dr. Fritz Hirschfeld. George representa sua distância da "própria gente", como diz, a desilusão da "comunidade do povo alemão" (deutsche Volksgemeinschaft) .Além disso, incorpora seu desengano em relação aos homens em geral. Já o dr. Hirschfeld representa seu "amor aos judeus" e prova seu rompimento com o passado nazista.

Ela viveu a prisão e o estupro pelos russos de acordo com a propaganda nacional-socialista. Várias vezes repetia que os russos

eram exatamente como no filme GPU.4 Portanto não se desiludiu com o comportamento deles, mas com o comportamento dos homens alemães. Consequentemente, o que foi mais traumatizante para ela durante o período de prisão não foram os russos, mas "sua própria gente". Há diferentes situações em suas lembranças. Uma é a reação dos transeuntes à sua detenção, gritando: "Nazista porca, tem que morrer." E comenta:

Esses eram nossa gente! Mas tivemos que nos deixar guardar

pelos russos, contra nossa própria gente. Nossos inimigos

deviam nos proteger contra nossa própria gente! E digo mais:

eles tiveram sorte, e eu não. A única diferença é que eu fui

presa, e os outros não. Poucas semanas antes, eles também se

rejubilavam quando viam Hitler. Agora queriam demonstrar aos

russos que não eram nazistas. Que ser mutável é o homem! Às

vezes sinto vergonha de ser alemã (lembranças 30.7.1990).

Em outras entrevistas este tema se repete, mas em frases curtas: "Os homens foram como porcos", "fizeram de tudo por um pedaço de pão", "comportaram-se mal", etc. Tenta, ao mesmo tempo, compreender a "suscetibilidade moral" dos homens.

Suas primeiras lembranças do médico judeu, Fritz Hirschfeld, aparecem já na primeira entrevista, mas apenas menciona que havia um médico com esse nome. Nessas primeiras entrevistas realizadas no memorial, fazíamos sempre uma pergunta: "de que nomes eles se lembravam", porque naquele momento nem se sabia direito quem tinha estado naqueles campos, porque todos os documentos e listagens de nomes encontravam-se trancados nos arquivos russos. Rosa só mencionava o médico, porque trabalhava no hospital do campo. Nas entrevistas posteriores, este médico judeu vai adquirindo importância cada vez maior. Nas primeiras entrevistas, Rosa relatava fatos acontecidos com ela e outras pessoas, mas nas seguintes estes mesmos fatos passaram a acontecer com ela e o médico. A partir de uma entrevista feita em 1995, o dr. Hirschfeld passou a ser seu "tio Fritz" e seu melhor amigo. Entretanto, ele não desempenha um papel apenas nas entrevistas de Rosa, mas com o passar dos anos aparece em acontecimentos similares aos relatados por ela, também, em entrevistas com outros ex-prisioneiros.