História oral: desafios para o século XXI
Entre texto e fotos: contando a história de Linda Lord e do fechamento da Penobscot Poultry
As piadas têm o mau hábito de voltarem para nos assombrar e mereço toda a culpa se, nos próximos anos, vocês começarem a ouvir "multivalência" como apenas mais um pomposo jargão acadêmico sem o menor sentido. Acredito, porém, que há um ponto de utilidade junto à piada; um ponto sobre o qual vale a pana refletir, considerando a arraigada influência do pensamento isto/ou aquilo em tantas áreas de discussão pública e privada, quando todos sabemos que no mundo real a vida pode ser muito mais complexa e bem "multivalente".
Vou encerrar aplicando este ponto - e a palavra - ao corpo mais amplo do trabalho documental em imagens e palavras que mencionei nesta apresentação. Sentir e avaliar a multivalência nos lembra que, se a fotografia se refere à qualidade do ver, a história oral terá que ver com a qualidade do escutar. Em ambos os casos, estas qualidades exigem níveis de diálogo, interação e troca ou ativos - algumas vezes implicitamente, como no trabalho de mestres da fotografia documental, como Rogovin e Salgado, outras explicitamente, como no próprio processo histórico oral e, quase sempre indispensavelmente, se nós e os sujeitos de nossos temas documentais quisermos ter esperança de entender complexas transformações sociais, cruzando o hiato de classe e poder, e de nos entender uns aos outros.
Entre texto e fotos: contando a história de Linda
Lord e do fechamento da Penobscot Poultry*
Alicia J. Rouverol
Em 24 de fevereiro de 1988, a Penobscot Poultry- última processadora de frangos do Maine - fechou suas portas, encerrando as atividades de uma indústria do ramo avícola que um dia fora produtiva e competitiva em nível nacional. Localizada na comunidade costeira de Belfast (população: 6.200), a Penobscot Poultry havia sido a única empregadora de porte no Condado de Waldo, e seu destino levou ao desemprego mais de mil pessoas. Sofrendo já alto índice de desemprego, Belfast, Maine, tinha muito pouco a oferecer como alternativa de emprego para esses trabalhadores demitidos.
O fechamento da Penobscot não é um incidente isolado. É parte de uma tendência maior de declínio industrial que afeta todas as regiões do país. Conquanto os historiadores tenham dado considerável atenção ao impacto da industrialização na vida das mulheres, há uma carência de literatura sobre as consequências desta desindustrialização. Em meu trabalho explorarei este importante fenômeno social e econômico nos níveis individual e local, enfocando o fechamento da Penobscot e seu efeito na vida de uma determinada operária: Linda Lord.
Quero começar descrevendo as particularidades que envolveram o fechamento da indústria e como ele afetou Linda de maneira singular, devido, precisamente, a seu sexo - apesar de gênero não ter sido o único fator em ação aqui. Como, porém, nosso painel aborda a inter-relação entre narrativa de história oral e fotografias, falarei também de como construímos nosso livro, ora em vias de publicação, I Was Content and Not Content: The Story of Linda Lord and the Closing of Penobscot Poultry, e ainda como, através de texto e fotografias, desenvolvemos esta "narrativa da desindustrialização". O que diz nosso livro - uma justaposição de texto e imagens - sobre o declínio industrial e o significado de seu impacto nos trabalhadores locais e suas comunidades; o poder de texto e imagens na configuração deste contar ou recontar a desindustrialização?
Finalmente, encerrarei abordando algumas das questões metodológicas que moldaram meu entendimento da experiência de Linda Lord na Penobscot Poultry e alteraram a história que contamos nesse livro. Recorri a entrevistas, jornais e documentos governamentais para posicionar a narrativa de Linda Lord em uma perspectiva de contexto mais ampla. Utilizei também história oral colaborativa, como recurso para explorar as ligações entre subjetividade, identidade e as políticas de pesquisa documental. Esta colaboração teve início quando meus colegas Cedric Chatterley e Stephen Cole conduziram extensas entrevistas com Linda Lord entre 1988 e 1989, mas tomou novo significado quando envolvi Linda na análise dessas entrevistas. Os resultados foram surpreendentes e tiveram marcante influência no projeto do livro de história oral/fotografia de que estamos falando. Darei especial atenção, aqui, à reação de Linda à nossa análise inicial de sua narrativa e comentarei como sua própria análise subsequente influenciou nosso entendimento do impacto do fechamento da Penobscot. Permitam-me primeiro fornecer algumas informações sobre o contexto da indústria avícola no estado do Maine e, então, situar Linda e a família Lord na história desta indústria.
A criação de aves nos Estados Unidos data da fundação de
Jamestown1 e foi uma operação essencialmente doméstica durante
bem mais de duzentos anos.2 Por volta de 1860, a indústria avícola do Maine estava quase que exclusivamente voltada para a produção de ovos, que fornecia milhares, anualmente, à cidade de Boston. Na década de 1920, os frangos ou eram vendidos localmente, ou
entregues por caminhões diretamente aos mercados das cidades. 3 Foi na década de 40 que a indústria de processamento de frangos -indústria em que trabalhou Linda Lord - finalmente deslanchou.
Os desenvolvimentos tecnológicos, aliados à demanda ampliada do mercado, alimentaram a indústria, tanto durante a Segunda Guerra,
quanto imediatamente depois. 4 Por volta de 1954, a produção de aves era a maior e mais importante atividade agrícola do estado do
Maine. Por volta de 1971 a indústria atingiu seu ápice.5 Apesar do Maine ser apenas o décimo produtor de frangos processados do país à época, Belfast se cognominava "A Capital Mundial do
Frango".6 A comunidade, claramente, se percebia como um centro de processamento de aves e, para Belfast, os frangos, de fato, eram um negócio de porte.
A Penobscot Poultry foi fundada em Belfast, em 1949, por Al Savitz, que depois a vendeu, e tornou a comprá-la com financiamento da família Lewis. Com a morte de Savitz pouco tempo depois, os Lewis
- o pai George e o filho Bernard - assumiram a Penobscot.7 Natural da Polônia e filho de um açougueiro, George Lewis tinha uma longa carreira em processamento e armazenamento frigorificado de peixe e carne, bem como no mercado imobiliário. Tornou-se milionário e
um dos empresários e filantropos mais proeminentes do Maine. 8 Seu filho, Bernard Lewis, sucedeu-o após sua morte, em 1987. Bernie contraiu câncer logo após a morte de seu pai e pouco depois fechou a Penobscot Poultry. O próprio Lewis admitiu que fechara a companhia não só pelas perdas ostensivas da família, de cinco e meio milhões de dólares, mas também devido à pressão familiar
para vendêla ou liquidá-la.9 Na verdade, Linda Lord e outras pessoas familiarizadas com a indústria avícola do Maine afirmaram que a Penobscot poderia ter sobrevivido se os filhos de Lewis tivessem tido o mesmo compromisso demonstrado por seu pai e por
seu avô com a exploração do negócio de processamento de aves.10
As razões mais frequentemente aventadas para explicar o destino da indústria avícola do Maine, contudo, incluem custo de combustíveis, despesa de transporte de grãos e, especialmente, concorrência com os mercados do Sul, que ofereciam mão-de-obra
mais barata.11 Contudo, outros fatores também contribuíram para o fracasso da indústria: administração fraca, políticas governamentais problemáticas e empréstimos insustentáveis. Alguns críticos culpam as companhias avícolas por não reinvestirem adequadamente na
indústria. 12 Estudos sobre a desindustrialização revelam que, frequentemente, as fábricas são fechadas não apenas porque deixaram de ser lucrativas, mas porque já não são lucrativas "o
bastante".13 A Penobscot Poultry - e a indústria avícola do Maine como um todo - pode bem enquadrar-se neste padrão de declínio industrial.
Ao lado da história do fechamento da Penobscot está a história de Linda Lord, cuja família - de modo não muito diverso da família de George e Bernard Lewis - estava intimamente ligada à criação de aves. Nascida em Waterville, Maine, em 1948, Linda cresceu na comunidade rural de Brooks, apenas 24 Km a oeste de Belfast, onde se localizava a Penobscot. Seu pai, Philip Lord, havia trabalhado para a Universidade do Maine, testando o sangue dos
frangos para controle de 14 pullorum, e ela se lembra vividamente de tê-lo ajudado em seu trabalho quando criança. A família também criava galinhas poedeiras e Linda, como tantas outras crianças que cresceram no meio rural, ajudava nessas tarefas. Em suas próprias palavras, "qualquer coisa que precisasse ser feita ... quando (eles) iam cuidar das aves". Embora Linda diga que cresceu "no meio" das aves, o que a levou a optar pelo emprego na Penobscot foi o salário, melhor que o de qualquer outro negócio da região - melhor, especialmente, que o do sazonal ramo de turismo, hoje o número um da economia do Maine. Linda entrou para a Penobscot pouco depois de concluir o secundário, e sua posição inicial foi na unidade de chocadeiras, e depois na de processamento industrial. "Eu tinha procurado outros empregos", diz ela "e aí pensei: bem, eu já trabalhei para a companhia, melhor ficar com ela. E, então, fui para a Penobscot."
Quando começou a trabalhar na unidade industrial, seu primeiro serviço foi na "transferência" - pendurando os frangos nas linhas mecanizadas da fábrica. Depois de cinco anos e repetidos casos de septicemia, optou por passar para o "túnel do sangue", onde degolava manualmente as aves até que a companhia instalou um equipamento que cortava automaticamente os pescoços, ao qual ela passou a dar apoio. Durante 15 dos vinte anos que trabalhou na Penobscot, Linda ficou no "túnel de sangue". Em um acidente de trabalho perdeu a visão do olho direito e lutou muito para obter uma indenização. Em 1984 aderiu a uma greve por salários mais altos e melhores benefícios. Solteira e sustentando a si mesma à época do fechamento da fábrica, sua meta era ficar e encontrar emprego na área de Belfast, para continuar perto da família e cuidar de seus pais, então já idosos.
Qual o papel do gênero na experiência de Linda na Penobscot Poultry e nos eventos que se sucederam a seu fechamento? O gênero teve papel significativo; porém, a classe, a cultura rural e outros fatores também moldaram sua experiência de vida. As escolhas de Linda frequentemente iam contra os papéis esperados de seu sexo. Ao construir uma vida não tradicional, no trabalho e em casa, Linda Lord viveu uma experiência que pode servir como exemplo, encorajando-nos a ultrapassar falsas dicotomias e considerar as conexões - tanto as similaridades quanto as diferenças - entre as culturas de trabalho dos homens e das
mulheres.15 É precisamente na complexidade da história de Linda que está seu valor para nós, como acadêmicos; porque são as histórias individuais reveladas através da história oral que
frequentemente questionam nossas generalizações históricas.16 A história oral colaborativa, como mostrarei, tem complicações adicionais, mas enriquece nosso entendimento.
Primeiro, e mais importante, os aspectos econômicos tiveram papel fundamental nas opções de Linda com relação a seu emprego na Penobscot Poultry. Quando procurou trabalho, logo após deixar o secundário, "era (a Penobscot) praticamente o único lugar onde estavam contratando", disse ela. Depois da experiência na área de "transferência", Linda preferiu passar para o "túnel do sangue" não apenas devido aos riscos de septicemia associados com a "transferência", mas porque o salário era muito melhor. "Naquele tempo eu estava no meio de um divórcio", disse, "e por isso estava correndo atrás de ganhar o máximo que pudesse para poder me sustentar." Linda foi forçada pela necessidade econômica a aceitar e manter um emprego que a levava a trabalhar em relativo isolamento e em condições menos que ideais, coberta de sangue e poeira. Mas era, também, uma das funções de melhor remuneração da fábrica e
uma posição ocupada predominantemente por homens.17
Porém, Linda não aceitou o emprego na Penobscot apenas por causa do salário, mas também porque queria ficar perto de casa: sua mãe estava doente e seu pai já era idoso. Embora ela mesma admita que "não era um trabalho muito agradável", Linda escolheu permanecer na Penobscot porque isto lhe permitia cumprir suas obrigações familiares. A irmã de Linda e um de seus irmãos haviam mudado para outro lugar do estado; seu irmão mais velho ficara na área e morava perto da casa de sua família, a uma distância que podia ser coberta a pé, mas não era o principal encarregado dos pais. Ela é quem o era. De modo bastante similar aos trabalhadores da indústria de vestuário na virada do século que foram estudados pelo historiador Thomas Dublin - especialmente os sapateiros de Lynn, alguns dos quais haviam migrado do campo circunvizinho -, Linda escolheu trabalhar na cidade, mas permaneceu,
essencialmente, em sua comunidade natal.18 Embora não residisse na casa da família, quando efetivamente foi viver por conta própria depois de seu casamento, comprou a casa de sua avó, no centro da aldeia de Brooks, a menos de um quilômetro e meio de onde morava sua família. Embora motivada pela necessidade econômica, Linda não usou seus ganhos para suplementar a renda familiar (como fizeram os sapateiros de Lynn); ela fez-se arrimo de sua própria casa. Porém, ajudou de fato a cuidar de sua família, um apoio que é crítico e que, frequentemente, esquecemos de considerar em nosso entendimento das contribuições econômicas das mulheres quando analisamos a economia familiar ampliada. E este papel recaiu sobre seus ombros precisamente por causa de seu sexo e de seu lugar na estrutura familiar.
As escolhas de Linda no mundo do trabalho não foram, de modo algum, tradicionais. Não apenas porque optou pelos serviço na fábrica, em lugar de outros: dentro da própria fábrica, ela também ocupou uma posição não tradicional. Depois de trabalhar na "transferência" (uma posição ocupada tanto por homens quanto por mulheres), Linda não passou às linhas de evisceração, ou a outras fases do processamento onde trabalhava a maioria das mulheres da Penobscot. Optou, ao invés, por trabalhar no "túnel do sangue". Não apenas era raro ver uma mulher nesta posição na indústria, como era extremamente raro aquelas que ali estivessem permanecerem 15 anos, como Linda o fez. De fato, ela comentou que provavelmente teria continuado nesta posição se a fábrica não tivesse fechado.
Como foi que Linda quebrou a barreira do gênero? De modo bem simples - como outras mulheres que entrevistei, oriundas de famílias de camponeses ou pescadores -, ela não encontrou os mesmos tipos de constrangimentos de gênero que são experimentados pelas trabalhadoras urbanas. Precisamente porque havia crescido em um ambiente rural -e sempre havia executado uma série de tarefas de casa e da fazenda que não são gênero-específicas -, ocupar uma posição tradicionalmente masculina não a embaraçava. "Eu era o tipo de garota que nada me incomodava quando cresci - nem sangue, nem nada dessas coisas", comentou Linda. "Eu acho que, por ser uma garota da roça, educada em uma fazenda, essas coisas, sangue nunca me incomodou." Mais tarde, fora da fita, ela disse: "Quando aceitei aquela posição no pau de degola, todo mundo riu de mim - disseram que eu jamais ia conseguir fazer o serviço. Eu fui a primeira mulher a fazê-lo - mostrei a eles, a esses danados desses homens!" Linda desafiou a tipologia de funções por sexo que prevalecia na indústria insistindo em seu direito a ser
tratada como seus colegas homens. 19
O gênero certamente influiu nas outras experiências de Linda na Penobscot, em graus maiores e menores. Ela sofreu assédio sexual no emprego: "Tive um (gerente) que foi uma dureza - tentou me demitir, mas não conseguiu. Mantive o pé firme." Linda soube se defender nessas ocasiões, mas também participou de ações coletivas em favor de seus colegas de trabalho. Como superintendente de linha, participou de uma greve por salários maiores e melhores benefícios. A greve não teve sucesso, mas ela continuou a agir na defesa de seus próprios direitos e dos de seus colegas de trabalho. Não apenas batalhou por uma indenização quando perdeu a visão em um acidente de trabalho, como, com a informação obtida no processo, ajudou outros empregados que enfrentavam problemas de septicemia causada pelo trabalho com os frangos. "Quando alguém está errado eu realmente luto pelos meus direitos", declarou. "E ajudei muitas outras pessoas lá. Porque, quando fui superintendente de linha e assistente de superintendente geral, cheguei à conclusão de que as pessoas estavam certas e a companhia errada, e realmente saí do meu caminho para lutar por eles - você sabe -, conseguir o que eles precisavam." Mesmo quando criança ela sempre manteve suas posições. Linda comentou em uma conversa recente: "Eu acho que foi a maneira como fui criada." Ela disse que foi criada para ser uma "moça de bom coração". Contudo, Linda acredita que sua tendência para lutar pelos mais fracos pode, na verdade, estar ligada a seu papel de "ovelha negra da família", sempre tendo que se defender
por si só. 20 Tais comentários indicam a gama de influências -incluídosgênero, valores rurais e dinâmica familiar - que afetaram seu comportamento e suas escolhas enquanto trabalhou na Penobscot.
É com o fechamento da fábrica, contudo, que alcançamos um entendimento mais penetrante de como o gênero influiu na experiência de Linda Lord, o que, por sua vez, pode nos informar sobre o impacto genérico dos fechamentos de fábricas. Até o presente temos poucos dados sólidos sobre os custos sociais da desindustrialização, tanto para os homens quanto para as mulheres, mas os estudos existentes indicam que tais custos são consideráveis. No mínimo, o fechamento de uma indústria produz desemprego no curto prazo. Não apenas os trabalhadores perdem seus empregos, como, frequentemente, os empregos subsequentes
que encontram não propiciam renda comparável. 21 Tendo perdido o tempo de casa, ficam vulneráveis a demissões no novo emprego. Essas consequências são particularmente graves durante uma recessão e nas cidades ou regiões onde haja poucas oportunidades de emprego. Estudos revelam que pelo menos um terço dos que são afetados pelo fechamento de uma fábrica irão enfrentar
desemprego de longo prazo. 22 No caso das mulheres, é duas vezes maior a probabilidade de que ainda estejam desempregadas um ano
depois de perderem seu emprego.23 Os trabalhadores mais velhos, quando dispensados, também passam por longos períodos de
desemprego e vêem declinar suas trajetórias de ganhos.24 Também as minorias são particularmente vulneráveis devido à sua concentração no centros urbanos, onde o fechamento de fábricas
tem sido maior.25
Contudo, a incidência de perda de empregos, a duração do desemprego e a estabilidade prejudicada são apenas alguns dos muitos custos pessoais associados com os fechamentos de fábricas. Frequentemente, os trabalhadores e suas famílias acabam por exaurir suas reservas e podem ser forçados a vender suas
casas para evitar a execução da hipoteca.26 A saúde, física e mental, pode também ser negativamente afetada. São comuns as doenças associadas ao estresse, bem como de depressão e, até, um número maior de suicídios. As famílias e as comunidades também sofrem: os estudos dos efeitos do desemprego em massa, por exemplo, indicam que há um aumento de violência e crime nas
comunidades afetadas.27 Porém, uma das principais preocupações manifestadas por trabalhadores que sobreviveram a fechamentos de
fábricas é a perda de benefícios de saúde. 28 E, além dos efeitos sobre os indivíduos e suas famílias, há também os "efeitos em cascata" dentro da comunidade.
A experiência de Linda Lord depois do fechamento da Penobscot ilustra os efeitos singulares do declínio industrial sobre as mulheres operárias. Primeiro, e mais importante, o curso de treinamento para novas funções frequentemente alardeado como um apoio para que os trabalhadores possam começar uma nova vida - não facilitou a habilitação de Linda para a era pós-industrial. Tendo perdido um olho no emprego, ela estava mal equipada para manter a carga de leitura que fazia parte do curso sobre fornalhas a óleo em que se matriculou. Talvez igualmente desencorajadora foi a experiência de ter sido - literalmente - posta de lado pelos homens da turma quando todos os alunos se amontoavam em volta do queimador de óleo para as, aulas práticas. Linda abandonou o curso e continuou procurando emprego, mas sentiu-se prejudicada neste processo, não apenas por suas dificuldades no curso de treinamento, como também por não ter um nível mais alto de educação. Como disse, falando de seu irmão mais velho, "Ele tem a educação por trás dele, de modo que vai poder sair e encontrar outro emprego bom em algum lugar." O diploma de mestrado de seu irmão permitiu-lhe se reaparelhar e obter emprego com muito mais rapidez que sua
irmã.29
É interessante observar que Linda desafiou as estatísticas de outras maneiras; nesse sentido, sua experiência pode ter sido a exceção, antes que a regra. Dentro de seis meses encontrou trabalho em uma fábrica local de cordas, que empregava entre trinta e 35 operários. Embora tenha um sólido pacote de benefícios médicos, não tem direito a benefícios de aposentadoria. Com os cortes na indústria da defesa e as demissões resultantes, a segurança no emprego e sua estabilidadeeconômica de longo prazo continuam incertas. Linda sente que melhorou sua situação de trabalho, apesar da insegurança no emprego. O serviço é muito mais limpo e ela recebe mais por hora trabalhada, embora seja paga por produção. Como ela mesma diz, "Bem, posso garantir que ficar olhando dez milhas de corda passa muito mais rápido que vigiar galinhas passando em uma linha (de produção)." Mais importante, contudo, Linda sente que o emprego lhe permitiu ficar em sua comunidade natal e cuidar de sua família.
Linda - como tantos outros trabalhadores deslocados - não optou pelo antídoto que se sugere com maior frequência àqueles que não conseguem mais ganhar a vida em uma área desindustrializada. Estudos revelam que, conquanto as pessoas migrem por razõeseconômicas, os trabalhadores empregados raramente sacrificam seus empregos para se transferir outra região que ofereça melhores salários. Os custos económicos de uma mudança são apenas uma de muitas considerações. Os custos psicológicos, a perda das amizades e dos vínculos comunitários que estão
associados à migração não podem ser medidos com facilidade. 30 E nem sempre a migração é uma opção viável. As famílias cujos cabeças são trabalhadores em meio de carreira têm, frequentemente, obrigações financeiras que os impedem de mudar
e aceitar "qualquer emprego" com salário menor. 31 As mulheres -especialmente as mães solteiras - não podem facilmente pegar suas coisas e mudar para outra área em busca de trabalho. As mulheres que têm a responsabilidade de cuidar de pais idosos ou enfermos -como frequentemente acontece em nossa sociedade - têm sua mobilidade restringida do mesmo modo. "E não se pode mudar um pai que cresceu, viveu e que, na verdade, espera morrer em um determinado lugar. Uma sociedade não pode exigir que tal pessoa
parta", como comenta a historiadora Paula Petrik.32 Linda Lord quis ficar na área de Belfast, não apenas porque Brooks era seu lar, mas também porque precisava - e queria - cuidar de seus pais idosos.
Contudo, não podemos avaliar a experiência de Linda dentro dos limites de seus próprios objetivos e interesses pessoais, e de sua posição dentro da estrutura familiar, um ponto ressaltado por Dublin
em seu recente livro 33 Transforming Women'sWork. A comunidade de Linda foi fundamental em sua decisão de permanecer na região após o fechamento da Penobscot. Permitam-me explicar. Linda serve há já 25 anos no corpo voluntário de bombeiros de Brooks, além de ter sido atendente de ambulância durante dez anos, carreira que ela afirma ser a que teria seguido se tivesse prosseguido seus estudos. Ela continua a ajudar amigos e membros da comunidade à qualquer menção de necessidade, seja o dono de um restaurante local com problemas com seu sistema de aquecimento, seja um amigo que precisa de ajuda para matar algumas galinhas em casa. Ao longo dos últimos vinte anos, Linda tocou bateria em bandas locais de música country; o conjunto com o qual toca no momento, a Frye Mountain Band, já tem compromissos agendados para o verão. E a chegada do verão também lhe permitirá tirar da garagem sua motocicleta e seu trike (motocicleta de três rodas, uma de suas aquisições mais recentes). Linda também adora caçar e pescar, e gosta de viver no campo com seus cachorros. São todos esses aspectos da vida de Linda - não apenas seu papel de quem cuida da família - que a mantêm casada, talvez no sentido mais verdadeiro da palavra, com sua comunidade natal de Brooks, no Maine. Como observou a historiadora Laurel Thatcher Ulrich, "a vizinhança, em todas as suas ramificações, é um dos aspectos mais importantes da história feminina na América, e um
aspecto frequentemente negligenciado". 34 Explorando o papel das comunidades nas vidas de mulheres como Linda Lord, podemos começar a ampliar nosso entendimento de por que é pouco provável que as mulheres, em pleno declínio industrial, consigam se desenraizar de seus lares e comunidades para procurar outros empregos melhores em outros lugares. Podemos ter também insights sobre os fatores que, além das considerações das esferas individual e familiar, influenciam as escolhas e motivações das mulheres.
Dizer que ogênero de Linda limitou sua mobilidade, tanto antes quanto depois da Penobscot, é uma avaliação razoável; dizer que ela era apenas "um braço da economia de sua família" seria prestar-lhe um tremendo desserviço. Embora não invoque o termo feminista para si mesma, Linda concorda com a maioria de seus princípios fundamentais. Ela é uma cidadã do Maine que trabalha duro e sustenta a si mesma. Ainda que Linda possa ter sido explorada, tanto na Penobscot, quanto na Belfast Rope, ela fez escolhas que frequentemente atenderam seus próprios interesses.
Entender os "interesses" de Linda provou ser o desafio crucial deste projeto. "Eu estava e não estava contente", foi o comentário de Linda Lord a respeito de seu trabalho na Penobscot. E esta declaração, aparentemente paradoxal, tornou-se o ponto central de nosso estudo à medida que tentávamos compreender quem era Linda exatamente, por que ela havia aceito o emprego na Penobscot e lá permanecera durante vinte anos e se, como trabalhadora, havia-se demonstrado diligente ao enfrentar as circunstâncias menos que ideais que enfrentou. Foi neste ponto que a metodologia do projeto moldou seu resultado.
Inicialmente não esperávamos mais que documentar fotograficamente o fechamento da Penobscot. Um encontro casual no dia da festa de fechamento da fábrica foi em parte responsável pela ampliação deste objetivo inicial: o historiador oral Steve Cole e o fotógrafo Cedric Chatterley conheceram Linda, que lhes contou sua história e concordou em ser entrevistada. Steve e Cedric conduziram juntos as primeiras duas entrevistas, em torno das quais desenvolveram-se as demais. Depois, durante o ano que se seguiu ao fechamento da fábrica, Cedric continuou a documentar Linda -através de fotografias e entrevistas gravadas. Cedric e eu trabalhamos juntos na edição da narrativa de Linda e das fotografias que ele fizera, com o intuito de criar uma exposição itinerante, exposição esta que, em 1989-90, levamos a todos os cantos do estado, em um esforço para chamar atenção para o fechamento da Penobscot. Através de foros públicos em cada local, tentamos engajar os acadêmicos locais e os membros da platéia em discussões sobre o impacto do fechamento de fábricas em suas próprias comunidades. Inspirados por suas narrativas e, especialmente, pela história de Linda, Cedric e eu decidimos começar a trabalhar em um livro.
No início desse trabalho, Steve, Cedric e eu invariavelmente aplicávamos nossas próprias lentes culturais, nossos próprios preconceitos ao processo. Todo documentalista o faz. Porém, nosso objetivo ao criar o livro era tentar tornar estas perspectivas e preconceitos claros para o leitor, de modo que ele, ou ela, entendesse que não estávamos apenas "contando a história de Linda", mas, recontando sua história e, consequentemente, também recontando esta "narrativa da desindustrialização". A história que contamos mudou significativamente ao longo do tempo e, através do envolvimento da própria Linda, tomou nova forma: ficou menos romântica, menos nostálgica e mais complexa e ricamente disposta em camadas. O que começou como perspectivas de paradoxo em torno de sua experiência na Penobscot, assumiu uma natureza multifacetada e polifônica. Vimo-nos contando múltiplas histórias da experiência de Linda, e em diversos níveis (até por múltiplos autores). Nossa esperança é que a história que contamos permita um maior entendimento das nuanças do que representa o fechamento de uma fábrica para as comunidades, nos níveis individual e local.
Como procedemos ao fazer este livro? Que decisões tomamos e por quê? Na parte do livro que trata da metodologia eu abordo este processo em detalhe, de modo que, aqui, farei apenas um rápido esboço de nossas decisões editoriais e mostrarei como elas estão ligadas a nossas perspectivas e abordagens, como historiadores orais e fotógrafos. Para a exposição, havíamos inserido o mínimo de texto possível, de modo a manter a atenção dos observadores. Incluímos apenas a narrativa de Linda, sem as perguntas dos entrevistadores. Enfocamos suas passagens de mais impacto e, em sua maior parte, escolhemos um texto que fosse consistente ao longo de toda sua narrativa, colocando texto específico com imagens específicas. Para o livro, fizemos escolhas editoriais muito diferentes, em parte porque este seria de fato um livro -o leitor poderia literalmente gastar tempo com a narrativa e com as fotografias. E assim voltamos às transcrições originais e reeditamos todas as nove entrevistas. Desta vez optamos por incluir nossas perguntas como entrevistadores não apenas para apresentar o contexto dos comentários de Linda, para alertar os leitores para o fato de que o que estavam lendo era uma entrevista. Quisemos evitar apresentar a entrevista de Linda como
uma narrativa contínua, procurando, ao contrário, mostrar que era de fato um diálogo: Linda não estava apenas "contando sua história", mas respondendo a perguntas que frequentemente eram bastante dirigidas perguntas que moldaram a história que estava contando. Há um intercâmbio dinâmico acontecendo aí, e negá-lo, ou evitar suas implicações, dá a ilusão de que esta narrativa representa um estado mental fixo e estático. Não representa. Os comentários que Linda fez refletem seus pensamentos e opiniões à época, que podem ou não ter mudado em resposta às particularidades da situação. E, claro, há a questão do que ela não disse nas entrevistas, o que jamais emergiu na narrativa, ou o que poderia ter emergido se Steve, Cedric e eu propuséssemos perguntas diferentes. Assim, a decisão de incluir nossa própria presença no projeto veio a ser nossa primeira decisão editorial.
Optamos, também, por manter a narrativa em ordem aproximadamente cronológica. Inicialmente procuramos fazer apenas as fotografias acompanharem o processo de liquidação da fábrica, bem como a experiência de Linda em busca de emprego após o fechamento. Mais tarde, esta escolha refletiu nosso desejo de contar a história de Linda como a ouvíramos, mostrando as mutações ao longo do tempo, em sua perspectiva e em suas circunstâncias. Na verdade, este foi um dos aspectos mais desafiadores da editoração. "As pessoas falam em espirais, mas lêem em linhas", como Mike Frisch me lembrou e Paul Thompson
anotou em 35 The Voice ofthe Past Por isso tive que encontrar maneiras de eliminar as repetições desnecessárias para não perder o leitor; e, ao mesmo tempo, queria que permanecesse algo da espiral porque nos dava umaidéia das camadas da memória à medida que se abriam.
Nossa opção editorial mais importante surgiu de meu estudo da narrativa de Linda, quando comecei a escrever sobre a metodologia. Havíamos encontrado em suas entrevistas muito material contraditório, que não havíamos visto, ou por cima do qual havíamos passado quando fizéramos a editoração para a exposição. Para o livro, estas aparentes contradições tornaram-se a peça central do projeto. Em um momento, Linda faz comentários incisivos sobre como a Lewis poderia ter pago mais; no momento seguinte, ela insiste que haviam-na tratado bem. Contudo, ambos esses pontos de vista sobre a gerência influenciaram suas experiências lá. Se eliminássemos estes comentários aparentemente contraditórios - apenas porque não se encaixavam em nossa intenção de contar uma narrativa coerente -, teríamos representado erroneamente sua história ou, simplesmente, teríamos deixado de entender sua história. Os próprios comentários de Linda descrevem muito bem sua reação à experiência na Penobscot: ela estava "contente e não contente" com seu trabalho na fábrica. Em vez de pendermos para as "consistências" de sua narrativa, começamos a explorar estes tipos de aparentes "inconsistências", e foi aí, essencialmente, que descobrimos a chave para a história de Linda, e para a apresentarmos em toda sua riqueza. Aqui descobrimos não apenas as múltiplas perspectivas embutidas na narrativa de Linda, mas também a importância de apresentar esta narrativa através de múltiplas perspectivas, através de um grupo de co-autores e colaboradores.
Nosso processo na coleta, edição e apresentação desta história oral e deste material fotográfico resultou, inevitavelmente, em uma espécie de "recontagem" da história. Linda disse as palavras, mas Steve, Cedric e eu orientamos as perguntas. Linda trabalhou no "túnel do sangue", procurou depois emprego, participou de eventos comunitários, mas Cedric enfocou essas imagens fotográficas. E, finalmente, a narrativa de Linda - embora a mantivéssemos essencialmente intacta - não é apresentada verbatim; Cedric e eu a moldamos no momento em que incluímos certas coisas e excluímos outras. Como resultado, a história reflete não apenas as palavras, impressões e pensamentos de Linda, mas também as lentes através das quais Cedric, Steve e eu percebemos seu mundo. Embora nossa meta e intenção sejam contar a história de outra pessoa, nossa própria história jamais fica inteiramente fora do quadro. A edição de textos de história oral nos lembra que a objetividade não é apenas um mito, é uma ilusão.
Considere-se o estilo de entrevista de Steve, que incluiu perguntas dirigidas e muito incisivas, especialmente na primeira entrevista. Embora não seja uma prática recomendada entre os historiadores orais, este estilo foi eficaz no caso de Linda, gerando precisamente a informação que ele buscava. De maneira bastante semelhante, a percepção de Cedric da fábrica como "morte mecanizada" certamente conformou as imagens que fotografou. A maneira como Cedric e eu percebemos o destino da fábrica está refletida em como editamos o texto e o colocamos ao lado das fotos. Vejo agora as muitas maneiras pelas quais "intereditamos" texto e fotos -intencional e não intencionalmente - para contarmos uma história de contradições. Usando tais estratégias, Cedric e eu podemos ter realçado o tema do paradoxo neste livro. Conscientemente (e, estou certa, inconscientemente) enquadramos esta história com um olhar privilegiado, privilegiado no sentido de que, como a maioria de nós quando está fazendo este tipo de trabalho, assumimos um nível de
autoridade em tais escolhas - errada ou acertadamente. 36
Foi ao escrever a introdução ao livro, contudo, que comecei a perceber que assumíramos algumas premissas fundamentais sobre a história de Linda Lord. Instados pelo colega folclorista Glenn Hinson, decidi levar nossa análise de volta a Linda, que nesta altura havia se tornado uma amiga e colega no projeto. Em nossa conversa gravada fiz duas perguntas centrais a Linda, com referência a seu trabalho na Penobscot. Queria entender melhor suas motivações ao aceitar aquele emprego, e também me indagava se havíamos interpretado erroneamente seu comentário "eu estava e não estava contente ", que se tornara o tema unificador do livro. Como folclorista, eu presumira que Linda havia aceito o emprego na Penobscot devido, primeiramente, às ligações de sua família com a indústria - uma premissa comum em nossa disciplina e um ponto de vista que eu e Cedric mantivéramos ao longo de todo o projeto. Linda insistiu em que, conquanto estivesse familiarizada com galinhas através do trabalho de sua família com as aves, fora sua necessidadeeconômicaa razão fundamental de aceitar o emprego na Penobscot. Os comentários de Linda forçaram-me a abandonar minha visão mais romântica a respeito do background rural de sua família e me encorajaram a olhar mais de perto o papel da economia (ou classe) e dogênero em suas opções de trabalho. Ao mesmo tempo, minhas discussões e as de Linda sobre sua declaração "eu estava e não estava contente " esclareceram minhas dúvidas em torno de seus sentimentos aparentemente paradoxais a respeito do serviço. Sua reação reforçou minha avaliação de que "contente e não contente" não refletia uma espécie de "consciência dividida", mas um entendimento mais holístico de sua experiência de vida. Suas perspectivas aparentemente contraditórias eram de
fato integradas. 37 À medida que Linda detalhava os fatores que influenciaram sua decisão de permanecer em sua comunidade, as múltiplas razões por trás de sua decisão tornaram-se mais evidentes. Seu testemunho nos faz lembrar que "gama de fatores" estava em jogo: economia, gênero, valores rurais, dinâmicas familiares, responsabilidades em casa, compromissos familiares, entre outros. Suas palavras ("eu estava e não estava contente") implicam paradoxo; mas sua história (o que ela efetivamente nos conta através de sua narrativa) implica polifonia e, simultaneamente,
contém múltiplas tramas e perspectivas. 38
Quanto mais trabalhávamos com a narrativa de Linda, mais entendíamos que suas experiências, na Penobscot e depois, não eram situações em preto e branco, de isto ou aquilo, não refletiam pensamento dicótomo, o tipo de pensamento que pode paralisar Linda ou qualquer um de nós; o tipo de paralisia que faz vastos e complexos desenvolvimentos econômicos e sociais - como o declínio industrial - parecerem insuperáveis. A capacidade de Linda de abraçar todos os aspectos de sua experiência, sua disponibilidade para reconhecer essas necessidades e desejos, preocupações e interesses conflitantes, pode bem ser um exemplo para todos nós. Ao apresentarmos todo o espectro da experiência de Linda na Penobscot - sua visão de seus empregadores, bem como sua raiva por seu comportamento injusto - tentamos, como autores e editores, mostrar todos os lados do diálogo. Pois é através do diálogo que as crises econômicas e políticas, tais como a desindustrialização, podem, talvez, começar a ser abordadas.
Ao final, as respostas honestas de Linda à nossa análise forçaram-me a reconsiderar as premissas que havíamos assumido a respeito de seu trabalho na Penobscot; porém, mais importante, influenciaram e alteraram o que agora vejo em sua história, e como apresentamos sua narrativa neste livro. As discussões em que estive engajada com Linda - e nosso engajamento continuado -forçam-me a estar sempre reavaliando nossa análise. A continuidade desse diálogo não apenas informa meu conhecimento, também desafia meu entendimento da história oral como oportunidade única para incorporar os participantes como colegas e co-autores em nossos trabalhos. Como indicou Michael Frisch em A SharedAuthority, temos que começar a engajar as dimensões de poder de nossos empreendimentos (1990). Se de fato quisermos "compartilhar autoridade" teremos de nos tornar acessíveis, disponíveis e, até certo ponto, vulneráveis perante os indivíduos que estudamos. Se formos fazer história "de baixo para cima", como muitos pesquisadores culturais e sociais e historiadores orais procuram fazer, precisamos convidar nossos participantes a se engajarem conosco, não apesnas como colegas, mas como co-autores de nosso trabalho. Não precisaremos concordar com suas interpretações eidéias ao final, mas acredito que temos obrigação
de apresentar suas interpretações junto com as nossas. 39 Fazer história, creio, significa dar espaço aos de fora da academia, cuja especialização reside ultimamente não apenas em sua experiência
aprendida (ou escolarizada), mas em sua experiência vivida. 40 Mas a colaboração entre Linda e eu fez mais que forçar-me a reconsiderar como os folcloristas e os historiadores - orais e sociais- deveriam abordar suas pesquisas. A colaboração, para mim, questionou a própria natureza e os métodos de nosso trabalho, o que nos leva de volta a esta questão de apresentar narrativas sobre desindustrialização. Será este empreendimento apenas para documentar e nada mais? Estaremos tentando "intervenções"? O que fazemos com os materiais que colhemos e - se a meta for intervenção - como ordenar efetivamente o que descobrimos para levá-lo aos debates de políticas públicas? No momento estas questões estão sendo debatidas acaloradamente, tanto na história oral, quanto no folclore. O recente livro desbravador de Hugo Slim e Paul Thompson, Listening fora Change: Oral Testimony and Community Development, levou os historiadores orais a se fazerem estas mesmas perguntas (1994). O aumento do movimento de documentação participativa - em que folcloristas, historiadores orais e ativistas comunitários têm procurado envolver as comunidades em seus esforços de pesquisa -indica uma conscientização aumentada das perspectivas de mudança social através do trabalho documental de campo e um maior interesse nelas. A pesquisa da professora Lucie White, da Harvard Law School, busca abrir caminhos ainda mais profundos. Ao documentar as vidas das mulheres por conta da assistência social, ela procura produzir "contranarrativas" às narrativas que hoje nos são contadas sobre por que as mulheres
estão vivendo da assistência social.41 Conquanto não possa presumir que nosso livro atrairá as atenções para os temas mais amplos da desindustrialização, ou dos atuais conflitos dentro da indústria avícola (os trabalhadores, tanto quanto os criadores da Carolina do Norte, por exemplo, estão tentando reformar seus respectivos campos dentro da indústria), posso ainda replicar que a conversa e uma conversa que vá além de nós, como pesquisadores de campo - pode ter consequências imprevisíveis. A conversa casual de Linda com Steve e Cedric aquele dia, no Rollie's Café, levou a uma série de eventos que atraíram uma atenção bem mais ampla para sua história. Mais que isto, no dia em que a Penobscot Poultry fechou - e em que Linda chamou Steve e Cedric para sua mesa e começou a contar-lhes suas experiências na fábrica -, ela deu início ao que agora entendemos ser, entre outras coisas, um