História oral: desafios para o século XXI
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Significado do X congresso internacional de
historia oral*
Mercedes Vilanova
Como presidenta da Associação Internacional de História Oral (IOHA International Oral History Association) tenho o prazer de dar as boas- vindas a esta histórica conferência internacional, a primeira na América do Sul. Uma boa coisa desta conferência é que posso falar em minha própria língua, o que significa que não terei de traduzir como, por exemplo, quando estou na Europa - algo que os que falam inglês raramente têm de fazer. Não terei de traduzir porque, espero, nestaplatéiaa maioria das pessoas possa me compreender.
Nestas breves palavras, desenvolverei três linhas de reflexão em torno do significado deste momento presente, da transição que implica esta conferência, orientada para o terceiro milênio; e dar minha própria visão da Associação Internacional, que estarei presidindo durante poucos dias mais.
Este momento é importante porque, pela primeira vez, nos reunimos sob os auspícios de três instituições: a Associação Brasileira de História Oral, o CPDOC da Fundação Getulio Vargas e a IOHA que deu todo o apoio de que foi capaz. É a primeira vez que se dá uma participação deste tipo. Passamos de um comitê de pessoas designadas por cooptação, que tomavam as decisões arbitrariamente, a reger-nos por estatutos e a aceitar o compromisso de nos submetermos às decisões da Assembléia Geral dos membros da IOHA. Mas, além disso, os organizadores desta conferência quiseram ampliar o debate a todos os participantes, e amanhã, depois da intervenção de Philippe Joutard, manteremos uma sessão de debate aberta a todos que quiserem participar.
Talvez o melhor e mais novo deste momento esteja no grand large de que nos falará Philippe Joutard amanhã. Grand large que traduzo livremente como "horizonte insondável" ou, significativamente, por "hemisfério sul". Pela primeira vez temos a oportunidade, a partir da IOHA, de contemplar conjuntamente uma visão descentralizada e poliocular do mundo, que se liga diretamente com este futuro que temos na virada da esquina.
Mais ainda, creio que este momento é decisivo para todos nós porque, também pela primeira vez em nossas reuniões, o espanhol e o português são idiomas oficiais reconhecidos pela IOHA. Estamos, pois, começando a praticar a mestiçagem cultural e começamos a reconhecer nossas respectivas identidades culturais. Deixamos de ser provincianos para iniciar uma caminhada cosmopolita, empreendedora, dinâmica, alegre e mais efetiva; se me permitem uma metáfora, estamos jogando futebol como os nigerianos que derrotaram ontem a seleção da Espanha... E ainda outro exemplo futebolístico nestes momentos de Copa do Mundo, a IOHA queria ser como o Maracanã, este maravilhoso estádio circular do Rio, com uma entrada única para todos os espectadores, o que não é aceito pela FIFA, que prefere estádios divididos em classes sociais e, por isso, com entradas e preços muito distintos...
Minha segunda linha de reflexão se refere aos desafios do futuro que a transição que estamos vivendo implica. Transição que, me parece, percebese claramente em três âmbitos. Escolhemos a América para nos reunirmos porque sabemos que estes são países em que é preciso investir atenção e esforços, países que estão sub-representados na IOHA. Ao eleger o Rio para sede da X Conferência não o fizemos para reparar o passado, mas porque sabemos olhar para o futuro.
Além desta aventura, ou nesta viagem da história oral em direção às fronteiras do indizível, da des-capacitação, ou da linguagem escrita, deveremos adotar o multiculturalismo como realidade iniludível; o grand large, nesse sentido, é a humanidade sem deixar ninguém no esquecimento, e principalmente os menos favorecidos.
Em terceiro lugar, esta hibridação ou futuro deve implicar forçosamente as gerações mais jovens que a minha. Quando aceitei assumir a presidência da IOHA em Gotemburgo, o fiz por dois motivos. Em primeiro lugar, para apoiar com todo meu coração o desenvolvimento da IOHA na América; sentimento que tem em mim raízes muito fundas. Quando, em Barcelona, em 1989, fundamos a revista Historia y Fuente Oral o fizemos como uma resposta à exclusão que espanhóis e latino-americanos havíamos sofrido na Conferência de Oxford de 1987; e o fizemos para favorecer o diálogo, para integrar e não desunir o movimento. E, em segundo lugar, aceitei a presidência para passar a tocha ou, se me permitem expressão tão odiosa, para passar a liderança à geração mais jovem, e espero que isto ocorra no decorrer desta conferência. De fato, vivemos já em plena transição. Durante estes anos, trabalhei com dois vice-presidentes que representam justamente a incorporação dessa nova juventude. Quero agradecer publicamente, aqui, o esforço, a dedicação e a amizade de Alistair Thomson, que generosamente aceitou ser o editor de nosso boletim Words and Silences, apoiado por Graciela de Garay, que se ocupou da edição de Palabras y Silencios. E quero, naturalmente, agradecer a Marieta de Moraes Ferreira, que aceitou o desafio de organizar esta conferência.
Sei que há muitas ausências significativas nesta sala. A que mais me dói é a de Sven Ek e Birgitta Skarin Frykman, organizadores da IX Conferência Internacional. Em minha despedida de Gotemburgo, admiti que seria difícil superar o que eles haviam feito; pois bem, Marieta o conseguiu, no mínimo em três aspectos: pela elegância dos Anais; por sua acomodação generosa a todas as eventualidades, e pelo esforço de organização que implica manejar três idiomas simultaneamente. Aconteça o que acontecer no Rio, a IOHA estará em boas mãos porque, graças ao esforço de todos nós, temos plantado uma semente original nesta terra que cruza fronteiras, inclusive sob os mares.