História oral: desafios para o século XXI
3 História oral na América Latina
Desafios da história oral Latino-Americana: o
caso do Brasil*
José Carlos Sebe Bom Meihy
Introdução
Pensar a história oral no Brasil e sua inscrição no contexto latinoamericano implica formular alguns pressupostos analíticos que
ti rem esta reflexão da mera narrativa dos fatos sucedidos. 1 Nesse sentido, cabe considerar que chamamos história oral os processos decorrentes de entrevistas gravadas, transcritas e colocadas a público segundo critérios predeterminados pela existência de um projeto estabelecido. Mesmo respeitando as investidas que confundem entrevistas feitas de diversas formas com os procedimentos formais da história oral, ressalta-se que no Brasil, bem como na América Latina, o impacto e a ampla aceitação da história oral institucionalizada têm provocado debates que a qualificam como, talvez, a mais promissora das tendências de entendimento da sociedade. Esta premissa exige explicações que serão filtradas por três ângulos principais: o momento do aparecimento; inserção no conjunto dos critérios analíticos da sociedade; e propostas e desafios atuais.
Mediando tais níveis analíticos, estaremos visitando temas como: oportunidade da história oral como forma de diálogo com a sociedade mais ampla que a academia; a superação da relação "interdisciplinar" promovida pela história oral; e, sobretudo, o caráter instrumental da história oral como portadora de denúncias sociais e formuladora de base para políticas públicas.
Apresentação do tema como um problema Apoiado no princípio que aproxima a história oral do contexto
democrático que a explica,2 o primeiro ponto que se apresenta como desafio analítico quando se pensa a história oral latino-americana é o seu vínculo político. No caso do Brasil, como da América Latina em geral - ou pelo menos dos países que viveram recentemente a síndrome de ditaduras militares -, a aceitação da história oral esteve diretamente ligada ao processo de redemocratização. O momento de surgimento da história oral na América Latina, portanto, faz com que haja um vínculo natural entre o seu advento e as questões políticas decorrentes da redefinição democrática. Este fato, em primeiro lugar, diferencia o papel da história oral latinoamericana da européia ou norte-americana. Nossa história oral se institucionaliza como reflexo de um momento histórico e isto merece ser pontuado como pressuposto explicativo.
Neste cenário, o Brasil se mostra como exemplo eloquente. 3
O tom político da história oral, portanto, matiza a história oral brasileira como se ela fosse uma nova solução para o entendimento da sociedade, pois superaria as insatisfações das análises sociais moldadas em alternativas disciplinares que se poderiam enquadrar no conceito de "tradicionais'', "conservadoras" e "insuficientes", para apontar alternativas de políticas públicas. Filha inevitável de nossa época, a moderna história oral se estabeleceu como decorrência lógica dos avanços da tecnologia após a Segunda Guerra Mundial. Juntos, estes dois fatores - a insatisfação com os produtos derivados dos métodos acadêmicos aplicados e a revolução eletrônica - propuseram alternativas que não mais escapam do
respeito ou pelo menos da curiosidade intelectual contemporânea.4
Mesmo sentindo que progressivamente as coisas mudam, as marcas deixadas pelo persistente "colonialismo cultural", principalmente nas academias latino-americanas, têm ofuscado o livre reconhecimento do sentido público e social da história oral entre nós. Por outro lado, é fácil constatar que, em alguns países latino-americanos, a história oral se iniciou exatamente tratando de temas ligados à experiência do exílio ou da exclusão de segmentos revolucionários. Assim, pode-se afirmar que, em certos círculos, a história oral nasceu "exilada" e teve que contracenar com outras raízes "colonizadas".
Ainda que a aparente contradição entre o "exílio" e o "colonialismo" conviva, é preciso mostrar que há nessa circunstância um diálogo instigante, uma briga entre o progressismo libertário e a resistência conservadora, que sempre contempla o exterior como fonte de conhecimento, inspiração e referência. Entre o que se cria dentro da América Latina e o que se importa como modelo, percebe-se uma dinâmica ligada à autonomia dos saberes locais e à importação de fórmulas exteriores. A história oral, portanto, situa-se no impasse político da criação de um saber autônomo e de uma prática temática independente que tem que conviver com a prática imitativa exercitada nas ex-metrópoles.
Por lógico, não cabe negar a importância do debate internacional e nem se debilita a crítica feita à perene evocação dos textos europeus e norte-americanos como base teórica e de reflexão para nossas pesquisas. Diálogos à parte, contudo, o que se quer atingir é a dependência exagerada e a alienação de compromissos especificamente relacionados aos meios "de onde se fala". Principalmente quando se tematizam os objetos de estudo, nota-se que a história oral latino-americana exige soluções e abordagens que a distingam dos padrões estrangeiros.
Pensando a oportunidade destas reflexões e enquadrando, à guisa de exemplo, tal problemática nas molduras do Brasil, indaga-se das virtudes da inefável importação de parâmetros teóricos e da insistência nos mesmos moldes temáticos que teriam vigência cá e
lá.5 Seria a nossa história oral apenas eco da história oral "primeiro-mundista"? Teríamos responsabilidades e compromissos específicos para com nossos meios sociais? Indo mais a fundo na questão, pergunta-se: os mesmos critérios analíticos usados para estudar a imigração "deles" são válidos para "nós"? E a experiência da escravidão negra na América Latina pode ser matéria filtrada pelos critérios "deles"? O que fazer e quais os modelos para o uso dos oralistas em vista das sociedades indígenas? Teriam "eles" o que nos ensinar sobre imigração, sociedades indígenas, miscigenação, experiências de escravos negros e crianças abandonadas? E os temas da cultura popular poderiam ser abordados em um e em outro espaço com os mesmos critérios? Enfim, serviriam para "nós" os mesmos modelos europeus e norte-americanos? Teríamos que fabricar nossos próprios critérios analíticos? Isto seria possível?
Evidentemente insiste-se na relevância da troca de experiências acadêmicas, bem como não se considera saudável o isolamento de nossas práticas em história oral como se nada tivéssemos com os "outros". Logicamente, o diálogo intelectual não tem fronteiras e é sagrado, mas, isto não implica abandonar o compromisso político como eco de uma voz latino-americana da história oral. É nesta medida que se faz necessário o brado contra a alienação deslumbrada, simplista, daqueles que negam o valor inerente da oralidade em sociedades colonizadas onde o analfabetismo foi arma usada para dominação.
A trajetória da história oral da América Latina, dada sua complexidade e dependência política, apresenta algumas situações que, paradoxalmente, exigem a formulação de uma outra "genealogia de sua origem" que não a formulada pela sofisticação da disputa dos círculos europeus. Debates sobre o papel e a raiz da história oral inglesa ou francesa - como o promovido pelo diálogo entre Paul Thompson e Philippe Joutard - não se equivalem em validade para a explicação dos meios latino-americanos. Aliás, seria até ridículo pensarmos que para o entendimento da história oral do México ou da Bolívia, por exemplo, tivéssemos que partir das disputas européias e que daí derivam para a suposição de apropriações nacionais.
Por paradoxal que pareça, mesmo o dependentismo exagerado e alienante pode ser visto positivamente se contemplado com olhos críticos e não apenas panegíricos. Nossa experiência acadêmica colonizada, por ser tão calcada nos pressupostos "deles", quando crítica e inteligente, gera condições de promover uma síntese desejável que, muitas vezes, não é passível de ser encontrada em outros centros que não os nossos.
Nesse sentido, e em geral, a história oral praticada no Brasil - bem como na América Latina - é resultado de leituras combinadas que a faz, a um tempo, ter sofisticada fundamentação teórica e enquadramento temático político-local inequívocos. Sintetizando textos europeus, norte-americanos e mesmo da América Latina, quando filtrados devidamente - o que é raro -, tais leituras promovem reflexões interessantes para uma reversão dos próprios modelos importados. O processo de "devoração", usado metaforicamente - emprestado da literatura brasileira que se expressa através da "antropofagia" -, sugere que, se usados com critério, os textos importados podem servir de base para, a partir deles, se pensar uma situação boa para as análises da história oral
latino-americana.6 Ao mesmo tempo, advoga-se a criação de novos conceitos e mecanismos de estudos despontados daqui e voltados menos para a "adaptação".
Pode-se dizer que a moderna história oral brasileira definiu-se entre nós a partir de 1979, florescendo principalmente depois de 1983 no processo de redemocratização política do país. Ainda que houvesse um esforço anterior, nos anos 70, como prática assumida com vigor, somente depois de um amadurecimento que implicou aproximação de diferentes tendências foi que se afinaram os debates capazes de promover espaços coletivos para a combinação de opiniões.
A primeira tentativa, no entanto, ocorreu em 1973, patrocinada pela Fundação Ford em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (CPDOC-FGV). Nessa ocasião, reuniam-se no Rio de Janeiro acadêmicos preocupados com a questão documental para as ciências sociais. Essa investida teve como característica o incentivo e a cooperação entre centros de estudo do país e do exterior. Segundo as orientações daquele encontro, havia grupos preocupados em pensar a "preservação", a "restauração" e a "história oral".
Esse encontro gerou outro, mais específico, que se realizou em 1975, atento exclusivamente à "história oral". Sob a inspiração do modelo da Universidade de Colúmbia, coordenado pelo grupo do CPDOC e patrocinado pela Fundação Ford, estiveram presentes no evento alguns especialistas estrangeiros especialmente designados para transmitir as técnicas da história oral: George Browne, James e Edna Wilkie, além de Eugenia Meyer, do México. Para tanto, foram convidadas pessoas de diferentes partes do país que deveriam depois divulgar os resultados em suas localidades. Dada a conjuntura política e o teor da proposta que implicava treinamento de acadêmicos convidados, muitos deles sem nenhuma afinidade com a prática de entrevistas, o plano naufragou, ficando sepultado em documentos mantidos no CPDOC, Rio de Janeiro. Curiosamente, nessa ocasião se pensou em criar uma associação brasileira de história oral que, contudo, não aconteceu em virtude da falta de dimensões coletivas e de ambiente político para tanto. De qualquer forma, é desta época a instalação dos dois primeiros programas de história oral do país: na Universidade Federal de Santa Catarina e no CPDOC, ambos de 1975.
Em prosseguimento ao encontro anterior, em 1977, foi feito um segundo, em Brasília, com o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Fundação Ford, tendo como instrutores William Moss e Aspásia Camargo, que já à época despontava como pioneira das investidas de história oral no Brasil. O esforço sempre capitaneado pelo CPDOC, contudo, não chegou a produzir efeitos em larga escala, ainda que internamente aos participantes e suas entidades os resultados fossem cultivados com algum sucesso. Em geral, persistia no Brasil a valorização do texto escrito como base de informações analíticas a tal ponto que autores importantes ressaltaram sempre o pouco prestígio das fontes orais como forma de estudo.
O primeiro texto publicado a usar a expressão "história oral" foi resultado da dissertação de mestrado de Carlos Humberto P. Corrêa, da Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado História Oral: teoria e técnica, que em 1977 delineava critérios para a definição da história oral nos trópicos. Juntamente com a publicação de seu texto, era colocado a público um catálogo de depoimentos que se compunha com a permanente importância do CPDOC. Ambas as investidas marcaram as duas tendências mais evidentes da história oral brasileira: individual e institucional. Os trabalhos individuais que surgiram fora do espaço universitário se apresentaram em um outro momento da presença da história oral brasileira. Isto convida a uma periodização capaz de explicar a força do impulso inicial:
1) (re)introdução;
2) institucionalização;
3) inserção no contexto internacional.
Antes cabe ressaltar a relevância do trabalho que, sem dúvida, marca o nascimento da história oral política brasileira e, infelizmente, não tem merecido o devido crédito. Em 1976, no exterior, alguns exilados políticos brasileiros, banidos do país, reuniram as narrativas de suas experiências e publicaram um texto intitulado Memórias do exílio: muitos caminhos, que foi lançado no Brasil em 1978 gerando um outro registro: Memórias das mulheres
no exílio. 7
O "esquecimento" das duas vertentes básicas da genealogia da história oral brasileira -metáfora perfeita do resto da América Latina -evidencia a força do colonialismo cultural de nosso meio. Porque não se assume, em geral, o teor militante da história oral latino-americana; ela não se espelha nem no registro da experiência política nem no sentido popular que a torna de aceitação pública. Avesso disso, a conclamada herança intelectual francesa instrui vínculos com a origem européia que faz, ironicamente, com que aqui uma parcela dos nossos oralistas viva apregoando realidades inexistentes. Ucronias subdesenvolvidas.
1) ambiente do aparecimento Ainda que os esforços pioneiros não tenham frutificado, pode-se dizer que não desapareceram de todo e que, pelo contrário, fortaleceram as instituições que, direta ou indiretamente, os abrigaram. Mesmo insulados em locais distantes uns dos outros e sem articulação conjunta, eles formulavam uma "memória falsa" do que seria a futura história oral brasileira. Com o início da abertura política, em 1979, e principalmente na nascente dos anos 80, de repente, houve uma espécie de explosão do interesse pela história oral. Logicamente a existência de documentos secretos e comprometidos pela opressão ditatorial fez com que se ampliassem as expectativas de novas fontes "não-oficiais".
Entre os entraves naturais para o progresso da história oral então nascente no Brasil pode-se dizer que o bloqueio das pessoas permanecia como barreira para futuros projetos. Ainda sobre a sombra da ditadura a palavra "depoimento" era confundida com vigilância e muita gente tinha medo de deixar as próprias histórias gravadas. Foi necessário tempo para que se superasse isto. Na mesma medida, o crédito de pessoas acadêmicas fez com que se reforçasse a dependência universitária da história oral brasileira. Novo capítulo do dependentismo acadêmico europeizante, muito da história oral latino-americana praticada na universidade ainda não se deixou emancipar devido ao caboclismo imitativo que tem mostrado incapacidade de filtrar os celebrados "ensinamentos metropolitanos".
A fase inicial, pois, implicou uma importação de textos que chegou a surpreender até mesmo os europeus e norte-americanos. Basicamente, a grande novidade se constituiu na tradução de autores estrangeiros a ponto de termos várias antologias deles e nenhuma seleção de textos nossos. O processo de tradução não obedeceu a critérios claros, sendo, de qualquer maneira, Paul Thompson a figura mais proeminente. Ainda que a primeira edição de The Voice ofthe Past tenha surgido em 1978, apenas em 1992 foi traduzido para o português, sendo, anteriormente, usado em raras cópias em espanhol (1984) ou em inglês. Este detalhe interessa na medida em que expõe, outra vez, a tendência universitária que acabou exclusivizando a história oral brasileira. Esta prática reforçava o antigo cacoete universitário brasileiro, que sempre prezava a produção estrangeira em detrimento da local. Tal situação, ironicamente, servia para alimentar o prestígio do uso dos depoimentos ao mesmo tempo que mantinha a nova alternativa de apreensão da sociedade nos mesmos parâmetros da importação ou colonialismo cultural.
Sustentada pela existência exclusiva de apenas dois livros que assumiam diretamente o conceito de história oral, persistia, ainda que de forma rala, a tradição de uso das entrevistas segundo as antigas práticas da antropologia e da sociologia. Isso gerou exclamações de autores importantes que insistiam, em 1991, na necessidade de atenção às fontes orais. Um outro texto estrangeiro, de 1985, chamava atenção de um setor da nascente história oral e, fazendo com que distinguisse um ramo que ganha terreno na preferência da história oral brasileira: a história oral de vida. O livro de Daphne Patai se converteu em uma espécie de modelo para iniciantes que, então, se vocacionavam a aventuras de transcrições livres, independentes do referente gravado que registrava
repetições, erros vernaculares, equívocos de datas ou detalhes. 8 A novidade de uma história oral de pessoas anônimas e a força das transcrições completas de depoimentos representou um avanço diferenciado da prática que prezava "a busca da verdade" em detrimento do "registro da experiência". Nesta aventura estava a grande distinção entre a tendência positivista de documentação que certos grupos pioneiros ostentam e as reclamadas novas alternativas.
Em termos locais, funcionando mais como arquivo que propriamente como gerador de análises, era o CPDOC que dimensionava o maior acervo de entrevistas acumuladas. Tal prática gerou um texto, bastante difundido, que serviu de parâmetro para muitos iniciantes:
História Oral: a experiência do CPDOC. 9 Neste importante projeto, vivificava-se uma história oral de elites, particularmente de grupos dominantes, que servia de modelo para muitos. Demorou para que textos diferentes surgissem.
A soma de experiências, individuais e coletivas, e a necessidade de respostas dos meios acadêmicos que se viam divididos em face dos resultados sociais de seus trabalhos -que se mostravam distantes dos sujeitos de estudos faziam crescer a ânsia para que se articulassem os interesses na direção de debates mais consistentes em termos de troca de experiências. Concomitantemente, certas unidades universitárias começaram a promover dissertações e teses feitas sob a nova orientação. Até o começo dos anos 90, a história oral brasileira não figurava nos currículos dos cursos universitários nem aparecia com frequência mínima como tema de congressos e documentações nas humanidades em geral. Ao mesmo tempo, era confundida com a mera prática de entrevistas derivadas do
jornalismo, antropologia, sociologia e psicologia.10
A crescente popularização da história oral no Brasil dos anos 80 se projetou na década seguinte, com o desafio de promover esta área como uma alternativa que exigia posicionamento da academia. O primeiro encontro formal de história oral ocorreu em Salvador, no estado da Bahia, em 1983, sem contudo alterar o rumo dos debates prévios. De fato, a primeira atitude conjunta e vigorosa para se fundar uma associação brasileira de história oral ocorreu em 1992, quando no congresso América 92: Raízes e Trajetórias se instalou um grupo de trabalho que planejou para o ano seguinte o Primeiro Congresso Nacional de História Oral. Tendo em vista arrumar o panorama interno para compor participações mais estruturadas no cenário internacional, realizou-se na Universidade de São Paulo o encontro do qual derivou o Segundo Encontro Nacional, no CPDOC, em 1994, ocasião em que se fundou a Associação Brasileira de História Oral.
Por essa época, a produção na área já estava mais definida e alguns debates teóricos encontravam exemplificações importantes em pesquisa de campo nacional, marcando assim uma outra etapa da aceitação da história oral no Brasil. De qualquer maneira, era evidente o vínculo com os sistemas universitários.
2) inserção no conjunto dos critérios analíticos da sociedade Uma questão fundamental na qualificação da história oral no Brasil é a sua função social. Estando o seu advento intimamente ligado ao surgimento da democracia, se questiona se seus eventuais progressos a manteriam na mesma orientação de origem. Este problema serve como parâmetro também para medir o impacto inovador desta investida em relação aos esforços anteriores. De outra forma, caberia questionar: história oral por que, de quem e
para quem? 11
Entre as instituições mais firmadas em termos dos pressupostos da história oral da década de 70, o CPDOC alimentou o maior, melhor e mais bem cuidado acervo de entrevistas do país, sendo sua opção pela coleta de depoimentos da elite política, militar e cultural. Seu exemplar zelo arquivístico passou então a conviver com novos desafios: a referenciação a outros grupos sociais, em particular àqueles não privilegiados pelas óticas consagradas pela preferência do poder. Nesse sentido, uma das experiências mais interessantes que se operou foi a do CERU que, desde logo, assumidamente na linha sociológica, passou a registrar trabalhos feitos sobre pessoas comuns, como carnavalescos, mulheres trabalhadoras, imigrantes.
Prestando atenção a instituições importantes ou movimentos relevantes na sociedade brasileira, alguns arquivos e coleções documentais voltaram suas vistas ao cruzamento de documentos "regulares" com as fontes orais. Entre os projetos pioneiros e mais importantes, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, a partir de 1982, iniciou uma série de projetos diferentes, considerando manifestações de arte e da cultura popular brasileiras. Ao mesmo tempo, muitas universidades também prestaram atenção aos depoimentos gravados. Entre as instituições mais ativas nesta linha, destacam-se o Laboratório de História Oral e Iconografia, da Universidade Federal Fluminense, e o Centro de Documentação Iconográfica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ambos de 1982. Mais recentemente, o Centro de Memória da Unicamp também se distinguiu juntamente com grupos da PUC- SP. Finalmente, o registro de instituições paralelas à universidade que têm sido fundamentais para a história oral brasileira: Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Fundação Carlos Chagas, entre outras.
Minorias étnicas começaram a se mobilizar para a documentação e o estudo de suas trajetórias. Neste setor a investida pioneira coube ao Instituto Cultural Marc Chagall, de Porto Alegre, em 1986. Instituições relevantes da cena cultural brasileira começaram a apresentar propostas de estudos de japoneses, árabes, italianos, coreanos. Dois grupos singulares pela importância étnica no Brasil, contudo, têm sido pouco vistos: os índios e os negros. Logicamente este aspecto reílete lacunas das atenções da história oral brasileira que não enfrentou ainda os dilemas de sua vocação.
A marca urbana da história oral brasileira ainda está muito presente, havendo carência de estudos de setores rurais. De qualquer forma, alguns movimentos têm chamado atenção pelo impacto na sociedade em geral. Principalmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) tem motivado investidas da história oral.
Nesta fase de afirmação, a história oral brasileira se apresentou como avenida aberta à formulação de microestudos e isto, seguramente, lhe valeu a condição de prestígio desejada. Como alternativa privilegiada para se verticalizar os resultados de experiências, a história oral apresentou-se como avesso desejável da marca mais evidente da historiografia "tradicional" brasileira, que sempre partiu do geral amplo, nacional, sem nunca ter chegado ao mínimo, ao específico, ao local.
Entre os dilemas proporcionados pela inscrição da história oral no contexto intelectual brasileiro, talvez o mais importante seja o tributo pago ao tratamento documental. Quase sempre vista como "mais um documento" ou "outra forma de fonte", a história oral brasileira teve que se render a uma objetividade que muitas vezes se compromete com as soluções equiparáveis aos mesmos critérios analíticos que as demais bases de instruções ou fontes documentais. Nesse sentido, os esforços mais progressistas consistem em promover a história oral "pura", ou seja, a que propõe diálogo com outras fontes orais e menos com a história oral "híbrida", ou ainda aquela que cruza documentos variados.
Desde a fundação da Associação Brasileira de História Oral, um crescente número de congressos regionais e nacionais tem se somado à grande participação de brasileiros nos encontros internacionais. O reconhecimento do impacto da história oral brasileira motivou a escolha do Brasil como sede do X Congresso Internacional, realizado no Rio de Janeiro em 1998.
Atualmente a Associação Brasileira de História Oral possui uma revista semestral e alimenta a produção de reflexões brasileiras sobre temas relevantes para aquela sociedade. Procurando um diálogo mais consequente com a nova geração, na USP, no Departamento de História, despontou um grupo que promove pesquisas costurando trabalhos de alunos de graduação, pós-graduação e acadêmicos. O NEHO (Núcleo de Estudos em História Oral) possui uma revista que se propõe a dar alcance às questões mais complexas da história oral.
3) propostas e desafios atuais
Uma pergunta essencial para o enquadramento da história oral brasileira no conjunto geral desta área, inclusive em nível internacional, diz respeito ao seu papel. Em primeiro lugar, dada a originalidade de seu caráter e a oportunidade de seu surgimento, cabe questionar sua vinculação, quase que exclusiva, com as universidades. Seria esta tendência apenas elitista ou negativa? Qualquer resposta mais profunda a esta questão implicaria o entendimento da universidade na cultura brasileira como um todo.
Tendo o processo de implantação das universidades no Brasil ocorrido tardiamente e sua principal entidade, a Universidade de São Paulo, surgido somente em 1934, elas têm se apresentado como uma espécie de intérprete oficial da sociedade. Assim, são modelos e capitalizam a atenção e o respeito geral. Não é pois sem sentido que, em termos de história oral, são as escolas e os laboratórios diretamente vinculados às universidades que se apresentam como geradores de pesquisas. Por outro lado, a presença da história oral no circuito acadêmico tem provocado o diálogo desta solução com os museus, grupos de trabalhos autônomos e sociedades históricas locais. Sob a organização da ABHO, os diferentes ramos da mesma árvore se arrumam de maneira orgânica, tentando evitar que uma tendência infelizmente existente floresça: a comercialização da história oral. Nesse sentido, a ABHO cumpre o papel de articuladora de várias manifestações, e, através das universidades, vários debates teóricos são filtrados e divulgados. Na mesma medida, promovem-se congressos, encontros e divulgação de informações.
Outra questão importante é o uso instrumental da história oral brasileira. Seria ela uma forma de conhecimento ou estaria sendo objeto de formulação de políticas? Nesta linha, seria uma ferramenta, uma técnica, metodologia ou disciplina? O debate em torno desta questão é relevante pois, paradoxalmente, extrai o tema do círculo acadêmico, promovendo-o em diferentes níveis. Como extensão desta prática, a história oral brasileira, principalmente quando assume sua função de reveladora de microhistórias e de foco de situações específicas, mostra o potencial crítico da história oral como alternativa que dá voz aos grupos de uma forma ou de outra silenciados. Mais, contando com a autoridade da academia como promotora de estudos, a universidade permite veicular os resultados de investidas, inclusive de trabalhos não feitos sob a proteção da academia. Dando abrigo aos diversos projetos de história oral, contudo, a universidade também tem se transformado. Diminuindo a distância entre o público em geral e os meios promotores de política, a presença da história oral brasileira na universidade faz com que este tipo de saber seja qualificado de maneira diferente. Superando o momento em que se supunha a história oral como um locus multidisciplinar, entende-se que a história oral brasileira passa a formular conceitos próprios e - porque nasceu cronologicamente atrasada e distante dos centros hegemônicos que a promoveram -, ousa se apresentar como proponente da história oral como uma nova disciplina. Logicamente esta idéia é polêmica e tem muitos oponentes, inclusive no Brasil.