História oral: desafios para o século XXI

Verena Alberti · Capítulo 14 de 19

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História oral: desafios para o século XXI

O fardo de falar sobre a perseguição nazista na Alemanha

O que contribuiu para a pungência na justaposição entre o depoimento de Marianne e os documentos, e ainda confirmou a impressão de que ela era incapaz de enfrentar seu passado, foi o fato de que até morrer ela não me revelou a existência da maioria dos papéis em seu poder. Durante nossas conversas, ela sabia -mas eu não - que sua casa estava repleta de registros e mementos. Evidentemente, ela não podia enfrentá-los. Seu filho me disse que sua mãe era normalmente muito ordeira, arquivando tudo em seu lugar próprio. Entretanto, todos esses papéis estavam enfiados dentro de envelopes efolders, nada espalhado, mas nada catalogado, em recantos e fendas espalhados por toda a casa. A própria casa estava sofrendo muito com o rebaixamento do solo, e havia grandes rachaduras na parede do quarto dos fundos. Não poderia haver símbolo mais eloquente do fardo que ela suportava do que a forma como toda esta estrutura parecia afundar gradualmente sob o peso de seu incontrolável passado.

 

O fardo de falar sobre a perseguição nazista na

Alemanha*

Friedhelm Boll

Após sua odisseia de anos de vida no gueto e de trabalhos forçados em campos de extermínio, os judeus poloneses Rosa e Feliks Fischer conheceram-se em uma grande cidade do norte da

Alemanha em 1945 e logo estavam casados. 1 Nessa época, se alguém tivesse sugerido que iriam passar o resto de suas vidas na Alemanha e obter sucesso financeiro (com um restaurante e o comércio de jóias), considerariam essa pessoa louca. Eles imaginavam ser os únicos sobreviventes de suas respectivas famílias; entretanto, conheceram na Alemanha, entre os refugiados políticos, mais poloneses do que em suas cidades natais de Lodz e

Radom.2 Sua filha Evi nasceu três meses depois do casamento. Devido a problemas resultantes do tempo de prisão, seria, infelizmente, sua única filha. Aos vinte anos, Evi casou-se com o filho de um judeualemão sobrevivente do Holocausto, nascido na mesma cidade na Alemanha. Como seus pais e avós, as três filhas nascidas deste casamento foram trabalhar para a comunidade judaica na Alemanha, tanto em âmbito local como nas organizações judaicas nacionais. O genro e seus pais tornaram-se líderes judeus na Alemanha do pós-guerra. Para os judeus destes círculos, ser testemunha do Holocausto tornou-se um importante dever. Desde o 40º aniversário da libertação, é uma tarefa que Rosa cumpre ocasionalmente, mesmo considerando-a mais um fardo que um alívio, embora seja constantemente pressionada por seu genro. Seu marido Feliks, por sua vez, inicialmente rejeitou categoricamente tudo isso, mas afinal convenceu-se de que tinha um dever para com a esposa e as netas e concordou em dar várias entrevistas sobre seu passado. Este ensaio relata a natureza de duas entrevistas e seu fracasso final.

Gostaria de concentrar minha intervenção no que chamo de "o fardo de falar sobre a perseguição nazista na Alemanha". Durante os últimos anos vários estudos sobre a história de vida de

sobreviventes do Holocausto apareceram também na Alemanha.3 A pesquisa sobre refugiados políticos da Europa Oriental vindos para a Alemanha ou ali vivendo, a partir de 1945, o Projeto Yale em Potsdam, o Projeto Spielberg em Frankfurt e Berlim e algumas dissertações mostram um crescente interesse por este assunto na Alemanha. Entretanto, nem todos os judeus sobreviventes estão dispostos a se envolver nesses projetos. E o que dizer sobre aqueles judeus que se recusam a ser entrevistados e permanecem silenciosos a respeito de sua experiência nos campos de concentração nazistas? O que os impede de falar - e até onde podemos analisar seu silêncio?

Estas importantes perguntas não foram ainda discutidas nos estudos sobre histórias de vida de sobreviventes do Holocausto. Ruth Klüger ressalta esse tipo de questão afirmando que a leitura de histórias de vida de sobreviventes do Holocausto pode conduzir a uma má compreensão do tema: "Finalmente, tudo correu bem.

Aquele que escreve, vive/'4 Mas a maioria dos casos em Auschwitz

não terminou numa "história expiatória" 5 tão acidental, mas numa imensa desesperança que estava conduzindo à morte.

O exemplo de Feliks Fischer, que vou apresentar, explicou esta situação sem saída. Lida também com a pressão para falar sobre sua vida nos guetos e campos - pressão que vinha da filha e netas, da sociedade alemã e, confesso abertamente, de minha parte, o entrevistador.

Através desse exemplo, quero focalizar em particular aquelas partes das histórias de vida dos sobreviventes do Holocausto caracterizadas como episódios incompletos, histórias inacabadas, por frases gaguejadas ou por formas lacônicas de falar. Michael Pollak, Lawrence Langer, Ilka Quindeau e outros chamaram atenção para esta maneira de falar porque freqüentemente ela mostra

importantes emoções subjacentes.6

Minha exposição baseia-se em cerca de quarenta entrevistas com pessoas perseguidas pelos nazistas. Devo mencionar que isto é parte de um projeto mais amplo, com sessenta entrevistas com pessoas perseguidas pelos soviéticos na Zona de Ocupação Soviética e na República Democrática Alemã (RDA).

Desejo utilizar o exemplo de Rosa e Feliks Fischer; nascidos na Polónia em 1922 e 1924, respectivamente, sobreviveram ao Holocausto e vivem na Alemanha desde o final de 1945. Conheci Feliks e a sra. Fischer durante uma conferência sobre refugiados políticos na Alemanha depois de 1945, quando estavam participando de um painel de cinco judeus testemunhas do Holocausto, falando sobre suas vidas. Enquanto Rosa Fischer já tinha falado várias vezes sobre essa parte de sua história, Feliks tentava relatar suas experiências pela primeira vez. Seu relato sobre sua odisséia através dos guetos e campos de concentração como Lodz e Varsóvia, Auschwitz e Theresienstadt foi muito sucinto. Consistiu em mencionar os nomes dos lugares, sem descer a detalhes de sua experiência. Sua história tornou-se mais precisa e detalhada quando ele passou a falar do período pós-45, quando conheceu sua mulher ou quando começou sua carreira como comerciante no mercado negro, gerente de hotéis ou finalmente quando ele e sua esposa abriram uma conhecida joalheria.

Até mesmo sua decisão de permanecer na Alemanha mas não se naturalizar, ao contrário de muitos outros refugiados judeus, foi explicada com algum detalhe. Foi com certo orgulho que Feliks e Rosa Fischer, além de sua filha, enfatizaram sua condição de apátridas.

Ao responder algumas perguntas do público, Feliks e Rosa Fischer afirmaram que tinham falado sem problemas a respeito de suas vidas para sua filha e netas. O painel assumiu características dramáticas quando a filha e a neta do casal levantaram-se e contestaram esta declaração, dizendo que tomaram conhecimento da perseguição a seus parentes apenas alguns anos antes.

Depois da conferência, entrei em contato com Rosa Fischer e sua filha, e combinamos uma entrevista com Feliks e Rosa, a filha e a neta. Depois da primeira entrevista, encontrei Feliks e Rosa Fischer mais duas vezes e fiz uma entrevista separada com sua filha. Estas entrevistas duraram um ano e meio; falamos sobre a experiência no campo de concentração e as consequências do silêncio para a segunda geração.

As entrevistas duraram mais de cinco horas no total, mas o relato da experiência nos guetos e campos de concentração ocupou apenas vinte minutos. Os principais resultados dessas entrevistas podem ser resumidos no título do meu paper: O fardo do silêncio (para pais e filhos) e a compulsão para falar.

Antes e depois da primeira entrevista, Rosa Fischer e sua filha explicaramme ao telefone que era a primeira vez que Feliks Fischer concordava em falar sobre sua experiência em campos de concentração -e acrescentaram que estavam espantadas e felizes com isso. É importante registrar que apenas Rosa Fischer tinha sido convidada a participar daquela conferência. Mas Feliks decidiu acompanhar sua esposa, porque sentiu a obrigação de falar sobre sua experiência em campos de concentração. Conseguiria falar mais para mim? Mas, como já disse, ele falou muito pouco.

Em nossa primeira entrevista ele não me esperou para começar. Antes que o gravador fosse ligado, ele disse: "Não considero muito importante falar com as pessoas sobre isso. Elas não podem entender. Não conseguem/' Então, sem sequer iniciar uma história ou explicação, ele disse: "Eles punham a comida diretamente em nossas mãos. Graças a Deus não era muito quente. Então, improvisamos uma lata ou coisa parecida. Você não pode imaginar como eram as coisas."

Como já mencionei, este curto diálogo foi apenas uma conversa preliminar. Perguntei por que ele não considerou importante dar entrevistas e falar sobre a experiência do Holocausto. Ele explicou: "Algumas pessoas diriam: 'É verdade/ Outras diriam: 'Judenschwein.' É uma pena que não tenhamos mandado vocês para a câmara de gás. Se tivéssemos feito isso, vocês não poderiam falar". E acrescentou: "É uma questão de honra."

Antes de iniciarmos a entrevista, Feliks deixou absolutamente claro seu ceticismo a respeito desse tipo de entrevista e o alto risco de mal-entendidos, podendo provocar agitação anti-semita na Alemanha. Mas concordou em começar a contar a história de sua vida.

Todas as tentativas subsequentes de falar sobre sua experiência nos campos de concentração falharam. Por três vezes ele começou a contar um episódio, mas seus sentimentos e as imagens terríveis em sua mente o forçavam a parar. Tentou explicar esses eventos horríveis descrevendo, como contei, a maneira como lhe davam comida, como eles eram transportados para os campos em vagões de gado e como, em Lodz, as crianças eram selecionadas para morrer.

Feliks explicou: "Quando nos transportavam, eles socavam cento e vinte pessoas num vagão. Destas, oitenta ou noventa conseguiam manter-se em pé. As outras caíam, porque estavam fracas. E eram pisoteadas. Você pode imaginar."

Aí ele se interrompeu e disse: "Não quero entrar nisso. Mas isso ninguém pode sequer imaginar, sobre isso não se pode sequer falar... você compreende?"

Um pouco depois ele continuou:

E em cada estação eles paravam e atiravam fora um ou dois ou

três ou cinco ou dez. Simplesmente atiravam fora... E as

pessoas que estavam do lado de fora, tiravam os sapatos

deles..., porque eram melhores... Aquilo, aquilo tudo era tão

brutal! Às vezes, eu os ouvia... não tinham consideração por

coisa alguma. Não abriam espaço para ninguém. Um deles

disse: "Ele é fraco." Sequer consideraram que talvez ele

pudesse ser capaz de sobreviver.

...As pessoas não ficaram com nada. Por conseguinte, quando

alguém tenta falar sobre isso, tudo isso, sobre tudo por que

passou, a gente se pergunta: "Por que ainda estou vivo? Ainda

tenho direito de viver?"

Sem entrar em detalhes, gostaria de chamar atenção para o fato de que ele gaguejava. Interrompendo-se constantemente, ele continuava a procurar explicações para o fato de que estas coisas não são dizíveis, compreensíveis nem mesmo críveis. Finalmente, declarou que tinha negligenciado seu dever supremo. Esta foi a maneira de exprimir sentimento de culpa.

Rosa Fischer acrescentou que seu marido revia essas imagens durante a noite, gritando durante o sono. Feliks Fischer fez uma segunda tentativa de ilustrar sua vida no gueto de Lodz. Sem explicar onde vivia e o que fazia, ele descreveu a seleção das crianças para o envio à câmara de gás: "Eles arrancavam as crianças das mães e as atiravam contra a parede." Não explicou esse evento com maior precisão, mas mencionou que certamente conhecíamos este tipo de história através de outras testemunhas. Mesmo esta tentativa de começar um relato mais longo de sua vida terminou num diálogo com sua esposa e o entrevistador a respeito do fato de que estas coisas não são compreensíveis. E acrescentou que se sentia forçado a falar tudo isso por sua filha, por sua mulher e pelo entrevistador.

Não foram apenas o sentimento de desumanização e as imagens cruciais em sua mente que o forçaram a se tornar cada vez mais silencioso. Há outros problemas vindos da comunidade judaica em Israel e nos Estados Unidos. Profundamente enraizados na comunidade judaica, Feliks e a sra. Fischer conhecem bem o problema de viver na Alemanha, no país dos executores do Holocausto. Ainda na escola primária, sua filha foi confrontada várias vezes com ações anti-semitas. Assim, Feliks e a sra. Fischer a enviaram para uma escola primária perto de Paris. Algumas vezes os Fischer iam à França visitar a filha, mas antes paravam na Bélgica para alugar um carro com placa local. Este comportamento pode ser interpretado como um sinal de seu sentimento de culpa por viverem na Alemanha.

Acho que vocês podem compreender suas dificuldades em falar sobre sua experiência em campos de concentração e em justificar sua permanência na Alemanha. Em 1946 o casal teve a chance de emigrar para o Canadá, como muitos outros refugiados. Rosa queria ir, fala inglês, trabalhava na agência das Nações Unidas para refugiados e tinha mantido boas relações com militares canadenses. Mas Feliks recusou-se a ir; não falava inglês, e seu negócio estava florescendo. Assim, permaneceram na Alemanha apesar das manifestações anti-semitas contra sua filha, e ele se recusava a falar sobre sua história, dizendo: "Não consegui educar minha filha para odiar (os alemães)/'

Sem dúvida, ódio aos alemães teria sido a consequência necessária de um relato aberto(??) sobre suas experiências em campos de concentração. A decisão de ficar na Alemanha forçou os Fischer a assumir compromissos. Devido à sua atividade comercial, tiveram até que entrar em contato com alemães que "não tinham sido realmente OK" durante o Terceiro Reich. Isto resultou num grande silêncio. A única autojustificativa que restou foi a recusa a se tornarem cidadãos alemães. O fato de que sua filha, que foi liberada para decidir por si mesma, tenha seguido seu exemplo e que suas netas sejam atualmente ativos membros do movimento da juventude sionista, aprendam iídiche e cultivem relações próximas com Israel, lhes dá satisfação. Nesse ponto, a família de Evi (segunda geração de sobreviventes do Holocausto) está dividida: enquanto Evi considera a existência de Israel uma espécie de paraíso seguro, seu marido judeu-alemão, que prestou serviço militar no Exército alemão a despeito da tradicional isenção para judeus, vê Israel meramente como um belo ponto turístico.

Tentarei resumir as questões:

1. A linguagem cotidiana e coloquial é inadequada para descrever

as experiências do Holocausto. Portanto, apesar de sua boa vontade, Feliks Fischer não é capaz de descrever suas experiências de maneira que acredite que possa ser compreendido. Sua recusa em falar em público, ou diante de sua filha e netas, é em última análise produto desta inadequação de linguagem. Ele não é, certamente, um escritor como Primo Levi, Eli Wiesel ou Imre Kertész.

2. Existe o fator adicional da necessidade de Feliks se proteger

contra lembranças traumáticas e dolorosas. Na segunda entrevista, de que só Rosae Feliks participaram, ele disse, depois que começou a descrever suas experiências no gueto de Lodz: "Se tiver que descrever tudo... levaria meio ano." E

logo em seguida: "Já estou transpirando/' E acrescentou: "Não tenho forças para isso" [para falar sobre tudo].

3. Relatos detalhados do Holocausto só são sentidos como

inadequados quando fornecidos a pessoas que não possuem experiência pessoal dos guetos e campos de concentração. O casal Fischer fez questão de enfatizar que Feliks foi capaz de contar tudo à sua esposa. Ela sabe de quase tudo o que aconteceu com ele. Entre sobreviventes do Holocausto, Feliks e sua esposa falaram frequentemente sobre suas experiências. E por muito anos, seus amigos e parentes judeus participaram regularmente de eventos que terminavam com a discussão das experiências em campos de concentração. Isto acontece apenas quando eles se juntam a outros sobreviventes de Israel ou dos Estados Unidos. Então, falam de quantas pessoas Feliks ajudou e quem ele salvou.

4. Feliks recusou categoricamente todas as tentativas do

entrevistador de levá-lo pelo menos a contar episódios de solidariedade humana, afeto e ajuda mútua; assegurava que para ele era impossível restringir-se a episódios positivos. Ele precisava descrever também aquelas coisas de que tinha participado pessoalmente. Referia-se provavelmente a suas atividades no gueto de Lodz, onde foi membro do Funktionshäftlinge dos bombeiros judeus. O sentimento de não ter cumprido seu dever supremo faz com que não queira falar diante daqueles que não passaram por esta situação. Feliks deu dois exemplos para explicar como o cumprimento de seu "dever supremo" teria muito provavelmente significado sua própria morte: Não deveria ter ajudado aqueles que morreram durante o transporte em vagões de gado? Não deveria ter resistido durante a seleção das crianças em Lodz? O último exemplo trata de um dos mais difíceis aspectos da destruição dos judeus: a participação dos conselhos judaicos na seleção dos judeus que não eram (mais) capazes de trabalhar. Dan Diller chamou esta "auto-seleção" de "insolúvel problema

ético".7 Os conselhos judaicos (Judenrat) envolveram-se nas seleções na esperança de, pelo menos, salvar as vidas das pessoas cuja capacidade de trabalho as tornava úteis para a