História oral: desafios para o século XXI
Desafios da história oral latino-americana
O aprofundamento deste debate, contudo, convida à consideração das principais frentes de trabalhos da história oral brasileira. Alguns estudos de ponta mostram que pesquisas feitas com crianças, analfabetos, pessoas comuns, presos políticos, militares de esquerda, doentes se apresentam como assuntos mais frequentados pelos historiadores orais brasileiros. Sem dúvida, uma rápida observação sobre a temática aludida revela o compromisso político da história oral como forma de operação, que coloca inclusive a universidade a serviço militante da sociedade. Ao mesmo tempo, inverte o entendimento da história como uma disciplina distante. A simples anexação do adjetivo "oral" a esse sujeito (história do Brasil) faz com que se assuma a história oral brasileira como um contraponto às demais feitas em outros lugares, onde a naturalidade de seu surgimento e a aceitação coletiva não a convoquem a diferenciações disciplinares. A existência de uma cultura popular e de grupos sociais específicos leva à conclusão de que a história oral brasileira nasceu no momento da redemocratização, com o destino de ser uma voz diferente.
Desafios da história oral latino-americana*
Dora Schwarzstein
A história oral teve um desenvolvimento significativo na América Latina. Porém, neste contexto, como em tantos outros, sabe-se que é difícil, quando não impossível, pensar a América Latina como uma região. Para a história oral trata-se de um continente com realidades muito díspares: enquanto em alguns países latino-americanos há importantes progressos e em outros vêem-se esforços significativos, há situações em que apenas se esboçam as primeiras experiências. A permanente instabilidade política que caracterizou muitos de nossos países até meados da década de 80 e a consequente debilidade das instituições acadêmicas e universitárias geraram descontinuidades e dificuldades na consolidação de espaços de reflexão e produção no conjunto das disciplinas científicas.
Gostaria de enfatizar a importância da realização da X Conferência Internacional de História Oral na América Latina. Não é apenas o reconhecimento de que existimos, mas de que participamos ativamente com nossos temas e estilos do movimento internacional de história oral. Por outro lado, não é por acaso que o país latino-americano eleito como sede seja o Brasil, como tampouco que o México tenha se oferecido para sediar a próxima conferência internacional. Ambos, com suas diferenças e especificidades, há muito vêm sendo pioneiros no desenvolvimento de projetos de história oral. São projetos que perduraram no tempo e que encontram estes dois países na plena maturidade de seus trabalhos, de suas instituições universitárias e não-universitárias, como esta fantástica Fundação Getúlio Vargas que nos acolhe nestes dias.
Quero, contudo, mencionar outras realidades diversas. Meu país, a Argentina, por exemplo, amplamente representado nesta conferência, encontrase em outra etapa.
Apesar da existência de um conjunto significativo de professores universitários interessados na prática da história oral, e que realizam suas pesquisas utilizando prioritariamente esta metodologia, há sérios problemas para a integração da história oral nos meios acadêmicos universitários. Isto levou a uma certa oposição entre a prática da história oral e os meios universitários, confirmando tendências ocorridas em outros lugares do mundo, onde as experiências de produção e uso de testemunhos orais foram realizadas, em grande parte, fora das universidades. Isto produziu, de um lado, problemas com alguns membros da profissão, resistentes à incorporação da história oral em seu universo. De outro, um difícil diálogo com os "militantes" da história oral que rechaçam os procedimentos científicos como uma espécie de traição à voz dos "verdadeiros protagonistas" da história. É evidente que estas divergências são obstáculos que devemos superar.
As universidades públicas, que se deterioraram durante o período das ditaduras, foram paralisadas como resultado do arrocho orçamentário. É importante mencionar a inexistência de bibliotecas e a dificuldade para se ter acesso à bibliografia geral e específica. Não há, na Argentina, nenhuma biblioteca pública que tenha a coleção completa de Historia, Antopología y Fuentes Ovales, para não falarmos de revistas inglesas e norteamericanas.
Existe uma quantidade de instituições que realizam denodadamente programas de recuperação da memória em condições de grande aperto orçamentário e sem contar com apoio suficiente. Só nos últimos anos houve um certo interesse pelo desenvolvimento de museus de temática histórica, e a incorporação neles de testemunhos orais está em estado germinal.
Enfrentamos, simultaneamente, grandes dificuldades em responder a um dos desafios mais importantes que Philippe Joutard colocou: a utilização da tecnologia. A Argentina tem uma taxa baixíssima de novos usuários da Internet. É evidente que os recursos de informática trazem problemas mais graves quando a falta de recursos é aguda.
Como na Argentina, outros países da região mostram realidades muito diversas e mutantes. Tal é o caso de Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia, Costa Rica, Guatemala, Venezuela, Cuba. Apesar dos esforços institucionais e pessoais, não temos instituições no estilo do CPDOC brasileiro, ou do Instituto Mora, do México.
Na Argentina e no Uruguai, ao contrário, os centros acadêmicos independentes, verdadeiras ilhas durante os anos das ditaduras militares, passaram por crises profundas e foram desaparecendo.
Para terminar este ponto, gostaria de reiterar a impossibilidade de se falar de América Latina como região e recuperar a idéia de realidades e desenvolvimentos diferentes e, portanto, de distintos desafios, para compreendermos as encruzilhadas teóricas e metodológicas que a prática da história oral hoje enfrenta em nossos países.
Na sessão inaugural desta X Conferência, Mercedes Vilanova falava da necessidade de deixarmos de ser provincianos. O que significa esta exigência para a América Latina?
Creio que devemos aproveitar oportunidades como esta conferência sem complexos ou sentimentos de inferioridade. Pelo contrário, devemos afirmar-nos nas originalidades nacionais, como assinalou Roberto DaMatta em nossa sessão de abertura, para marcarmos com força aquilo que nos interessa investigar.
Creio que esta é a resposta à pergunta de nosso colega brasileiro José Carlos Sebe Bom Meihy acerca de nossas responsabilidades e compromissos específicos com nossos meios sociais. Porém, simultaneamente, graças ao diálogo global, não provinciano, e pelo que temos lutado e que conseguimos aqui no Rio de Janeiro, não vejo motivo pelo qual devemos renunciar a qualquer aporte teórico ou historiográfico. Não devemos renunciar nem a Max Weber nem a Marx nem a Sandro Portelli nem aos Estudios Subalternos de la
Índia. 1 Tampouco a José Luis Romero, Roger Chartier ou Boris Fausto.
Servirão para "nós" os mesmos modelos europeus e norte-americanos? Teríamos que produzir nossos próprios critérios analíticos? Pergunta-nos nosso colega brasileiro.
Tudo dependerá das prioridades temáticas que seguramente não se definirão no estreito marco da história oral, mas no da historiografia mais geral. A resposta será definir os temas atendendo não apenas a questões específicas da história oral, mas às grandes encruzilhadas da história. Quer dizer, respondendo a uma época de fim de século, onde parece haver tanta distância entre a paixão memorialística e as dúvidas da história profissional que tornam tão difícil responder aos desafios levantados por Antonio Montenegro.
No Brasil, como em outros países da América Latina, há setores interessados em promover o esquecimento. Outros propõem o memorialismo, com que não podemos nos identificar porque, como dizia Joutard, "somos historiadores e não memorialistas". Em outras palavras, recuperar a memória é importante, mas não é suficiente.
Como, então, desenvolver a consciência histórica de modo crítico e criativo? Devemos enfrentar o desafio de desarticular as lógicas de dominação e restituir aos grupos, às classes subalternas, sua condição de sujeitos plurais que habitam de pleno direito a história de nossos países. Mas isto implica reconhecer que muitos destes sujeitos não têm acesso a suas próprias representações e que suas experiências, suas vozes não podem ser ouvidas simplesmente como tal. Porque, como diz Homi Bhabba, não se trata de vozes inocentes, estão mediadas pelo diálogo que têm com o entrevistador através de suas próprias ideologias. Portanto, são sempre vozes
construídas, vozes produzidas. 2 Escutar as vozes nessa perspectiva nos permitirá questionar o que entendemos por nação, por cultura, indagar sobre a cidadania e a comunidade.
Creio que um tema com que devemos nos preocupar é, indubitavelmente, o da dominação. Não me refiro à dominação por "eles" (os marcos teóricos europeus e norte-americanos), mas ao fenômeno mais geral que se vincula à produção documental das elites coloniais, como também à das elites nativas que se reconstituíram no poder para apresentar a missão civilizadora da
Europa em outro cenário.3 O que deve inquietar-nos - e aqui nossas ferramentas teóricas devem ser muito sofisticadas - é o fato de que os testemunhos dos dominados são produzidos dentro de campos bem definidos de poder. A alternativa, então, não está em uma mera busca de novas fontes para uma nova história, tampouco na elaboração de marcos teóricos necessariamente distintos e "nacionais"; o importante é tratar de entender como o testemunho se constrói e se constitui, e como funciona a matéria-prima com que devemos trabalhar.
Neste contexto, creio que, não há problema em produzirmos nossos próprios textos teóricos. Ninguém nos impede, desde que isto não signifique renunciar a nada. Se nosso objetivo é a historicização da memória, a melhor homenagem à memória do mundo dos vencidos é escrever e tornar sua história inteligível, o que só lograremos através de procedimentos rigorosos, no momento da entrevista e em sua posterior interpretação. Contudo, a análise em profundidade e a interpretação complexa dos testemunhos recolhidos são tarefas complicadas, e é neste ponto que o debate com colegas de todas as latitudes e de diversas disciplinas torna-se imprescindível.