Jacinta Passos, coração militante
Fortuna crítica
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Em os Poemas políticos, 1951, vamos ter o resgate do maior símbolo de luta pela liberdade do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que vai funcionar como uma espécie de fantasma que a todo o momento é invocado como herói maior da historiografia oficial; não se questiona o porquê de Tiradentes ser o único levado a forca, enquanto os outros, bacharéis em direito, foram poupados da morte, indo para o degredo ou exílio.
(...)
Recebi os mensageiros
Mister do rei venerável.
Beijei-lhe a mão no Palácio
Tiradentes. Dei discursos
Castiços salamaleques
E banquetes até rosa
Eu lhe cedi, respeitosa.
(...)
(Passos, 1951, p.21).
Ninguém viu a face. Seus longos cabelos
De mártir, alumiando o mar.
Contam que ele desce das montanhas, noite
Alta e vigia.
(Op.cit., p.31).
(...)
Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes?
O quinto do ouro, a família real, e o vinte-e-um de abril?
Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo
No turvo. O demônio da guerra
Nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: – Não podemos
parar. Não queremos morrer.
E a terra sob os pés estrangeiros. Aqui é Brasil:
Ódio puro ódio, florestas e cidades acesas,
punhos altos se multiplicando
Ah! Cavaleiros do lucro como sois pequenos.
Sangue do asfalto de Esplanada aos campos de Tupã.
(...)
(Op. cit., p. 32).
Depois de alguns abortos, e após uma gravidez complicada que fez com que Jacinta Passos ficasse internada por seis meses na maternidade em Salvador, finalmente, em abril de 1947, nasce Janaína, o que parece a realização de Jacinta enquanto mulher, para quem ela escreve Canção para Jana, indo os três viver em Ilhéus. Em 1950, a família muda para o Rio de Janeiro, onde o marido passa a escrever na Imprensa Popular e a poeta lança o livro Poemas políticos. A publicação desse livro, bem como a militância revolucionária, levam Jacinta à prisão. A partir dessa prisão ela passa a apresentar distúrbios nervosos; data daí sua primeira internação em clínica psiquiátrica, segundo Dalila Machado, acompanhada do marido. Daí deriva a mania de perseguição.
A partir de 1953, Jacinta é transferida para um hospital psiquiátrico em São Paulo, onde fica internada sozinha, submetendo-se ao tratamento, hoje cruel e ultrapassado, de eletrochoque, choques insulínicos e barbitúricos, quando os médicos dão o diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Escreve nesse período seu terceiro livro, A Coluna, publicado em 1957. Apesar do tratamento psiquiátrico a que foi submetida, Jacinta demonstra profunda lucidez ao resgatar a história da Coluna Prestes do ponto de vista do perdedor, uma vez que a história oficial é narrada sempre do ponto de vista do vencedor. Assim, Jacinta demonstra extrema lucidez ao rememorar um dos mais importantes movimentos de resistência da história do Brasil. Outra prova da lucidez de Jacinta está na dedicatória de próprio punho, no livro Poemas Políticos, para sua filha, a qual transcrevemos na íntegra:
Para minha filha
Janaína
Lembrança de sua
Mamãe
Jacinta
Bahia, ano-bom de 56
Portanto, não compreendemos por que Jacinta quis se isolar num hospital psiquiátrico. Quais motivos levaram Jacinta a buscar a solidão ao invés do seio da família? Seria a necessidade de ser só? Buscar seus próprios fantasmas? A esquizofrenia? O certo é que Jacinta jamais perdeu a altivez, nunca se fez de coitada; ao contrário, quando internada em Aracaju, ela fazia questão de dizer que estava trabalhando para pagar a estadia.
Após obter alta do Hospital psiquiátrico de São Paulo, retorna à Bahia, de onde segue para Petrolina, na divisa da Bahia com Pernambuco, permanecendo de 1958 a 1961, já separada do marido, que ficara com a filha. Em 1962, querendo ficar mais perto de Salvador, passa a residir na região metropolitana de Aracaju, mais precisamente em Barra dos Coqueiros.
Em Sergipe, Jacinta leva uma vida singela. Durante a noite escreve e durante o dia tenta vender seus escritos para complementar a quantia que a família remetia de Salvador. Vivia modestamente, isolada de tudo e de todos, fechada em si mesma. Passa a levar uma vida ainda mais pobre quando é despejada, indo viver num casebre tosco, sem cama, mas a beira da praia. Porém a pobreza absoluta nunca a fez parar de escrever; nunca deixou de responder com altivez àqueles que a importunavam.
Cabe destacar aqui o episódio descrito por Dalila Machado, quando Jacinta foi assistir ao filme "A balada do soldado" em Aracaju; ao terminar a exibição do filme, Jacinta, como boa intelectual e pessoa "antenada" com as questões do seu tempo, propôs um debate sobre o filme, o que não foi aceito por não estar bem vestida. Então ela conclama os estudantes de um respeitado colégio, O Ateneu, e os estudantes ficaram e debateram o filme. Mais um momento de lucidez de Jacinta Passos, que ao mesmo tempo que se isola da família, não perde de vista as questões de mobilização política.
Jacinta continuou a viver na contramão, transgredindo, fazendo manifestações. Discursava, muitas vezes não era entendida, sendo mais uma vez colocada à margem, mas ela sempre reagia às agressões, o que começa a incomodar os políticos do lugar. Interrogada várias vezes, Jacinta nunca baixou a cabeça; soube ser irônica, exaltada, demonstrando independência de ideias. Foi presa e recolhida ao sanatório público do Estado de Sergipe. Nesse ínterim a família é avisada, e Jacinta é transferida para uma clínica particular.
Em depoimento ao médico Dr. Hercílio Cruz, Jacinta demonstra profunda lucidez sobre sua vida e seu comportamento. Cabe aqui a transcrição da última parte da ficha médica:
"Em 1950 foi presa no Rio de Janeiro por causa da literatura política, livros de poesia que publicou – Poemas políticos; por essa prisão e pela perseguição política ficou "nervosa" e foi internada em estabelecimento cujo nome não se recorda, seguindo para o sanatório Charcot em São Paulo, onde se submeteu ao último tratamento em 1955, e, obtendo alta como curada, regressou à Bahia. De 1958 a 1961 residiu em Petrolina. Em julho de 1962 veio para Barra dos Coqueiros, porque achava mais perto de Salvador (sic)." (Apud Machado, p.30-31).
Com o golpe militar de 64 as autoridades passaram a perseguir todos aqueles que tinham ideias revolucionárias, sempre na contramão da burguesia, suportando as dores do mundo como dores individuais. Torna-se mais fácil colocá-la mais uma vez num sanatório psiquiátrico, tentando calá-la. Na casa de saúde em Aracaju, Jacinta assistia televisão, ouvia rádio, ficava afastada dos demais enfermos, demonstrando mais uma atitude de lucidez quando se negava a tomar remédios, afirmando ser presa política, tratada inclusive por funcionária do hospital como intelectual, jornalista.
Jacinta Passos, assim, fechou-se em si mesmo. Na sua solidão buscava sua própria liberdade, um lirismo sofisticado e ao mesmo tempo infantil, com imagens que remetem à sua infância em fazenda, família abastada e poderosa do Recôncavo Baiano, uma mulher de educação primorosa, que mesmo cerceada da sua liberdade de ir e vir, nunca deixou de alçar voos através de sua escrita, incomodando as elites da época, chocando por querer conquistar um espaço num lugar que foi destinado aos homens. Uma mulher que quebrou o cânone literário brasileiro, que foi reconhecida como grande poeta pelos mais renomados críticos literários; uma mulher que sofreu para realizar-se como mulher. Fez do cárcere, dos tratamentos dolorosos, sua vontade de viver, afinal, poderiam lhe tirar os dedos e ela continuaria manipulando o bem; poderiam cortar suas mãos e ela ergueria os pulsos; só não lhe poderiam tirar o amor, a vergonha e o poder da palavra, a escrita, pois assim ela morreria.
Para consolo de uma burguesia, falece aos cinquenta e nove anos Jacinta Passos, no dia 28 de fevereiro de 1973. Daí a necessidade de resgatar a poética e a vida de Jacinta, para que seja colocada no panteão das grandes escritoras do Brasil, e dos heróis que deram a vida pela abertura política – para que sirva de exemplo a gerações futuras.
A lira que brada47
José Umberto Dias48
Letras negras sobre folha branca compõem o estrado que espicaça a imaginação. O leitor inventivo submerge na mina de palavras à guisa de um repertório. Bebe-se então da fonte, com satisfação. A poética concêntrica de Jacinta Passos, sobretudo simpática e mutante, é um convite generoso à leitura sensível daquele que se afasta do feitio acadêmico. Ela desperta o refino de sentimento, pela via do útero com o rigor de sentido, esgarçando-se em rotações. Poesia parida ao corte umbilical da existência partida.
Viagem sem ancoradouro. Teto de vidro, quebrado. Errância em fome de absoluto. Certeza da simplicidade, embora paradoxal. A poeta bissexta brota do massapé do recôncavo baiano e logo descobre o luto geotectônico submetido à [des]ordem amorosa patriarcal. A intuição de feminismo inaugural se choca com a ortodoxia ideológica de conteúdo, cujas lâminas retalham seus nervos aturdidos, para depois experimentar o cárcere do manicômio e sucumbir contemplando o calvário na barra dos coqueiros de Sergipe d'El Rey.
O véu e a grinalda conspiram como fetiches de idealização nupcial da odalisca. Jacinta enjoa da boneca e os ovários fecundam vocábulos. Embora cultive e libere a maternidade como ofertório da criação em rito de sacrifício doador. A oralidade da cantiga de roda cadencia sua entonação. E o eco de criança se propaga na partitura das trovas. Num discurso que é voz com timbre de notas musicais. A vate compõe ode pela acústica de romança embalada em cordas de cristais. São estrofes inspiradas em modinhas cujo cântico das quadras configura a fuga em lá maior. Nesse estúdio da alma de bardo se solta a privacidade e escancara a alcova ao tom de confissão pública. Uma trovadora de repercussão vibratória. O verso em reversos de desdobramentos. Menestrel que convida ao outro. Dar-se pela janela de rua na perspectiva de construção. Canto de trabalho: didática de sedução. Viola que comunga; lira que reune.
Sua verve embola a cantiga num tropel de sons que nina a humanidade numa esquina do cosmo. Essa infância perdida e reencontrada na esperança de palavras abandonadas numa arca debaixo da ponte que rola o vapor de argonautas do Paraguaçu ao enlevo de seus ancestrais. A correnteza deságua no oceano, que acena para o mundo, ali mesmo onde as estrelas piscam mistérios de sete portas sujas e escancaradas. A atalaia da salvação adentra as igrejas barrocas em que anjos azuis mijam água benta nos umbrais. Mas a morte inquieta e o amor se projeta na solitude. E ampliando o panorama, a força que gravita o capital elege a exploração do ser pelo não-ser a desfilar no talude como Miss. A beleza por sua vez recua, na condição de mercadoria. A criança afasta o brinquedo, uma vez que se proíbe sonhar o sonho dos justos. Enquanto o trabalho se troca por frustrações e na oficina amorosa se compra desilusão. Jacinta recebe o lápis de cera e rabisca o silêncio que incomoda os corações cinzentos divididos em classes sociais.
Despede-se da "gente marcada" na direção das plagas do encantado. O canto alegre prenuncia o interregno, sem delongas. Orienta-se, porém, pela estrela do Oriente, sua guia que não cobra pedágio à revelação do segredo, das malhas invisíveis. E o tesouro que leva, escondido no púbis, antes distribuiu democrática aos camaradas de catacumbas. Segue a jornada, inteira e altaneira. As partículas encarregam de juntar-se ao junco. União ou fissura, importa a ternura. Já que a caminhada de pés descalços perdura sem a convenção do tempo ao espaço sem fronteiras. Transfigurada, beija a face do mundo, e perdoa a tristeza. A trilha não tem fim nem começo. Ela, de cabelos molhados na chuva, autorrecria sem lágrima sequer adeus, quando no percurso não faz alusão à saudade da "gaiola / onde canta o sabiá". Pois Jacinta não buscou a tradição do exílio, mas a revolta pacífica de reconciliação. Abandonou a aparência para o ingresso na essência, da palavra. A matéria, desse modo, possuindo uma segunda natureza, imprevista. A coragem consiste em enfrentar porquanto a servidão está em ignorar. A pureza, cristalina, desta feita transita à luz tão veloz quanto o idílio, indissolúvel.
Galope fugaz ao ventre que gera a desigualdade e aborta o mal. Território da miscigenação cordial com o travo de sangue pisado. O País do Entrudo cuja máscara de felicidade acolhe o ninho do infortúnio. E a mulher habita essa "prisão milenar". Quando então Jacinta ousa anunciar o seu canto de rua e o lamento do lar. São estrofes bifurcadas, posições oblíquas, gestos assumidos de nariz arrebitado, irreverentes. Uma semântica onde as contradições dançam embaladas em ritmo andante. De provincial à cosmopolita campônia. Superando a estreiteza do ego em busca do ilimitado mítico. A individuação cede espaço especial ao inconsciente coletivo. O seu coração bate no seio da comunidade. O totem comunista é o falo que corresponde ao jogo dum orgasmo espiritual pleno. E do alto da impessoalidade, da renúncia à tribo personalista, da denúncia à armadilha gramatical corporativa, da negação à indiferença cínica, a voz coletivista vibra e evoca melodias no plano horizontal do arquétipo na anterioridade do relógio. O segredo íntimo da placenta cósmica estando para além da couraça de individualidade. Limitada, e ilusória. Exigindo-se de todo pênis e de toda vagina uma carinhosa e épica metamorfose: ultrapassagem. Voltas que o mundo dá, câmara.
Canção que se funde à ética. De compromisso, partilhada, engajada na pulsação de vida. De palavras, ritmo e comunhão, ecos-musicais, espontâneas e sinceras. Simplesmente, acrescentaria o visionário Rimbaud colorindo as vogais num palimpsesto comunitário.
Só o verbo redime essa mulher de fibra. E os poemas sentam no seu colo forrado de jasmins. Ela aí acaricia as contradições em versos livres que, às vezes, rimam ao ritmo das trovas populares ouvidas nos quintais de goiabeiras. Uma sonoridade embalada na redondilha de uma lira que se contém. Ao intervalo respira fundo, mas chora, indignada. Já que o verso não liberta, de imediato, ao menos desperta a pupila da menina num mundo adulto, de doer. Uma realidade em metamorfose. Uma rosa escarlate gerada à beira do asfalto poluído. Militante à gauche da comuna que brada por Lampião, companheiro esdrúxulo da vingança histérica nos sertões. Evoca a picareta fincada na cabeça de Trotsky exilado no México, onde a caveira da morte se come doce no velório de tequila. Para na penumbra se vislumbre que a criação do poder é o fantasma da liberdade de Buñuel de mãos dadas com o bardo Shakespeare. A política se mostra incapaz de produzir poesia. A fraternidade não se olha ao espelho. A igualdade se fragmenta em ambiguidades. À poeta resta ouvir a música de seus versos e sorrir ao ricto da loucura.
A escritora nomeia pessoas do seu afeto, mas impõe uma postura distanciada da melancolia e que lhe assegura o patamar de dimensão lendária. Esse foco narrativo, tomando de empréstimo elementos folclóricos, como contraponto de paródia, sublima o real pela categoria alegórica, em montagem de metalinguagem, a fim de pontuar possíveis conflitos de luta de classes numa taba que prima pelo regime da exclusão. Pontua a periferia do capitalismo tardio sem tropeçar em esquematismo doutrinário. O naturalismo das situações transcende a descrição para se atentar ao domínio da fábula. Uma operação transubstanciosa que beira o ingênuo. Mas a atitude é consciente de um olhar infantil. Os versos possuem o relevo das descobertas primárias. O coração fala por si. Não por mera paixão. Mas imbuído de uma preservação da candura nascida de baixo-ventre. Inaugurando paisagens, sem o filtro da convenção sisuda. Mostrando e escondendo, ao mesmo tempo. Descortinando, sem o véu da culpa. Brincando de inventar. Num exercício suave, ambivalente, às vezes tenso, provisório, incerto, indefinido, sem perder a fé, seu laço místico, até messiânico, cujo eixo central do redemunho poético fosse a mandala infante diante do desconhecido. O intelecto, na instância, põe-se oblíquo. O entendimento vem por trás da intuição. Que se abre ao inesperado. E o fabuloso se encaixa na consciência pelo véu da transparência. As palavras partem da lembrança e jorram por livre associação. O jogo então tá armado. O resto é combinação, de sorte ou azar no tabuleiro da História.
A lírica da crítica social na poesia de Jacinta
Passos49
Gilfrancisco50
Em novembro do ano passado (2004), a poeta baiana Jacinta Passos (1914-1973) completaria 90 anos de idade. E mais uma vez esta data passou despercebida dos estudiosos baianos. Apesar de ter sido uma das pioneiras na luta contra as injustiças sociais, esta militante comunista, que atuou em vários estados da federação brasileira, continua desconhecida entre as novas gerações. Jacinta Passos possui uma obra quantitativamente pequena, mas constituída de força e vigor, que deverá merecer a toda evidência as melhores referências críticas.
Poeta de alma popular, Jacinta Passos lutava entre a tempestade e o sentimento, para salientar a força da imagem e a originalidade poética dos seus textos. Por isso produziu uma obra em plena consciência crítica da condição/realidade humana, uma poesia para a vista, poesia para o ouvido.
Entretanto, só nos resta esperar a publicação, que ocorrerá ainda neste semestre, da reunião de sua obra, Canção Atual (4 livros), acrescida de novos textos, estudos críticos, iconografia e fortuna crítica, edição organizada por sua filha, a professora e escritora Janaina Amado.
* * *
A partir do modernismo brasileiro, vemos formar-se em nossa literatura um extraordinário conjunto de obras poéticas. Extraordinário não só por suas virtudes enquanto poesia, mas também – ao que tudo indica – por não encontrar paralelo em nenhum dos períodos anteriores. Este conjunto de obras oferece ainda uma característica singular, o intenso e produtivo diálogo entre os poemas e a política de seus autores.
Embora a produção de um autor seja o único dado capaz de fornecer os elementos necessários à compreensão de uma visão de mundo, muitas vezes temos de perseguir, no momento histórico que envolveu a obra, as pistas para a compreensão do fenômeno literário. O conhecimento do contexto social, econômico, político e artístico que a cercou pode ajudar a compreender melhor sua temática, sua linguagem e até mesmo suas intenções, principalmente porque (sua concepção de que a poesia só tem sentido quando muda alguma coisa) poderemos estabelecer relações entre sua produção e cada um dos momentos que a envolveram. De sua obra tem-se melhor impressão pelas provas que nos dá de lucidez e competência ao lidar com as palavras; por isso é fácil deixar-se atrair pela elegância, pela clareza e pelo sentido rítmico de sua linguagem.
Jacinta Passos tem a poesia como forma de indagação e conhecimento do mundo, como uma luta em busca do sentido das coisas, da própria vida e da literatura, como a necessidade de resgatar a experiência da vida, de não deixar que ela se perca. Acompanhou as trajetórias da arte, durante todo o percurso crítico que empreendeu, no sentido de compreender, aceitar e participar das tendências por que passou a poesia brasileira, a partir da Semana de Arte Moderna em 1922. Jacinta Passos espanta pelo arrebatamento que marca não só sua obra, mas também sua vida, povoada de atividades múltiplas, porque as ações humanas implicam uma relação com a verdade. Por isso vê o poema como objeto construído com medida e rigor.
Nascida em 30 de novembro de 1914, na Fazenda Campo Limpo, no município de Cruz das Almas, sendo seus pais Berila Eloi Passos e Manoel Caetano da Rocha Passos, viveu alguns anos na cidade de São Félix, passando em seguida a residir em Salvador, juntamente com a família, por ocasião do ingresso do pai na carreira política, quando este foi eleito deputado estadual pela legenda da UDN-União Democrática Nacional e deputado federal constituinte.
Diplomada pela Escola Normal da Bahia, em 1932, com distinção, Jacinta Passos passou a lecionar nesse mesmo estabelecimento de ensino as disciplinas de Matemática e Literatura Brasileira no curso secundário. Jacinta Passos é uma das maiores poetas baianas, uma figura marcante no cenário político brasileiro, uma poeta de características construtivistas, que pesquisa e trabalha a forma, mas a linguagem que utiliza quase sempre é coloquial, simples, da mesma maneira como fala. A jovem baiana vive sua infância e juventude no interior do estado, em plena transformação, período cuja política se apoia na hegemonia dos grandes proprietários de terras. O panorama social que começa a se transformar em fins do século XIX, com a Abolição da Escravatura e o início da imigração, tem seu processo acelerado com a Primeira Guerra Mundial.
O domínio que a poeta da "Canção da Partida" foi adquirindo sobre as palavras, com uma sólida base humanista, vem desde "Momentos de Poesia", coletânea de versos, que mesmo inédita e sem título definitivo na época, foi submetida à apreciação do crítico literário Carlos Chiacchio (1884-1946), colaborador efetivo que mantinha no jornal A Tarde uma coluna intitulada "Homens & Obras" (1928-1946), onde publicou 957 rodapés, principalmente de crítica literária. O referido comentário, publicado em 6 de outubro de 1937, diz o seguinte: "Poesia, é o título arbitrário que adotei para revelar o nome de Jassy Passos. Os versos, ademais, não me foram mandados para nenhuma revelação. Eu é que reputaria um crime se não dissesse deles a surpresa agradabilíssima que me causariam. Por quê? Há entre nós uma inteligência harmoniosa de artista do verso, como Jassy Passos, e deve-se trazê-la à admiração justa do público que ainda tenha em apreço espiritual as espontaneidades do talento. Não é possível o silêncio. Perdoem- me os delicados melindres da jovem poetisa. Os versos é que não carecem de pedir perdão. Defendem-se com toda a força da sua indiscutível pureza. Vamos ler sem mais comentários, o soneto Maria":
Ergue-se a cruz no cimo do Calvário
Após cumprir sua missão, Jesus,
que por nós nasceu pobre e solitário
por nós agora vai morrer na cruz.
Já se fez o divino donatário
de tudo o que era seu. Bênção da luz
que desceu sobre o mundo tumultuário,
é doutrina de amor que ao céu conduz.
Prisão, tortura, sede, fundas dores
desprezo, ingratidões, açoites, horrores,
tudo sofreu por nós, pobres mortais.
E ainda nos dá, no instante da agonia,
santificado, o vulto de Maria
que é o bem maior que todos os demais.
"Dir-se-á que, nem o assunto nem a forma são essas novas. Quem já não escreveu sobre Maria? Antologias se contam. Quem já não fez sonetos? Só os que ainda não nasceram para poesias. O que há, porém, em Jassy Passos, é a concepção nova do sentido estético da fé – que há uma ética da fé – naquela chave, verdadeiramente de ouro, se já não fosse tão mal usada a expressão". Repitamo-la:
E ainda nos dá no instante da agonia,
santificado, o vulto de Maria
que é o bem maior que todos os demais.
"Nunca ninguém disse com mais simplicidade sobre um dos maiores temas do catolicismo, que é esse "bem maior que todos os demais", legado por Jesus.
Não se pense, todavia, que a arte de Jassy Passos se valha do sentimento místico para vingar louvores ou captar simpatias. O seu espírito é sincero. Em outras mostras dá mérito, acusa uma sensibilidade notável para os aspectos da natureza, como no poema 'Manhã de Sol', cujo fecho demonstra, apesar da homofonia, a emotividade lírica de Jassy Passos":
E todo esse esplendor se comunica
à alma da gente que vibrando fica,
e, com alta emoção, esplêndida e feliz bendiz
numa alegria incontida
a glória de viver e a beleza da vida.
"Já, agora, integra um dos poemas inéditos de Jassy a nova poesia baiana":
Meu sonho
O meu sonho
mais risonho
é suave e pequenino
resumindo entretanto o meu destino.
É de cor azul sonora
como o mar que longe chora.
É cor de infinito e de ânsia,
cor de céu, cor do mar, cor de distância.
Tem a leve suavidade
da saudade.
E a cantante doçura
de um regato que murmura.
Macio e encantador
É caricia de pluma e perfume de flor.
O meu sonho
mais risonho
é para mim, cada momento:
o motivo maior de doce encantamento.
"Sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma, Jassy Passos é uma das mais legítimas expressões do nosso lirismo feminino."
Seu livro de estreia: "Nossos Poemas". Dividido em duas partes, Momentos de Poesia, de Jacinta Passos, e a segunda, Mundo em Agonia, de Manuel Caetano Filho – seu irmão, quatro anos mais moço. Salvador, Gráfica Popular, 1942, onde a religiosidade, marcada pelos anos de juventude, transparece ostensivamente nos 38 poemas. Muitos destes, publicados em vários periódicos de grande circulação nacional, como a revista cultural A Ordem, do Centro D. Vital, do Rio de Janeiro, fundada pelo sergipano Jackson de Figueiredo (1891-1928), onde publicou dois poemas em 1940: A missão do poeta, Vol. XXIII; Sacerdócio e Alegria, Vol. XXIV.
Embora "Momentos de Poesia" seja sempre citado como inicio da produção poética de Jacinta Passos, obra que reúne poemas marcados pelos motivos que Salvador e algumas cidades do interior baiano lhe haviam oferecido até aquele momento, são poemas latentes, ainda vagos, que a poesia luta para transformar em palavras concretas, buscando um caminho poético próprio, para quem o poema depende essencialmente da lógica de sua construção, procurando desmistificar os mecanismos de funcionamentos da linguagem. Por isso mereceu, quando do seu lançamento, um pequeno comentário publicado na revista Seiva nº 14, out. 1942: "Não importa, assim, que o sr. Manuel Caetano Filho seja mais cerebral do que sentimental – o que talvez seja uma qualidade da sua poesia; como não importa igualmente que a sra. Jacinta Passos ainda não encontrasse claramente o seu caminho. Mas não tardará a encontrá-lo. As qualidades de sua poesia são excelentes, nada ficando a dever, em expressão poética propriamente dita, a qualquer dos poetas que fizeram os grandes poemas a que nos referimos".
Sua segunda coletânea, Canção da partida. São Paulo, Editora Gaveta, 1945, o mais importante dos seus livros, apresenta uma edição limitadíssima de 200 exemplares em papel bouffond de 1ª qualidade, sendo 45 numerados e assinados pela autora e 10 exemplares contendo uma ponta-rica original do artista plástico Lasar Segall, marcados de A a J, tendo 121 páginas, onde a poesia de Jacinta Passos assumiu aspecto de maior espessura e ganhou condições de fluir em outros poetas, por ter sido um exato e comovido exercício de busca pelo ser. Porque a poesia se faz com as palavras com que homens e mulheres amam, se entendem, se complementam e indicam novos rumos, inserindo-se na ação divina no que ela tem de mais criador.
É a partir desse livro, que mereceu em 1990 uma 2ª edição, em comemoração aos 45 anos de sua publicação e 76 de nascimento da autora, através da Empresa Gráfica da Bahia/Fundação das Artes, com tiragem de dois mil exemplares, num belíssimo trabalho cuidadosamente apresentado pelo crítico paulista José Paulo Paes (1926-1998), que surgem as preocupações com os grandes temas do homem do cotidiano, as recordações de infância, a dor, tristeza, a solidão. Jacinta Passos vai criando uma tonalidade; suas experiências, suas lembranças, todos os seres formam uma continuidade dentro dela e dentro da história, um universo em que nos faz penetrar, povoado de símbolos expressivos que, aparecendo sob diferentes formas, constroem imagens e metáforas reveladoras de um estado poético transcendente.
Em 1945, recém-casada com o escritor e tradutor James Amado, se candidata a deputada estadual pelo PCB da Bahia, sem conseguir eleger-se. É ainda o ano em que termina a guerra, com a vitória dos aliados, delineando-se a partir de então os caminhos da redemocratização no país, com o aparecimento de vários partidos políticos, inclusive o PCB, culminando com a destituição do presidente Getúlio Vargas. No ano seguinte, o Brasil ganha sua quinta Constituição e o PCB, que fora legalizado um ano antes, volta à clandestinidade em 1947. Em 1948, o país rompe novamente suas relações com a extinta União Soviética.
A partir daí, o país vivendo as influências da Guerra Fria, alinha-se ao Bloco Ocidental, que realiza uma política de contestação do avanço comunista. Transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1951, onde intensifica sua atividade política, passa a colaborar na "imprensa de esquerda": Voz Operária, Hoje, Imprensa Popular, dentre outros, e milita em organizações empenhadas na defesa dos direitos humanos e pela legalização do seu partido.
Jacinta Passos publica seu terceiro livro – "Poemas Políticos", Rio de Janeiro, Casa do Estudante, abril de 1951 -, dividido em três partes: Poemas Políticos; Canções Líricas e Canção da Partida, um pequeno livrinho de 87 páginas que totalizava 19 poemas. Sua presença também se estendia à política, na natural complementação de uma luta por uma sociedade justa e fraterna que abraçava todos os campos.
A própria instabilidade social do país favorecia essas oscilações, daí uma série de marchas e contramarchas estéticas. Desse exercício de adolescência, passou diretamente para a maturidade, cujos resultados seriam registrados nesse livro, obra composta de poemas reveladores das suas preocupações à época, que lhe garantiria um posto de destaque na poesia brasileira.
São poemas em que ela exprime a totalidade de suas experiências no plano da vida e da literatura, por versos carregados de paixão corporal, buscando na poesia uma forma de expressar suas mudanças e seu aprofundamento de visão da realidade: a solidariedade para com os menos favorecidos é um dos temas mais explorados por poemas longos, líricos em sua maioria.
Audaz, inovadora da linguagem poética e nutrindo o mais profundo respeito pela tradição, Jacinta Passos abriu, com sua solitária voz, as portas do cenário poético baiano em que a poeta, a cronista e a militante confluem para "agudizar-lhe" ao extremo a compulsão de mergulhar cada vez mais fundo em busca do novo, do moderno.
Ao desabrochar sua potencialidade literária muito jovem, Jacinta Passos está marcada por uma profunda unidade, com o seu perfil inquieto e revolucionário. Poeta da poesia, ela deixou uma obra – apesar de pequena, em termos de produção, mas de grande importância para nossas letras, que certamente sobreviverá à sua própria morte, verdadeiro tesouro que se manteve escondido por todos esses anos.
Jacinta Veloso Passos atinge uma tensão emotiva ainda rara em nossas letras, e através de combinações, o sagrado fogo da eterna poesia de extraordinária riqueza e lirismo, no mais espontâneo de sua criação poética, não altera nem perturba o seu prodigioso domínio sobre si, porque sabe de onde vem e para onde vai, com a mesma consistência e igual intensidade, desde o primeiro poema de "Momentos de Poesia" ao último verso de "A Coluna". Assim era a poeta Jacinta Passos, em permanente estado de poesia.
Ao conquistar lentamente um estilo pós-moderno, pós-guerra, onde já revelara o gosto pelo jogo de sons e ritmos, num "trabalho em constante progresso", exerce Jacinta desde seu livro de estreia uma função de unificadora de relações e de semelhanças, numa convivência perfeita entre a militância política nas fileiras do Partido Comunista desde 1945 com a habilidade de versejar.
Jacinta, poeta de muita autenticidade e talento na feição do poema participante, do poema de luta e de reivindicações sociais, fez sucesso, destacando-se como uma das vozes mais claras e gritantes da nossa poética militante, apesar de ser hoje um nome praticamente desconhecido na moderna poesia nacional. Com a publicação do livro "A Coluna", Rio de Janeiro, Coelho Branco Editor, 1957, longo poema em quinze cantos, servindo como roteiro o motivo principal, a legenda heroica da Coluna Preste, onde Jacinta Passos atesta o poder da "brava gente" brasileira, cantada e encantada num dos seus mais positivos movimentos de arrancada social de redescoberta do Brasil e dos caminhos de sua miséria.
A Coluna, seu último trabalho publicado, além de um grito de amor é peça histórica que se incorpora ao nosso cancioneiro, colocando-se ao lado de outros poemas no gênero, cuja tradição vem desde "O Navio Negreiro" de Castro Alves ou dos "Cânticos Guerreiros" de Gonçalves Dias. Jacinta Passos muitas vezes atinge um estado lírico total, principalmente quando narra o desfile desses heróis. A poeta cruz-almense soube compor o seu poema, revestindo-o de diademas em "quinze cantos" que colocou na fronte do povo em marcha, guiado pelo "comandante sem-par".
Portadora de um caráter descritivo, de originalidade de imagem e simplicidade de forma, ela canta desde o legado mítico, histórico e político de sua Pátria, sem se deixar abater. Essa postura de militante acompanhará até o fim sua longa e penosa trajetória, pois com a sensibilidade aguçada, a personagem funciona no poema como o desdobramento da personalidade poética da autora.
Essa mesma postura, sempre mais requintada, permanece ao longo de sua carreira literária, onde predominam as preocupações sociais. Na realidade, a poesia realiza um processo de autoescavação – é a luta entre a essência e aparência, entre o eu que se mostra e o que se esconde. Com o título de "Canção da Partida", ele por si diz tudo – é que a leva a cantar a vida e o mundo que a cerca, ao mesmo tempo que se indaga sobre as relações humanas, sobre sua relação com o outro. Às vezes a autora tenta recuperar o tempo passado, vencer a distância que a separa das terras interioranas, onde ficou parte da infância.
À medida que percebe que o passado se torna presente, através da herança cultural legada pela terra, uma inquietação manifestada na sua autoconsciência, responsável pelo mergulho nesse passado, caminha para o entendimento com os que a cercam, forma de a eles se associar, o que conduz a poeta baiana ao questionamento da poesia. Desde "Momentos de Poesia", explícita ou implicitamente, o amor e a religiosidade ocupam significativo espaço em sua obra, como realidades que se afirmam e se negam ao mesmo tempo.
Talvez porque o que angustia a poesia seja a consciência do momento que passa, é a descoberta do tempo – não propriamente do tempo passado, mas do tempo puro, tempo original absoluto, idêntico à eternidade, que só a arte pode proporcionar. A primeira crise da sua doença mental manifestou-se em fins de 1957, e daí por diante passou por sucessivos períodos de internamento hospitalar. Entre 1958 e 1961, já separada do marido, James Amado, Jacinta Passos passa a residir na cidade de Petrolina, em Pernambuco, às margens do rio São Francisco, a qual faz limites com o município de Juazeiro, no estado da Bahia.
Entre 1962 e 1963, foram lançados no Rio de Janeiro, pela Editora Civilização Brasileira, as antologias dos cadernos do povo brasileiro – "Violão de Rua", em colaboração com o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, que saiu com três números dirigidos por Álvaro Vieira Pinto e Ênio da Silveira, sob coordenação do poeta Moacyr Félix. "Violão de Rua" era uma tentativa de manter uma posição de vanguarda sem comprometimento com o formalismo estético, utilizando todas as formas poéticas, inclusive as folclóricas e populares. O sucesso comercial da coleção foi tal que foram vendidos cerca de quarenta mil exemplares. Dentre os poetas, encontravam-se três baianos: José Carlos Capinan, Francisco Pinto e Jacinta Passos com dois poemas: "A morte do coronel" e "Elegia das quatro mortes" (fragmento), ambos publicados na edição extra nº III, de 1963.
Quando do golpe militar de 1964, marco de um longo período fustigado pela repressão, pela censura e pelas perseguições políticas, sua família, por precaução, resolve queimar os originais de seus livros inéditos: poemas e peças de teatro adulto e infantil, com o que se perdeu definitivamente toda a sua produção posterior a "A Coluna".
Desde julho de 1962, Jacinta Passos encontra-se em Aracaju e passa a residir em Barra dos Coqueiros, num povoado de pescadores localizado às margens do rio Sergipe, em frente à capital do estado, onde desenvolve suas atividades políticas junto à comunidade local. Presa no município Barra dos Coqueiros em maio de 1965 pela tropa do Exército do 28º BC, é submetida a longos interrogatórios, permanecendo detida por alguns dias. Diagnosticada como doente mental, Jacinta Passos Amado é recolhida ao sanatório público Adauto Botelho e, em seguida, transferida em 3l do mesmo mês para a "Casa de Saúde Santa Maria", onde fica internada até morrer, em 28 de fevereiro de 1973, aos 58 anos de idade.
Jacinta Passos dirigiu por algum tempo o Departamento de Publicidade da LBA, além de colaborar com artigos polêmicos e explosivos em jornais e revistas de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, tendo exercido atividade jornalística diária no jornal Estado da Bahia e no Imparcial, durante a Segunda Guerra.
1 Textos recentes sobre Jacinta foram reunidos em Santos, Gilfrancisco. Jacinta Passos: A Busca da Poesia. Aracaju: Edições GFS, 2007, e estão reproduzidos neste volume. Estes textos foram produzidos com vistas à presente edição, mas, como esta demorou mais tempo do que o inicialmente previsto para ser lançada, Gilfrancisco decidiu publicá-los à parte, conforme explica na introdução do seu livro. Ver também o mais recente estudo sobre Jacinta Passos, referente à sua escrita jornalística: Fuad, Danielle Spinola. Passagem de Jacinta Passos pelo Jornal "O Imparcial" (1943). Monografia de Especialização apresentada ao Centro Universitário Jorge Amado, área de Jornalismo Contemporâneo, com foco de interesse na História da imprensa feminina da Bahia. Orientação do Prof. Dr. Luís Guilherme Pontes Tavares. Salvador, 2008.
2 A participação de Jacinta Passos em antologias e em outras iniciativas está relacionada em "Bibliografia sobre Jacinta Passos", nesta edição.
3 Publicado na coluna "Homens e Obras", de autoria de Carlos Chiacchio, jornal A Tarde, Salvador, 6 de outubro de 1937. A coluna literária de Carlos Chiacchio, nesse dia, teve o título de "Inéditos". Além dos poemas de Jacinta Passos, o autor fez também a crítica de "O Místico", peça de autoria de João Matos, aqui não reproduzida. Agradeço a Gilfrancisco a localização deste texto.
4 O médico Carlos Chiacchio foi o mais importante crítico literário da Bahia durante a primeira metade do século XX. Sua coluna semanal sobre literatura, "Homens e Obras", foi publicada em A Tarde, o mais lido jornal da capital baiana durante 28 anos, de 1928 a 1946. Em 1936, Chiacchio criou a Ala das Letras e das Artes (ALA), movimento artístico que reuniu intelectuais baianos, entre os quais a jovem Jacinta Passos. Espécie de resposta baiana ao modernismo, a ALA pregava "renovação dentro da tradição": aceitava algumas inovações modernistas, mas sem romper com os cânones literários anteriores, posição diversa da assumida, por exemplo, pela "Academia dos Rebeldes", movimento literário baiano que propunha cortes radicais com a tradição artística. Chiacchio manteve também uma página no jornal O Imparcial, realizou diversas iniciativas culturais importantes e publicou vários livros.
5 "Jacy Passos" foi o pseudônimo literário que Jacinta adotou em seus primeiros escritos; "Jacy" (ou Jaci) era seu apelido familiar. No título deste texto, está grafado "Jassy", que a autora não adotava.
6 Este soneto foi republicado em 1942, em Momentos de poesia, primeiro livro de Jacinta Passos. No livro, está assinalado o ano em que o poema foi composto: 1934.
7 "Manhã de Sol" foi publicado na íntegra em 1942, em Momentos de poesia. Pelo livro, sabe-se que foi escrito em 1934.
8 A frase saiu truncada no original: "Já agora, não há como conhecer, integra, um dos poemas inéditos de Jassy Passos".
9 Este poema não foi republicado por Jacinta Passos. Está em Gilfrancisco. Jacinta Passos: A Busca da Poesia, p. 56. Neste volume, integra "Poemas Esparsos".
10 Publicado no jornal O Imparcial, coluna "Vida Literária", Salvador, 24 de outubro de 1942, p. 5.
11 Lafaiete Spinola foi profundo conhecedor de literatura e ativo crítico literário na Bahia, tendo publicado seus textos em O Imparcial e em diversos outros periódicos. Publicou livros, como Harpas e Farpas. Salvador: Livraria Editora Progresso, 1943 e Bilhetes à Academia. Salvador: Livraria Editora Progresso, 1958.
12 Num: no original, "um".
13Publicado na revista literária A Seiva, Salvador, outubro de 1942, p. 45. Texto anônimo. Revista cultural de esquerda, A Seiva foi fundada por João Falcão, membro e depois dirigente do PCB, em 1938, perdurando, em sua primeira fase, até 1943. Conheceu uma segunda fase, a partir de 1950, quando foram publicados cinco números. Foi meio importante de aglutinação de intelectuais de esquerda e de divulgação de suas ideias. Jacinta Passos colaborou com a revista, havendo mais informações sobre o assunto na biografia da autora, neste volume. Cf. Falcão, João. A história da revista Seiva.
14 Publicado originalmente no jornal Diário de São Paulo, 13 de dezembro de 1945. Agradeço a Angela Baptista a indicação deste texto. E agradeço ao prof. Antonio Cândido e à sua filha, Laura de Mello e Souza, a remessa do texto (no exemplar original do jornal!).
15 Antonio Candido de Mello e Souza é um dos mais respeitados estudiosos e críticos de literatura do país. Carioca criado em Minas Gerais, desenvolveu carreira em São Paulo, onde se radicou em 1936 e onde, durante décadas, foi professor da Universidade de São Paulo (USP). Publicou, entre outros, Formação da sociedade brasileira (1959) e Literatura e sociedade (1965). A partir de 1940, publicou regularmente ensaios e críticas sobre literatura e cultura nos principais jornais e revistas do país. Recentemente, sua importante produção dispersa começou a ser reunida e publicada em livro, acompanhada de apresentações e estudos críticos, como em CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção. Seleção, apresentações e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Editora Duas Cidades/Editora 34, 158 (Coleção Espírito Crítico), 2002, p. 153-158.
16 Neto, João Cabral de Melo. O Engenheiro. Rio: Amigos da Poesia, 1945. (Nota do texto original).
17 No original: "mécano".
18 Passos, Jacinta. Canção da partida. S.Paulo: Edições Gaveta, 1945. (Nota do texto original)
19 No original: "sem maiores existências."
20 Publicado em Diário Crítico de Sérgio Milliet – Volume IV – 1946. 2. ed. S.Paulo: Livraria Martins Editora / Editora da Universidade de São Paulo, 1981. O título deste artigo, portanto, é o da data (28 de fevereiro de 1946) em que Sérgio Milliet o inseriu em seu diário. Não se localizou a publicação do texto em outro veículo.
21 O paulista Sérgio Milliet da Costa e Silva (1898-1996) foi poeta, escritor, jornalista, tradutor e crítico literário de méritos reconhecidos e muita influência sobre nossa cultura. Participou na Semana de Arte Moderna, criou revistas culturais e dirigiu, entre outras, a Biblioteca Municipal de São Paulo, a Associação Brasileira de Escritores e a Associação Brasileira de Críticos de Arte. Publicou livros, como Poemas (1937), Alguns poemas (1957), Cartas à dançarina (1959), De ontem, de hoje e de sempre (2 vls.,1960 e 1962) e Diário crítico (vários volumes).
22 Jacinta Passos em verdade estreou com o livro Nossos poemas, de 1942, em coautoria com o irmão, Manoel Caetano Filho. A parte deste livro que contém os poemas de Jacinta intitula-se "Momentos de Poesia", constando da presente edição.
23 Publicado em Revista Brasiliense, nº 15, jan./fev. 1958, p. 199-201. Fundada em 1955, em São Paulo, pela Editora Brasiliense, como uma revista de esquerda independente, por um grupo de intelectuais e militantes comunistas – entre os quais, Caio Prado Júnior (proprietário da Editora Brasiliense, que publicava a revista), Elias Chaves Neto (seu primeiro diretor), David Rosemberg e Salomão Schattan -, a Revista Brasiliense foi um veículo importante para o debate no meio da esquerda, num período em que, por diversas razões, os espaços para esse debate haviam se reduzido muito. Agradeço a Gilfrancisco a localização deste texto.
24 O autor assina apenas "P.D.", porém a autoria de outras críticas na mesma revista permite identificá-lo como Paulo Dantas (Neto), que, à época, integrava o conselho de redação da Revista Brasiliense. O jornalista, escritor e crítico Paulo Dantas (1922-2007), nascido em Sergipe e morador em Salvador, Rio e Brasília, foi um intelectual de esquerda, durante anos membro do PCB. Publicou mais de trinta títulos, entre romances, ensaios, biografias e antologias, sendo os mais populares Cidade Enferma (1950) e Capitão Jagunço (1959). Foi especialista em figuras históricas como Delmiro Gouveia e Antonio Conselheiro – tornou-se um dos maiores estudiosos da Guerra de Canudos -, e em escritores como Monteiro Lobato, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha.
25 Para uma análise literária do significado desta expressão, cf. adiante, nesta Fortuna Crítica, o texto "Coluna de Fogo", de Ildásio Tavares, escrito para a atual edição.
26 Paes, José Paulo. "Entre lirismo e ideologia". Escrito especialmente para a segunda edição do Canção da Partida (Salvador: Fundação das Artes, 1990), este texto foi publicado parcialmente na revista Exu, Salvador, Fundação Casa de Jorge Amado, nº 7, jan/fev. 1989, p. 28-35. Agradeço a Dora Paes a autorização para republicar o texto.
27 O paulista José Paulo Paes (1926-1998) foi um dos mais respeitados poetas, críticos literários e tradutores do país na segunda metade do século XX. Começou a vida literária no Paraná, prosseguindo-a em São Paulo, onde se radicou desde 1949. Entre seus muitos títulos de poesia (para adultos e crianças) e de ensaios, estão Poemas reunidos (1961), Gregos e baianos (1985), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988), Poemas para brincar (1991), Prosas seguidas de odes mínimas (1992) e A meu esmo (1995). Sua obra poética foi postumamente reunida em Poesia completa (S.Paulo: Cia. das Letras, 2008). José Paulo Paes traduziu escritores do porte de Lewis Carroll, William Carlos Williams, tendo apresentado, via traduções, diversos poetas gregos modernos e contemporâneos aos leitores brasileiros, tais como Konstantinos Kaváfis, Giorgios Seféris e Nikos Kazantzákis.
28 Deputado federal constituinte: deputado estadual constituinte
29 Esta informação, assim como as demais informações biográficas aqui utilizadas, me foram fornecidas por Janaina Amado Figueiredo, filha de Jacinta Passos. (Nota do texto original).
30 Ramos, Péricles Eugênio da Silva."O modernismo na poesia", in: COUTINHO, Afrânio (dir.). A literatura no Brasil. Rio: Livraria São José, Vol. III, T. I, 1959, p. 560. (Nota do texto original).
31 "Give her pattern", Selected Essays. Harmondsworth: Penguin Books, 1950, p.19. (Nota do texto original).
32 Esta última estrofe do poema aparece apenas em Momentos de poesia, tendo sido suprimida pela autora, a par de outras mudanças, quando republicado em Canção da partida.
33 "Castro Alves", Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins. s. d., p. 133. (Nota do texto original).
34 "Alguns versos de Whitman". A Poesia e a Época, trad. E.C. Caldas, Rio: Revista Branca. s.d., p. 94. (Nota do texto original).
35 Mário de Andrade,"Três faces do eu". O empalhador de passarinho. S. Paulo: Martins, s. d., p. 57-58. (Nota do texto original).
36 Apud Massaud Moisés, Dicionário de Termos Literários. S. Paulo, Cultrix, 1974, p. 309. (Nota do texto original).
37 Também na poesia de Sosígenes Costa, com a qual a de Jacinta Passos tem mais de um ponto de afinidade, a Bahia é vista como bendito fruto da África e como locus de fraternidade e paz. Cf. meu ensaio Pavão Parlenda Paraíso – uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa. S. Paulo: Cultrix-CGL, PACCE, 1977, p. 51-56. (Nota do texto original).
38 O volume Poemes politiques de Paul Eluard havia sido publicado em 1948. (Nota do texto original).
39 Paris, Editions Sociales, 1949, p. 41 e 46. (Nota do texto original).
40 Jacinta Passos publicou ainda A Coluna. Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Fº Editor, 1957. 47 p.
41 Publicado no jornal A Tarde, Salvador, 29 de dezembro de 1990, Suplemento "A Tarde Cultural", p. 11.
42 Júlio Cesar Lobo é doutor em Ciências da Comunicação pela USP, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Tem formação também em Letras, atuando ainda como jornalista. É coautor do livro Gláuber, A Conquista de um Sonho: Os Anos Verdes. B. Horizonte: Ed. Dimensão, 1995, e autor de diversos capítulos de livro e de artigos publicados em periódicos acadêmicos.
43 Publicado no jornal Cinform. Aracaju, 27 dez 2004 a 2 jan. 2005, ano XXII, n. 1133, p.2. Republicado em Gilfrancisco, op. cit., p. 50-51.
44 O sergipano Célio Nunes (1938-2009) foi intelectual de esquerda, militante do PCB, fundador e, durante vários mandatos, dirigente de associações de jornalistas em Sergipe. Jornalista atuante, foi também escritor e estudioso de literatura. Entre outros títulos, publicou Réquiem para José Eleutério, 2000; Trajetória para a Ilha dos Encantados, 1992; Prosa sergipana (coord.), 1992 e Diário de W. J. e outras histórias (2005).
45 Publicado em Gilfrancisco. Jacinta Passos: a busca da poesia. Aracaju: Edições GFS, 2007, p.42-48.
46 O baiano Ângelo Barroso Costa Soares nasceu em 1968 e faleceu em 2006, aos 38 anos de idade, vítima de infarto. Foi professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Mestre em literatura, doutorava-se em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense. Publicou textos em jornais e revistas.
47 Publicado em Informe Sergipe, republicado em Gilfrancisco. Jacinta Passos: a busca da poesia. Aracaju: Edições GFS, 2007, p. 39-41.
48 Nascido em Sergipe em 1949, José Umberto Dias reside em Salvador há muitos anos. Sociólogo e cineasta, dirigiu vários curtas-metragens, como O Doce Amargo (1968), A Musa do cangaço (1981), e Lua Violada (2005), além do longa-metragem Anjo Negro (1972). Publicou, entre outros: Dadá. Salvador: EGBS/Fundação Cultural Estado da Bahia, 1988, a peça teatral Desconhece-te. Salvador: EDUFBA, maio, 2000, e, em coautoria, Alexandre Robatto, Filho – Pioneiro do Cinema Baiano. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1992.
49 Este texto baseia-se em outro do mesmo autor, intitulado "Jacinta Passos: a busca da poesia", publicado no Diário Oficial do Estado da Bahia nº 14659 , Caderno 4, 11. jan. 1991, por ocasião da publicação da segunda edição de Canção da Partida. "Revisado e ligeiramente ampliado", segundo o autor, o texto foi republicado em: Gilfrancisco. Jacinta Passos: A busca da poesia. Aracaju: Edições GFS, 2007.
50 Gilfrancisco (1952), baiano atualmente fixado em Aracaju, participou de grupos culturais e do Grupo Experimental de Cinema da UFBA. Licenciado em Letras pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), atualmente trabalha como professor universitário, pesquisador e jornalista em Aracaju, especializado em literatura baiana e sergipana. Além do livro sobre Jacinta Passos, é autor de, entre outros, Gregório de Mattos, o boca de todos os santos. (BDA/UNIT: 1997); Crônicas & poemas recolhidos de Sosígenes Costa (Fundação Cultural de Ilhéus, 2001); Flor em Rochedo Rubro: A Poesia de Enoch Santiago Filho (Secretaria de Estado da Cultura, 2005) e Musa Capenga: poemas de Edison Carneiro (2009). Escreve também para jornais, revistas e mídia eletrônica.