Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 9 de 25

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Luar de Janeiro

O Passeio de Santo Antonio

 

 

A Columbano

 

La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a

tous de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les

admirables pretextes à fiction qu'il recèle.

 

(Litterature à Tout á L'Heure.)

 

Sahira Santo Antonio do convento,

A dar o seu passeio costumado

E a decorar, num tom rezado e lento,

Um candido sermão sobre o peccado.

 

Andando, andando sempre, repetia

O divino sermão piedoso e brando,

E nem notou que a tarde esmorecia,

Que vinha a noite placida baixando…

 

E andando, andando, viu-se num outeiro,

Com arvores e casas espalhadas, Que ficava distante do mosteiro

Uma legua das fartas, das puxadas.

 

Surprehendido por se vêr tão longe,

E fraco por haver andado tanto,

Sentou-se a descançar o bom do monge, Com a resignação de quem é santo…

 

O luar, um luar clarissimo nasceu.

Num raio dessa linda claridade

O Menino Jesus baixou do céu,

Poz-se a brincar com o capuz do frade.

 

Perto, uma bica d'agua murmurante

Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.

Os rouxinoes ouviam-se distante.

O luar, mais alto, illuminava mais.

 

De braço dado, para a fonte, vinha

Um par de noivos todo satisfeito.

Ella trazia ao hombro a cantarinha,

Elle trazia… o coração no peito.

 

Sem suspeitarem de que alguem os visse, Trocaram beijos ao luar tranquillo.

O menino, porém, ouviu e disse:

—Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

 

O santo, erguendo a manga de burel

Para tapar o noivo e a namorada,

Mentiu numa voz doce como o mel:

—Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada limpida, sonora,

Vibrou com timbres d'oiro no caminho.

—Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?

—Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

 

—Tu não estás com a cabeça boa…

Um passarinho a cantar assim!…

E o pobre Santo Antonio de Lisboa

Calou-se embaraçado, mas por fim,

 

Córado como as véstes dos cardeaes,

Achou esta sahida redemptora:

—Se o Menino Jesus pregunta mais,

…Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

 

Voltando-lhe a carinha contra a luz

E contra aquelle amôr sem casamento,

Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus, São horas…

—E abalaram p'r'ó convento.