Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 3 de 25

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Luar de Janeiro

Ballada da Neve

 

Il pleure dans mon coeur

Comme il pleut sur la ville.

 

Verlaine

 

A Vicente Arnoso

 

Batem leve, levemente

Como quem chama por mim…

Será chuva? Será gente?

Gente não é certamente

E a chuva não bate assim…

 

É talvez a ventania;

Mas ha pouco, ha poucochinho,

Nem uma agulha bolia

Na quieta melancolia

Dos pinheiros do caminho…

 

Quem bate assim levemente

Com tão estranha leveza Que mal se ouve, mal se sente?…

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento com certeza.

 

Fui ver. A neve cahia

Do azul cinzento do ceu

Branca e leve, branca e fria…

—Ha quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

 

Olho-a atravez da vidraça.

Poz tudo da côr do linho.

Passa gente e quando passa

Os passos imprime e traça

Na brancura do caminho…

 

Fico olhando esses signaes

Da pobre gente que avança

E noto, por entre os mais,

Os traços miniaturais

Duns pézitos de creança…

 

E descalcinhos, doridos…

A neve deixa inda vel-os

Primeiro bem definidos,

—Depois em sulcos compridos,

Porque não podia erguel-os!…

 

Que quem já é peccador

Soffra tormentos, emfim!

Mas as creanças, Senhor, Porque lhes daes tanta dôr?!…

Porque padecem assim?!…

 

E uma infinita tristeza

Uma funda turbação

Entra em mim, fica em mim prêsa.

Cae neve na natureza…

—E cae no meu coração.