Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 19 de 25

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Luar de Janeiro

Carta a um Rapaz Sentimental

 

«Um mover d'olhos brando e piedoso

Sem vêr de quê; um riso brando e honesto Quasi forçado; um doce e humilde gesto

De qualquer alegria duvidoso

 

* * * * *

 

Um encolhido ousar; uma brandura,

Um medo sem ter culpa; um ar sereno,

Um longo e obediente soffrimento.

 

* * * * *

 

Camões

 

Num quente e perturbante fim de tarde,

Cujo magnetico e profundo enlevo

Ainda agora em mim crepita e arde,

Como se fosse a tarde em que te escrevo,

 

Ergui os olhos distrahidamente,

A ver se já brilhava alguma estrella No concavo do céu opalescente

—E vi, numa varanda, os olhos della…

 

Do episodio que acabo de contar-te

Tão simples, tão banal, que dá vontade,

Para lhe pôr um boccadinho d'arte,

De lhe roubar um pouco de verdade,

 

Foi que este amor espiritual nasceu,

Nasceu, cresceu e se tornou eterno…

Repara, amigo, como olhando o céu

A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

 

Mas quem podia então adivinhal-o?

O olhar dessa mulher era tão lindo

Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.

Descera a noite. A lua ia subindo…

 

Era lua cheia e, para mais, d'agosto;

Dava em toda a varanda. Assim, eu via

As fórmas portuguêsas do seu rosto

Nitidamente, como á luz do dia.

 

E cá dentro de mim senti nascer

A dúvida, a incerteza, a hesitação

Sobre o que mais desejaria ser:

Se o noivo della, se o primeiro irmão…

 

Uma estrella cadente reluziu

Por sobre as torres da vizinha egreja,

Pensei commigo: Deus o decidiu:

É minha noiva que Elle quer que seja.

Não dizia ventura, mas desgraça,

A claridade do signal aereo.

(Na mesma direcção da egreja, passa

A rua que vae dar ao cemiterio…)

 

Porém, como querendo agradecer-me

A decisão que attribuira a Deus,

Inclinou-se de leve para ver-me

E os doces olhos demorou nos meus.

 

Sob a caricia desse olhar cinzento,

Que ao abaixar-se parecia negro,

O coração que me batia lento,

Mudou o andamento para alegro.

 

Uma hora decorreu. Outras passaram.

Passaram, foram-se; e naquelle enleio

Que tempo os nossos olhos conversaram!… Estava a noite já em mais de meio.

 

Vinha dos montes uma brisa ardente.

O céu ganhára tons d'azul cobalto.

O luar cahia silenciosamente.

Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

 

Arrependidos, ou então, cançados

De se fitarem com demora em mim,

Os seus olhos piedosos e sagrados

Ao dialogo d'amor puzeram fim.

 

Desviára-os; e entre as palpebras discretas,

Poisára-os nas mãos claras e pequenas, Como se foram duas borboletas

Voando para duas assucenas.

 

Ergueu-se. O busto delicado e fino

Tinha os suaves, religiosos traços

Da Virgem num altar. Só o Menino

Faltava na doçura dos seus braços…

 

Num olhar impregnado de candura,

Disse-me adeus e recolheu. Depois…

A luminosa noite fez-se escura.

Calaram-se na sombra os rouxinoes.

 

Entrei em casa e quiz dormir. Raiára

A madrugada sem que o conseguisse.

Quem um sonho tão limpido sonhára,

Inutil se tornava que dormisse…

 

Annos felizes neste amor gastei.

Vieram em seguida as horas más.

O que nellas soffri, o que passei,

Um dia, noutra carta, o saberás.