Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 21 de 25

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Luar de Janeiro

Noiva

 

 

A João da Silva

 

«Anda a dôr dissimulada

Mas ella dará seu fruito.»

 

Crisfal

 

«Vae ser pedida. Casa qualquer dia.»

 

(Trecho duma carta)

 

Tive noticias hoje a teu respeito:

«Vae ser pedida. Casa qualquer dia».

E o coração tranquillo no meu peito

—Continuou a bater como batia…

 

Surpreso duma tal serenidade,

Todo eu, intimamente, me sondava:

Pois nem ciume? Nem sequer saudade?! —E nem ciumes, nem saudade achava…

Saudades, não; que o teu amor antigo

Guardam-no as cinzas (neste coração)

Como em Pompeia aquelles grãos de trigo

Que após centenas d'annos deram pão…

 

Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu A lei antiga como o proprio mundo

De que o prazer mal chega, já morreu,

E só a dôr nas almas cava fundo?

 

Causei-te longas horas d'amargura,

Não consegues voltar a ser feliz;

A chaga que te abri não terá cura,

E se curar—lá fica a cicatriz.

 

Á luz dum juramento que trahiste

Tu has de vêr-me toda a vida pois.

Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

 

Ciumes tambem não, por te venderes.

Desgraçadinha! Antes te houvesses dado; Não descerias tanto entre as mulheres,

Seria mais humano o teu peccado.

 

Porém, embora a tua falta aponte,

P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);

O sol desapparece no horisonte

—E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

 

Póde a desgraça erguer em frente a mim

Altas montanhas d'elevados cumes.

O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,

Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

 

Ciumes! Elle é que hade tel-os, quando, Em claras noites de luar silente,

Ouvir vibrar alguma voz, cantando

Os versos que te fiz devotamente.

 

Versos para te ungirem os ouvidos

E os labios d'anemica e de santa,

Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,

Que o povo humilde os acolheu e os canta.

 

Então, se te olhar bem, logo adivinha…

Logo sombriamente se convence

De que a tua alma se fundiu na minha

—E apenas o teu corpo lhe pertence.