Luar de Janeiro
Capítulo II
E as mãos de Deus que os astros têm guiado
Como se leve pluma cada um fôra,
Hão de o sentir pesar, sollicitado
Pelo logar da terra onde ella móra…
II
…Sei lá pintar!
Se eu soubesse pintar, era pintor.
Guedes Teixeira
Na mais alta cidade portuguêsa
Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
A mais santa, a mais cheia de pureza
Das moças deste lindo Portugal.
Os seus olhos são tristes e suggerem
Todo um passado de resignação.
São tristes, certamente por não verem
O rosto incomparavel onde estão…
A voz é clara como as assucenas
E dolorida, candida, modesta.
É dolorida, porque sente penas
D'abandonar a sua bocca honesta…
O riso, que é em nótulas delidas
Vibra em seus labios tão rapidamente Como um beijo d'amor, ás escondidas,
Na curva duma estrada em que vem gente…
A mão della, uma vez, poisou na minha;
Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
Que era o seu proprio coração que eu tinha A palpitar dentro da minha mão…
Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
O sol abraza os longes da paizagem,
A sombra que em sua frente vae seguindo
É a luz—a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…
Se passa, acalma os corações maguados Como outr'ora as parabolas de Christo
Acalmavam a dôr aos desgraçados.
Acalma os corações?! Não… não é isto.
As estrophes d'amor, a quem o sinta,
Dão um trabalho cheio de tormento;
O tenebroso liquido da tinta
Apaga, rouba a côr ao sentimento.
Quiz celebrar dum modo original
As finas graças do seu corpo. Errei-as.
Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
Palavras! Sois a nevoa das ideias…