Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 7 de 25

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Luar de Janeiro

Capítulo II

E as mãos de Deus que os astros têm guiado

Como se leve pluma cada um fôra,

Hão de o sentir pesar, sollicitado

Pelo logar da terra onde ella móra…

 

II

 

…Sei lá pintar!

Se eu soubesse pintar, era pintor.

 

Guedes Teixeira

 

Na mais alta cidade portuguêsa

Nasceu, para abrandar meu fundo mal,

A mais santa, a mais cheia de pureza

Das moças deste lindo Portugal.

 

Os seus olhos são tristes e suggerem

Todo um passado de resignação.

São tristes, certamente por não verem

O rosto incomparavel onde estão…

 

A voz é clara como as assucenas

E dolorida, candida, modesta.

É dolorida, porque sente penas

D'abandonar a sua bocca honesta…

 

O riso, que é em nótulas delidas

Vibra em seus labios tão rapidamente Como um beijo d'amor, ás escondidas,

Na curva duma estrada em que vem gente…

 

A mão della, uma vez, poisou na minha;

Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,

Que era o seu proprio coração que eu tinha A palpitar dentro da minha mão…

 

Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,

O sol abraza os longes da paizagem,

A sombra que em sua frente vae seguindo

É a luz—a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

 

Se passa, acalma os corações maguados Como outr'ora as parabolas de Christo

Acalmavam a dôr aos desgraçados.

Acalma os corações?! Não… não é isto.

 

As estrophes d'amor, a quem o sinta,

Dão um trabalho cheio de tormento;

O tenebroso liquido da tinta

Apaga, rouba a côr ao sentimento.

 

Quiz celebrar dum modo original

As finas graças do seu corpo. Errei-as.

Oh Fórma! És como um fato d'hospital.

Palavras! Sois a nevoa das ideias…