Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 5 de 25

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Luar de Janeiro

O Nosso Lar

 

A Antonio Arroyo

 

«Sonhar a vida é apenas entretel-a.

Partamos della para nós, senão

Lá vae o coração para uma estrella

E fica a gente sem o coração!»

 

GUEDES TEIXEIRA. Esperança Nossa

 

Quem vir—como eu os vejo—decorrer

Annos e annos duma vida rasa

Em miseraveis quartos d'aluguer,

 

Frios no inverno e no estío em braza,

—A um amôr sonhado de mulher

Allía sempre o sonho duma casa…

 

O aspecto duma casa raro mente,

A côr, as linhas duma frontaria

Dão logo a perceber nitidamente,

Melhor do que um vizinho o contaria,

O genio e a indole da gente

Que nella tem o lar, a moradia.

 

Vejam esses cottages tanto em moda

Entre os inglezes e os capitalistas,

Com grades no jardim, a toda a roda…

 

Impenetraveis ás alheias vistas…

Não abrem nunca uma janella toda…

São mudos, graves, individualistas.

 

E aquelles caixotões de pedra e cal

Que surgem ao formar-se um bairro novo, No constante engordar da Capital,

 

(O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)

—Não mostram bem, com o seu ar banal, A falta de caracter deste povo?

 

Quando uma santa e pobre rapariga,

Em cujo olhar se abranda o meu soffrer

E a cujo coração o meu se liga,

 

Puder chegar a ser minha mulher,

Eu quero então que a nossa casa diga

Bondade e alegria de viver.

 

Terá um só andar. Grandes alturas

Causam vertigens, trazem ambições.

Os sonhos de riqueza e d'aventuras

Enchem as almas de desillusões.

A f'licidade vem ás creaturas

Da pacificação dos corações.

 

As portas sem degraus. Que sejam rentes

Da terra. Portas largas e rasgadas,

Convidativas, francas, attrahentes;

 

Ao rez da terra, para as aleijadas e os tropegos velhinhos

indigentes Se não cançarem a subir escadas…

 

Amplas janellas para a natureza.

Que o sol na sua clara irradiação

Dissipe atravez dellas a tristeza;

 

Amplas—e baixas. Quem precise pão,

E o vir da rua sobre a nossa meza,

Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

 

Ao lado um horto e um jardim fragrante,

Sem grades aguçadas para o céu.

A grade é agressiva, hostilisante,

 

E sempre a impressão cruel me deu

Dum dono que bradasse ao caminhante:

—Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

 

Sem gradeamento. Um murosito apenas

Revestido de rosas de toucar,

De ariolas, de glicinias, de verbenas.

 

Muro d'onde os que forem a passar

Vejam lilazes, cravos, assucenas…

—E a paz, a doce paz do nosso lar.