Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 8 de 25

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Luar de Janeiro

Melodia Confidencial

 

(De Albert Samain)

 

A L.C.

 

Num andamento

Discreto, lento,

Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

 

Vamos vogando

No lago brando

E sem limites do silencio amigo…

 

O ultimo e cavo

Accorde do cravo

Ficou vibrando exclamativamente.

 

E, em espiral

Ascencional,

Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

 

Na alcatifa macia

Entrou na agonia Uma rosa sedenta e abandonada,

 

E a ambos nos invade

A mistica vontade

D'entrar na morte, no não ser, no nada…

 

Com seu docel vermelho

Forrado d'oiro velho,

Que evoca velhas eras d'esplendor,

 

O leito pesado,

Como um deus concentrado,

Remembra obscuramente o nosso amor…

 

Na atmosphera morna

O teu corpo entorna

Um perfume subtil, sensual, complexo,

 

Aroma inapagavel,

Philtro informulavel

Gerado á chama clara do teu sexo.

 

Teus olhos silentes

E transparentes

Teem, no fundo, verdes melancolicos,

 

E as brazas do fogão,

Já quasi extinctas, dão

Clarões hypnotisantes e symbolicos…

 

Amêmo-nos assim

Com um amor sem fim,

Verdadeiro na carne e nas ideias;

P'los dedos enlaçados

Sejamos penetrados

D'amor, até ás mais miudinhas veias.

 

Em extasis intensos

Quedemo-nos suspensos

Por sobre a terra ironica e brutal

 

Sem nada saber,

Sem nada ver,

—Numa vida isolada e musical…

 

Não fales. Não?

Ou se o fizer's, então

Que seja de vagar, muito baixinho,

 

Numa toada, leve

Como o halito breve

Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…