Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 25 de 25

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Luar de Janeiro

A Parábola do Pucaro D'agua

 

Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente

na disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas realidades da vida, teriam observado que… o

viver do povo encerra em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de machinista; para tal, não é

necessario juntar-lhe effeitos theatraes.

 

… O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na

pequenez e na humildade, é um coração que auxilie a vista

nestes recessos do lar, nestas sombras de Rembrandt.

 

MICHELET. O Povo

 

A Manuel Penteado

 

Buscava em algum assunto adrede

A versos que inculcassem novidade,

Quando uma intensa e irreprimivel sêde

Me fez voltar do sonho á realidade.

E pedi agua (já se vê) que veio

Consoante é d'uzo cá por entre o povo

Num pucaro de barro ingenuo e feio,

Servindo-lhe de salva um prato côvo.

 

Bebi o liquido dum trago só;

E dito o «Deus te pague» habitual,

Subi de novo a escada de Jacob

No heroico intuito de escalar o ideal…

 

Mas o idealismo é como a nevoa ondeante

Que os rios erguem pela madrugada;

O olhar destingue-a, quando está distante,

E da que nos rodeia—não vê nada…

 

De que serve afinal tentar a gente

Reter, dentro das mãos, fumo de palha,

Se aqui, aos nossos olhos, no existente,

Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

 

A agua vinda neste vaso fragil

Que um ignorado artista modelou

Num gesto—já mechanisado e agil—

Á força d'imitar o que encontrou,

 

É um assunto cheio de belleza,

Cheio de claro e alto ensinamento.

Assim na branda fala portuguêsa

O désse eu, como o tenho em pensamento!…

 

A agua é como a esp'rança

Que a tudo se sujeita…

Onde quer que se deita

Lá fica humildemente acommodada,

Seja a concha da mão duma creança,

Ou a taça lendaria da ballada…

 

Tanto sacia

Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma

(Que um só valia

O rútilo oiro d'avaro banqueiro)

Como a que se toma

Na argilla porosa,

Alegre trabalho dum simples oleiro…

 

E é

Até

Bem mais saborosa

No barro suarento

Deixado á janella,

Que num opulento

Copo lavrado

Que seja pertença de rica baixella

E sonho gentil, cinzel phantasista

Dalgum grande artista

Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

 

Bichos humanos, féras em pé,

Sêde bondosos como a agua o é…

 

No luzente alcantil da magnitude,

Ou no áspero declive da pobreza,

Nunca cerreis o espirito á virtude,

Nunca fecheis os olhos á belleza.

Que todo o coração,

Desde o sabio de genio ao cavador,

Seja o Calix de paz e de perdão

Contendo a agua limpida e lustral

Dum irmanado e perpetuo amôr…

 

Agua que limpe a mácula do mal

E mitigue a miseria, a ancia, a magua

Desta cruenta e impiedosa guerra

Em que tantas creaturas se consomem.

 

Nem só da agua

Que vem da terra

Tem sêde o homem…

 

Nasce uma fonte

Rumurejante

Na encosta dum monte;

 

E mal que do seio

Da terra brotou,

Logo o seu veio

Transparente

E diligente

Buscou e achou

Mais baixo logar…

 

E sempre descendo,

E sempre a cantar,

Vae andando,

Galgando,

Vencendo, (Ou tenta vencer…)

Folha, raíz, areia, o que tolher

A sua descida…

 

Ao brotar da dura frágoa

—É uma lagrima d'agua…

 

Mas esse humilde fiozinho,

Que um destino bom impelle,

Encontra pelo caminho

Um outro que é como elle…

 

Reunem-se, fundem-se os dois,

Proseguem de companhia,

E fica dupla depois

A força que os leva e guia…

 

Junta-se aos dois um terceiro,

Outros confluindo vão,

E o regato é já ribeiro

E o ribeiro é rio então…

 

E nada agora o domina

Ao fiozinho da fonte.

Entre collina e collina,

Ou entre um monte e outro monte,

 

Caminha sem descançar,

Circula atravez do mundo

—Até á beira do mar

Omnipotente e profundo…

Da altura em que estejaes (ou vos pareça;

A vaidade é uma amante enganadora)

Que o mais alto de vós se humilhe e desça

Como se humilde e pobre sempre fôra…

 

E que os demais desçam tambem de todo O orgulho e mando sobre escravas gentes

Até ao valle, de lagrimas e lôdo

Onde a miseria brada e range os dentes.

 

E como as aguas que se vão juntando

E juntas, e cantando, vão descendo,

Reuni o choro derramado, quando

Atravessardes esse valle horrendo.

 

E o atoleiro que se havia feito

No val, dantesco, pútrido, sombrio,

Mudar-se-ha no irrigante leito

Dum fertilisador e claro rio;

 

E o rio, andando, andando, hade alargar

—Com biliões de lagrimas vertidas—

Num infinito e luminoso mar

De novas e amplas e cantantes vidas!

 

Outubro de 1909.

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