Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 11 de 25

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Luar de Janeiro

A Máscara

 

A Santos Tavares

 

Por acaso, parou na minha frente,

De loup e dóminó de seda negra,

Uma mulher d'olhar resplandecente

E mento breve de figura grega.

 

Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

 

E os seus olhos doirados reluziram

Como os punhaes ao sol, quando se tiram, Aguçados e frios, das bainhas.

 

—Máscara, quem és tu?

 

—E tu quem és?…

 

—Um homem que te viu e te deseja…

 

E um riso vago, de desdem talvez,

Floriu na sua bocca de cereja.

Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

 

Em vibrações entrecortadas, sêccas,

Tiniam taças irisadas, cheias.

E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,

Vibrava nas arcadas das rebecas.

 

Levei-a para o vão duma janella.

—Máscara, quem és tu?

 

—Para que insistes?…

 

Outro riso subiu da bocca della

Aos olhos enigmaticos e tristes.

 

E descobriu a face. No capuz

Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

 

Que differente porém do que eu supuz!

 

A gente nunca deve entrar com luz

Nos divinos recantos do misterio…