Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 12 de 25

Páginas do PDF

Luar de Janeiro

In Promptum Pastoral

 

 

A Amadeu de Freitas

 

«Muito vence quem se vence

Muito diz quem não diz tudo,

Porque a um discreto pertence

A tempo fazer-se mudo.»

 

(Copla do Infante D. Luiz.)

 

Sob este céu creador

De manhã vergiliana,

Apetece ser pastor

E tocar frauta de cana;

 

Não, pastor d'autos d'amor,

D'eclogas frias e velhas,

Mas verdadeiro pastor

De verdadeiras ovelhas…

 

Não conhecer o talento

Nem nada do que se ensina.

Esta dôr do entendimento

É peor do que se imagina…

 

Guiar o meu coração

Num ingenuo christianismo.

Esta civilisação

É cheia de pessimismo…

 

Comer pão negro, pão duro,

Beber o leite das peáras.

Pão de centeio é escuro,

—Mas põe as almas ás claras…

 

Amar alguma pastora

Com palavras e com obras.

Estas senhoras d'agora

São mais falsas do que as cóbras…

 

E vêr crear com carinho,

Com cuidados infinitos,

Á companheira, um filhinho…

E ás ovelhas, borreguitos…