Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 1 de 25

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Luar de Janeiro

Augusto Gil

 

*Luar de Janeiro*

 

LISBOA

 

1909

 

Edição da empreza d'A Lanterna—Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

 

Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

 

Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada sobre a génese d'O Canto da Cigarra objectarei, com

antecipada promessa de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a existente entre os pontos extremos da curva

d'amplitude dum pêndulo.

Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na

minha subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que

neste confuso seculo de latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade conjunctamente afflictiva e

sceptica, terá a coragem de dizer que o encontrou—já não quero como artista, porque a esse as influencias ambientes lhe

communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações—mas na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me

retorquir com o eureka do antigo geometra, ou é um sectario, ou um caturra,—ou um simples.

 

Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

 

Adeante.

 

Novembro de (1)909.

 

O auctor

 

De la musique encore et toujours

 

* * * * *

 

Que ton vers soit la bonne aventure

Éparse au vent crispé du matin

Qui va fleurant la menthe et le thym,

Et tout le reste est litterature.

 

Verlaine

Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous

savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le tête-à-tête—et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire. Et tu

sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la

bonne page, celle que ce livre encore annonce et ordone—tu sais, tu comprends et tu pardonnes…

 

Charles Morice.

 

A Coelho de Carvalho

 

Tout court, porque não ha adjectivos que não empallideçam

ante a

claridade dos seus talentos.

 

Luar de janeiro,

Fria claridade

 

Á luz delle foi talvez

Que primeiro

A bocca dum português

Disse a palavra saudade…

 

Luar de platina,

Luar que allumia

Mas que não aquece,

Photographia

D'alegre menina

Que ha muitos annos já… envelhecesse.

 

Luar de janeiro,

O gelo tornado

Luminosidade…

Rosa sem cheiro,

Amor passado

De que ficasse apenas a amizade…

 

Luar das nevadas,

Algido e lindo,

Janellas fechadas,

Fechadas as portas

E elle fulgindo,

Limpido e lindo,

Como boquinhas de creanças mortas,

Na morte geladas

—E ainda sorrindo…

 

Luar de janeiro,

Luzente candeia

De quem não tem nada,

—Nem o calor dum brazeiro,

Nem pão duro para a ceia,

Nem uma pobre morada…

 

Luar dos poetas e dos miseraveis,

Como se um laço estreito nos unisse,

São similhaveis

O nosso mau destino e o que tens…

De nós, da nossa dôr, a turba—ri-se

—E a ti, sagrado ladram-te os cães!

 

[Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do

Calvario, d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse pobrissimo convento. Foi doado ás

monjas que o occupavam, por D. Izabel Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do Marquez de Pombal. D.

Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão do filho. Depois da

morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado, vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D. Alexandre

de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario eborense Sr. José Barata. In Serões, Junho de (1)907)

 

O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]