Luar de Janeiro

Augusto Gil · Capítulo 2 de 25

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Luar de Janeiro

Sextilhas a um Menino Jesus D'evora

SEXTILHAS A UM MENINO JESUS

 

 

D'EVORA

 

A João Barreira

 

«Em Evora vi um menino…

…Que a dois annos não chegava

…Era de maravilhar»…

 

Garcia de Rezende. Miscellanea.

 

Num convento solitario

D'Evora, cidade clara,

Claro celleiro de pão,

Existe uma imagem rara

Obra dum imaginario

Dos tempos que já lá vão…

 

É um menino Jesus,

De bochechinha brunida

Côr de maçã camoeza,

Mas no seu rosto transluz Uma expressão dolorida

Que enche a gente de tristeza…

 

De tantissimas imagens

Nenhuma vi que mais prenda,

Que maior ternura expanda,

Com suas calças de renda,

Seu vestido de ramagens,

—E corôa posta á banda…

 

Gordo, nedio, bem trajado,

Deveria ser feliz,

Deveria estar sorrindo;

Mas o seu olhar maguado,

Tão maguado, tão lindo,

Que não o é, bem n'o diz…

 

Se não fosse por ser Deus

E o seu poder infinito

Ter sempre que o demonstrar,

Cá na terra e lá nos ceus,

Estenderia o beicito

—E desatava a chorar!…

 

Corre o tempo descuidado,

Passa uma hora, outra hora,

Atraz desta outras se vão

E, quem o vê, encantado,

Sem se poder ir embora

Numa perpetua attração…

Eu entrei com sol a pino.

Pouco depois da chegada

(Pouco a mim me pareceu)

Deixei de ver o Menino…

Não era a vista cançada,

—Foi a noite que desceu…

 

Mesmo assim lá ficaria

Absorto em muda prece

De quem mal sabe rezar,

Se o sacristão não viesse,

Com rodas de Senhoria,

Dizer-me que ia fechar…

 

Pudesse tel-o trazido

E não fosse eu rico, apenas

De phantasias, d'esp'ranças,

Punha-o num nicho florido

Por sobre as camas pequenas

Dum hospital de creanças…

 

Dum hospital modelar

Sustentado por meus bens,

Entre olaias e roseiras,

Cheio de sol, cheio d'ar,

E em que as boas enfermeiras

—Seriam as proprias mães…

 

A mais ampla enfermaria

Desse escolhido local

De bondade e soffrimento

—Era o fundo natural Da funda melancolia

Do Menino do convento…