Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 9 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Nove

 

NO ALOJAMENTO, SAM TIRA

o uniforme e coloca uma camiseta com a inscrição EU SOU O ALUNO BRILHANTE SOBRE O QUAL VOCÊ LEU. Ele passa um pouco de perfume no pescoço enquanto jogo meus livros sobre a cama.

– Para onde você vai? – pergunto.

– Para a manifestação. – Ele revira os olhos. – Não tente fugir. Daneca vai matar você. Vai arrancar sua pele.

– Ah, certo – digo, passando os dedos pelo cabelo. Está ficando desgrenhado de novo. – Acho que pensei que com toda aquela loucura...

Ele me deixa divagar e não fala nada para ajudar. Deve estar acostumado comigo bancando o idiota. Eu suspiro e tiro os sapatos e a calça social preta e coloco a calça jeans. Depois de soltar o nó da gravata e jogá-la na minha mesa bamba, estou pronto para sair. Nem me dou o trabalho de trocar a camisa branca de botão.

Cruzamos a praça juntos e encontramos Daneca com Ramirez do lado de fora do Centro de Belas Artes Rawlings, onde fica a sala de música de Ramirez e a maior parte dos encontros do HEX acontece. O dia está quente para os padrões de setembro. Daneca está usando uma saia longa de batik com guizos pendurados na barra. Até tingiu as pontas das tranças de um tom escuro de roxo.

– Foi cancelado – diz Daneca, virando para nós. Está praticamente gritando. – Dá pra acreditar? Northcutt só se preocupa em agradar os filhos de quem doa dinheiro pra esta escola! Não é justo! Ela já tinha autorizado.

– Não foi só a administração – declara a Sra. Ramirez. – Alunos também desistiram de ir. Ninguém quer ser visto entrando no ônibus.

– Isso é ridículo – murmura Daneca. Mais alto, ela diz: – Poderíamos ter feito alguma coisa. Marcado o encontro em algum outro lugar em vez de aqui.

– Sabe, alguns deles são mesmo mestres – digo. – Para eles, não é apenas uma causa. Suas vidas estão em jogo. Talvez tenham medo das verdadeiras consequências caso as pessoas descubram seu segredo.

Daneca me olha com raiva.

– Como eles acham que vão melhorar alguma coisa com essa atitude? – Ela claramente acha que eles significa eu.

– Talvez eles não achem.

– Me desculpem – diz Ramirez com um suspiro. – Sei que vocês estavam contando com isso.

– O que está acontecendo? – pergunta uma voz delicada atrás de nós. Eu me viro e vejo Lila, a mochila pendurada de lado no ombro. Ela está com um vestido amarelo e botas grandes e pesadas. Sinto um choque esquisito, como sempre acontece quando a vejo, como se uma corrente elétrica passasse pelo meu corpo.

– Nossa ida foi cancelada por causa de covardia administrativa – conta Sam.

– Ah. – Lila olha para as botas e chuta um monte de terra. Depois olha para a frente. – Bem, será que nós quatro ainda podemos ir?

Daneca olha para ela por algum tempo, depois se vira para Ramirez:

– Sim! Ela está certa. Já entregamos a autorização, então nossos pais já concordaram em nos deixar ir.

– Em um passeio supervisionado da escola – diz Ramirez em protesto.

– Somos veteranos – lembra Daneca. – Temos permissão dos nossos pais. Northcutt não pode nos impedir.

– Não me lembro de o Sr. Sharpe entregar a autorização.

– Ops – digo. – Deixei no quarto. Vou correndo buscar.

Ramirez suspira.

– Tudo bem. Me entregue o formulário, Cassel, e os quatro podem ir para a manifestação. Mas quero a palavra de vocês de que estarão de volta para as aulas.

– Estaremos – promete Lila.

Depois de um toque de falsificação da minha parte, seguimos para o rabecão Cadillac Superior vintage 1978 de Sam. Lila para e lê o adesivo no para-choque.

– Esse troço realmente é movido a óleo vegetal? – pergunta ela.

O sol da tarde queima o asfalto do estacionamento, fazendo o calor irradiar dali. Eu limpo a testa e tento não pensar no suor que brilha na clavícula de Lila.

Sam sorri com orgulho e bate no capô.

– Não foi fácil encontrar o rabecão a diesel pra converter, mas consegui.

– Tem cheiro de batata frita – diz Daneca, entrando no carro. – Mas você se acostuma.

– Batata frita é uma delícia – diz Sam.

Lila entra no banco de trás, que é adaptado (foi retirado de um Cadillac normal e instalado por Sam), e eu entro depois.

– Obrigada por virem – diz Daneca. Ela olha em minha direção. – Sei que você não quer ir, então saiba que estou mesmo muito agradecida.

– Não é que eu não queira – digo e respiro fundo, pensando na minha mãe no comício de Patton. – É que não gosto muito de política.

Daneca se vira no banco para me olhar, incrédula.

– Ah, é? – Ela não parece estar com raiva, mas sim achar engraçado.

– Deathwërk vai tocar mais tarde – diz Sam, guiando o rabecão para fora do estacionamento enquanto leva o assunto para longe de mim. – Provavelmente vamos chegar lá a tempo de ver o Bare Knuckles.

– Bandas? É sério? Eu estava imaginando menos diversão e mais passeatas com cartazes – digo.

Daneca sorri.

– Não se preocupe, vai haver muitos cartazes. A passeata passa pela prefeitura no Lincoln Park, onde as bandas vão tocar. Vai haver discursos também.

– Que bom – falo. – Eu odiaria pensar que estamos abrindo mão de valiosas horas de estudo por qualquer coisa menos do que...

Lila ri, encostando a cabeça no banco.

– O quê? – pergunto.

– Não sei – diz Lila. – Você tem amigos legais. – Ela encosta de leve no meu ombro com as pontas dos dedos enluvados.

Um tremor surge na base da minha coluna. Por um momento, eu me lembro da sensação de suas mãos nuas na minha pele.

Estamos só nós quatro no carro, e, embora o plano seja ir ao cinema amanhã, tenho que me esforçar muito para me convencer de que isso não é um encontro de casais.

– Isso mesmo – diz Sam. – Você conhece nosso Cassel desde sempre. Tem algum podre pra contar?

Ela olha para mim com malícia.

– Quando ele era criança, era nanico. Por volta dos treze anos, cresceu e ficou do tamanho de um poste.

Dou um sorriso.

– E você continuou nanica.

– Ele amava livros de terror baratos e, quando começava um, lia até o final não importa o que acontecesse. Às vezes o avô dele entrava no quarto e apagava a luz quando ficava muito tarde, então Cassel saía pela janela e lia sob a luz do poste de rua. Eu ia até a casa dele de manhã e o encontrava dormindo no gramado.

– Aaaahhhh – diz Daneca.

Eu faço um som grosseiro, acompanhado de um gesto igualmente grosseiro.

– Uma vez, em uma feira em Ocean City, ele comeu tanto algodão-doce que vomitou.

– Quem nunca? – digo.

– Ele fez uma maratona de filmes em preto e branco e depois passou a usar um chapéu de feltro. – Ela ergue as sobrancelhas, me desafiando a contradizê-la. – Por um mês. Em pleno verão.

Dou uma gargalhada.

– Um chapéu de feltro? – pergunta Sam.

Eu me lembro de ficar sentado no porão durante horas e horas, assistindo a um filme atrás do outro com mulheres de vozes roucas e homens em ternos elegantes com bebidas nas mãos. Quando os pais de Lila se divorciaram, ela foi para Paris com o pai e voltou fumando Gitanes e contornando os olhos com lápis preto esfumaçado. Era como se tivesse saído de um filme no qual eu queria estar.

Eu a vejo agora, a rigidez de seu corpo quando se afasta deliberadamente de mim, encostando a bochecha na janela. Ela parece cansada.

Em Carney, naquela época, eu não me incomodava de me misturar. Eu não ficava tentando blefar o tempo todo para parecer um cara melhor. Não tinha segredos que vivia desesperado para esconder. E Lila era corajosa, confiante e completamente imbatível.

Eu me pergunto o que o garoto que eu era naquela época acharia das pessoas que nos tornamos.

Os policiais formam bloqueios em grupo longe de onde a passeata vai acontecer. A rua está cheia de cones de trânsito, brilhando com chamas alaranjadas cintilantes. Há pessoas também, mais do que eu esperava, e um som distante que promete ainda mais.

– Não tem lugar para estacionar – reclama Sam, dando a volta no mesmo quarteirão pela terceira vez.

Daneca mexe no celular enquanto seguimos lentamente uma fileira de carros.

– Vire à esquerda quando puder – diz ela depois de alguns minutos. – Tenho um aplicativo que diz que tem um edifício-garagem a algumas quadras daqui.

Os dois primeiros pelos quais passamos estão lotados, mas então vemos carros parados no canteiro central e ao longo das calçadas. Sam para o rabecão em um trecho gramado e desliga o motor.

– Rebelde – digo.

Daneca dá um sorriso largo e abre a porta.

– Vejam todas essas pessoas!

Lila e eu saímos, e nós quatro seguimos na direção da maioria.

– Dá a sensação de que tudo pode mudar, sabe? – comenta Daneca.

– Tudo vai mudar – afirma Sam, me surpreendendo.

Daneca vira e olha para ele. Percebo que também está surpresa.

– Bem, vai mesmo – diz ele. – De um jeito ou de outro.

Acho que ele está certo. Ou a proposição nº 2 vai ser rejeitada e os mestres vão começar a se rebelar ou vai ser aprovada e os outros estados vão se animar para tentar o mesmo truque.

– Mudar é o que as pessoas fazem quando não têm mais opções – declara Lila enigmaticamente.

Tento chamar sua atenção, mas ela está ocupada demais observando a multidão.

Seguimos andando por mais alguns quarteirões e começamos a ver cartazes.

NÃO SOMOS UMA MALDIÇÃO, diz um.

Eu me pergunto que tipo de slogans havia na reunião de imprensa para a qual minha mãe foi.

Um grupo de jovens está sentado nos degraus de um banco Fidelity. Um deles joga uma garrafa de cerveja na direção dos manifestantes. Ela quebra, e o vidro e a espuma fazem todos ao redor começarem a gritar.

Um homem com uma barba tão grande que chega a cobrir a camiseta pula no capô de um carro e grita mais alto do que todos:

– Abaixo a proposição nº 2! Fora Patton!

Um policial em frente a uma mercearia pega o rádio e começa a falar depressa. Ele parece perturbado.

– Acho que o parque é por aqui – diz Daneca, apontando na tela do celular para uma rua lateral. Acho que ela não reparou nas outras coisas.

Algumas quadras depois, a multidão começa a ficar tão densa que me sinto engolido. Somos uma veia levando sangue ao coração, uma fornalha de calor corporal aquecido pelo sol, um rebanho se dirigindo rapidamente para um penhasco.

Vejo cada vez mais cartazes.

TIREM AS MÃOS DOS NOSSOS DIREITOS.

EXAMINAR TODO MUNDO/NÃO CONFIAR EM NINGUÉM.

ISSO NÃO ESTÁ DANDO CERTO.

– Quantas pessoas estimaram que haveria aqui hoje? – grita Lila.

– Vinte mil, talvez cinquenta, no máximo – grita Daneca em resposta.

Lila olha para o ponto onde nossa rua cruza com a Broad, lugar da manifestação principal. Não conseguimos ver muito longe, mas a barreira de ruídos (slogans gritados em megafones, tambores, sirenes) é quase ensurdecedora.

– Acho que esse número está bem abaixo da realidade.

Conforme nos aproximamos, fica mais fácil entender o motivo. Não preciso mais imaginar o que diziam os cartazes das pessoas a favor de Patton. Elas estão em peso na manifestação.

ASSASSINOS E MANIPULADORES, FORA DO MEU ESTADO, diz um cartaz.

CHEGA DE HGB.

O QUE VOCÊS TÊM A ESCONDER?

E, por fim, simplesmente PEGAMOS VOCÊS, com um círculo desenhado simbolizando um alvo. Esse está na mão de uma mulher idosa com cabelo ruivo encaracolado e batom rosa-shocking.

Ela posicionou-se em pé nos degraus da prefeitura, a cúpula dourada do prédio brilhando acima de sua cabeça.

Conforme observo a multidão que apoia a proposição nº 2, vejo um rosto familiar ao fundo. A amante de Janssen. Ela está com o cabelo escuro preso em um rabo de cavalo e os óculos de sol no alto da cabeça. Sem nenhum poodle hoje.

Ando mais devagar para tentar ter certeza de que estou mesmo vendo o que acho que estou vendo.

Ela está recebendo dinheiro de alguém, os dois estão parados perto da janela de vidro de um restaurante.

A multidão continua se movendo ao meu redor, me levando junto. O ombro de alguém esbarra no meu braço. É um cara um pouco mais velho do que eu tirando fotos.

– Pra quem você está olhando? – pergunta Lila, esticando o pescoço.

– Está vendo aquela mulher perto da janela? – pergunto, tentando abrir caminho na multidão. – De rabo de cavalo. Ela contratou o assassinato de Janssen.

– Eu a conheço. Ela trabalhava para ele – diz Lila, me seguindo.

– O quê? – Paro tão repentinamente que o homem atrás de mim se choca contra minhas costas. Ele resmunga. – Me desculpe – digo, mas ele só me olha de cara feia.

Daneca e Sam estão à nossa frente na multidão. Quero gritar para que diminuam o ritmo, mas é impossível que eles ouçam.

A mulher se afasta da manifestação. Na velocidade em que me desloco, nunca vou alcançá-la.

– Achei que era namorada dele – falo para Lila.

– Talvez, mas também trabalhava pra ele – diz ela. – Providenciando compradores. Magnatas. Gente com dinheiro suficiente para comprar doses regulares de emoção arrebatadora, o tipo de felicidade plena que te joga direto em uma depressão profunda se você parar. Ou eles compram sorte de meia dúzia de mestres diferentes de uma só vez. Usar muita sorte junta pode fazer grandes coisas mudarem.

– Ela conhecia Philip? – pergunto.

– Você disse que ela encomendou o assassinato.

A amante de Janssen desaparece no meio das pessoas. Não estamos indo rápido o bastante para segui-la. Daneca e Sam também sumiram. Estão em algum ponto à nossa frente, na Broad Street, eu sei, mas não consigo vê-los em lugar algum.

Seco a testa com a beirada da camisa branca.

– Que droga.

Lila ri e aponta para o grande cartaz balançando acima de nós, ao vento. Está coberto de purpurina e diz: MÃOS NUAS, CORAÇÕES PUROS.

– Antes de Wallingford, eu nunca tinha encontrado tantas pessoas que não fossem mestres. Nunca sei o que pensar delas.

– Só eu – digo. – Eu era o não mestre que você conhecia.

Ela me olha por um instante, e percebo, é claro, que deixou de fora a coisa mais crítica quando falou sobre meu passado no carro.

Naquela época, eu era inferior a ela.

Mesmo nunca tendo dito isso para mim, mesmo não agindo como se soubesse fazer algo importante, todo mundo repetia isso vezes o bastante para não me deixar esquecer. Ela era mestra; eu era parte do mundo de alvos que existiam para serem manipulados.

Vejo outro cartaz na multidão: O PODER CORROMPE A TODOS.

– Lila... – começo a dizer.

Nesse momento, uma garota andando bem na nossa frente tira as luvas. E ergue as mãos. Elas estão pálidas e enrugadas por terem estado envoltas no tecido de couro naquele calor.

Eu fico olhando. Não vi muitas mãos femininas nuas na minha vida. É difícil não ficar olhando.

– Mãos nuas, corações puros! – grita a garota.

Ao lado dela, vejo algumas outras pessoas tirando as luvas com sorrisos maliciosos. Uma joga um par para o alto.

Meus dedos anseiam por liberdade. Imagino como seria sentir a brisa nas palmas das mãos.

A mistura de calor e rebelião se espalha como uma onda entre a multidão, e de repente dedos nus balançam ao ar. Estamos andando sobre as luvas abandonadas.

– Cassel! – grita alguém, e vejo Sam. Ele conseguiu parar junto com Daneca entre dois carros estacionados, fora do fluxo da passeata. O rosto dela está vermelho por causa do calor. Ela está sem luvas e acena para nós irmos até lá.

Suas mãos são pálidas, com dedos longos.

Empurramos a multidão até chegarmos a eles. Estamos quase lá quando ouvimos o som de um megafone de algum lugar na nossa frente.

– Todos devem cobrir as mãos imediatamente – diz uma voz metálica. Uma sirene toca. – Aqui é a polícia. Cubram as mãos imediatamente.

Daneca parece horrorizada, como se estivessem falando diretamente com ela.

Tecnicamente, não há nada de ilegal em mãos nuas. Assim como não há nada de ilegal em uma faca de cozinha afiada. Mas quando você balança uma no alto, a polícia não gosta. E quando você a aponta para alguma coisa é a hora em que as algemas aparecem.

– Me levante – diz Lila.

– O quê?

Ao nosso redor, as pessoas estão debochando. Mas há outro som, mais distante, um rugido de motores e gritos que não carregam mais palavras.

Um helicóptero da imprensa sobrevoa o local.

– Para cima – diz ela com um sorriso, apontando para o alto. – Quero ver o que está acontecendo.

Coloco os braços ao redor de sua cintura e a levanto. Ela é leve. Sua pele é macia contra a minha, e o cheiro é de suor e grama esmagada.

Eu a coloco sobre o capô do carro ao lado de onde Sam está.

– Tem um bando de policiais – diz ela, descendo. – Com equipamento de choque. Temos que sair daqui.

Faço que sim com a cabeça uma única vez. Criminosos como nós são bons em fugir.

– Não estamos fazendo nada ilegal – diz Daneca, mas ela não parece segura. Ao nosso redor, a multidão também sente. As pessoas não estão mais indo na mesma direção. Elas começam a se espalhar.

– Para dentro – falo. – Se conseguirmos entrar em um dos prédios, podemos esperar o que quer que vá acontecer em segurança.

Porém, assim que seguimos para a porta mais próxima alguns policiais, com os rostos cobertos por capacetes, começam a se espalhar pela calçada.

– Para o chão! – ordenam.

Eles se espalham, empurrando os manifestantes que hesitam. Uma garota tenta argumentar, e um policial bate na perna dela com um cassetete. Outra garota leva um spray de pimenta no rosto. Ela cai no chão, com as mãos nos olhos.

Lila e eu nos abaixamos no asfalto imediatamente.

– O que está acontecendo? – diz Sam, se ajoelhando também. Daneca se agacha ao lado dele.

– Pra baixo do carro – diz Lila, se arrastando com os cotovelos no chão.

É um bom plano. Ainda podemos ser presos, mas pelo menos vai demorar um pouco mais.

A última vez que estive na prisão foi para visitar mamãe. Prisões são lugares onde as pessoas moram. São desumanas, mas possuem coisas como mesas, refeitórios e salas de exercício.

Isto aqui é diferente. Isto é a cadeia.

Eles pegam nossas carteiras, celulares e bolsas. Nem se dão o trabalho de tirar nossas digitais. Apenas perguntam nossos nomes e nos levam para as celas. As garotas vão para uma, os garotos, para a do lado. E assim por diante, ao longo de um corredor comprido e barulhento.

Tem alguns bancos, uma pia e uma privada nojenta. Tudo ocupado.

Daneca tenta dizer para eles que somos menores, mas os policiais não prestam atenção. Eles simplesmente nos trancam.

Sam está parado perto de mim, a cabeça encostada nas grades e os olhos fechados. Daneca encontrou um lugar em um dos bancos e está sentada, o rosto marcado de lágrimas. Eles a fizeram cobrir as mãos antes de nos jogarem no camburão e, como ela não conseguiu encontrar uma das luvas, amarraram um saco no braço dela até o cotovelo. Ela o segura contra o corpo agora.

Lila anda de um lado para outro.

– Lila – chamo, e ela se vira com os dentes à mostra e as mãos em minha direção por entre as grades.

– Ei – digo, segurando o pulso dela.

Ela parece tão surpresa que me pergunto se, por um momento, esqueceu que era humana.

– Vamos ficar bem – falo. – Vamos sair daqui.

Ela assente, constrangida agora, mas sua respiração ainda está acelerada.

– Que horas você acha que são?

Chegamos à manifestação por volta de quatro e meia da tarde, mas nem conseguimos chegar ao parque.

– Talvez umas sete – respondo.

– Ainda está cedo. Meu Deus, eu me sinto péssima.

Ela se afasta de mim, passando a mão enluvada pelo cabelo.

– Você está ótima – digo.

Ela dá uma risadinha de desdém.

Olho ao redor, para os rostos desesperados. Aposto que nenhum deles viu o interior de uma cadeia antes. Aposto que ninguém ali tem algum familiar que já foi preso.

– Já pensou no futuro? – pergunto, tentando distraí-la.

– Você quer dizer um futuro no qual não estejamos presos?

– Depois da formatura. Depois de Wallingford.

Isso tem passado muito pela minha cabeça ultimamente.

Ela dá de ombros e apoia o rosto em uma barra de metal.

– Não sei. Papai me levou para Vieques no verão passado. Ficávamos deitados na praia ou íamos nadar. Tudo é mais intenso e mais azul lá, sabe? Eu gostaria de voltar. Absorver aquilo tudo. Estou cansada de ficar trancada em lugares escuros.

Penso nela trancada por Barron naquela gaiola horrível durante meses e meses. Em um dos meus momentos mais sombrios no verão passado, pesquisei os efeitos do confinamento solitário em prisioneiros. Depressão, desespero, ansiedade incapacitante, alucinações.

Não consigo imaginar como deve ser ficar em uma gaiola de novo.

– Nunca saí do país – falo. Quem quero enganar? Eu nunca nem andei de avião.

– Você poderia ir comigo – diz ela.

– Se ainda me quiser por perto depois da formatura, sou seu – declaro, tentando fazer minha promessa parecer um pouco mais casual. – Então é isso? Você só vai ficar deitada em uma praia?

– Até papai precisar de mim – diz ela. A respiração está mais estável agora, e os olhos menos arregalados e selvagens. – Eu sempre soube o que ia ser quando crescer.

– O negócio familiar – falo. – Já pensou em fazer outra coisa?

– Não – responde ela, mas há algo em sua voz que me deixa em dúvida. – É a única coisa em que sou boa. Além do mais, sou uma Zacharov.

Penso nas coisas em que sou bom. E na Sra. Vanderveer, minha orientadora. O futuro vai chegar mais rápido do que você imagina.

Ficamos na cela pelo que estimamos ser mais uma hora até um policial entrar, um que não tínhamos visto antes. Ele traz uma prancheta.

Todos começam a gritar ao mesmo tempo. Exigem ver advogados. Protestam que são inocentes. Ameaçam com processos.

O policial espera o furor se acalmar e fala:

– Preciso que as seguintes pessoas venham até a grade e coloquem as mãos juntas na frente do corpo com os dedos entrelaçados. Samuel Yu, Daneca Wasserman e Lila Zacharov.

As celas rompem em gritos novamente. Daneca se levanta do banco. Sam faz o mesmo e vai até a grade, se virando para mim e arregalando os olhos, perplexo. Depois de alguns momentos, a gritaria acaba.

Espero que ele me chame em seguida, mas parece não haver mais nomes na prancheta.

Lila dá um passo à frente, mas hesita.

– Vá – digo para ela.

– Temos um amigo conosco – diz ela para o policial, olhando em minha direção.

– Cassel Sharpe – completa Sam. – É o nome dele. Talvez você não tenha reparado?

– É tudo minha culpa... – diz Daneca.

– Fiquem quietos, olhem diretamente para a frente e fiquem com as mãos unidas na frente do corpo – berra o policial. – Todas as outras pessoas, deem três passos para trás da porta. Agora!

Eles são algemados e levados para fora, todos os três viram a cabeça em minha direção enquanto tento pensar em explicações para eles serem chamados e eu não. Talvez os pais deles estejam lá e os meus não tenham sido encontrados. Talvez fossem apenas grupos aleatórios de três sendo levados para tirar as digitais. Ainda estou tentando me convencer quando o agente Jones caminha lentamente até a cela.

– Ah – digo.

– Cassel Sharpe. – Um pequeno sorriso faz o canto dos lábios dele se erguer. – Por favor, ande até a grade com as mãos unidas à sua frente.

Eu obedeço.

Jones me leva com rispidez até outro corredor, onde é preciso fazer uso de um cartão magnético para entrar. Não há celas, só paredes brancas e portas sem visores.

– Emitimos um alerta em seu nome, Cassel. Imagine minha surpresa quando vi que você estava preso em Newark.

Tento engolir a saliva, nervoso. Minha garganta está seca.

– Já conseguiu aquela informação pra mim? – O hálito dele tem cheiro de café velho e cigarro.

– Ainda não – falo.

– A passeata foi boa? – pergunta ele. – Se exercitou bastante fugindo da lei? Um garoto em crescimento precisa de exercício.

– Rá-rá – debocho.

Ele sorri como se realmente estivéssemos nos divertindo.

– Deixe-me dizer como serão as coisas. Eu vou lhe dar duas opções, e você vai escolher a certa.

Faço um movimento afirmativo com a cabeça para mostrar que estou ouvindo, embora tenha certeza de que não vou gostar do que vem a seguir.

– A algumas portas daqui estão Lila Zacharov e os outros dois que vieram com você. Você e eu podemos ir até lá, e vou explicar que qualquer amigo de Cassel está livre. Em seguida, vou soltá-los. Talvez até peça desculpas.

Meus ombros se contraem.

– Eles vão pensar que estou trabalhando pra você.

– Ah, sim – diz ele. – Com certeza.

– Se Lila achar que estou trabalhando pros federais e contar pro pai dela, não vou poder descobrir nada pra você. Serei inútil. – Estou falando rápido demais. Ele percebe que está me afetando. Se o boato de que estou trabalhando para a polícia se espalhar, minha própria mãe não vai querer ser vista comigo.

– Talvez eu não o considere mais tão útil assim. – Jones dá de ombros. – Talvez, se formos seus únicos amigos , você veja as coisas de uma forma diferente.

Eu respiro fundo.

– Qual é minha segunda opção?

– Me diga que até o final da semana que vem você terá uma pista pra mim. Que vai descobrir alguma coisa sobre a assassina misteriosa. Alguma coisa útil. Chega de desculpas.

Eu concordo.

– Pode deixar.

Ele bate com força a mão enluvada em meu ombro.

– Eu falei que você faria a escolha certa.

Logo depois ele me leva até a mesma sala que os outros.

Daneca, que estava sentada no chão, fica de pé e me abraça. Ela cheira a patchouli. Seus olhos estão vermelhos.

– Me desculpe – diz ela. – Você deve estar tão zangado comigo. Mas não vamos concordar com isso. Não se preocupe. Nós jamais...

– Ninguém está zangado – digo e olho para Sam e Lila para ver se eles podem explicar o que ela estava dizendo.

– Disseram que podíamos ir embora – conta Sam, e faz uma pausa – se nos voluntariássemos a fazer exames.

– Exames? – Naquele momento, sinto vontade de matar Jones. É claro que ele acrescentou algum detalhe idiota.

– O exame hiperbatogâmico – diz Lila baixinho. Ela parece cansada.

Soco a parede, o que machuca minha mão.

– Não vamos fazer, Cassel – fala Daneca.

– Não – retruco. – Não. Vocês deveriam fazer. Os dois. Depois, podem buscar ajuda para nós quando saírem.

Não tenho dúvida de que os advogados de Zacharov vão tirar Lila da cadeia em questão de minutos. E eu? Bem, vovô vai demorar um pouco mais, mas, se os federais querem que eu fareje pistas para eles, vão ter que colaborar.

– Mas eles vão saber que vocês dois... – começa a dizer Sam.

– Essa é a beleza do exame – comenta Lila. – As únicas pessoas que têm medo de fazê-lo são as que têm algo a esconder.

– É ilegal nos obrigarem – argumenta Daneca, balançando a cabeça. – Estamos sendo mantidos aqui contra a lei. Não fomos fichados nem ouvimos nossos direitos. Não cometemos nenhum crime. É um caso claro do governo explorando o poder em favor de sua própria pauta antimestres.

– Você acha? – Eu me sento no chão ao lado de Lila. Mas, apesar de minha resposta petulante, é impossível não ficar impressionado com Daneca. Ela nunca esteve envolvida em confusão antes e, mesmo na cadeia, se importa com o que é certo.

– Você está tremendo – observa Lila baixinho, colocando a mão enluvada no meu braço.

Estou surpreso. Olho para minhas mãos como se não lembrasse mais a quem elas pertencem. As dobras dos dedos da minha luva esquerda estão desgastadas por causa daquele soco. Desgastadas e trêmulas.

– Sam – digo, tentando me acalmar. – Pelo menos você não precisa ficar.

Sam olha para mim e se vira para Daneca.

– Sei que quer fazer a coisa certa, mas se não concordarmos com o exame, o que vai acontecer? – Ele baixa a voz. – E se pararem de perguntar?

– E se não nos deixarem sair mesmo depois de fazerem o exame? – sugere Daneca. – Eu não vou me submeter a isso. É contra absolutamente tudo em que acredito.

– Você acha que não sei que é errado? – pergunta Sam. – Acha que não percebo que é injusto? Que é uma droga?

Não quero que eles briguem. Não por causa disso.

– Esqueçam – falo em voz alta, tentando fazer parecer que sei o que estou dizendo. – Vamos apenas esperar. Vão nos deixar sair em breve. Eles têm que fazer isso. Como Daneca disse, nem nos ficharam. Vamos ficar bem.

Caímos em um silêncio apreensivo.

Uma hora depois, quando o pânico começa a me corroer por dentro e estou pronto para admitir que estou errado e que vão nos deixar apodrecer ali, quando estou prestes a bater na porta e implorar para falar com o agente Jones, um policial entra e diz que estamos livres. Sem explicações. Simplesmente somos levados até a porta.

O carro está como o deixamos, exceto pelo retrovisor quebrado do lado do motorista.

Chegamos em Wallingford por volta das dez da noite. Quando atravessamos a praça, tenho a estranha sensação de que passamos dias fora em vez de apenas algumas horas. Estamos muito atrasados para o horário de estudo, mas não para a verificação nos quartos.

– Soube que Ramirez deixou vocês irem para aquela manifestação – conta o Sr. Pascoli, olhando desconfiado para mim. – Como foi?

– Decidimos ir até a praia em vez de ir pra lá – diz Sam. – Ainda bem. Ouvi dizer que a passeata virou uma confusão. – As bochechas dele ficam vermelhas conforme ele fala, como se estivesse envergonhado por mentir.

Ele não toca mais no assunto.

Quando chega a hora do apagar das luzes, parece que nada aconteceu.

Na sexta à tarde, estou sentado no fundo da sala de física, olhando para o teste à minha frente. Eu me concentro no problema da garota que brinca em um balanço e utiliza as pernas para potencializar seu movimento. Não tenho certeza se é um exemplo de ressonância, de transmissão de ondas ou alguma outra coisa que esqueci. A única certeza que tenho é a de que vou me sair mal no teste.

Estou preenchendo uma daquelas bolinhas de múltipla escolha, fazendo círculos com o lápis sem parar, quando Megan Tilman grita. O lápis escorrega pelo papel, riscando uma linha de grafite.

– Srta. Tilman – diz a Dra. Jonahdab, erguendo o olhar. – Qual é o problema?

Megan esfrega a mão contra o peito e olha para Daneca, que está na carteira ao lado.

– Meu amuleto de sorte quebrou. Partiu ao meio.

Suspiros de surpresa se espalham pela sala.

– Você me enfeitiçou, não foi? – questiona Megan.

– Eu? – pergunta Daneca, olhando como se a menina tivesse enlouquecido.

– Quando sentiu o amuleto quebrar? – pergunta a Dra. Jonahdab. – Tem certeza de que quebrou agora?

Megan sacode a cabeça.

– Não sei. Eu simplesmente... fui segurá-lo, e só havia metade presa à corrente. Quando me mexi, o outro pedaço caiu na carteira. Devia estar preso no meu agasalho.

Sim, ela diz mesmo “agasalho”, como se fosse a avó de alguém.

– Às vezes as pedras simplesmente quebram – diz a Dra. Jonahdab. – São frágeis. Ninguém tocou em você, Megan. Todo mundo aqui está de luvas.

– Ela está no vídeo daquele encontro de mestres – argumenta Megan, apontando para Daneca. – E está sentada bem do meu lado. Deve ter sido ela.

Eu fico esperando Daneca começar um sermão. Acho que durante todo esse tempo que a conheço ela vem esperando por uma chance de soltar o verbo em cima de algum idiota, principalmente depois de ontem. Mas ela só afunda na cadeira com o rosto corado. Lágrimas brilham em seus olhos.

– Não sou mestra – diz baixinho.

– Então por que frequenta essas reuniões? – interroga uma das outras garotas.

– Hibiguibi. – Alguém finge tossir.

Encaro Daneca, esperando que ela fale. Que diga para Megan que uma pessoa decente se importa com as outras, não só com ela mesma. Que explique sobre a questão dos mestres e cale a boca de todo mundo. Que ela repita todas as coisas justas que diz para mim e para Sam. Todas as coisas que disse até mesmo na cadeia. Abro a boca, mas na minha cabeça o sermão se enrola. Não consigo me lembrar dos slogans. Não sei como falar dos direitos dos mestres.

Além do mais, por alguma razão, isso parece a última coisa que Daneca quer que eu faça.

Eu me viro para a Dra. Jonahdab, mas ela está olhando de Daneca para Megan, como se fosse conseguir perceber a verdade se observar bem. Alguma coisa tem que despertá-la. Eu me inclino para o sujeito na carteira ao lado da minha, Harvey Silverman, e digo:

– Ei, que solução você encontrou pro problema três? – falo alto o bastante para que minha voz chegue até a frente da sala.

Daneca se vira em minha direção. Ela balança levemente a cabeça, em aviso.

Harvey olha para o papel, e a Dra. Jonahdab parece sair do transe.

– Ok, pessoal, chega de falar! Estamos no meio de uma prova. Megan, você pode trazer seu material e fazer o resto na minha mesa. Depois, vamos para a sala da direção juntas.

– Não consigo me concentrar – diz Megan, ficando de pé. – Não com ela aqui.

– Então você pode ir para a direção agora. – A Dra. Jonahdab escreve alguma coisa em um pedaço de papel e arranca a folha do bloco. Megan pega a bolsa e o papel, mas deixa todos os livros para trás ao sair.

Assim que o sinal toca, Daneca corre para a porta, mas a Dra. Jonahdab a chama de volta.

– Srta. Wasserman, sei que vão querer conversar com você.

Daneca enfia a mão na bolsa.

– Vou ligar pra minha mãe. Não vou...

– Olhe, sabemos que você não fez nada de errado... – Ela para de falar quando repara em mim perto da porta, esperando. – Posso ajudá-lo, Sr. Sharpe?

– Não – digo. – Eu só estava... Não.

Daneca me dirige um sorriso trêmulo quando saio.

No caminho para a aula de francês, passo por um dos quadros de aviso. Ele está coberto de pôsteres de utilidade pública que vemos nas revistas, do tipo que diz: PREFIRO FICAR NU A FICAR SEM LUVAS. Ou: SÓ PORQUE TODO MUNDO ESTÁ FAZENDO, NÃO QUER DIZER QUE É LEGAL. CONTRATAR MESTRES DA MALDIÇÃO É CRIME. Ou simplesmente SEM LUVA, SEM AMOR. Só que os rostos dos modelos foram substituídos por imagens pixeladas do vídeo. Fotos que a secretária da escola está desesperadamente tentando arrancar.

Quando chego à aula de francês, a notícia do que aconteceu com Megan se espalhou por toda a escola.

– Daneca a enfeitiçou com azar, pra que ela fosse mal na prova – diz alguém quando eu passo. – É assim que ela mantém sua média sempre alta. Provavelmente tem feito isso com todos nós há anos.

– E Ramirez sabia. É por isso que vai embora.

Eu me viro de repente.

– O quê?

Quem estava falando era Courtney Ramos. Ela arregala os olhos. Estava passando gloss nos lábios, e o pincel fica parado no ar, como se ela estivesse paralisada.

– O que você disse? – grito. As pessoas no corredor se viram em nossa direção.

– A Sra. Ramirez pediu demissão – diz Courtney. – Ouvi quando estava na direção esperando meu orientador.

Ramirez, que permitiu que fôssemos à manifestação. Que era a única disposta a cuidar do HEX para que Daneca pudesse organizar o grupo no campus dois anos atrás. Que não merece levar a culpa por nossa causa. O Sr. Knight exibe as partes íntimas na aula, mas fica. Ramirez vai embora.

Eu seguro o ombro de Courtney.

– Não pode ser verdade. Por que seria verdade?

Ela se solta.

– Me largue. Tem alguma coisa muito errada com você, cara. Sabia disso?

Eu me afasto dela e saio andando em direção à sala de música de Ramirez. Percorro a metade do campus antes de avistá-la no estacionamento dos professores, enfiando uma caixa de papelão no porta-malas do carro. A Sra. Carter está com ela, segurando uma caixa de leite debaixo do braço.

Ramirez olha para mim e fecha o porta-malas com uma determinação que me impede de andar até ela.

Todo mundo sabe que “pediu demissão” é uma forma elegante de dizer “foi demitida”.

Parece completamente surreal levar Lila ao cinema. Nós dois temos, guardados em arquivo, bilhetes de nossos pais nos autorizando a sair na sexta-feira para passar o fim de semana fora, então podemos simplesmente entrar no meu carro e encontrar Sam e Daneca no cinema.

Ela entra no lado do passageiro. Está usando longos brincos prateados que ficam pendurados como adagas e um vestido branco que sobe pelas coxas quando ela se senta. Tento não reparar. Ok, tento não ficar olhando porque isso me faria bater o carro e matar nós dois.

– Então é isso que o pessoal de Wallingford faz quando sai? – pergunta Lila.

– Ah, fala sério – digo, rindo. – Você só esteve fora por três anos, não é uma viajante do tempo. Sabe o que é um encontro.

Ela bate no meu braço. Dói, e eu sorrio.

– Não, estou falando sério – diz ela. – É tudo muito adequado. Como, por exemplo, irmos namorar no carro mais tarde ou você me dar uma lembrança sua.

– Como era na sua antiga escola? Faziam orgias romanas?

Eu me pergunto se ela ainda vê algum dos amigos da escola chique de Manhattan. Eu me lembro deles do aniversário de catorze anos dela, cheios de uma superioridade radiante. Adolescentes mestres e ricos, prestes a dominar o mundo.

– Havia muitas festas. As pessoas ficavam às vezes. Ninguém era exclusivo de ninguém. – Ela dá de ombros e olha para mim através dos cílios claros. – Mas não se preocupe. Eu me divirto com seus hábitos exóticos.

– Graças a Deus – falo, tocando o coração.

Sam e Daneca estão esperando por nós na bomboniere, discutindo se alcaçuz vermelho é ou não é mais nojento do que alcaçuz preto. Sam segura um enorme pote de pipoca brilhosa.

– Então, hum, quer alguma coisa? – pergunto a Lila.

– Você está se oferecendo pra comprar meu lanche do cinema? – indaga ela, satisfeita.

Sam ri, e olho para ele com a cara mais feia que consigo fazer.

– Raspadinha de cereja – responde Lila depressa, talvez sentindo que exagerou, e vai comigo até o balcão.

Observamos enquanto colorem o gelo de vermelho. Lila se encosta no meu ombro.

– Me desculpe por ser terrível – diz ela, mexendo a boca encostada na minha manga. – Estou muito nervosa.

– Achei que já tínhamos chegado à conclusão de que gosto quando você é terrível – comento baixinho, pegando as raspadinhas.

O sorriso dela é tão radiante quanto as luzes da marquise.

Em seguida, os ingressos são rasgados e entramos em uma sala que já exibe os créditos iniciais. O cinema não está cheio nem nada, então nos sentamos no fundo.

Por uma decisão silenciosa, nenhum de nós menciona os eventos dos dias anteriores, nem a manifestação e a cadeia. A atmosfera fria do cinema parece sólida e real, fazendo todo o resto parecer muito distante.

A invasão das aranhas gigantes é incrível. Sam fala durante o filme todo, explicando quais aranhas são bonecos e de que são feitas as teias. Não faço ideia de qual é a história, só sei que a crise da aranha gigante parece derivar de uma energia do espaço sideral. Cientistas se pegam. As aranhas morrem.

Até Daneca se diverte.

Depois, vamos a uma lanchonete e comemos sanduíches com batata frita acompanhados de infinitas xícaras de café preto. Sam nos mostra como usar ketchup, açúcar e molho inglês para fazer sangue falso com aparência bem realista. A garçonete não acha graça.

Lila me diz que posso deixá-la na estação de trem, mas eu a levo até Manhattan. E quando paramos em frente ao apartamento do pai dela na Park Avenue, cercados pelas luzes da cidade, ela se inclina para me dar um beijo de boa-noite.

Os lábios e a língua dela ainda estão manchados de vermelho-cereja.