Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 16 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Dezesseis

 

NA MANHÃ DA SEGUNDA-FEIRA,

paro no estacionamento do FBI com meu Mercedes novinho comprado pela máfia. Eu me sinto muito bem com o GPS do carro me confirmando que cheguei ao destino, os bancos de couro aquecendo minha bunda e o som dos alto-falantes tocando alto o bastante as músicas do meu iPod para eu conseguir sentir nos ossos.

Saio do carro, coloco a mochila no ombro, aperto o botão para ligar o alarme e entro no prédio.

Os agentes Jones e Hunt estão me esperando dentro do saguão. Eu os sigo até o elevador.

– Carro legal – diz o agente Hunt.

– É – digo. – Gosto dele.

O agente Jones solta uma risada debochada.

– Vamos subir, garoto, e ouvir o que você tem a dizer. É bom que tenha alguma coisa desta vez.

Chegamos ao quarto andar, e eles me levam para uma sala diferente. Sem espelho desta vez. Mas tenho certeza de que tem escuta. A mobília é simples. Uma mesa, cadeiras de metal. O tipo de sala em que alguém poderia deixar você trancado durante muito tempo.

– Quero imunidade – falo para eles, me sentando à mesa. – Para qualquer crime passado.

– Claro – diz o agente Jones. – Esse é meu acordo verbal. Você é só um garoto, Cassel. Não estamos interessados em prendê-lo por qualquer pequeno...

– Não – digo. – Quero por escrito.

O agente Hunt limpa a garganta.

– Podemos providenciar isso. Não é problema. Faremos o que for necessário para deixá-lo mais à vontade. Nos dê um tempo e vamos preparar um acordo. Independentemente do que nos disser, podemos garantir que nenhum advogado vai acusá-lo de nada. Terá seu acordo. Queremos você conosco.

Enfio a mão na mochila e tiro três cópias de um contrato.

– O que é isso? – pergunta o agente Jones. Ele não parece feliz.

Engulo em seco. Meus dedos molham o papel com suor. Espero que eles não reparem.

– São meus termos. E, diferentemente do acordo que vocês fizeram com meu irmão, preciso que este seja autorizado por um advogado do departamento de justiça.

Os dois trocam um olhar.

– Philip era um caso especial – afirma o agente Hunt. – Ele tinha informações de que precisávamos. Se você está propondo uma troca, tem que nos dar alguma coisa.

– Também sou um caso especial. Philip contou a vocês, ou pelo menos insinuou enfaticamente, que sabia a identidade de um mestre de transformação, certo? Eu também sei. Mas não sou otário como ele, tá? Não quero um bando de promessas vazias. Quero este contrato assinado por um advogado do departamento de justiça. Não por vocês dois, palhaços. Em seguida, vão mandar por fax para minha advogada. Quando eu receber o OK dela, conto tudo pra vocês.

O agente Hunt parece um pouco perplexo. Não sei se ele desconfiava que o assassino era um mestre de transformação, mas não posso correr riscos. Além do mais, só tenho algumas cartas na manga.

– E se não pudermos fazer isso? – pergunta o agente Jones. Ele não parece tão amigável agora.

Dou de ombros.

– Acho que nenhum de nós consegue o que quer.

– Poderíamos pegar sua mãe. Você acha que não sabemos o que ela andou fazendo? – diz o agente Hunt.

– Eu não sei o que ela andou fazendo – respondo, mantendo a voz o mais controlada que consigo. – Mas, se ela fez alguma coisa errada, acho que vai ter que pagar por isso.

O agente Jones se inclina sobre a mesa.

– Você é mestre da morte, não é, garoto? Insinuou isso incisivamente na última vez que esteve aqui. Será que alguma coisa deu errado antes de aprender a controlar seu feitiço? Acontece. Mas acha que não vamos descobrir sobre um adolescente desaparecido em algum momento do seu passado? Aí, será tarde demais para acordos.

Será tarde demais para acordos bem antes disso, eu acho.

Eu me pergunto como seria trabalhar para a família Brennan. Imagino como é matar alguém quando se tem que lembrar o que fez.

– Olha – digo –, especifiquei minhas condições no documento que vocês têm em mãos. Em troca de imunidade, darei o nome completo e paradeiro do mestre de transformação e prova de um ou mais crimes cometidos por essa pessoa.

– É Lila Zacharov, não é? – diz o Agente Hunt. – Já sabemos disso. Seu segredo não é nenhuma novidade. Ela desaparece e o pai de repente tem um novo assassino.

Encosto na parte de cima do papel, passando o dedo sobre as palavras, me controlando para não reagir. Por fim, olho para os dois.

– Cada minuto que passam conversando comigo é um minuto a menos falando com o departamento de justiça. E, em alguns minutos, vou me levantar, sair andando daqui e levar minha proposta comigo.

– E se não permitirmos que isso aconteça? – sugere o agente Hunt.

– A não ser que planejem trazer um mestre de memória para revirar meu cérebro como se fosse um baralho, vocês não podem me obrigar a fazer um acordo. E, vamos encarar os fatos, se fossem fazer isso, já teriam feito. Acho que vocês poderiam me manter aqui fisicamente, mas não podem manter meu interesse.

– É melhor você ter mercadoria – diz o agente Jones, levantando-se. – Não posso prometer nada, mas vou fazer a ligação.

Eles me deixam sozinho na sala. Percebo que vou ficar lá por um bom tempo. Levei o dever de casa.

Quando me trazem o primeiro contrato, ligo para minha advogada. Infelizmente, ela ainda não sabe que é minha advogada.

– Alô? – diz a Sra. Wasserman.

– Oi, é Cassel – digo, deixando que todo o medo que sinto transpareça na minha voz. Os agentes me deixaram sozinho na sala, mas não tenho dúvida de que estão gravando tudo que digo. – Lembra quando você me disse que eu devia falar com você se precisasse de algo?

Ouço a hesitação na voz dela.

– Aconteceu alguma coisa?

– Preciso muito de um advogado. Preciso que você seja minha advogada. – Não tenho dúvida de que, neste momento, ela está desejando não ter aceitado as violetas que dei.

– Não sei – diz ela, o que não é um não. – Por que não me conta o que aconteceu?

– Não posso explicar. – Conhecer as pessoas é importante ao dar o golpe nelas. Sei que a Sra. Wasserman quer ajudar adolescentes mestres, mas ela também gosta de saber das coisas. Não há mal nenhum em oferecer um pouco de incentivo. – Quero dizer, eu quero contar, mas se não for minha advogada... eu não deveria colocá-la nessa situação.

– Tudo bem – diz ela depressa. – Me considere sua advogada. Agora, explique o que está acontecendo. Meu identificador de chamadas me diz que você está ligando de um número não identificado. Onde você está?

– Em Trenton. Os agentes federais daqui estão montando um contrato pra tentar me dar imunidade se eu revelar a identidade de um mestre de transformação. Um assassino – explico, caso ela comece a sentir vontade de proteger o mestre anônimo. – Mas preciso que me diga se o acordo de imunidade é legal. Além do mais, querem que eu trabalhe pra eles. Preciso ter certeza de que vou poder terminar o ano em Wallingford antes de começar. E tem mais uma coisa...

– Cassel, isso é muito sério. Você nunca deveria ter tentado fazer um acordo desses sozinho.

– Eu sei – digo, feliz por ser repreendido.

Demora horas e acabo tendo que ligar para a mãe de Daneca quatro vezes para falar das mudanças até ela aprovar a papelada. Por fim, eu assino. O departamento de justiça assina. E, como ainda sou menor, a Sra. Wasserman manda a página com a assinatura falsificada de minha mãe – a que preparei antes e deixei na mesa da Sra. Wasserman no sábado, virada para baixo para que parecesse apenas um papel em branco. É claro que ela não sabe que é falsificada, embora eu imagine que deva supor.

Em seguida, conto aos federais quem é o mestre de transformação.

Isso não corre muito bem.

O agente Jones bate, irritado, com os dedos no tampo da mesa. A garrafa está na frente dele, e a luz faz o vidro verde brilhar de leve.

– Vamos repassar sua história mais uma vez.

– Já repassamos duas vezes – digo, apontando para o papel onde ele está tomando notas. – Já dei uma declaração por escrito.

– Mais uma vez – insiste o agente Hunt.

Eu respiro fundo.

– Meu irmão Barron é mestre de memória. Meu outro irmão, meu irmão morto, Philip, era mestre físico. Era empregado de um cara chamado Anton. Anton era quem encomendava os assassinatos. Ninguém mais sabia o que ele estava fazendo. Éramos seu esquadrão privado de execução. Eu transformava uma pessoa, e Barron me fazia esquecer.

– Porque ele achava que você não iria concordar com a coisa toda? – pergunta o agente Jones.

– Acho... Acho que Philip pensava que estava fazendo a coisa certa pra mim. Que eu era só um garoto. Que, se eu não soubesse, não seria nada de mais. – Minha voz falha, o que odeio.

– Você teria matado aquelas pessoas? – pergunta o agente Hunt. – Sem coerção mágica?

Imagino meus irmãos me procurando e me dizendo que era importante, necessário. Que eu estaria dentro das brincadeiras, faria realmente parte da família e não seria mais um intruso. Que eu poderia ter tudo que quisesse se fizesse apenas isso para eles. Talvez Barron estivesse certo sobre mim.

– Não sei – digo. – Nem sei se eu sabia que eles estavam mortos.

– Tudo bem – fala o agente Jones. – Quando descobriu que era mestre de transformação?

– Percebi que havia alguma coisa errada com minha memória, então comprei alguns amuletos e fiquei usando-os. Quando transformei uma coisa sem querer, descobri o que eu era. Barron não conseguiu me fazer esquecer por causa dos amuletos. Philip me contou o resto. – É estranho dizer de maneira tão direta, sem todo o horror e a traição. Só os fatos.

– Então sabia que estávamos falando sobre pessoas que você matou na primeira vez que esteve neste prédio?

Balanço a cabeça em uma negativa.

– Mas descobri quando olhei os arquivos. E consegui lembrar o bastante para encontrar a garrafa.

– Mas você não sabe onde nenhum dos outros corpos estão? Nem de quem é esse corpo?

– É verdade. Não sei mesmo. Queria saber.

– A garrafa tem algum significado especial? Por que escolheu esse objeto?

Balanço a cabeça de novo.

– Não faço ideia. Deve ter sido o que veio à cabeça.

– Por que não nos conta sobre o assassinato de Philip de novo? Está dizendo que não atirou em seu irmão, certo? Tem certeza? Talvez não se lembre.

– Não sei usar uma arma – digo. – De qualquer modo, sei quem atirou no meu irmão. Foi Henry Janssen. Ele invadiu a casa da minha mãe e tentou me matar também. Eu não estava de luvas, então apenas... reagi.

– Que dia foi isso? – pergunta Hunt.

– Segunda-feira, dia 13.

– O que você fez exatamente? – pergunta Jones.

É como lembrar as falas de uma peça, disse Sam.

– Mamãe autorizou que eu saísse de Wallingford para ir a uma consulta médica e almoçar. Depois, vi que tinha tempo à toa e fui pra casa.

– Sozinho? – pergunta o agente Hunt.

– É. Como já falei duas vezes, sozinho. – Eu bocejo. – A porta da frente estava arrombada.

Penso em Sam, com um sapato maior do que o pé, batendo com a sola na porta. A madeira lascou ao redor da fechadura. Ele pareceu satisfeito e assustado, como se nunca tivesse tido permissão para fazer uma coisa tão violenta.

– Mas você não ficou preocupado?

Dou de ombros.

– Acho que fiquei um pouco. Mas a casa está bem detonada. Presumi que Barron e mamãe tinham brigado. Não tem muita coisa de valor para ser roubada. Me deixou um pouco mais alerta, talvez, mas eu realmente não achei que tivesse alguém lá dentro.

– E depois? – O agente Jones cruza os braços.

– Tirei o casaco e as luvas.

– Você sempre tira as luvas em casa? – pergunta o agente Hunt.

– Tiro – digo, olhando nos olhos de Hunt. – Você não?

– Tudo bem, continue – diz o agente Jones.

– Liguei a televisão. Eu ia assistir TV, comer um sanduíche e voltar pra escola. Tinha uma hora de bobeira.

O agente Hunt fala com desdém:

– Por que ir pra casa? Nada disso parece interessante.

– Porque, se voltasse pra escola, eu teria que fazer as tarefas da tarde. Sou preguiçoso.

Eles trocam outro olhar, não muito simpático.

– Aparece um cara apontando uma arma pra mim. Eu levanto as mãos, mas ele vem pra cima. Ele começa a me contar uma história de que Philip ia matá-lo e ele teve que fugir no meio da noite, deixando tudo pra trás. Eu estava com Philip, apesar de não lembrar, e ele também me culpava. O que considero justo. Ele continua e diz que ele e a namorada mataram Philip e eu seria o próximo.

– Ele disse isso tudo?

Eu concordo com a cabeça.

– Acho que ele queria me deixar mesmo com medo.

– Você ficou? – pergunta o agente Jones.

– Fiquei – admito, assentindo. – É claro que fiquei com medo.

O agente Jones faz cara feia.

– Ele estava sozinho?

– A namorada estava lá. Beth, eu acho. A foto dela estava naqueles arquivos que você me deu. Acho que não é profissional. Não agiu como profissional. Acho que foi assim que acabou aparecendo na frente da câmera.

– Por que ele voltou agora, depois de tanto tempo?

– Ele disse que Philip não tinha mais a proteção de Zacharov.

– Isso é verdade?

– Não sei – respondo. – Não faço parte de nenhuma família. Na época, eu não me importava. Eu tinha que fazer alguma coisa, então parti pra cima dele.

– A arma disparou?

– Disparou – digo. – Dois tiros no teto. Gesso pra todo lado. Minha mão tocou a pele dele e transformei seu coração em vidro.

– E depois? – pergunta o agente Jones.

– A mulher gritou e pegou a arma – conto. Minhas mãos estão grudentas. Eu me concentro em minimizar os detalhes que me entregariam. Penso na última vez que contei essa história e me certifico de não repetir as mesmas palavras para que não pareça um discurso decorado. – Ela saiu correndo.

– Ela atirou em você?

Eu balanço a cabeça.

– Como falei, ela saiu correndo.

– E por que você acha que ela fez isso? Por que não atirar em você? Você estava bem ali. O rebote ia te derrubar em um minuto. Ela poderia ter acabado com você lentamente. – Não me conforta a forma como o agente Hunt conhece tão bem o rebote de transformação, mas o deleite na voz dele quando fala sobre o que ela podia ter feito comigo me preocupa ainda mais.

– Não faço ideia – respondo. – Acho que ela se apavorou. Talvez não soubesse. Não estou contando nenhuma novidade. Não sei, e não importa quantas vezes você me pergunte, só posso supor.

– Então você o colocou no freezer? Parece que você já se livrou de um corpo antes. – O agente Jones fala em tom de brincadeira, mas não está brincando.

– Vejo muita televisão – digo, com um movimento despreocupado de mão. – Só que um corpo é mais pesado na vida real.

– E depois? Voltou pra escola como se nada tivesse acontecido?

– É, mais ou menos – respondo. – Quero dizer, voltei pra escola como se tivesse acabado de matar um sujeito e colocado no meu freezer. Mas não tenho certeza se dá pra perceber a diferença olhando de fora.

– Você é um cara bem controlado, né? – diz o agente Hunt.

– Escondo minha dor interior debaixo de minha aparência estoica.

O agente Hunt parece que gostaria de enfiar o punho na minha aparência estoica. Mas então o telefone do agente Jones toca, e ele se levanta e sai da sala. O agente Hunt vai atrás. O último olhar dele em minha direção é uma mistura de desconfiança e alerta, como se de repente achasse que posso estar falando a verdade.

Volto a fazer o dever. Meu estômago ronca. De acordo com meu relógio, são quase sete da noite.

Eles demoram vinte minutos para voltar.

– Tudo bem, garoto – diz o agente Hunt quando eles entram. – Encontramos o corpo no freezer, como você falou. Só uma pergunta. Onde estão as roupas dele?

– Ah – digo. Por um momento, minha mente fica vazia. Sabia que tinha me esquecido de alguma coisa. – Ah, é. – Eu me forço a dar de ombros. – Eu as joguei no rio. Achei que talvez sugerisse que ele se afogou se alguém as encontrasse. Mas ninguém encontrou.

Hunt me olha por bastante tempo, depois assente uma vez.

– Também visitamos Bethenny Thomas e recolhemos duas armas, embora o departamento de balística ainda precise verificar se as balas correspondem. Agora, quero ver você transformar alguma coisa.

– Ah, certo. O show – digo, ficando de pé.

Tiro as luvas lentamente e encosto as mãos na superfície fria e seca da mesa.

Às onze da noite, ligo para Barron do carro.

– Muito bem – digo. – Tomei minha decisão.

– Você não tinha escolha – diz ele, convencido.

Ele fala como um irmão mais velho, como se já tivesse me avisado para não atravessar a rua sozinho, e lá estivesse eu, do outro lado, com carros passando rápido, sem ter como voltar. Casual assim. Eu me pergunto se Barron realmente não se sente violado, se está tão impregnado de magia e violência que acredita que amaldiçoar e chantagear é o que irmãos fazem um ao outro.

– Não – confirmo. – Escolha nenhuma.

– Tudo bem – diz ele, às gargalhadas. Parece relaxado agora, não mais cauteloso. – Vou falar pra eles.

– Não vou fazer isso – falo. – Essa é minha decisão. Não vou trabalhar para os Brennan. Não vou ser um assassino.

– Eu poderia procurar os federais, sabe – ameaça ele com rispidez. – Não seja idiota, Cassel.

– Então procure – digo. – Vá em frente. Mas, se fizer isso, eles saberão o que eu sou. Você vai perder a capacidade de me controlar. Serei propriedade pública. – É fácil blefar agora que os federais já sabem o que sou.

Há uma longa pausa do outro lado da linha. Por fim, ele pergunta:

– Podemos falar sobre isso pessoalmente?

– Claro – concordo. – Posso fugir de Wallingford. Venha me buscar.

– Não sei – diz ele de mau humor. – Não quero encorajar atos de delinquência.

– Tem uma loja perto da escola – sugiro. – Esteja lá ou me esqueça.

– Vou demorar quinze minutos.

Quando desligamos, olho pela janela do carro. Meu peito está apertado, com sensação de câimbra, como às vezes minhas pernas ficavam depois de correr, uma dor tão repentina que me acordava do sono profundo.

Só há uma coisa a fazer quando isso acontece. Esperar passar.

Imagino que o Mercedes vai deixar Barron nervoso quanto às minhas lealdades, então vou esperar por ele a pé, encostado na parede de concreto. O Sr. Gazonas, dono da loja da esquina, olhou com tristeza para mim por trás da bancada quando entrei e comprei café.

– Você devia estar na escola – disse ele e olhou para o relógio. – Devia estar dormindo.

– Eu sei – concordo, colocando o dinheiro na bancada. – Estou com problemas familiares.

– Nenhum problema é resolvido a essa hora da noite – disse ele. – A meia-noite é para os arrependimentos.

Não gosto de pensar sobre isso enquanto tomo café e espero, mas gosto menos ainda de tudo mais que tenho para pensar.

Barron chega meia hora atrasado. Ele para o carro e abre a janela.

– Muito bem – diz ele. – Pra onde quer ir?

– Pra algum lugar particular – respondo, entrando no carro.

Seguimos por algumas quadras até chegarmos a um velho cemitério. Ele para na rua cheia de pedrinhas, depois de uma placa de NÃO ENTRE.

– Olha – digo. – Entendo que você tem coisas sobre mim. Você poderia abrir a boca. Contar pras pessoas o que eu sou e o que fiz. Droga, você poderia gritar do alto de qualquer telhado. Eu estaria ferrado. Minha vida estaria arruinada.

Ele franze a testa. Não consigo saber se está pensando no que falei ou planejando alguma coisa.

– Mas eu poderia mudar meu rosto e recomeçar uma vida completamente diferente – continuo. Só precisaria de um nome e um número de Seguro Social. Acredito que mamãe me criou bem o bastante para conseguir um roubo de identidade.

Ele parece assustado, como se nem tivesse considerado isso.

– Não quero ser um assassino – digo.

– Não pense desse jeito – retruca ele, se inclinando e pegando meu café que está no porta-copo do carro. Depois toma um grande gole. – As pessoas que eliminaríamos não são bons sujeitos. Me deixe explicar como funcionaria. Os Brennan nem precisam conhecer você. Só vão ver seu trabalho. Sou seu agente, cúmplice e bode expiatório. Ajudo você a executar os crimes e escondo sua identidade.

– E a escola?

– O que tem? – pergunta ele.

– Não vou largar Wallingford.

Ele assente, curvando o lábio.

– Agora que Lila está em Wallingford, aposto que você não quer ir embora. É sempre por causa dela, não é?

Eu franzo a testa.

– Então por que eu não poderia fazer isso sozinho? Deixar você de fora?

– Porque você precisa de mim pra fazer a pesquisa – diz ele, claramente aliviado por ouvir uma pergunta que consegue responder com facilidade. – Vou tomar cuidado pra encontrarmos a pessoa certa na noite certa. E, é claro, vou cuidar pra que as testemunhas não se lembrem de nada.

– É claro – assinto.

– E então? – diz ele. – Vamos lá. Poderíamos ganhar muito dinheiro. E eu poderia até fazer você esquecer...

– Não – retruco, interrompendo-o. – Não mesmo. Não quero fazer isso.

– Cassel – diz ele com desespero. – Por favor. Olha, você precisa. Por favor, Cassel.

Por um momento, não tenho certeza de nada.

– Não quero – declaro por fim. O interior do carro está quente, apertado. Quero sair. – Me leva de volta pra Wallingford.

– Já aceitei o trabalho – diz ele. – Eu tinha certeza de que você ia dizer sim.

Eu fico paralisado.

– Barron, para com isso. Você não pode me manipular assim. Não vou...

– Só desta vez – diz ele. – Uma vez. Se você odiar, se for ruim, não precisamos repetir nunca mais.

Eu hesito. Depois que modifiquei os cadernos de Barron, ele se tornou o irmão que eu sempre quis. Tudo tem seu preço.

– Então, em vez da noite da pizza, temos que nos manter unidos com assassinatos?

– Você concorda? – pergunta ele.

Eu me sinto enjoado. Por um momento, acho mesmo que vou vomitar. Ele parece tão genuinamente feliz com a ideia que eu talvez concorde.

– Quem? – pergunto, encostando a cabeça no vidro frio da janela. – Quem é a vítima?

Ele sacode a mão no ar indicando que não tem importância.

– O nome dele é Emil Lombardo. Ninguém que você conheça. É completamente louco.

Fico feliz de o rosto dele estar virado para que não possa ver minha expressão.

– Tudo bem – digo. – Só desta vez.

Ele me dá um tapa no ombro quando um carro para entre os pilares atrás de nós. As luzes vermelhas e azuis giram, enviando um brilho estroboscópico aliviante para os túmulos.

Barron soca o painel.

– Policiais.

– Ali diz para não entrar – aviso a ele, apontando para a placa.

Ele se inclina e tira uma das luvas.

– O que está fazendo? – pergunto.

Ele ergue as sobrancelhas e seu lábio treme um pouco no canto.

– Escapando de uma multa.

A luz do carro dos policiais gira de repente, fazendo pontos pretos dançarem na frente dos meus olhos.

Olho, nervoso, pela janela de trás. Um dos policiais saiu e está vindo em nossa direção. Respiro fundo.

Barron abre a janela com um sorriso no rosto.

– Boa noite, senhor.

Seguro o pulso de Barron com minha mão enluvada antes que ele tenha a chance de agir. Ele olha para mim, chocado demais para registrar que deveria estar zangado, quando o agente Hunt coloca o cano de uma arma no rosto dele.

– Barron Sharpe, saia do carro – diz Hunt.

– O quê? – pergunta ele.

– Sou o agente Hunt, lembra? – Pela primeira vez desde que o conheci ele parece satisfeito. – Tivemos uma conversa agradável sobre seu irmão. Você nos contou um monte de coisas que não puderam ser comprovadas.

Barron assente e olha para mim.

– Eu me lembro de você.

– Acabamos de ouvir sua proposta interessante – diz o agente Hunt. Pelo retrovisor lateral, vejo o agente Jones sair do carro.

Ele anda até meu lado e abre a porta. Barron se vira para mim.

Faço a única coisa em que consigo pensar. Levanto a camisa para mostrar a escuta.

– Desculpa – falo. – Mas achei que, se você ia me obrigar a trabalhar pra alguém, não poderia ficar muito zangado se eu fizesse o mesmo com você. Nos inscrevi em um programa.

Ele parece não concordar com minha lógica.

Penso no vovô sentado no quintal, olhando para o céu e desejando que as coisas pudessem ter sido diferentes para nós, os netos. Tenho certeza de que não era isso que ele tinha em mente.

E daí que eu levei o cavalo diretamente até a água, digo para mim mesmo. Não fui eu quem o fez beber.

Eles colocam as algemas em Barron. Que bom que já negociei o acordo dele, porque Hunt e Jones parecem preferir trancá-lo em um buraco escuro a trabalhar com ele. Eu reconheço o olhar. É o mesmo que lançam pra mim.