Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 17 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Dezessete

 

A COISA MAIS DIFÍCIL

é me certificar de que ninguém está me seguindo. O agente Hunt me deu carona até meu carro em Wallingford, o que me deixou nervoso. Dirijo sem destino durante uma hora, até ter certeza de que não tem ninguém atrás de mim.

As ruas estão quase vazias. A essa hora da noite, há poucos motivos para estar fora de casa.

Por fim, sigo para o hotel. Estaciono nos fundos, perto do lixo. O ar da noite é como um tapa na cara. Parece cedo demais para a temperatura ter caído tão abruptamente. Talvez seja mais frio às três da madrugada.

O hotel que ela escolheu é de tijolos, com uma construção central e duas outras que formam um C ao redor de uma piscina esverdeada. Todos os quartos dão para o pátio, então não preciso passar pelo saguão.

Ela está no 411. No andar de cima. Bato três vezes. Ouço uma corrente deslizar e a porta se abre.

A viúva do meu irmão parece menos magra do que na última vez que a vi, mas os olhos estão com as olheiras de sempre. O cabelo é um emaranhado castanho e sedoso, e ela usa um vestido preto apertado que eu não mereço de maneira alguma.

– Você está atrasado. – Ela faz sinal para eu entrar e tranca a porta. Em seguida, se apoia nela. As mãos e os pés estão nus, e eu preciso me forçar a lembrar que ela não é uma mestra.

Sua mala está aberta no canto, as roupas ficaram espalhadas no chão. Tiro uma peça íntima da única cadeira do quarto e me sento.

– Desculpa – digo. – As coisas demoram mais tempo do que a gente imagina.

– Quer uma bebida? – pergunta Maura, apontando para uma garrafa de Cuervo e alguns copos de plástico.

Balanço a cabeça.

– Eu sabia que você ia descobrir. – Ela coloca alguns cubos de gelo no copo e serve uma dose generosa. – Quer ouvir a história?

– Deixe-me contá-la – respondo. – Quero ver o quanto realmente descobri.

Ela pega o copo e vai até a cama, onde se deita de bruços. Tenho certeza de que esta não é a primeira dose dela.

– Você e Philip tinham um desses relacionamentos cheios de altos e baixos, certo? Subidas e descidas. Com muitos gritos. Passional.

– É – diz ela, olhando de forma estranha para mim.

– Ah, pare com isso – falo. – Ele era meu irmão. Sei como eram todos os relacionamentos dele. De qualquer modo, talvez as brigas tenham passado do limite pra você, ou talvez tenha ficado diferente depois do bebê, mas em algum momento Barron se envolveu. Começou a fazer você se esquecer das brigas que teve com Philip. Fez você esquecer que tinha decidido abandoná-lo.

– Foi quando você me deu o amuleto – diz ela. Penso em quando o entreguei a ela na cozinha do apartamento, com meu sobrinho chorando ao fundo, e vovô roncando em uma poltrona na sala.

Faço que sim com a cabeça.

– Ele também me fez esquecer muita coisa.

Ela cospe de volta grande parte do líquido no copo.

– E você já tinha começado a sofrer alguns efeitos colaterais ruins. – Penso nela sentada no alto da escada, as pernas penduradas na beirada, o corpo todo se mexendo ao som de uma música que eu não conseguia ouvir.

– Você está falando da música – diz ela. – Sinto falta dela, sabia?

– Você disse que era linda.

– Eu tocava clarinete na escola, sabia? Não era muito boa, mas ainda sei ler partituras. – Ela ri. – Tentei escrever trechos dela, ao menos algumas notas, mas esqueci tudo. Talvez nunca a escute de novo.

– Era uma alucinação auditiva. Eu tenho dores de cabeça. Fique feliz por terem sumido.

Maura faz uma careta.

– É uma explicação nada romântica.

– É. – Eu suspiro. – Continuando. Você se deu conta do que Barron e Philip estavam fazendo e se mandou. Levou seu filho.

– Seu sobrinho tem nome – diz ela. – É Aaron. Você nunca fala. Aaron.

Faço uma careta. Por algum motivo, nunca me liguei a essa criança. Ele sempre foi o filho de Philip, o filho de Maura, não meu sobrinho. Não uma pessoa com nome que vai crescer e se tornar outro membro perturbado da família.

– Você levou Aaron – digo. – Philip percebeu que tive alguma coisa a ver com a partida de vocês, aliás.

Ela assente. Tem uma história ali, uma história sobre a lenta compreensão do quanto ela realmente foi traída, uma história na qual ela deu um pequeno salto ao sentir o amuleto rachar debaixo da blusa. Na qual teve que pensar rápido e não demonstrar, continuar fingindo mesmo quando deve ter se sentido tomada pelo pavor. Mas ela não se mexe para contar essa história, e é ela quem deve decidir se conta ou não. Meus irmãos fizeram isso com Maura. Ela não me deve nada.

– Você tem uma família grande, certo? Ou uma melhor amiga que se mudou pro sul. Alguém no Arkansas com quem achou que ficaria segura. Você entra no carro e vai. Talvez o troque por outro veículo. Está usando seu nome de solteira e, apesar de ter noção de que Philip vai surtar quando vir que você levou o filho dele, sabe que o conhece muito bem. Tem certeza de que ele vai ficar com medo de que você vá à polícia, então nunca considera que ele vá fazer isso.

“Você é cuidadosa, mas não o bastante. Talvez seja difícil encontrá-la, mas não é impossível. Então, quando os federais ligam procurando você, com histórias sobre seu marido entrar no programa de testemunhas protegidas querendo que você se junte a ele, você se descontrola. Os federais precisam de você, pois Philip disse que não daria o que eles querem até vê-la, então estou certo de que não se importaram com seus sentimentos. Seu país precisava de você.”

Maura assente.

– Você se dá conta de que nunca vai conseguir se livrar dele. Legalmente, com os federais ajudando, Philip pode conseguir custódia compartilhada do seu filho. Você pode até ser obrigada a morar perto, e talvez alguns dos amigos dele aparecessem. Ou a enfeitiçariam ou acabariam com você, mas você sabia que ele podia atingi-la. Sabia que estava em perigo.

Ela me observa como se eu fosse uma cobra se encolhendo e se preparando para dar o bote.

– Você sabe onde Philip guarda as armas. Dirige até Arkansas, pega uma e atira nele.

Ao ouvir a palavra “atira”, ela se encolhe. Em seguida, engole o resto da tequila.

– Você usa um casaco bem grande e aquelas lindas luvas vermelhas. A segurança instalou câmeras do lado de fora do condomínio recentemente. Pra sua sorte, só conseguiram perceber que a pessoa que entrou no apartamento de Philip naquela noite era mulher.

– O quê? – Ela se senta e olha para mim como se eu finalmente a tivesse surpreendido. Aperta as duas mãos contra a boca. – Não. Tinha uma câmera?

– Não se preocupe – falo. – Depois, você larga as roupas e a arma em um lugar onde acha que estarão seguras. Na minha casa. Afinal, mamãe saiu da cadeia. Você conclui que logo ela estará acumulando coisas. Uma casa cheia de lixo seria mesmo um ótimo lugar pra esconder provas... Debaixo de tanta porcaria que até os policiais não vão ter paciência pra olhar tudo.

– Mas acho que não sou nenhum gênio do crime – diz ela. – Você encontrou tudo. E eu não fazia ideia de que fui filmada.

– Só tem uma coisa que não descobri – digo. – Quando falei com os federais, eles disseram que falaram com você no Arkansas na manhã seguinte ao assassinato de Philip. É um trajeto de pelo menos vinte horas de carro. Não tem como você ter atirado nele e voltado a tempo de atender aquela ligação. Como fez isso?

Ela sorri.

– Você e sua mãe me ensinaram. Os agentes ligaram pra minha casa. Então meu irmão me ligou em um celular pré-pago com código de área de Arkansas. Ele fez uma teleconferência comigo e ligou para os agentes. Foi simples. Pareceu que eu estava retornando a ligação de casa. Era como eu fazia quando tinha que ajudar sua mãe a fazer aquelas ligações da cadeia.

– Estou admirado – digo. – Achei mesmo que o casaco, as luvas e a arma fossem da minha mãe, até ver o amuleto que dei pra você. O que você deixou no bolso.

– Cometi muitos erros. Agora vejo isso – admite ela, tirando uma arma de debaixo do cobertor e apontando para mim. – Você entende que não posso cometer mais nenhum.

– Ah, sem dúvida – concordo. – Tenho certeza de que você não quer matar o cara que acabou de incriminar outra pessoa pelo assassinato do próprio irmão.

A arma treme na mão dela.

– Você não fez isso – diz ela. – Por que faria?

– Tentei proteger Philip quando ele estava vivo. – Estou sendo sincero, embora tenha certeza de que ela está acostumada com mentirosos sinceros. – Acho que ele não acreditava nisso, mas foi o que fiz. Agora que está morto, estou tentando proteger você.

– Então você não vai mesmo contar pra ninguém – comenta ela.

Eu fico de pé, e a arma me acompanha.

– Vou levar pro meu túmulo – respondo, dando um sorriso. Ela não está sorrindo.

Em seguida, me viro e saio do quarto de hotel.

Por um momento, penso escutar um clique e meus músculos se enrijecem, esperando a bala. Mas o momento passa e continuo andando para fora do quarto, descendo a escada na direção do carro. Há um antigo mito grego sobre um sujeito chamado Orfeu. Ele vai até Hades para buscar a esposa, mas a perde de novo porque, no caminho até a saída do inferno, olha para trás para ver se ela está realmente lá.

É assim que me sinto. Como se, olhando para trás, pudesse quebrar o feitiço. Como se fosse descobrir que estou morto.

Só quando saio do estacionamento eu consigo voltar a respirar.

Não quero retornar para Wallingford. Não vou suportar. Em vez disso, dirijo até Carney e bato na porta da casa do vovô. Já passou do meio da noite, mas ele acaba abrindo, usando um roupão.

– Cassel? – diz ele. – Aconteceu alguma coisa?

Eu balanço a cabeça negativamente.

Ele acena para mim com a mão boa.

– Então entre. Parado aí na porta, você está fazendo todo o ar frio entrar.

Entro na sala de jantar. Tem umas correspondências na mesa junto com um buquê de flores murchas do enterro. Parece que aquilo aconteceu há tanto tempo, mas só algumas semanas se passaram desde a morte de Philip.

No painel lateral há várias fotos, a maioria delas de nós três quando pequenos, correndo no meio do jardim com a irrigação ligada e fazendo poses constrangidas, nossos braços nos ombros uns dos outros, sobre gramados. Há outras fotos também, maiores, do vovô com a mamãe em seu vestido de casamento, de vovó, e uma de vovô com Zacharov no que parece ser o casamento dos pais de Lila. A aliança aparentemente cara no dedo de Zacharov é bem chamativa.

– Vou colocar a água pra esquentar – diz ele.

– Não precisa – falo. – Não estou com sede.

– Eu perguntei alguma coisa? – Vovô olha, severo, para mim. – Você vai pegar uma xícara, vai beber e vou preparar sua cama no quarto de hóspedes. Você não tem aula amanhã?

– Tenho – respondo, me sentindo repreendido.

– Vou ligar pra lá de manhã. Pra avisar que você vai se atrasar um pouco.

– Tenho me atrasado com frequência – falo. – Perdi muitas aulas. Acho que vou repetir em física.

– A morte deixa a gente transtornado. Até uma escola chique como a sua sabe disso. – Ele entra na cozinha.

Eu me sento à mesa no escuro. Agora que estou aqui, sinto uma calma que não consigo explicar tomar conta de mim. Só quero ficar aqui, sentado a esta mesa, para sempre. Não quero me mexer.

Em dado momento, um apito metálico soa na cozinha. Vovô volta e coloca duas canecas na mesa. Ele mexe em um interruptor na parede e a luz elétrica do lustre brilha com tanta força que protejo os olhos.

O chá é preto e doce, e fico surpreso de tomar metade de um gole só.

– Quer me contar o que está acontecendo? – pergunta ele depois de um tempo. – Por que veio pra cá no meio da noite?

– Na verdade, não – respondo da maneira mais direta que consigo. Não quero perder isso. Eu me pergunto se ele me deixaria entrar nesta casa se soubesse que eu estava trabalhando para o governo e que chantageei meu irmão para se juntar a mim. Nem tenho certeza se deixam agentes federais entrarem na cidade mestra de Carney.

Ele toma um gole de chá e faz uma careta, como se não tivesse chá ali dentro.

– Você está encrencado?

– Acho que não – digo. – Não mais.

– Entendo. – Ele fica de pé, se aproxima e coloca a mão ruim no meu ombro. – Venha, garoto. Acho que está na hora de você dormir.

– Obrigado – falo, me levantando.

Vamos para o quarto dos fundos, o mesmo onde eu dormia quando passava os verões em Carney. Vovô traz alguns cobertores e um pijama para mim. Acho que deve ser um antigo de Barron.

– Seja lá o que for que está consumindo você – diz ele –, nunca fica pior de manhã.

Eu me sento na ponta do colchão e dou um sorriso cansado.

– Boa noite, vovô.

Ele para na porta.

– Sabe o filho mais velho de Elsie Cooper? Nasceu maluco. Ele não consegue controlar. Ninguém sabe como ficou daquele jeito. Simplesmente ficou.

– É – digo vagamente. Eu me lembro de as pessoas em Carney falando que ele nunca saía de casa, mas não consigo me lembrar de mais nada. Olho para o pijama dobrado. Meus membros estão tão pesados que só pensar em vesti-lo é um esforço. Não tenho ideia de onde vai dar a história de vovô.

– Você sempre foi bom, Cassel – comenta ele ao fechar a porta. – Não faço ideia de como ficou assim. Você simplesmente ficou. Como o garoto Cooper maluco. Não consegue controlar.

– Não sou bom – falo. – Eu manipulo todo mundo. Todo mundo. O tempo todo.

Ele solta uma risada.

– A bondade não vem de graça.

Estou cansado demais para discutir. Ele apaga a luz e adormeço antes mesmo de entrar debaixo do cobertor.

Vovô telefona para a escola a fim de avisar que não vou às aulas hoje, e basicamente fico na casa dele a manhã toda. Assistimos a reprises de Band of the Banned, e ele faz uma espécie de ensopado de carne com açafrão na panela Crock-Pot. Fica bem gostoso.

Ele me deixa ficar deitado no sofá com um cobertor, como se estivesse doente. Até comemos vendo televisão.

Quando chega a hora de ir embora, vovô coloca um pouco do ensopado em um pote limpo e me entrega junto com uma garrafa de refrigerante de laranja.

– É melhor você ir estudar física – diz ele.

– É – concordo.

Ele faz hesita ao ver o Mercedes novinho em folha. Nos encaramos em silêncio por cima do capô por um momento, mas tudo o que ele diz é:

– Diga para aquela sua mãe me ligar.

– Pode deixar, vovô. Obrigado por me deixar passar a noite aqui.

Ele franze a testa.

– É melhor não voltar a me dizer uma idiotice dessas.

– Tudo bem. – Dou um sorriso e levanto as mãos em um gesto de rendição. Em seguida, entro no carro.

Ele bate no capô.

– Tchau, garoto.

Saio dali. Após vinte minutos desde que saí de Carney, tomo o refrigerante de laranja. Quando chego em Wallingford, já perdi quase o dia todo. Chego no intervalo depois do horário de estudos e antes de as luzes se apagarem.

Sam está sentado no sofá listrado do salão estudantil, ao lado de Jeremy Fletcher-Fiske. Tem um repórter na televisão falando sobre futebol. Alguns rapazes estão jogando cartas em uma mesa dobrável. Outro formando, Jace, observa uma cenoura em um prato girar no micro-ondas.

– Oi – falo, acenando.

– Cara – diz Sam. – Quanto tempo. Por onde você andou?

– Coisas de família – respondo, me sentando no braço do sofá.

Amanhã vou ter que entregar meus deveres aos professores. Vou ter que começar a estudar de verdade se quiser passar em tudo este semestre, mas concluo que posso muito bem relaxar esta noite.

Na tela, um âncora começa a falar do noticiário local. Ele diz que, no domingo, o governador Patton deu, num brunch, um pronunciamento inesperado e controverso, que deixou seus eleitores furiosos.

Mostram a filmagem de um salão de baile cheio de mesas, e Patton em um púlpito com uma cortina azul atrás e minha mãe por perto, junto com outro sujeito de terno. O cabelo dela está preso, e ela usa um vestido amarelo e luvas curtas e brancas. Parece sob medida para a esposa de um político. Estou tão concentrado tentando entender a expressão dela que, por um momento, não me dou conta do que Patton está dizendo na filmagem.

“... além do mais, depois de reflexão, me dei conta de que minha postura não era realista. Ao mesmo tempo que ter acesso a informações que mostram quem é e quem não é hiperbatogâmico seria conveniente para a polícia, agora vejo que o preço para essa conveniência é alto demais. Grupos de direitos de mestres argumentaram que é improvável que as informações permaneçam confidenciais. Como governador, não posso encorajar qualquer risco à privacidade dos cidadãos de Nova Jersey, principalmente quando essa privacidade pode proteger suas vidas e profissões. Embora no passado eu tenha sido um grande defensor da proposição nº 2, estou retirando meu apoio a ela neste momento. Não acredito mais que o exame obrigatório para identificar mestres seja uma coisa que este governo deva tolerar, e muito menos impor.”

Devo estar olhando horrorizado para a tela.

– Loucura, né? – pergunta Jeremy. – Todo mundo está dizendo que ele foi subornado. Ou enfeitiçado.

Sam faz uma careta.

– Ah, fala sério. Talvez ele tenha apenas desenvolvido uma consciência.

É o brunch para o qual minha mãe me convidou, o que ela disse que eu iria adorar. Querido, sei o que estou fazendo.

Um arrepio percorre minha espinha. O noticiário agora faz a cobertura de um terremoto, mas ainda estou preso à imagem do rosto da minha mãe naquele vídeo. Se você não a conhecesse, não repararia, mas ela estava sufocando um sorriso.

Ela o enfeitiçou. Não tenho dúvidas.

Quero gritar. Não tem jeito de tirá-la disso. Não tem jeito de ela não ser descoberta.

Sam está falando, mas o zumbido na minha cabeça é tão alto que sufoca todos os sons.

Ligo para minha mãe dezenas de vezes naquela noite, mas ela não atende. Adormeço com o celular na mão e acordo quando o alarme toca na manhã seguinte. Eu me arrasto pelas aulas. Estou atrasado em tudo. Gaguejo nas respostas, tiro nota ruim em estatística e dou vexame em uma tradução de francês, para alegria de todos.

Quando chego ao meu quarto, encontro Daneca me esperando. Ela está sentada na cama de Sam, chutando a madeira de maneira distraída com os sapatos marrons. Os olhos dela estão vermelhos.

– Oi – falo. – Não sei onde Sam está. Não o vejo desde que nos encontramos no corredor a caminho da aula de física.

Ela tira uma trança grossa de cima do ombro e se senta ereta, como se estivesse se preparando para dizer algo desagradável.

– Ele já foi para o ensaio da peça. Ainda está agindo de um jeito estranho, e, de qualquer jeito, não vim vê-lo. Preciso falar com você.

Faço que sim com a cabeça, apesar de não estar em condições de dizer nada remotamente sensível.

– Claro. Tudo bem.

– É sobre Lila.

Ela não conseguiu ir até o fim, eu percebo.

– Tudo bem – digo sem esforço. – Talvez fosse mesmo uma ideia terrível.

– Não, Cassel – fala Daneca. – Você não está entendendo. Eu fiz besteira.

– O quê? – Meu coração parece um tambor batendo fora de compasso. Jogo a mochila na cama e me sento ao lado dela. – O que você quer dizer com “besteira”?

Daneca parece aliviada porque finalmente pareço entender. Ela se inclina em minha direção.

– Lila me pegou. Sou uma idiota. Deve ter ficado óbvio o que eu estava tentando fazer.

Visualizo Daneca tentando tirar a luva sem Lila reparar. Não me ocorreu até agora o quanto deve ter sido difícil. Daneca não sabe esbarrar nas pessoas acidentalmente, do jeito que precisamos fazer para enfeitiçar ou bater uma carteira. Ela não é especialista em mão leve.

– Então você não... – digo. – Então você não a enfeitiçou? – Tudo o que sinto é um alívio tão intenso que quase gargalho.

Estou feliz. Horrível e chocantemente feliz.

Posso aprender a viver com a culpa. Não ligo para ser bom. Posso aprender a viver com qualquer coisa se isso significar estar com Lila também.

Daneca sacode a cabeça.

– Ela me fez contar tudo. Ela sabe ser assustadora.

– Ah – respondo. – É, sabe mesmo.

– Ela me fez prometer não dizer nada pra você – diz Daneca com a voz baixa.

Olho pela janela. Tantos pensamentos percorrem minha cabeça que parece que nem estou pensando. Mesmo assim me forço a dar um sorriso rápido para ela.

– Ela achou que você não quebraria uma promessa? Temos que fazer alguma coisa a respeito dessa sua reputação, Srta. Certinha.

– Desculpa – diz Daneca, ignorando minha tentativa de fazer graça.

– Não é sua culpa – falo. – Eu não devia ter pedido. Não foi justo.

Ela se levanta e vai em direção à porta.

– Te vejo no jantar – diz ela, olhando para mim com um carinho surpreendente.

Quando a porta se fecha atrás de Daneca, sinto uma terrível onda de emoção me percorrer, uma alegria impulsiva e um horror tão misturados que não sei o que sentir primeiro.

Tentei me obrigar a fazer a coisa certa. Talvez eu não tenha tentado o bastante. Só o que sei agora é que amo Lila e que por um tempo ela vai me amar também.

Quando encontro Lila, ela está indo para a biblioteca. O colarinho da blusa dela está aberto, e a echarpe branca de seda ao redor do pescoço voa ao vento. Ela tem o aspecto de quem está indo dirigir um carro conversível.

– Oi – falo, correndo para ficar ao lado dela. – Podemos conversar um minuto?

– Cassel – diz ela, como se meu nome tivesse um gosto azedo. Ela não diminui a velocidade.

– Sei que você deve estar furiosa por causa de Daneca – digo, andando de costas para conseguir olhar para ela enquanto falo. – E tem todo o direito de estar. Mas me deixe explicar.

– Você pode explicar? – diz Lila, parando de repente. – Não sou um brinquedo que você pode simplesmente desligar.

– Sei disso – falo.

– Como pôde pensar que estava tudo bem em me enfeitiçar? Que seria diferente do que sua mãe fez? – Ela parece sentir um pouco de pena de mim e um pouco de nojo. – A maldição acabou. Estamos terminados.

– Ah. – É claro. Trinco os dentes para não fazer uma careta. Só consigo ouvir as palavras da minha mãe em Atlantic City: Ela não ia dar a menor atenção a você, Cassel.

– Não foi o bastante pra você curtir a piada, fingindo que me amava, fingindo que não estava fingindo... – Ela para de falar e fecha os olhos por um momento. Quando os abre de novo, estão cintilando de raiva. – Não estou mais amaldiçoada. Não vou me humilhar pela sua atenção. Deve ter sido emocionante me ter suspirando por cada um dos seus sorrisos impensados, mas isso nunca mais vai acontecer.

– Não era assim – digo. Estou perplexo, com todos os meus meses de dor e pânico reduzidos a arrogância aos olhos dela.

– Não sou fraca, Cassel. Não sou o tipo de garota que chora por você. – A voz dela treme. – Não sou a garota que faz o que você quer quando quer.

– Foi por isso que pedi a Daneca... – digo, mas não consigo terminar. Isso nem é verdade. Pedi a Daneca para enfeitiçá-la porque eu estava começando a acreditar na ilusão. Daneca estava tentando me salvar de mim mesmo.

– Queria me fazer não sentir nada por você? – diz Lila. – Pois bem, me deixe fazer melhor. Odeio você. Que tal? Odeio você, e ninguém precisou fazer nada pra isso.

– Pare com isso – peço. Consigo ouvir o autodesprezo na minha voz. – Fiz muitas coisas. – Perdi Lila no momento em que minha mãe a amaldiçoou. Todo o resto foi um jogo patético de faz de conta. Nada foi real.

Sua expressão vacila, mas o rosto logo volta a ser uma máscara sem expressão.

– Adeus, Cassel – diz ela e se vira para ir embora. Sua cabeça está abaixada, e a echarpe deve ter se mexido, pois vejo uma vermelhidão no pescoço dela. Do meu ângulo, parece a beirada de uma queimadura.

– O que é isso? – pergunto, andando atrás dela e apontando para meu colarinho.

– Não – avisa ela, erguendo a mão enluvada. Mas há alguma coisa em seu rosto que não estava lá até um minuto atrás: medo.

Seguro uma ponta da echarpe. Ela se desamarra com apenas um puxão.

Seu pescoço pálido está cortado, de um lado a outro, com cascas de ferida, e escurecido por causa das cinzas. O segundo sorriso do criminoso. Um colar cintilante de sangue seco.

– Você... – começo a falar. Mas é claro, ela sempre foi. A filha de um chefe da máfia. Realeza mafiosa.

Conversando com alguém que acabou de se comprometer a ser agente federal.

– A cerimônia foi no domingo – diz ela. – Eu falei que seria a chefe da família Zacharov um dia. Mas ninguém começa do alto. Tenho um longo caminho a percorrer. Primeiro, preciso provar minha lealdade. Até mesmo eu.

– Ah. – Lila sempre soube quem era e o que queria. Tem uma coisa terrivelmente conclusiva na cicatriz dela, como uma porta fechada. Ela não tem medo do futuro. – Corajosa – falo, e estou sendo sincero.

Por um momento, ela parece querer me contar mais. Abre a boca, mas a vejo engolir as palavras, seja lá quais fossem. Ela respira fundo e diz:

– Se não ficar longe de mim, vou fazer você lamentar ter nascido.

Não há como responder a isso, então não digo nada. Já consigo sentir o entorpecimento dominando meu coração.

Ela continua a andar pela praça.

Eu a observo indo embora. Observo a sombra dos passos dela, as costas eretas e o brilho do cabelo.

Obrigo-me a lembrar que era isso que eu queria. Quando não funciona, digo a mim mesmo que consigo sobreviver de lembranças. O cheiro da pele de Lila, o modo como os olhos dela brilham de malícia, a voz baixa e rouca. Dói pensar nela, mas não consigo parar. Tem que doer.

Afinal, o inferno é para ser quente.

Você terminou Luva Vermelha

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