Luva Vermelha
Capítulo Três
A SALA DA DIRETORA NORTHCUTT
parece a biblioteca da cabana de caça de algum barão. As paredes e as estantes embutidas são de madeira escura polida e iluminadas por luminárias de metal. A escrivaninha é do tamanho de uma cama e feita da mesma madeira das paredes, com cadeiras de couro verde na frente e diplomas pendurados atrás. A coisa toda é feita para ser intimidante para os alunos e reconfortante para os pais.
Quando sou levado para dentro, vejo que Northcutt é quem parece pouco à vontade. Dois homens de terno estão de pé ao lado dela, claramente esperando por mim. Um deles usa óculos escuros.
Confiro se há volume debaixo dos braços deles ou contra as panturrilhas. Mesmo que o terno seja feito sob medida, o tecido sempre se estica por cima das armas. Sim, eles estão armados. Em seguida, olho para os sapatos.
São pretos e reluzentes como piche fresco, com solas flexíveis de borracha. Feitos para correr atrás de gente como eu.
Policiais. São policiais.
Cara, estou tão ferrado.
– Sr. Sharpe – diz Northcutt. – Estes homens gostariam de conversar com você.
– Tudo bem – respondo devagar. – Sobre o quê?
– Sr. Sharpe – diz o policial branco, ecoando Northcutt. – Sou o agente Jones, e este é o agente Hunt.
O sujeito de óculos escuros me cumprimenta com a cabeça.
Federais, é? Bem, agentes federais continuam sendo policiais para mim.
– Sabemos que estamos interrompendo sua aula, mas receio que o assunto sobre o qual precisamos conversar é delicado demais para ser tratado aqui, então...
– Espere um momento – interrompe Northcutt. – Vocês não podem tirar este aluno do campus. Ele é menor de idade.
– Podemos, sim – diz o agente Hunt. Ele tem um leve sotaque. Sulista.
Northcutt ruboriza quando se dá conta de que ele não vai dizer mais do que isso.
– Se vocês saírem daqui com este garoto, vou entrar em contato com nosso advogado imediatamente.
– Por favor, faça isso – diz o agente Hunt. – Eu ficaria feliz em falar com ele.
– Você nem sequer me contou do que se trata – diz ela em um tom exasperado.
– Lamento, é confidencial – diz o agente Jones. – Mas tem a ver com uma investigação em andamento.
– Suponho que eu não tenha escolha? – pergunto.
Nenhum dos agentes se dá o trabalho de responder. Com um ligeiro toque nas minhas costas, o agente Jones me guia para fora da sala, enquanto o agente Hunt entrega seu cartão a Northchutt, caso ela realmente queira chamar o advogado.
Vejo o rosto dela ao sair. Northcutt não vai ligar para ninguém.
Alguém devia avisar a ela para nunca jogar pôquer.
Eles me empurram para o assento traseiro de um Buick preto com vidros escuros. Minha mente está acelerada pensando em todas as coisas ruins que podem ter me colocado nessa. O cartão de crédito de Clyde Austin e meu laptop me vêm à mente. Além disso, há todos os funcionários dos hotéis de onde escapamos. E só Deus sabe o que mais mamãe fez.
Eu me pergunto se os federais acreditariam que Austin me atacou, embora o galo na minha cabeça tenha quase sumido. Imagino se há um jeito de convencê-los de que sou o responsável por quaisquer que sejam os crimes sobre os quais vamos conversar. Ainda sou menor. Aos dezessete anos, provavelmente receberia a pena de uma criança. Mas, acima de tudo, eu me pergunto o que posso dizer para que deixem minha mãe em paz.
– E aí? – Faço uma tentativa. – Para onde vamos?
O agente Hunt se vira para mim, mas é impossível ler sua expressão por causa dos óculos de sol.
– Temos materiais confidenciais para compartilhar com você, então vamos levá-lo ao nosso escritório de Trenton.
– Eu estou preso?
Ele ri.
– Não. Vamos apenas ter uma conversinha. Só isso.
Olho para as portas. É difícil dizer se eu conseguiria abrir a tranca e pular. Trenton é uma cidade grande, o fluxo de carros é intenso. Parar e agir. Sinal vermelho. Eles não podem pegar a estrada direto até o prédio. Se eu conseguisse pegar a porta aberta, provavelmente poderia sair correndo. Usar meu celular. Avisar alguém. Vovô, talvez. Ele saberia o que fazer.
Chego mais perto da porta e aproximo os dedos do trinco. Mas é o botão da janela. E nada acontece.
– Você quer que ligue o ar? – pergunta o agente Jones, parecendo achar graça.
– Está abafado aqui – digo, derrotado. Se o controle da janela não funciona, não tem chance de a tranca funcionar.
Observo a paisagem de arbustos passar até chegarmos à ponte. TRENTON FAZ, O MUNDO RECEBE, diz uma placa em grandes letras garrafais. Passamos sobre ela. Viramos em algumas ruas e estacionamos atrás de um inocente prédio comercial. Entramos pelos fundos, cada agente de um lado meu.
O corredor tem um carpete cor de cobre e é completamente sem vida. Todas as portas têm pequenos teclados numéricos acima das maçanetas. Não fosse isso, um dentista poderia alugar uma sala ali. Não sei o que eu estava esperando, mas certamente não era isso.
Entramos em um elevador e saímos no quarto andar. O carpete é o mesmo.
O agente Jones digita um código e gira a maçaneta. A parte golpista do meu cérebro acha que eu deveria estar memorizando números, mas não sou tão bom assim. O dedo dele se move depressa, e só consigo perceber que talvez tenha digitado uma vez o número sete.
Entramos em uma sala sem janelas com uma mesa vagabunda e cinco cadeiras. Há uma garrafa de café vazia em uma prateleira e um espelho (provavelmente falso) na parede.
– Isso só pode ser brincadeira – digo, indicando o espelho. – Eu vejo televisão, sabia?
– Espere – diz o agente Hunt. Ele sai, e logo depois uma luz se acende na outra sala, transformando o espelho em vidro escuro. A sala do outro lado está vazia.
O agente Hunt volta.
– Está vendo? – pergunta. – Somos só nós três.
Eu me pergunto se há alguém ouvindo por meio de aparelhos de gravação instalados na sala, mas decido não forçar a barra. Quero saber o que está acontecendo.
– Tudo bem – digo. – Vocês me tiraram da aula. Agradeço por isso. O que posso fazer para retribuir?
– Você é uma figura – diz o agente Jones, sacudindo a cabeça.
Eu tento observá-lo o máximo possível enquanto finjo estar entediado. Jones tem o corpo de um barril: é baixo e robusto, com cabelo fino e castanho–claro, da cor de pão. Há uma cicatriz na beirada do fino lábio superior. Ele cheira a loção pós-barba e a café velho.
O agente Hunt se inclina para a frente.
– Você sabe, a maioria das pessoas inocentes fica incomodada quando é chamada pelos federais. Elas exigem um advogado, nos dizem que estamos violando suas liberdades civis. Apenas criminosos ficam calmos como você.
Hunt é mais alto e mais magro do que Jones. É mais velho também, com o cabelo grisalho e curto. Ao falar, sua voz tem as cadências de quem está acostumado a discursar para uma congregação. Aposto que alguém da família dele é pastor.
– Os psicólogos dizem que é porque, subconscientemente, os criminosos querem ser pegos – diz o agente Jones. – O que acha disso, Cassel? Você quer ser pego?
– Parece que alguém anda lendo muito Dostoiévski. – Dou de ombros.
O lábio do agente Hunt faz uma curva leve.
– É isso que ensinam naquela escola particular?
– É – respondo. – É o que me ensinam.
O desprezo de Hunt é tão óbvio que faço uma nota mental em seu perfil imaginário: Ele acha que minha vida é fácil e, consequentemente, que a dele foi difícil.
– Olhe só, garoto – diz o agente Jones, limpando a garganta. – Não é moleza levar uma vida dupla. Sabemos sobre sua família. E sabemos que você é um mestre.
Eu congelo, todo o meu corpo fica rígido e inerte. Parece que meu sangue virou gelo.
– Não sou mestre – digo. Não tenho ideia do quanto pareço convincente. Sinto os batimentos cardíacos dentro do meu crânio.
O agente Hunt abre a pasta sobre a mesa e tira algumas folhas de papel. Elas parecem familiares. Levo um instante para perceber que são exatamente como as folhas que peguei na clínica de sono, só que essas têm meu nome no alto. Estou olhando para os resultados do meu exame.
– O Dr. Churchill mandou isto para um dos nossos contatos depois que você saiu correndo do consultório dele – diz o agente Jones. – Seu teste deu positivo. Você é hiperbatogâmico, garoto. Mas não me diga que não sabia.
– Não deu tempo – digo, entorpecido. Penso em como arranquei todos os eletrodos depois de entender para que servia o exame, em como saí correndo do consultório.
– Pelo que parece – diz o agente Hunt, me entendendo perfeitamente –, deu, sim.
Misericordiosamente, depois disso eles me oferecem comida. Os dois me deixam sozinho, trancado na sala, com um pedaço de papel contendo o gráfico das minhas ondas gama. Não significam nada para mim, exceto que estou verdadeiramente ferrado.
Pego meu celular e me dou conta de que, provavelmente, é isso que eles esperam que eu faça. Ligar para alguém. Revelar alguma coisa. Definitivamente a sala tem escuta; ela é feita para interrogatórios, quer estejam usando o espelho ou não.
Deve haver câmeras escondidas também, se eu parar para pensar melhor.
Mexo nas funções do meu celular até chegar à câmera. Ligo o flash, miro nas paredes e no teto e tiro várias fotos até conseguir. Um reflexo. Bem invisível quando eu estava apenas olhando para a moldura do espelho, mas a pequena lente brilha com o reflexo e é capturada na foto.
Dou um sorriso e enfio um pedaço de chiclete na boca.
Três mastigadas, e ele está macio o bastante para ser colado na câmera.
O agente Hunt entra cinco segundos depois. Está segurando dois copos de café e obviamente veio andando rápido. O punho de sua camisa está molhado e manchado de café. Aposto que queimou a mão.
Eu me pergunto o que ele achou que eu ia fazer depois que a câmera parasse de me filmar. Tentar fugir? Não tenho ideia de como sair de uma sala trancada; eu só estava me exibindo. Mostrando para eles que não ia me deixar enganar pelas coisas óbvias.
– Você acha que isso é uma brincadeira, Sr. Sharpe? – pergunta ele.
Esse pânico não faz sentido.
– Me deixe sair daqui – peço. – Você disse que não estou preso, e estou perdendo a aula de cerâmica.
– Você vai precisar que seu pai, sua mãe ou um responsável venha buscá-lo – diz ele, colocando os cafés em cima da mesa. Não parece mais aturdido, o que significa que eu pedir para ser liberado estava em seus planos. Voltamos ao roteiro. – Podemos conseguir que sua mãe venha buscar você, se é isso que quer.
– Não – respondo, percebendo que caí no jogo deles. – Está tudo bem.
O agente Hunt faz uma cara presunçosa e limpa a manga com um guardanapo.
– Achei mesmo que você veria as coisas do meu jeito.
Pego um dos cafés e tomo um gole.
– E você nem precisou me ameaçar. Sinceramente, devo ser um prisioneiro modelo.
– Escute, espertinho...
– O que você quer? – pergunto. – Para que tudo isso? Tudo bem, sou um mestre. E daí? Você não tem provas de que eu enfeiticei alguém. Não sou criminoso até ter feito isso e jamais vou fazer. – É um alívio dizer uma mentira tão grande quanto essa; sinto como se estivesse desafiando-os a contrariá-la.
O agente Hunt não parece feliz, mas também não parece desconfiado.
– Precisamos da sua ajuda, Cassel.
Dou uma risada tão forte que engasgo com o café.
O agente Hunt está prestes a dizer mais alguma coisa quando a porta se abre e o agente Jones entra. Não faço ideia do que ele esteve fazendo esse tempo todo, mas não há nem sinal do almoço que me prometeram.
– Soube que você está dando trabalho – diz o agente Jones.
Ou ele estava assistindo à filmagem da câmera ou alguém contou a ele o que fiz, porque ele olha para o chiclete.
Tento parar de tossir. É difícil. Acho que um pouco de café entrou pelo lugar errado.
– Escute, Cassel, existem muitos garotos como você – diz o agente Hunt. – Garotos mestres que se envolvem com o elemento errado. Mas suas habilidades não precisam levar você para esse caminho. O governo tem um programa para ensinar jovens mestres a controlarem seus talentos e usá-los em prol da justiça. Ficaríamos felizes em recomendar você.
– Vocês nem sequer sabem quais são meus talentos – digo, rezando para que isso seja verdade.
– Empregamos todos os tipos de mestre, Cassel – diz o agente Jones.
– Até mestres da morte? – pergunto.
O agente Jones me observa com atenção.
– É esse o tipo de mestre que você é? Porque seria muito sério se fosse. É uma habilidade perigosa.
– Eu não disse isso. – Espero não parecer convincente.
Não ligo se pensarem que sou mestre da morte, como meu avô. Não ligo se pensarem que sou mestre de sorte, como Zacharov, de sonhos, como Lila, físico, como Philip, mestre de memória, como Barron, ou mestre de emoções, como mamãe. Desde que não descubram que sou mestre de transformação. Não houve nenhum nos Estados Unidos desde os anos 1960, e tenho certeza de que, se o governo desse de cara com um agora, não o deixariam voltar para a escola.
– Esse programa – continua o agente Jones – é coordenado por uma mulher, a agente Yulikova. Gostaríamos que a conhecesse.
– O que isso tem a ver com vocês precisarem da minha ajuda? – pergunto.
Toda essa armação parece um golpe. O jeito como eles agem, os olhares irritados que trocam quando acham que não estou prestando atenção. Tenho certeza de que a generosa proposta de me deixar fazer parte de um programa secreto de treinamento do governo é parte do teste. O que não tenho certeza é por que estão me testando.
– Sei que você tem envolvimento com a família mafiosa de Zacharov, então não há necessidade de negar – diz o agente Jones, erguendo a mão quando começo a falar. Também não precisa confirmar. – Mas precisa saber que, nos últimos três anos, Zacharov vem aumentando o número de assassinatos tanto dentro quanto fora da organização. Não costumamos nos importar com mafiosos matando uns aos outros, mas um dos nossos informantes foi o alvo mais recente.
Um arrepio terrível gela minha pele quando ele bota uma fotografia em preto e branco na minha frente sobre a mesa.
O homem na foto levou vários tiros no peito, sua camisa está imunda. Ele está deitado de lado. O sangue encharcou o tapete embaixo dele, e o cabelo cai parcialmente sobre seu rosto. Ainda assim, é um rosto que eu reconheceria em qualquer lugar.
– Ele foi baleado ontem à noite – diz o agente Hunt. – A primeira bala penetrou entre a sétima e a oitava costela e atingiu o átrio direito. Ele morreu na hora.
Sinto como se alguém tivesse me dado um soco no estômago.
Empurro a foto em direção ao agente Jones.
– Por que estão me mostrando isso? – Minha voz treme. – Não é Philip. Não é meu irmão.
Estou de pé, mas não me lembro de ter levantado.
– Acalme-se – diz o agente Hunt.
Há um rugido nos meus ouvidos, como o barulho das ondas do mar.
– É algum truque – grito. – Admita. Admita que é um truque.
– Cassel, você tem que nos ouvir – diz o agente Jones. – A pessoa que fez isso ainda está solta por aí. Você pode nos ajudar a encontrar o assassino do seu irmão.
– Vocês estavam aqui batendo papo comigo enquanto meu irmão está morto? Vocês sabiam que meu irmão estava morto e me deixaram... Me deixaram... – gaguejo. – Não. Não. Por que vocês fariam isso?
– Sabíamos que seria difícil falar com você depois que ficasse sabendo – diz o agente Jones.
– Difícil falar comigo? – repito, porque as palavras não fazem sentido. Em seguida, outra coisa chama minha atenção, algo que também não faz sentido. – Philip era informante de vocês? Ele jamais faria isso. Ele odeia delatores.
Odiava. Odiava delatores.
Na minha família, ir até a polícia é covardia, é desprezível. Os policiais podem fazer o que quiserem com os mestres (somos criminosos, afinal), então procurar a polícia é beijar os pés do inimigo. Se você entrega alguém, não está só traindo as pessoas ao seu redor. Está traindo quem você é. Eu me lembro de Philip falando sobre um pessoa em Carney que tinha delatado outra por um motivo bobo – uns velhos que eu não conhecia. Ele cuspia no chão quando falava o nome do sujeito.
– Seu irmão nos procurou cinco meses atrás – diz o agente Hunt. – Em abril deste ano. Disse que queria mudar de vida.
Balanço a cabeça, negando o que deve ser verdade. Philip deve ter procurado os federais porque não tinha mais para onde ir. Por minha causa. Porque destruí seu plano de assassinar Zacharov para que seu melhor amigo se tornasse o líder da família mafiosa. Um plano que teria trazido riqueza e glória para meu irmão. Em vez disso, fiz com que ele fosse assassinado. Se Philip está morto, Zacharov deve estar por trás disso. Não consigo pensar em mais ninguém. E por que Zacharov se importaria com a promessa de deixar minha família em paz, principalmente se descobrisse que Philip fez um acordo com o FBI? Eu era um idiota por acreditar que a palavra de Zacharov valia alguma coisa.
– Minha mãe sabe que Philip está morto? – pergunto finalmente, afundando de novo na cadeira. Sinto que poderia sufocar de tanta culpa.
– Conseguimos manter sigilo – diz o agente Jones. – Assim que você sair daqui, ela vai receber a ligação. E não vamos demorar muito. Aguente firme.
– Tem um pôster de gatinhos assim. – Não reconheço minha própria voz.
Os dois me olham de um jeito estranho.
De repente, me sinto tão exausto que quero deitar a cabeça bem ali na mesa.
O agente Jones prossegue:
– Seu irmão queria sair do crime organizado. Ele só precisava que nós encontrássemos a esposa dele para poder se desculpar pelo que a fez passar. Íamos colocá-los em um programa de proteção a testemunhas. Ele disse que, depois disso, entregaria tudo que tinha a respeito do assassino de Zacharov. Talvez derrubar o próprio Zacharov. O cara é da pior estirpe. Philip nos deu o nome de seis mestres que esse psicopata matou. Nem tínhamos certeza se estavam mortos, mas Philip ia nos levar até os corpos. Seu irmão estava mesmo tentando virar a página e morreu por causa disso.
Sinto como se estivéssemos falando de um estranho.
– Vocês encontraram Maura? – pergunto.
Maura fugiu da cidade na primavera passada, levando o filho deles, depois que descobriu que Barron andava alterando a memória dela. Ele a tinha feito esquecer todas as brigas que tivera com Philip e se lembrar apenas de um relacionamento doce e perfeito. Mas não se lembrar dos problemas não impediu que eles continuassem aparecendo cada vez mais. Além disso, ser enfeitiçada com tanta frequência causa efeitos colaterais ruins, como ouvir música que não existe, por exemplo.
Philip ficou arrasado quando ela foi embora. Ele me culpava mais do que a Barron, o que não acho que seja totalmente justo, embora no final eu tenha dado a ela o talismã que a fez perceber o que estava acontecendo. Ainda assim, me recuso a sentir culpa pelo fim desse casamento.
Já tenho culpa o suficiente para carregar.
O agente Jones assente:
– Falamos com ela hoje. Está no Arkansas. Fizemos o primeiro contato há mais ou menos uma semana, e ela concordou em escutar o que seu irmão tinha a dizer; o primeiro passo seria juntá-los por telefone. Agora ela diz que não volta nem para reivindicar o corpo.
– O que você quer que eu faça? – pergunto. Só quero que isso termine.
– Philip nos contou o bastante para acharmos que você tem acesso a informações. Informações de que precisamos – afirma o agente Hunt. – Você conhece algumas das pessoas que ele conhecia e tem conexões com a família Zacharov que ele nunca teve.
Ele se refere a Lila. Tenho quase certeza.
– Não é... – começo a falar, mas Jones me interrompe.
– Há anos ouvimos falar que Zacharov faz pessoas desaparecerem. Elas simplesmente somem. Não sobra nada. Nem corpo. Nem provas. Ainda não sabemos como ele, ou o capanga dele, faz isso. Por favor, apenas dê uma olhada em alguns casos. Veja se algo lhe parece familiar. Faça perguntas. Seu irmão era nosso primeiro grande passo. Agora ele está morto. – Jones sacode a cabeça com pesar.
Eu cerro os dentes, e em seguida ele afasta o olhar, como se talvez tivesse percebido que foi uma péssima coisa a dizer. Como se, talvez, para mim, meu irmão fosse um ser humano.
Como se, talvez, começando a investigar, eu também possa acabar morto.
– Vocês estão ao menos tentando descobrir quem matou Philip? – pergunto, já que eles parecem tão obcecados com Zacharov.
– É claro que estamos – responde o agente Jones. – Encontrar o assassino do seu irmão é nossa maior prioridade.
– Qualquer pista desse caso vai nos levar diretamente ao assassino dele – acrescenta o agente Hunt, ficando de pé. – Só para mostrar que estamos sendo sinceros, quero que veja o que já temos.
Eu o sigo relutante até o corredor e entro na sala de observação atrás do espelho. Ele liga um equipamento de vídeo.
– É material confidencial – informa o agente Jones, olhando para mim como se esperasse me ver impressionado. – Vamos precisar que você seja um rapaz inteligente e mantenha essa informação em segredo.
Em uma pequena tela, o prédio do meu irmão ganha vida em cores intensas. É fim de tarde e o sol brilha atrás do prédio, se pondo atrás das árvores. Consigo ver a nuvem de vapor saindo do asfalto na entrada da garagem. Não consigo ver o apartamento dele, mas sei que fica à direita da tela.
– O condomínio instalou essas câmeras de segurança recentemente – diz o agente Hunt baixinho. – Houve uma invasão, ou algo do tipo. O ângulo é péssimo, mas conseguimos essa filmagem de ontem à noite.
Uma pessoa de casaco escuro passa na frente da câmera, perto e rápido demais para o filme registrar direito. A câmera está muito voltada para baixo para capturar o rosto, mas é possível ver alguns dedos finos em uma luva de couro saindo da manga preta de um casaco. A luva é vermelha como sangue vivo.
– É tudo o que temos – conclui o agente Hunt. – Ninguém mais entra nem sai. O casaco e a luva parecem ser femininos. Se essa for a assassina de Zacharov, atirar não é seu método tradicional de trabalho. Mas muitos mestres da morte usam técnicas mundanas depois que perdem várias partes do corpo por causa do rebote. É assim que acabam se entregando. É claro que ela pode ser uma nova recruta que Zacharov mandou no escuro, apenas alguém sem nenhuma ligação direta com a organização para fazer o serviço.
– Então basicamente vocês não têm nenhuma ideia – digo.
– Acreditamos que a pessoa responsável pelos assassinatos descobriu que Philip ia entregá-lo. Ou entregá-la. Quando Philip nos procurou propondo um acordo, procuramos saber mais sobre ele com outros informantes. Sabemos que houve uma briga com Zacharov relacionada com a filha do criminoso, Lila.
– Lila não fez isso – digo automaticamente. – Lila não é mestra da morte.
Jones se senta, a coluna ereta.
– Que tipo de mestra ela é?
– Não sei! – Minha resposta soa tão falsa quanto obviamente é. Lila é mestra de sonhos e é muito poderosa. Poderosa o suficiente para fazer uma pessoa sair andando da própria casa enquanto dorme. Ou do próprio quarto de alojamento.
Hunt balança a cabeça.
– Só sabemos que a última pessoa a entrar no apartamento de Philip foi uma mulher com luvas vermelhas. Precisamos encontrá-la. Vamos nos concentrar nisso. Você pode ajudar conseguindo a informação que Philip morreu tentando nos passar. Não deixe que a morte do seu irmão seja em vão. Temos certeza de que há ligação entre os desaparecimentos e a morte do seu irmão.
O discurso é muito comovente. Como se eu realmente fosse acreditar que o último desejo de Philip era que eu acertasse as contas entre ele e os agentes federais. Mas a visão da mulher entrando no apartamento me assombra.
O agente Jones abre algumas pastas.
– Estes são os nomes que seu irmão nos deu, os homens que, segundo ele jurou, foram mortos e sumiram na mão do capanga de Zacharov. Dê uma olhada nos papéis e veja se alguma coisa chama sua atenção. Algo que você pode ter ouvido, alguém que pode ter visto. Qualquer coisa. E nós agradeceríamos se não mostrasse esses arquivos para mais ninguém. É conveniente para ambas as partes que este encontro nunca tenha acontecido.
Olho para o filme no ponto em que foi pausado, como se, de alguma forma, eu devesse reconhecer a pessoa. Mas ela é apenas um borrão de tecido e couro.
– A escola já sabe que saí com vocês – digo. – Northcutt sabe.
O agente Hunt sorri.
– Achamos que sua diretora não vai ser problema.
Um pensamento terrível me ocorre, mas o reprimo antes de articulá-lo na minha cabeça. Eu jamais faria mal a Philip.
– Isso significa que estou trabalhando pra vocês? – pergunto, me forçando a dar um sorrisinho.
– Mais ou menos isso – responde o agente Jones. – Faça um bom trabalho e o recomendaremos para o programa da agente Yulikova. Você vai gostar dela.
Duvido.
– E se eu não quiser entrar nesse programa de treinamento?
– Não somos como a máfia – diz o agente Hunt. – Você pode sair quando quiser.
Penso na porta trancada na sala, nas portas trancadas do carro.
– Ah, claro.
Eles me levam até Wallingford, mas quando chego ao campus as aulas já estão no fim. Não me dou o trabalho de ir almoçar. Vou para meu quarto, enfio as pastas debaixo do colchão e espero pela chamada inevitável do inspetor.
Sentimos muito, ele vai dizer. Sentimos muito.
Mas eu sou a pessoa que mais sente.