Luva Vermelha
Capítulo Dois
DEIXO O MERCEDES
no estacionamento dos formandos, que é bem mais próximo do alojamento do que o das séries iniciais. Sinto-me orgulhoso até desligar o motor e ele dar uma espécie de tosse metálica estranha, como se fosse seu último suspiro. Saio e chuto o pneu dianteiro com desânimo. Tinha planos de consertar o carro, mas, com mamãe em casa, nunca consegui.
Deixo a bagagem no porta-malas e ando pelo campus em direção ao Centro Acadêmico Finke.
Acima da porta do grande prédio de tijolos há uma faixa pintada à mão: BEM-VINDOS, CALOUROS. As árvores balançam ao vento suave, e sou tomado pela sensação de nostalgia por uma coisa que ainda não acabou.
Diante de uma mesa, lá dentro, a Sra. Noyes mexe em uma caixa de cartões e distribui pacotes de orientação. Algumas alunas do segundo ano que eu mal conheço estão gritando e se abraçando. Quando me veem, começam a sussurrar. Consigo ouvir coisas como “se matar”, “de cueca” e “fofo”. Saio andando mais depressa.
Perto da mesa, uma garota trêmula e com espinhas pega a chave do alojamento acompanhada pelo pai. Ela agarra a mão dele como se fosse se perder caso o soltasse. É claro que é a primeira vez que fica longe de casa. Sinto pena e inveja ao mesmo tempo.
– Oi, Sra. Noyes – digo quando chega a minha vez. – Como vai?
Ela olha para cima e sorri.
– Cassel Sharpe! Estou tão feliz por ter você de volta ao campus.
Ela me entrega o envelope pardo e indica o quarto designado para mim. Além do estacionamento exclusivo e, bizarramente, de um trecho de grama (é sério, chamam de “grama dos formandos”), os formandos também ficam com os melhores quartos no alojamento. Parece que o meu é no térreo. Acho que estão com um pouco de medo de me colocar em um andar alto depois de toda aquela coisa de quase cair do telhado.
– Eu também. – Estou feliz por voltar. Estou mesmo. – Sam Yu já passou por aqui?
Ela mexe nos cartões.
– Não, você chegou primeiro.
Sam é meu colega de quarto desde o segundo ano, mas só ficamos amigos no final do ano passado. Ainda não sou muito bom com amizades, mas estou tentando.
– Obrigado. Até mais tarde – digo. Sempre há uma reunião na noite anterior ao início das aulas. A diretora Northcutt e o supervisor Wharton nos dizem que somos jovens inteligentes e capazes, depois dão um sermão sobre como só as regras da escola podem nos manter protegidos de nós mesmos. É divertido.
– Tente não se meter em confusão – diz ela com um sorriso. Sua voz é provocante, mas há uma firmeza que me faz pensar que ela não diz isso para todos os alunos que chegam.
– Pode deixar – prometo.
No estacionamento, começo a descarregar o carro. Tem muita coisa. Mamãe passou o fim de semana do Dia do Trabalho fingindo que não brigamos e me comprando presentes extravagantes para compensar a briga que não tivemos. Agora sou o dono de um iPod novo, de uma jaqueta de couro e de um laptop. Tenho certeza de que a vi pagar pelo laptop com o cartão de crédito de Clyde Austin, mas fingi não reparar. Mamãe também arrumou minhas malas, baseando-se na teoria de que, independentemente do que eu diga, ela sabe do que de fato vou precisar. Refiz tudo assim que ela saiu do quarto.
– Sabe que amo você, não é, querido? – perguntou hoje de manhã quando eu estava saindo.
O estranho é que sei, sim.
Quando chego a meu novo quarto no alojamento (maior do que o do ano passado – sem contar que, por ser no térreo, não preciso arrastar minhas coisas por infinitos lances de escadas), jogo tudo no chão e suspiro.
Eu me pergunto onde Lila está agora. Se o pai dela a mandou para algum internato para adolescentes mestres de famílias mafiosas na Suíça, um lugar com guardas armados e portões altos. E se ela gosta de lá. Talvez a maldição já tenha acabado, e ela esteja sentada tomando chocolate quente e dando em cima de instrutores de esqui. Talvez seja seguro ligar para ela, só para conversar alguns minutos. Só para ouvir sua voz.
É o que quero fazer. E quero tanto que me obrigo a ligar para meu irmão Barron só para me lembrar da realidade. Ele me pediu para ligar quando estivesse instalado, de qualquer forma. Concluí que já estava instalado o bastante.
– Oi. – Ele atende logo após o primeiro toque. – Como está meu irmão favorito?
Sinto o mesmo nó no estômago sempre que ouço sua voz. Ele me transformou num assassino. Ele me usou, mas não se lembra disso. Acha que somos muito unidos, a mão e a luva. E tudo mais que eu o fiz pensar.
O rebote corroeu tantas de suas lembranças que ele acredita nas falsas que cuidadosamente implantei em seus cadernos. Lembranças em que somos unidos. E isso o torna a única pessoa em quem posso confiar.
Patético, não é?
– Estou preocupado com mamãe. Ela está piorando – digo. – Está impaciente. Não pode ser presa de novo, ou passará o resto da vida na cadeia.
Não tenho certeza do que ele pode fazer. Eu mesmo não me saí muito bem em mantê-la segura em Atlantic City.
– Ah, pare com isso. – Ele soa entediado e um pouco bêbado. Escuto uma música suave ao fundo. Não é nem meio-dia. – O júri a ama.
Tenho certeza de que ele não está entendendo.
– Por favor... Ela não está sendo cuidadosa. Talvez escute você. Você ia ser o advogado...
– Ela é uma senhora – diz Barron. – Ficou anos presa. Deixe-a se divertir. Ela precisa gastar energia. Seduzir uns coroas. Perder dinheiro no jogo.
Apesar de tudo, dou uma risada.
– Só fique de olho para ela não levar tudo que os coroas têm.
– Entendido. Missão recebida e aceita – diz ele, e percebo que estou relaxando. Em seguida, ele suspira. – Tem falado com Philip?
– Você sabe que não – respondo. – Toda vez que eu ligo, ele desliga na minha cara, e não tem nada que eu possa...
A maçaneta começa a girar.
– Eu ligo mais tarde – falo depressa.
É estranho demais falar com Barron fingindo que tudo está normal na frente do meu colega de quarto, que sabe o que meu irmão fez. Que se perguntaria por que eu ligaria para Philip. Que não entende o que é ter uma família perturbada como a minha.
– Paz, irmãozinho! – Barron se despede e desliga.
Sam entra com a bolsa de viagem pendurada no ombro.
– Oi – diz com um sorriso tímido. – Quanto tempo. Como foi em Toronto?
– Era pra ser um castelo de gelo – digo. – Mas derreteu.
É, menti para ele sobre onde passaria o verão. Eu não precisava, não havia nenhuma razão para não dizer a ele que fui a Atlantic City, apesar de não ser um lugar normal para alguém ir com a mãe. Eu falei que não sou bom nesse negócio de amizade.
– Que pena. – Sam se vira para colocar uma caixa de ferramentas de alumínio na frágil cômoda de madeira. Ele é um sujeito alto, grande e forte. Parece sempre se mexer com cuidado, como alguém que estase sente desconfortável por ocupar espaço demais. – Ei, eu trouxe umas coisas novas que você vai adorar.
– Ah, é?
Desfaço as malas como sempre costumo fazer: enfiando tudo debaixo da minha cama até a inspeção dos quartos. É o que acontece quando se cresce em uma casa cheia de lixo; você se sente mais à vontade no meio da bagunça.
– Tenho um kit para fazer moldes de dentes, e podemos fazer presas perfeitas. Perfeitas mesmo. Elas se encaixam em seus dentes como se fossem pequenas luvinhas. – Ele parece mais feliz do que eu jamais o vi. – Daneca e eu fomos a Nova York, a esse armazém de efeitos especiais, e compramos tudo lá. Resinas. Elastômero. Poliuretano. Eu provavelmente conseguiria fazer uma pessoa pegar fogo de mentira.
Eu ergo as sobrancelhas.
– Ei – diz ele. – Depois do ano passado, achei melhor me preparar.
O Auditório Memorial Carter Thompson é o lugar onde os alunos se reúnem todos os anos a fim de escutar as regras serem repetidas para quem é preguiçoso demais para ler o manual. “Os garotos devem usar o paletó de Wallingford e gravata, calça social preta e camisa branca. As garotas, o paletó de Wallingford, saia ou calça social preta e camisa branca. Os garotos e as garotas devem usar sapatos sociais pretos. Nada de tênis. Nada de jeans.” Coisas fascinantes como essas.
Sam e eu tentamos pegar um lugar ao fundo, mas a Sra. Logan, a secretária da escola, nos vê e aponta para uma fileira vazia na frente.
– Rapazes – diz ela. – Estamos tentando ser um exemplo para todos os alunos novos agora que estamos no último ano, não estamos?
– Não podemos ser maus exemplos? – pergunta Sam, e eu solto uma gargalhada.
– Sr. Yu – diz a Sra. Logan, apertando os lábios. – Estar de saco cheio é coisa muito séria quando acontece tão no começo do ano. Pode ser letal. Sr. Sharpe, eu gostaria que você não encorajasse seu amigo.
Vamos para os novos lugares.
O supervisor Wharton e a diretora Northcutt já estão no púlpito. Northcutt começa a discursar sobre como nós, em Wallingford, somos uma grande família, como apoiamos uns aos outros nos momentos difíceis e sobre como vamos nos lembrar do tempo que passamos aqui como os melhores de nossas vidas.
Eu me viro para Sam para fazer alguma piada e reparo que ele está procurando alguma coisa no auditório. Parece nervoso.
O problema de ser golpista é que é difícil desligar a parte do seu cérebro que está sempre analisando a situação, procurando um alvo, um otário que você possa enganar para se dar bem. Tentando entender o que aquele alvo quer, o que vai convencê-lo a se separar do seu dinheiro.
Não que Sam seja um alvo. Mas meu cérebro ainda me fornece a resposta para o que ele está procurando, caso seja útil.
– Tudo bem entre você e Daneca? – pergunto.
Ele dá de ombros.
– Ela odeia filmes de terror – diz ele, finalmente.
– Ah – falo da forma mais neutra que consigo.
– Quero dizer, ela se preocupa com coisas realmente importantes. Com questões políticas, o aquecimento global, os direitos dos mestres e dos gays, e acho que ela considera minhas preocupações um tanto infantis.
– Nem todo mundo é como Daneca – digo.
– Ninguém é como Daneca. – Sam tem aquele olhar ligeiramente atordoado de um homem apaixonado. – Acho que é difícil para ela, sabe. Daneca se preocupa tanto, e a maioria das pessoas mal se importa. Inclusive eu, né.
Daneca costumava me irritar com toda aquela porcaria de humanitarismo. Para mim, não havia sentido em mudar um mundo que não queria ser mudado. Mas não acho que Sam ia gostar que eu dissesse isso em voz alta. Nem sei se ainda acredito nisso.
– Talvez você possa mudar a opinião dela quanto aos filmes de terror – digo então. – Mostre para ela algum clássico. Alugue Frankenstein. Faça uma leitura dramática de O corvo. As garotas adoram “Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!” Quem consegue resistir a isso?
Sam nem sequer sorri.
– Tudo bem. – Ergo as mãos no símbolo universal de redenção. – Eu paro.
– Não, é engraçado – diz ele. – Não é você. Só não consigo...
– Sr. Yu! Sr. Sharpe – chama a Sra. Logan, descendo o corredor central e vindo se sentar bem atrás de nós. Ela coloca o dedo indicador sobre os lábios. – Não me façam separar vocês.
Essa ideia é tão humilhante que nos faz ficar calados enquanto o supervisor Wharton recita a longa lista de coisas pelas quais podemos ser punidos, uma lista que inclui bebidas, drogas, ser pego matando aula no quarto de uma pessoa do sexo oposto, sair do alojamento de madrugada e usar batom preto. A triste verdade é que, provavelmente, existe pelo menos uma pessoa em cada turma de formandos que conseguiu violar todas as regras em uma única noite louca. Tenho grandes esperanças de que, este ano, essa pessoa não seja eu.
Não fico tão bem de batom.
Daneca nos encontra no caminho para o jantar. Ela prendeu o cabelo castanho ondulado em sete tranças grossas, cada uma terminando em uma conta de madeira. O colarinho de sua camisa branca está aberto e deixa à mostra sete amuletos de jade – proteção contra os sete tipos de maldição. Sorte. Sonhos. Corpo. Emoções. Memória. Morte. Transformação. Eu lhe dei as pedras de presente em seu último aniversário, um pouco antes do final do ano letivo.
Cada mestre da maldição faz o amuleto que protege contra seu próprio feitiço. Só as pedras conseguem absorver a magia, e mesmo assim elas só funcionam uma vez. Uma pedra usada, que impediu a ação de uma maldição contra seu dono, se quebra instantaneamente. Como há poucos mestres de transformação no mundo, talvez um a cada década, amuletos de transformação reais são raros. Mas o amuleto de transformação de Daneca é verdadeiro. Eu sei que é; eu mesmo o fiz.
Ela nem faz ideia.
– Oi – diz Daneca, batendo com o ombro no braço de Sam. Ele coloca o braço sobre os ombros dela.
Andamos assim até o refeitório.
É a primeira noite de volta à escola, então todas as mesas estão decoradas com toalhas e pequenos vasos de flores no centro. Alguns pais de alunos novos olham maravilhados para o teto alto, para o austero retrato do coronel Wallingford tomando conta de nós e para nossa capacidade de comer sem nos sujarmos.
O prato principal desta noite é teriyaki de salmão com arroz integral e cenoura. Para sobremesa, torta de cereja. Mexo nas cenouras. Daneca começa pela torta.
– Nada mau – anuncia ela. E, sem hesitar, inicia uma explicação de como este ano vai ser importante para o HEX conseguir espalhar as notícias sobre a proposição nº 2. Fala de um comício que vai acontecer na semana que vem. De como a proposição nº 2 é o prenúncio de um governo mais invasivo e algumas outras coisas nas quais não presto atenção.
Olho para Sam, pronto para trocar um olhar conspiratório, mas ele está atento a cada palavra.
– Cassel – chama ela. – Sei que você não está ouvindo. O voto é em novembro. No próximo mês de novembro. Se a proposição nº 2 passar, os mestres vão ser examinados. Todo mundo vai ser. E não importa o quanto o governo de Nova Jersey diga que vai manter a informação anônima, isso não vai acontecer. Em pouco tempo os mestres não vão conseguir empregos nem moradia e serão presos pelo crime de terem nascido com um poder que não escolheram ter.
– Eu sei – digo. – Sei disso tudo. Você poderia tentar ser um pouco menos condescendente? Eu sei.
Ela parece ainda mais irritada, se é que isso é possível.
– Estamos falando da sua vida.
Penso em minha mãe e em Clyde Austin. Penso em Barron. Penso em mim e em todo o mal que já fiz.
– Talvez os mestres devam ser todos presos – respondo. – Talvez o governador Patton esteja certo.
Sam franze a testa.
Enfio um pedaço grande de salmão na boca para não ter que dizer mais nada.
– Isso é ridículo – diz Daneca depois de se recuperar do choque.
Eu mastigo.
Ela está certa, é claro. Daneca sempre está certa. Penso na mãe dela, defensora incansável e uma das fundadoras do grupo jovem pelos direitos dos mestres, o HEX, e em Chris, aquele pobre garoto hospedado na casa dela, sem nenhum lugar para ir e talvez sem nenhuma razão legal que o permita ficar. Seus pais o expulsaram porque achavam que todos os mestres eram como eu. Há mestres que não são golpistas, que não querem nenhum envolvimento com o crime organizado. Mas, quando Daneca pensa em mestres, ela pensa na mãe dela. Quando eu penso em mestres, penso na minha.
– Seja como for – continua Daneca –, vai acontecer um protesto na quinta que vem, e quero que todo o HEX vá. Consegui que a Sra. Ramirez seja nossa conselheira, para solicitarmos ônibus e tudo mais. Vai ser uma excursão da escola.
– É mesmo? – pergunta Sam. – Que ótimo.
– Bem. – Ela suspira. – Não está exatamente confirmado. Ramirez disse que precisaríamos da autorização de Wharton ou de Northcutt. E teríamos que conseguir um número suficiente de inscrições dos membros do HEX. Posso contar com vocês?
– Claro que vamos – diz Sam, e olho com raiva para ele.
– Opa. – Ergo a mão. – Quero mais detalhes. Por exemplo, isso significa que precisaremos fazer nossos próprios cartazes? Que tal “Direitos de mestres para todos, exceto para os que não precisam”, ou “Legalize o feitiço de morte hoje. Resolva o problema de superpopulação de amanhã!”.
O canto da boca de Sam se ergue. Não consigo evitar ser um idiota, mas pelo menos estou divertindo alguém.
Daneca começa a dizer alguma outra coisa, mas Kevin LaCroix vai até nossa mesa. Olho para ele sem conseguir disfarçar o alívio. Kevin coloca um envelope na minha bolsa.
– Aquele maconheiro, Jace, diz que ficou com uma garota no verão – sussurra Kevin. – Mas ouvi dizer que as fotos que ele anda mostrando por aí são da meia-irmã dele. Aposto cinquenta paus que não existe namorada nenhuma.
– Encontre alguém que aposte que ele de fato tenha ficado com uma garota ou que tenha namorada, e eu calculo as vantagens – digo. – A casa não aposta.
Ele assente e volta para a mesa, parecendo decepcionado.
Comecei como agenciador de apostas da escola quando mamãe estava na cadeia e não havia como eu pagar por todas as pequenas coisas que não estão incluídas na mensalidade. Um segundo uniforme, para que o outro pudesse ser lavado mais de uma vez por semana, pizza com os amigos quando eles estavam a fim de sair, tênis, livros e música que não caíssem de um caminhão em algum lugar ou fossem furtados de uma loja. Não é barato conviver com os ricos.
Depois que Kevin LaCroix sai, Emmanuel Domenech se aproxima. O movimento é grande o bastante para impedir que Sam e Daneca comentem o quanto tenho sido agressivo. Eles passam o tempo escrevendo bilhetes um para o outro no caderno de Daneca enquanto os outros alunos casualmente me entregam um envelope depois do outro – cada envelope é um tijolo na reconstrução do meu pequeno império criminal.
– Aposto que Sharone Nagel vai ficar entalada quando vestir a fantasia de mascote de futebol.
– Aposto que o clube de latim vai sacrificar um de seus membros no baile de primavera.
– Aposto que Chaiyawat Terweil vai ser a primeira pessoa chamada à sala da diretora Northcutt.
– Aposto que a garota nova acabou de sair de um hospício.
– Aposto que a garota nova acabou de fugir de uma prisão em Moscou.
– Aposto que o Sr. Lewis vai ter um colapso nervoso antes das férias de inverno.
Anoto cada aposta a favor e contra em um código que criei, e esta noite Sam e eu vamos calcular a primeira lista de vantagens. Elas vão mudar conforme recebermos mais apostas, é claro, mas fazer isso nos dá algo para dizer às pessoas no café da manhã caso elas queiram saber onde colocaram seu dinheiro. É incrível como os adolescentes ricos ficam inquietos quando não conseguem gastar dinheiro rápido o bastante.
Assim como criminosos ficam inquietos quando não estão analisando todos os ângulos.
Quando nos levantamos a fim de ir para o quarto, Daneca dá um soco no meu braço.
– E aí – diz ela. – Vai nos contar por que está tão mal-humorado e irritante hoje?
Dou de ombros.
– Me desculpem. Acho que só estou cansado. E sou um idiota.
Ela estica a mão enluvada e segura meu pescoço, fingindo me enforcar. Eu entro na brincadeira, caio no chão e finjo morrer, até que ela ri.
Estou perdoado.
– Eu sabia que deveria ter trazido um saco de sangue – diz Sam, sacudindo a cabeça como se estivesse sendo humilhado.
É nesse momento que Audrey passa, de mãos dadas com Greg Harmsford. Audrey, que já foi minha namorada. Que me deu um pé na bunda. Que me fez sentir uma pessoa normal quando estávamos juntos. Que, talvez, quem sabe, eu pudesse ter convencido a me aceitar de volta. Que agora nem olha na minha cara quando passa.
Greg, no entanto, aperta os olhos e sorri para mim, como se estivesse me desafiando a começar alguma coisa.
Eu adoraria arrancar aquela expressão convencida do rosto dele. Mas primeiro teria que conseguir me levantar.
Não consigo passar o resto da noite guardando minhas coisas nem jogando no salão do prédio, como planejei, porque nosso novo inspetor, o Sr. Pascoli, anuncia que todos os formandos precisam se encontrar com seus orientadores.
Estive com a Sra. Vanderveer exatamente uma vez por ano durante todo o tempo que estou em Wallingford. Ela parece legal, sempre com uma lista de que aulas e atividades podem me ajudar a entrar em uma boa faculdade, sempre cheia de sugestões de trabalhos voluntários que os comitês de admissão adoram. Não sinto necessidade alguma de vê-la mais do que já vi, mas Sam e eu, junto com um grupo de outros garotos de classe alta, cruzamos o campus até a Biblioteca Lainhart.
Lá, ouvimos outro discurso, sobre como o último ano não é a hora certa para vagabundear e, se achamos que as coisas estão difíceis agora, devemos esperar até entrarmos na faculdade. Sério, esse cara (um dos orientadores, eu acho) fez parecer que na faculdade nos obrigam a escrever os trabalhos com sangue, que seus parceiros de laboratório podem espancá-lo se você puxar a nota deles para baixo e que as aulas noturnas duram a noite toda. Ele obviamente está por fora.
Por fim, nos orientam para os encontros. Dirijo-me para a seção de Vanderveer, em frente à tela que a separa do resto de nós.
– Ah, cara – diz Sam. Ele se senta na beirada da cadeira e se inclina para sussurrar para mim. – O que vou fazer? Eles vão querer falar sobre faculdades.
– Provavelmente – digo, chegando mais perto. – São orientadores. Gostam de faculdades. Provavelmente sonham com faculdades.
– É, bem, eles acham que quero estudar no MIT e me formar em química. – Ele diz isso em um sussurro trágico.
– Você pode dizer para eles que não quer. Se não quiser.
Ele geme.
– Vão contar pros meus pais.
– Bem, qual é seu plano? – pergunto.
– Mudar para LA e estudar em uma das faculdades especializadas em efeitos visuais. Adoro fazer maquiagem de efeitos, mas a maioria das coisas hoje em dia é feita no computador. Preciso saber fazer isso. Tem um lugar com um curso de três anos. – Sam passa a mão pelo cabelo curto, por cima da testa úmida, como se tivesse acabado de confessar um sonho impossível e constrangedor.
– Cassel Sharpe – chama a Sra. Vanderveer, e eu fico de pé.
– Você vai ficar bem – digo para Sam, seguindo para trás da tela. Mas o nervosismo dele parece contagioso. Sinto o suor nas palmas das mãos.
Vanderveer tem cabelo preto curto e a pele cheia de rugas e coberta de manchas senis. Há duas cadeiras posicionadas em frente à mesinha onde está minha pasta. Ela se senta em uma delas.
– E então, Cassel – fala com falsa alegria. – O que você quer fazer da vida?
– Hum – digo. – Não tenho certeza.
As únicas coisas em que sou realmente bom são do tipo que não ensinam na faculdade. Golpes. Falsificação. Assassinato. Uma noção de arrombamento.
– Vamos pensar nas universidades então. No ano passado falei para você escolher algumas para as quais gostaria de se candidatar e outras mais garantidas. Você fez a lista?
– Não uma lista formal, escrita – respondo.
Ela enruga a testa.
– Você conseguiu visitar alguma das que está considerando?
Balanço a cabeça. Ela suspira.
– Wallingford Preparatory tem muito orgulho em ver nossos alunos nas melhores universidades do mundo. Nossos alunos vão para Harvard, Oxford, Yale, Caltech, Johns Hopkins. Suas notas não são as que gostaríamos, mas sua pontuação no SAT foi promissora.
Faço que sim com a cabeça. Penso em Barron abandonando Princeton, em Philip largando o ensino médio para ganhar cicatrizes e trabalhar para os Zacharov. Não quero terminar como eles.
– Vou começar a lista – prometo a ela.
– Faça isso mesmo – diz ela. – Quero ver você de novo em uma semana. Chega de desculpas. O futuro vai chegar mais rápido do que você pensa.
Quando saio de trás da divisória, Sam não está mais lá. Imagino que esteja conversando com seu orientador. Espero alguns minutos e como três biscoitos amanteigados dispostos em uma mesa. Como Sam não aparece, volto andando pelo campus.
A primeira noite no alojamento é sempre estranha. As camas são desconfortáveis. Minhas pernas são muito compridas para elas e adormeço encolhido, depois me estico no meio da noite e acordo ao chutar o estrado.
No quarto ao lado, alguém ronca.
Do lado de fora da janela, a grama da praça brilha à luz da lua, como se fosse feita de lâminas de metal. É a última coisa em que penso antes de acordar com o despertador do celular. Ao olhar para a hora, percebo que o alarme está tocando há algum tempo.
Resmungo e jogo o travesseiro no meu colega de quarto adormecido. Ele ergue a cabeça, ainda grogue.
Sam e eu vamos até o banheiro compartilhado, onde o restante dos alunos do andar está escovando os dentes ou tomando banho. Sam joga água no rosto.
Chaiyawat Terweil enrola uma toalha no corpo e pega um par de luvas descartáveis na prateleira com a placa: PROTEJA SEUS COLEGAS: CUBRA AS MÃOS.
– Mais um dia em Wallingford – anuncia Sam. – Onde cada quarto é um palácio, cada sanduíche de carne é uma festa, cada banho matinal...
– Você gosta muito dos seus banhos, não é? – pergunta Kyle Henderson. Ele já está vestido e passa gel no cabelo. – Pense em mim quando estiver lá.
– Isso vai mesmo fazer meu banho ser mais rápido – diz Sam, sem se deixar intimidar. – Meu Deus, eu amo este colégio!
Eu rio. Alguém bate em Sam com uma toalha.
Quando termino de me arrumar, não dá mais tempo de tomar café da manhã. Tomo um pouco do café que o inspetor fez para si mesmo no salão estudantil e como um bolinho que a mãe de Sam mandou.
Ele me lança um olhar sombrio e come outro.
– Começamos bem – digo. – Elegantemente atrasados.
– Só estamos fazendo nossa parte para manter as expectativas baixas – responde Sam.
Apesar de ter passado o verão inteiro indo dormir a esta hora da manhã, eu me sinto muito bem.
Minha tabela de horários me diz que a primeira aula de hoje é probabilidade e estatística. Este semestre também tenho ética do mundo em desenvolvimento (achei que Daneca ficaria feliz por eu ter escolhido essa matéria dentre as obrigatórias de história, por isso ainda não contei a ela), inglês, física, cerâmica 2 (pode rir se quiser), francês 4 e Photoshop.
Estou observando o papel quando saio de Smythe House e entro no Centro Acadêmico Finke. Probabilidade e estatística é no terceiro andar, então sigo para a escada.
Lila Zacharov desce o corredor usando o uniforme feminino de Wallingford: paletó, saia pregueada e camisa branca de botão. O cabelo curto e louro brilha como o bordado dourado do brasão. Quando ela me vê, a expressão em seu rosto é quase uma mistura de esperança e horror.
Não consigo imaginar minha própria expressão.
– Lila? – digo.
Ela se vira, a cabeça baixa.
Eu me aproximo depressa e seguro seu braço, como se tivesse medo de ela não ser real. Ela fica paralisada ao sentir o toque da minha mão coberta pela luva.
– O que está fazendo aqui? – pergunto, virando-a bruscamente para mim, o que talvez não seja o comportamento ideal, mas estou atônito demais para pensar direito.
Ela age como se eu tivesse lhe dado um tapa.
Muito bem, Cassel. Você é mesmo encantador.
– Eu sabia que você ia ficar furioso – diz ela. Seu rosto está pálido e cansado, ausente de toda a crueldade habitual.
– Não é isso – respondo. Mas, meu Deus, naquele momento não faço ideia de qual seja o problema. Sei que ela não deveria estar ali. E sei que não quero que vá embora.
– Não consigo evitar... – diz ela, e sua voz falha. Seu rosto está cheio de desespero. – Tentei parar de pensar em você, Cassel. Tentei durante todo o verão. Quase fui te procurar cem vezes. Eu enfiava as unhas na pele até conseguir me controlar.
Eu me lembro de estar sentado nos degraus da casa de minha mãe, em março, implorando para Lila acreditar que tinha sido enfeitiçada. Eu me lembro de como o pavor se espalhou lentamente pelo rosto dela. De sua negação, de concordarmos, derrotados, que não deveríamos nos ver até a maldição terminar. Eu me lembro de tudo.
Lila é mestre de sonhos. Espero que isso signifique que tem dormido melhor do que eu.
– Mas se você está aqui... – começo, sem saber como posso terminar.
– Dói não estar perto de você – sussurra ela, com cuidado, como se as palavras causassem sofrimento. – Você não faz ideia do quanto.
Quero dizer a ela que tenho, sim, ideia de como é amar alguém que não se pode ter. Mas talvez eu não tenha. Talvez estar apaixonada por mim seja pior do que posso imaginar.
– Eu não consegui... Não fui forte o bastante. – Seus olhos estão úmidos e a boca, ligeiramente aberta.
– Já faz quase seis meses. Você não se sente nem um pouco diferente? – A maldição já deveria ter começado a sumir, sem dúvida.
– Pior – diz ela. – Eu me sinto pior. E se isso não acabar nunca?
– Vai acabar. Em breve. Temos que esperar que acabe, e é melhor que... – começo a falar, mas é difícil me concentrar nas palavras com ela me olhando daquele jeito.
– Você gostava de mim antes – diz ela. – E eu gostava de você. Eu amava você, Cassel. Antes da maldição. Sempre te amei. E não me importo...
Não há nada que eu queira mais do que acreditar nela. Mas não consigo. Não acredito.
Eu sabia que essa conversa acabaria acontecendo. Independentemente do quanto eu tentasse evitar. E sei o que preciso dizer. Até planejei, sabendo que, de outra forma, as palavras não sairiam.
– Mas eu não amava você. E ainda não amo.
A mudança é imediata e terrível. Ela se afasta de mim. Seu rosto fica pálido e sombrio.
– Mas aquela noite no seu quarto. Você me disse que sentia saudade e que...
– Não sou louco – digo, tentando não dar bandeira. Ela conhece muitos mentirosos. – Falei o que achei que a faria dormir comigo.
Ela inspira uma pequena lufada de ar.
– Isso dói – diz Lila. – Você só está tentando me magoar.
Não é para magoar. É para enojar.
– Acredite no que quiser, mas é a verdade.
– Então por que não dormiu comigo? – pergunta ela. – Por que não dorme? Se tudo o que queria era pegar alguém, não sou eu que vou me negar. Não consigo dizer não pra você.
O sinal toca em algum lugar, longe dali.
– Me desculpe – digo, o que não estava no roteiro. Apenas escapa. Não sei como lidar com isso. Posso ser testemunha do sofrimento dela; mas não esse tipo de vilão.
– Não preciso de pena. – Pontos corados aparecem nas bochechas dela, como se estivesse com febre. – Estou esperando que a maldição acabe aqui em Wallingford. Se eu contasse para o meu pai o que sua mãe fez, ela já estaria morta. Não se esqueça.
– E eu com ela – digo.
– É – concorda. – E você com ela. Então se acostume com a ideia de que ficarei aqui.
– Não posso impedir você – digo baixinho quando ela se afasta de mim em direção à escada. Observo o modo como as sombras se movem em suas costas. Em seguida, desmorono contra a parede.
Chego atrasado à aula, é claro, mas o Dr. Kellerman apenas ergue as sobrancelhas espessas quando entro. Perdi os avisos matinais da televisão que fica acima do quadro. Membros do clube de audiovisual explicaram qual seria o almoço e quando os clubes iam se reunir depois da aula. Nada muito emocionante.
Ainda assim, fico feliz por Kellerman resolver não pegar no meu pé. Não sei se aguentaria.
Ele volta a explicar como calcular probabilidades (coisa que já entendo bem, sendo agenciador de apostas) enquanto me concentro em fazer minhas mãos pararem de tremer.
Quando o telefone na parede toca, eu mal reparo. Pelo menos até ouvir a voz da Sra. Logan:
– Por favor, mande Cassel Sharpe até a sala da diretora. Por favor, mande Cassel Sharpe até a sala da diretora.
O Dr. Kellerman franze o cenho quando me levanto e pego meus livros.
– Ah, fala sério – digo inutilmente para a sala.
Uma garota ri.
Mas pelo menos uma coisa está a meu favor. Alguém acabou de perder a primeira aposta do ano.