Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 14 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Catorze

 

A MELHOR COISA

de passar um dia doente é que não é difícil sair da escola. Eu saio. Eu poderia dirigir, mas tenho medo de sentirem falta do carro. Não posso me arriscar mais.

Além do mais, agora não tenho certeza se deveria ter o privilégio de coisas boas.

Acordei com uma nova resolução. Chega de riscos idiotas. Chega de tentar ser pego. Chega de deixar as coisas nas mãos do destino. Chega de esperar que algo ruim aconteça. Ando até chegar a um ponto distante o bastante do campus para estar em segurança. Em seguida, chamo um táxi pelo celular.

Barron não quer procurar os federais. Se contar tudo para eles, não vai conseguir nada com os Brennan. Mas, se ele realmente achar que não vou ceder às suas exigências, pode me denunciar, e preciso ajeitar as coisas antes que ele tenha a chance de fazer isso. Principalmente porque sei de uma coisa que ele não pode saber: na casa velha não há provas só do que eu fiz. Há provas do crime da mamãe também.

Antes de tudo, preciso me livrar daquilo.

Sou filho dela. É meu dever mantê-la em segurança.

Aguardo na calçada arborizada diante de algumas casas bonitas. Com quintal e balanços. Uma senhora de cabelo branco sorri para mim ao sair para pegar a correspondência em uma caixa de metal polido.

Eu sorrio de volta automaticamente. Aposto que aquelas pérolas gordas que ela tem nas orelhas são verdadeiras. Se eu pedisse com educação, ela provavelmente me deixaria esperar em sua varanda. Talvez até me preparasse um sanduíche.

Meu estômago ronca. Eu ignoro. Instantes depois, ela volta para dentro de casa, e a porta de tela acaba com minhas chances de almoçar.

As árvores tremem com uma repentina rajada de vento, e algumas folhas de bordo ainda verdes caem ao meu redor. Empurro uma com a ponta da bota. Não parece, mas ela já está morta.

O táxi encosta, e o motorista franze a testa ao me ver. Eu entro no banco de trás e dou instruções até a casa cheia de lixo. Felizmente ele não faz perguntas sobre pegar um garoto a três quadras de uma escola. Já deve ter visto coisa bem pior.

Ele me deixa lá e entrego o dinheiro de algumas das últimas apostas. Estou com poucos recursos e ando gastando dinheiro que não tenho. Uma aposta inesperada poderia me ajudar.

Sigo colina acima em direção à casa velha. A aparência dela é sinistra mesmo de dia. As telhas estão cinzentas, descuidadas, e uma das janelas no andar de cima, a do antigo quarto de mamãe, está quebrada e tem um saco tapando o buraco.

Barron tinha que saber que eu talvez fosse lá. Devia achar que eu talvez escondesse o corpo agora que me avisou que sabe sobre isso. Mas se deixou alguma surpresa para mim deve ter sido no porão, porque a cozinha está exatamente como no domingo. Minha xícara de café pela metade ainda está na pia, o líquido dentro parecendo terrivelmente podre.

O casaco também está onde deixei, no fundo do armário, ainda com a arma enrolada dentro. Eu me ajoelho e puxo o tecido embolado, só para ter certeza.

Imagino minha mãe apertando o cano contra o peito de Philip. Ele não deve ter acreditado que ela atiraria; ele era seu primogênito. Talvez tenha rido. Ou talvez a conhecesse melhor do que eu. Talvez tenha visto pela expressão dela que nenhum amor valia a liberdade.

Mas, quanto mais tento imaginar a cena, mais me vejo no lugar dele, sinto o cano frio da arma, vejo a boca manchada de batom da minha mãe se contrair em uma careta. Um arrepio percorre minha espinha.

Eu me forço a levantar, pego uma faca do cepo e um saco plástico debaixo da pia. Preciso parar de pensar. Então, começo arrancando os botões do casaco. Vou queimar o tecido; quero ter certeza de que qualquer parte sólida esteja no saco plástico com a arma. Depois, planejo fazer peso nele com tijolos e afundá-lo no Round Valley Reservoir, perto de Clinton. Vovô uma vez me disse que metade dos criminosos de Nova Jersey jogou alguma coisa lá dentro. É o lago mais fundo do estado.

Viro os bolsos do avesso em busca de moedas.

Luvas vermelhas de couro caem no chão de linóleo. E outra coisa, algo sólido.

Um amuleto familiar, partido ao meio. Ao vê-lo, sei quem matou Philip. Tudo se encaixa. O plano muda.

Ah, cara, eu sou um idiota.

Ligo para ela de um telefone público, como mamãe me ensinou.

– Você devia ter me contado – digo, mas entendo por que não contou.

No táxi de volta para a escola, recebo uma mensagem de Audrey.

Eu me lembro de como isso teria me animado em outra época. Agora, abro o celular com um suspiro.

destruição mútua garantida

me encontre na biblioteca amanhã no almoço

Ando ocupado demais me preocupando com meus problemas imediatos para realmente considerar para quem contar (ou mesmo se devo contar para alguém) que Audrey jogou uma pedra na janela de Lila, mas Audrey toca em um ponto interessante. Se eu denunciá-la, ela me denuncia por estar no quarto de Lila. Não tenho certeza de qual crime vão considerar pior, mas não quero ser expulso de Wallingford no último ano, mesmo se for com mais alguém.

E sei qual de nós dois Northcutt acha mais confiável.

Respondo à mensagem: estarei lá.

Estou exausto. Cansado demais para fazer qualquer coisa além de me arrastar até o alojamento e comer o que restou dos bolinhos de Sam. Adormeço em cima das cobertas, ainda de roupa. Pela segunda vez naquele dia, nem me lembro de tirar as botas.

Na quarta-feira à tarde, Audrey está me esperando nos degraus da biblioteca, os cabelos ruivos balançando ao vento. Está sentada, as mãos com luvas verdes vibrantes unidas por cima da saia pregueada de Wallingford.

Vê-la me faz ter pensamentos ruins. A história de Zacharov sobre Jenny. As palavras rabiscadas no papel. Pedaços de vidro cintilando aos pés de Lila.

– Como você pôde? – cospe Audrey quando me aproximo, como se ela fosse quem tivesse motivo para estar com raiva.

Sou pego de surpresa.

– O quê? Você jogou uma pedra...

– E daí? Lila tirou tudo de mim. Tudo. – O pescoço dela fica vermelho e inchado, como sempre acontece quando está aborrecida. – E aí você está lá, no quarto dela, no meio da noite, como se não se importasse em ser pego. Como pôde fazer isso depois do que ela... do que ela...

Lágrimas caem por suas bochechas.

– O quê? – pergunto. – O que ela fez?

Ela apenas balança a cabeça, desconcertada pelo choro.

Eu suspiro e me sento ao lado dela nos degraus. Depois de um momento, coloco o braço ao redor de seus ombros e puxo seu corpo trêmulo para perto do meu. Ela encosta a cabeça no meu pescoço e eu inspiro o aroma floral familiar de seu xampu. Sei que ela provavelmente me odiaria se soubesse como eu sou de fato ou o que posso fazer, mas ela já foi minha namorada. Não consigo não me preocupar.

– Ei – digo baixinho, só por dizer. – Está tudo bem. Seja o que for.

– Não, não está – retruca Audrey. – Eu a odeio. Eu a odeio! Queria que a pedra tivesse esmagado a cara dela.

– Não queria, não – digo.

– Ela fez Greg ser suspenso, mas os pais dele não o deixaram ir pra casa. – Ela arqueja. – Eles viram aquelas fotos idiotas que seus amigos tiraram. Ele teve que implorar para que a mãe ao menos... ouvisse pela porta. – Ela chora tanto que sua respiração está entrecortada. Ela luta para emitir as palavras entre os soluços. – Então, o levaram para fazer o exame. E quando descobriram que ele não era mestre, decidiram matriculá-lo na Southwick Academy.

Neste momento, Audrey para de tentar falar. Parece que está tomada pela dor, como se alguma outra coisa estivesse controlando seu corpo.

Southwick Academy é conhecida por ser antimestres. Fica na Flórida, perto da fronteira com a Georgia, e exige que o formulário de matrícula vá acompanhado de um exame hiperbatogâmico. Um exame com resultado negativo bem claro. Se o aluno é aceito, ele ou ela é reexaminado pelo médico da equipe.

Mandar Greg para Southwick significa que a reputação dele, e obviamente a reputação dos pais, está salva. Eu me sentiria mal se não achasse que ele ia gostar de frequentar uma escola onde todos têm a mesma opinião que ele sobre mestres.

– Todos nós terminaremos a escola em menos de um ano – digo. – Você vai vê-lo de novo.

Depois de alguns instantes, Audrey se afasta e olha para mim com olhos vermelhos. Em seguida, balança a cabeça.

– Ele me contou sobre Lila antes de ir embora. Sobre como me traiu. Que ela o enfeitiçou para fazê-lo querer...

– Isso não é verdade – digo.

Ela respira fundo, trêmula. Em seguida, limpa as bochechas com as luvas verdes.

– Isso só piora as coisas. O fato de você a desejar e ele também, e de que ninguém foi forçado. E ela nem é legal.

– Greg não é legal – digo.

– Ele era – declara ela. – Comigo. Quando estávamos sozinhos. Mas acho que não significou nada. Lila fez com que não significasse.

Eu me levanto.

– Não fez, não. Olha, entendo que você esteja com raiva. Até entendo por que quebrou a janela dela, mas isso tem que acabar. Chega de pedras. Chega de calúnias.

– Ela também traiu você – fala Audrey.

Eu apenas balanço a cabeça.

– Tudo bem – diz ela, levantando e esticando a saia. – Se não contar a ninguém o que eu fiz, não conto que você estava no quarto dela.

– E vai deixar Lila em paz?

– Vou guardar seu segredo. Desta vez. Não estou prometendo mais nada.

Audrey desce os degraus e cruza a praça sem olhar para trás.

Minha camisa ainda está molhada com suas lágrimas.

As aulas prosseguem como sempre. Ultimamente, não consigo processar as informações direito. Emma Bovary e sua cesta de abricós se misturam com dados sobre assimetrias e mercados incompletos. Fecho os olhos em uma aula e quando os abro estou em outra.

Entro no refeitório para jantar e empilho comida no prato. O cardápio da noite é enchiladas de frango com molho verde. Meu estômago está tão vazio que o mínimo cheiro de comida o faz revirar. Cheguei cedo, então tenho alguns minutos sozinho à mesa. Aproveito para enfiar comida goela abaixo.

Algum tempo depois, Sam se senta à minha frente. Ele sorri.

– Você parece um pouco menos próximo da morte.

Dou uma risada, mas quase toda minha atenção está voltada em Lila entrando e pegando uma bandeja de comida. Olhar para ela traz uma lembrança quente para minha pele. Tenho vergonha de mim mesmo e quero tocá-la novamente, tudo ao mesmo tempo.

Ela e Daneca se sentam à nossa mesa. Daneca olha para Sam, mas ele está encarando o prato.

– Oi – digo da forma mais neutra que consigo.

Lila aponta o garfo para mim.

– Ouvi um boato sobre você.

– Ah, é? – Não posso afirmar se ela está brincando ou não, mas não está sorrindo.

– Ouvi que você estava aceitando apostas sobre mim. – Lila esfrega a mão enluvada na testa e afasta a franja. Parece cansada. Aposto que não dormiu nada na noite anterior. – Sobre Greg e eu. Sobre eu ser doida. Sobre eu vir de uma prisão em Moscou.

Olho por um instante para Sam, que está com uma expressão quase cômica de surpresa. Ele está me ajudando a tomar conta das apostas desde que ficou encarregado do negócio, então sabe o que entra e sai. Sabe que fomos pegos no flagra.

– Não porque eu queira – digo. – Tive medo de recusar as apostas e as pessoas estranharem. Eu aceito apostas sobre tudo.

– Como sobre quem é mestre, por exemplo? – pergunta ela. – Está ganhando dinheiro com essas apostas também, não está?

Daneca aperta os olhos.

– Cassel, é verdade?

– Você não entende – digo, me virando para ela. – Se de repente eu começar a escolher que apostas aceitar, pareceria que sei de alguma coisa, que estou protegendo alguém, por exemplo. Eu me sento com vocês três; todos concluiriam que estou protegendo um de vocês. Além do mais, as pessoas iam parar de me contar o que está acontecendo, que boatos estão se espalhando. E eu não poderia criar meus próprios boatos. Eu não serviria de nada.

– É, e você teria que se posicionar – retruca Lila. – As pessoas poderiam até pensar que você é mestre. Sei o quanto você odiaria isso.

– Lila... – digo. – Eu juro pra você, tem um boato idiota para cada aluno novo que chega a Wallingford. Ninguém acredita neles. Se não aceitasse essas apostas, eu estaria basicamente confirmando que você e Greg... – Eu tropeço nas palavras e recomeço, sem querer irritá-la mais do que já irritei. – Faria todo mundo pensar que o boato é verdade.

– Não me importo – diz Lila. – É você quem está me transformando em piada.

– Me desculpe... – começo a falar, mas ela me interrompe.

– Não me enrole. – Ela enfia a mão no bolso e bate a mão com cinco notas de vinte dólares em cima da mesa. Os copos tremem e derramam um pouco de líquido. – Aposto cem dólares que Lila Zacharov e Greg Harmsford transaram. Quais são minhas chances?

Ela não sabe que Greg não vai voltar para Wallingford. Não sabe que Audrey a odeia. Olho automaticamente para a antiga mesa dele, na esperança de que Audrey não consiga ouvir nada disso.

– Boas. – Eu me forço a dizer. – Suas chances são boas.

– Pelo menos vou lucrar – diz ela. Em seguida, se levanta e sai do refeitório.

Apoio a testa na mesa e cruzo os braços sobre a cabeça. Não vou conseguir vencer hoje.

– Você devolveu aquele dinheiro – afirma Sam. – Por que não contou a ela?

– Não todo – digo. – Não queria que ela soubesse que estavam apostando sobre ela, então peguei todos os envelopes que me entregavam quando Lila estava perto. E aceitei mesmo apostas sobre quem era mestre. Achei que estava fazendo a coisa certa. Talvez ela tenha razão. Talvez eu só estivesse tentando me proteger.

– Eu também aceitei as apostas sobre quem era mestre – admite Sam. – Você estava certo. Era a única coisa que podíamos fazer para conseguir equilíbrio. – Ele parece mais seguro do que eu.

– Cassel? – diz Daneca. – Espere um segundo.

– O quê? – A voz dela soa tão estranha e hesitante que levanto o olhar.

– Ela não conseguiria fazer isso – diz Daneca. – Lila acabou de censurar você.

– Você pode amar alguém e ainda assim discutir... – começo a falar, mas paro. Porque essa é a diferença entre o amor real e o amaldiçoado. Quando você realmente ama alguém, ainda consegue ver quem essa pessoa é. Mas a maldição torna o amor simples e doentio.

Olho espantado para a porta por onde Lila saiu.

– Você acha que ela pode estar... melhor? Não amaldiçoada?

A esperança que floresce dentro de mim é apavorante.

Talvez. Talvez ela possa sair dessa e não me odiar. Talvez possa até me perdoar. Talvez.

Atravesso a praça em direção ao meu quarto no alojamento com Sam ao lado. Sorrio, apesar de tudo. Apesar da minha própria sorte. Estou tendo sonhos nos quais sou inteligente o bastante para conseguir escapar de todos os meus problemas. Sonhos bobos. O tipo de sonho que os golpistas amam explorar.

– E então – diz Sam devagar, com voz baixa. – É sempre assim? Quando você transforma?

A manhã de ontem parece tão distante. Eu me lembro do olhar de pavor de Sam ao me ver esparramado no chão. Ainda consigo sentir o rebote subindo pela minha espinha. Quero negar que aquilo aconteceu; em momentos como esse, me sinto mais nu do que jamais me senti. Tão nu que estava do lado avesso.

– É – digo, assistindo às mariposas circundarem as luzes no caminho. A lua sobre nós é apenas um traço fino. – Basicamente. Foi pior do que de costume porque me transformei duas vezes em uma noite.

– Onde você estava? – pergunta Sam. – O que aconteceu?

Eu hesito.

– Cassel – diz Sam. – Apenas me conte se é uma coisa ruim.

– Eu estava no quarto de Lila.

– Você quebrou a janela dela? – pergunta ele. Eu devia ter percebido que a história tinha se espalhado. Todo mundo sabe sobre a pedra, sobre a ameaça.

– Não – digo. – A pessoa que fez aquilo não podia saber que eu estava lá.

Ele me encara intensamente, com uma linha se formando acima do nariz, entre as sobrancelhas, ao franzir a testa.

– Então você sabe quem foi? Quem quebrou a janela?

Faço que sim com a cabeça, mas não entrego o nome de Audrey. Contar para Sam não é como contar para Northcutt, mas ainda sinto o dever de guardar segredo.

– Quando chove, chove forte – diz Sam.

Assim que entramos no prédio, meu celular toca. Abro-o com o queixo e o coloco no ouvido.

– Alô.

– Cassel? – diz Lila suavemente.

– Oi – respondo. Sam se vira, me lança um olhar de entendimento e continua andando; eu fico sozinho na escada do segundo andar.

– Sinto muito por ter gritado com você – diz ela.

Meu coração afunda.

– Sente?

– Sinto. Entendo por que você aceitou aquelas apostas. Não sei se gosto, mas entendo. Não estou com raiva.

– Ah – digo.

– Acho que surtei – conta ela. – Depois da noite de ontem. Não quero que isso seja apenas fingimento. – Ela está falando tão baixinho agora que mal consigo entender as palavras.

– Não é – retruco. As palavras parecem arrancadas do meu peito. – Nunca foi.

– Ah. – Ela fica em silêncio por um bom tempo. Em seguida, quando fala, percebo que está sorrindo. – Ainda quero receber o lucro da minha aposta, Cassel. Você não vai me convencer a desistir com sua lábia.

– Implacável, como sempre – digo, sorrindo e olhando para a escada. Alguém jogou um chiclete no chão e outra pessoa pisou nele. Agora, só existe um rastro cor-de-rosa melecado.

Sou tão idiota.

– Eu te amo – digo, porque tanto faz agora que minhas atitudes não importam mais. Já me decidi. Antes que ela possa responder, fecho o celular e desligo na cara dela.

Apoio a cabeça no corrimão frio de ferro. Talvez a maldição acabe sumindo, mas nunca vou ter certeza de que se foi completamente. Enquanto ela gostar de mim, não saberei se é forçado. Maldições são sutis. Claro, o feitiço de emoção deveria diminuir até acabar, mas como se pode saber? Preciso ter certeza, mas jamais terei.

Nunca houve escolha.

Ligo para o agente Jones. Perdi o cartão dele, então telefono para o número principal do FBI em Trenton. Depois de algumas transferências, caio em uma secretária eletrônica. Digo a ele que preciso de mais tempo, só alguns dias, só até segunda, e então entregarei a ele o assassino.

Quando você decide que precisa fazer uma coisa, é quase um alívio. Esperar é mais difícil, mesmo quando você odeia o que está prestes a fazer.

Quanto mais alternativas procuro, mais elas se tornam sombrias.

Tenho que aceitar os fatos.

Sou uma pessoa ruim.

Fiz coisas ruins.

E vou continuar fazendo até que alguém me impeça. E quem vai me impedir? Lila não pode. Zacharov não quer. Só há uma pessoa para fazer isso, e ele se mostrou indigno de confiança.

Sam está em nosso quarto, folheando Otelo, quando eu entro. O iPod está ligado nas caixas de som, e a música de Deathwërk sacode os vidros das janelas.

– Você está bem? – grita ele por cima dos vocais guturais.

– Sam – digo –, lembra quando você disse, no começo do semestre, que foi à loja de artigos de efeitos especiais e comprou de tudo? Que estava pronto pra qualquer coisa?

– Lembro... – confirma ele, desconfiado.

– Quero incriminar uma pessoa pelo assassinato do meu irmão.

– Quem? – pergunta ele, abaixando o som. Deve estar acostumado a me ouvir dizer coisas loucas, porque fica completamente sério. – E por quê?

Respiro fundo.

Incriminar alguém exige uma série de coisas.

Primeiro, você precisa encontrar uma pessoa que pareça ser vilão. Ajuda se ela já tiver feito alguma coisa ruim; também ajuda se em parte sua acusação for verdade.

E, já que ela fez alguma coisa ruim, você não precisa se sentir tão mal por fazê-la pagar o pato.

Mas o que você mais precisa é que a história faça sentido. Mentiras funcionam quando são simples. Costumam funcionar bem melhor do que a verdade. A verdade é confusa. É crua e desconfortável. Não se pode culpar as pessoas por preferirem mentiras.

Principalmente quando essa preferência funciona em seu benefício.

– Bethenny Thomas – digo.

Sam franze a testa para mim.

– Peraí, o quê? Quem é essa?

– A namorada do gângster morto. Dois poodles grandes. Corredora. – Penso em Janssen no freezer. Espero que ele aprove minha escolha. – Ela mandou matar o namorado, então não é como se ela não tivesse matado alguém.

– E como você sabe disso? – pergunta Sam.

Estou me esforçando muito para ser sincero, mas contar tudo para Sam é demais para mim. Mas os fragmentos parecem ridículos isolados.

– Ela disse. No parque.

Ele revira os olhos.

– Porque vocês dois estavam fazendo uma grande amizade.

– Acho que ela me confundiu com outra pessoa. – Pareço tanto com Philip que fico assustado. Consigo ouvir a ameaça na minha voz.

– Quem? – diz Sam, inexpressivo.

Forço minha voz a voltar ao normal.

– Hum, a pessoa que o matou.

– Cassel. – Ele geme e sacode a cabeça. – Não, não se preocupe, não vou perguntar por que ela acharia isso. Não quero saber. Apenas me conte seu plano.

Eu me sento na cama, aliviado. Não tenho certeza se consigo sobreviver a outra confissão, apesar de ainda ter muito a contar.

Eu costumava vigiar locais a serem roubados com meu pai às vezes, quando era criança. Para observar os padrões das pessoas. Quando saíam para o trabalho. Quando voltavam. Se comiam no mesmo lugar todas as noites. Se iam para a cama na mesma hora. Quanto mais rígida a rotina, mais caprichado o roubo.

Mas são os longos períodos sentado no carro com o rádio ligado que mais ficaram marcados na minha memória. O ambiente ficava abafado, mas eu não podia baixar a janela o bastante para pegar um ventinho. O refrigerante ficava quente, e eu acabava tendo que mijar numa garrafa porque não podia sair do carro. Só havia duas coisas boas nessas vigílias. A primeira era que papai me deixava escolher qualquer coisa para lanchar na lojinha de conveniência do posto. A segunda era que ele me ensinou a jogar cartas. Pôquer. Monte de três cartas. Tapão. Oito maluco.

Sam é ótimo em jogos. Passamos a noite de sexta observando o prédio de Bethenny e apostando salgadinhos de queijo. Descobrimos que o porteiro faz algumas pausas para fumar quando não tem ninguém perto. É um sujeito musculoso que briga com um mendigo por perturbar os moradores pedindo esmola. Bethenny leva os cachorros para correr à noite e dá duas voltas com eles antes de sair para a noite. Ao amanhecer, há troca de turno dos porteiros. O cara que entra é magro. Ele come dois donuts e lê o jornal antes de os moradores começarem a sair do prédio. Àquela altura, já é manhã de sábado, e Bethenny ainda não voltou, então guardamos tudo e vamos embora.

Deixo Sam na casa dele por volta das onze e durmo algumas horas na casa cheia de lixo. Acordo quando o telefone sem fio toca bem no meu ouvido. Eu tinha esquecido que o havia levado para o quarto dias antes. Está no meio do lençol.

– Alô? – resmungo.

– Posso falar com Cassel Sharpe? – pergunta minha mãe com a voz mais alegre possível.

– Mãe, sou eu.

– Ah, querido, sua voz estava tão estranha. – Ela parece mais feliz do que em muito tempo. Eu me sento na cama.

– Eu estava dormindo. Está tudo bem? – Minha preocupação automática é de que ela esteja com problemas. Que os federais tenham se cansado de esperar e ido atrás dela. – Onde você está?

– Tudo está ótimo. Estou com saudade, querido. – Ela ri. – Ando envolvida com tantas coisas novas. Conheci tanta gente legal.

– Ah. – Apoio o telefone no ombro. Eu deveria me sentir mal por ter desconfiado que ela era uma assassina. Em vez disso me sinto culpado por não me sentir culpado. – Viu Barron recentemente? – pergunto. Espero que não. Espero que ela nem imagine que ele está me chantageando.

Escuto o som familiar de um cigarro sendo aceso. Ela traga.

– Faz umas duas semanas. Ele disse que tinha um bom trabalho surgindo. Mas quero falar sobre você. Venha me ver e conheça o governador. Vai ter um brunch no domingo, e acho que você iria adorar. Precisa ver as joias que algumas dessas mulheres usam, e a prataria é de verdaaaaade. – Ela prolonga a última palavra, como se estivesse provocando um cachorro com um osso.

– O governador Patton? Não, obrigado. Prefiro comer vidro a comer com ele. – Levo o telefone para o andar de baixo e jogo fora o café velho na cafeteira. Coloco água fresca e pó novo. O relógio diz que são três da tarde. Tenho que começar a agir.

– Ah, não seja assim – diz mamãe.

– Como você pode ficar aí parada enquanto ele fala sem parar sobre a proposição nº 2? Tá, tudo bem. Ele é um alvo tentador. Eu adoraria vê-lo levar um golpe, mas não vale a pena. Mãe, as coisas podem ficar feias. Um erro e...

– Sua mãe não comete erros. – Ouço quando ela sopra a fumaça. – Querido, sei o que estou fazendo.

O café pinga na jarra, e o vapor sobe no ar. Eu me sento à mesa da cozinha. Tento não pensar na minha mãe quando eu era criança, sentada onde estou agora, rindo de alguma coisa que Philip disse ou bagunçando meu cabelo. Quase consigo ver meu pai sentado à mesa, mostrando a Barron como girar uma moeda de vinte e cinco centavos nos dedos enquanto ela faz o café da manhã. Sinto o cheiro das cigarrilhas do meu pai e do bacon tostado. Meus olhos doem.

– Não sei mais o que estou fazendo – digo. Você pode achar que estou maluco por dizer isso para ela. Mas ela ainda é minha mãe.

– Qual é o problema, querido? – A preocupação em sua voz é real o bastante para partir meu coração.

Não posso contar a ela. Não posso mesmo. Não sobre Barron ou os federais, nem que achei que ela era assassina. E certamente não sobre Lila.

– A escola – respondo, apoiando a cabeça nas mãos. – Acho que estou ficando um pouco sobrecarregado.

– Querido – diz ela em um sussurro rouco –, nesse mundo, muitas pessoas vão tentar botá-lo pra baixo. Elas precisam pisar em você para subir. Deixe que pensem o que quiserem, mas não deixe de se vingar. Se vingue.

Ouço uma voz masculina ao fundo. Eu me pergunto se ela está falando mesmo sobre mim.

– Tem alguém aí?

– Tem – diz ela com voz doce. – Espero que você considere vir no domingo. Se eu der o endereço você pensa no assunto?

Finjo anotar a localização do brunch idiota de Patton. Na verdade, estou só me servindo de uma xícara de café.