Luva Vermelha
Capítulo Quinze
ACORDAR NO MEIO DO DIA
sempre nos deixa com uma sensação confusa, como a de perder a noção do tempo. A luz lá fora parece errada. Meu corpo está pesado quando me obrigo a me vestir.
Paro em duas lojas para comprar mais café e coisas de que estou precisando, depois vou para a casa de Daneca. Cruzo a grama verde até a porta recém-pintada entre dois arbustos podados. Tudo parece lindo como uma foto.
Quando toco a campainha, Chris atende.
– O que foi? – diz ele. Está usando short e chinelos com uma camisa grande demais. Isso faz com que pareça ainda mais novo. Tem uma mancha de alguma coisa azul no cabelo dele.
– Posso entrar?
Ele abre a porta toda.
– Não tô nem aí.
Suspiro e passo por ele. O aroma de cera de limão ocupa o corredor e uma garota passa aspirador na sala. Por algum motivo, nunca me ocorreu que Daneca cresceu com empregadas, mas é claro que sim.
– A Sra. Wasserman está? – pergunto à garota.
Ela tira os fones de ouvido e sorri para mim.
– O que você disse?
– Me desculpe – digo. – Eu só estava perguntando se você sabia onde a Sra. Wasserman está.
A garota aponta.
– Acho que no escritório.
Ando pela casa, passando pelas obras de arte e pelos objetos antigos de prata. Bato na moldura de uma porta com painéis de vidro. A Sra. Wasserman a abre, o cabelo em um coque preso por um lápis no meio dos cachos.
– Cassel? – diz ela. Está usando uma calça de moletom manchada de tinta e segura uma caneca de chá.
Entrego as violetas que comprei na loja de jardinagem. Não entendo muito bem de flores, mas gostei da sensação aveludada dessas.
– Eu queria agradecer por aquele dia. Pelo conselho.
Presentes são muito úteis para golpistas. Eles criam uma sensação de débito, uma ansiedade incômoda da qual o presenteado sente necessidade de se livrar, retribuindo o presente. É uma necessidade tão grande, na verdade, que as pessoas costumam até exagerar na retribuição só para se sentirem aliviadas. Uma simples xícara de café dada espontaneamente é capaz de fazer uma pessoa se sentir obrigada a assistir a uma palestra sobre uma religião pela qual não se interessa. Uma pequena flor murcha de presente pode levar o receptor afazer uma doação para uma instituição de caridade da qual não gosta. Presentes são um peso tão grande que mesmo os jogando no lixo, o débito não acaba. Mesmo que você odeie café, que não queira aquela flor, uma vez que você aceita, vai querer dar algo em troca. Acima de tudo, vai querer se livrar da obrigação.
– Ah, obrigada – diz a mãe de Daneca. Parece surpresa, mas contente. – Não foi nada, Cassel. Sempre estarei aqui se quiser conversar.
– É sério? – pergunto, o que talvez seja meio exagerado, mas preciso ir um pouco mais longe com ela. É sua chance de retribuir. O fato de eu saber que ela adora casos de má sorte só ajuda.
– É claro – diz ela. – O que você precisar, Cassel.
Bingo.
Gosto de pensar que é a gratidão que a torna exageradamente generosa, mas acho que nunca vou ter certeza. Esse é o problema em não se confiar nas pessoas: você nunca descobre se elas teriam ajudado você por vontade própria.
Daneca está no computador quando chego em seu quarto. Ela me olha com surpresa.
– Oi – digo. – Seu irmãozinho me deixou entrar.
Já não estou sendo completamente honesto quando deixo de mencionar que conversei com a mãe dela, mas estou determinado a não fazer nada mais desonesto do que isso. Já me odeio o bastante sem aplicar um golpe em uma das minhas únicas amigas.
– Chris não é meu irmão – fala Daneca automaticamente. – Nem sei se está de acordo com a lei ele morar aqui.
O quarto dela é exatamente como eu esperava. A colcha é de batik, estampada com círculos prateados. Há lenços com franjas sob as cortinas de linho. As paredes são cobertas por pôsteres de cantores folk, poemas e uma grande bandeira dos direitos dos mestres. Na estante, ao lado de exemplares de Ginsberg e Kerouac e do The Activist’s Handbook, há uma coleção de cavalos. Brancos e castanhos, pintados e pretos, estão enfileirados lado a lado.
Eu me encosto no batente da porta.
– Certo. Um garoto que está sempre neste endereço me deixou entrar. E foi bem grosseiro comigo.
Ela dá um meio sorriso. Atrás dela, consigo ver o trabalho que está escrevendo, com as letras como formigas pretas na tela.
– Por que está aqui, Cassel?
Eu me sento na cama e respiro fundo. Se conseguir fazer isso, consigo fazer todo o resto.
– Preciso que você enfeitice Lila – declaro. As palavras saem facilmente pelos meus lábios, mas meu peito dói quando as digo em voz alta. – Preciso que faça com que ela não me ame mais.
– De jeito nenhum – diz Daneca.
Eu sacudo a cabeça.
– Preciso que você faça isso. Por favor. Por favor, apenas escute. – Tenho medo de minha voz falhar. Tenho medo de que ela ouça o quanto isso dói.
– Cassel, não me importo com seus motivos. Não há motivo bom o bastante para tirar o livre arbítrio de alguém.
– Já foi tirado! Lembra quando falei que tentei ficar longe de Lila? – digo. – Parei de tentar. Que tal isso como bom motivo?
Ela não confia em mim. É claro que consegue entender que eu também não confie em mim.
O olhar de Daneca está tomado de asco.
– Não há nada que eu possa fazer. Você sabe disso. Não consigo tirar a maldição dela.
– Enfeitice-a para que não sinta nada por mim – peço. Minha visão embaça. Limpo a umidade dos olhos com raiva. – Faça com que Lila não sinta nada. Por favor.
Ela olha para mim de um jeito estranho, aturdido. Quando fala, sua voz está suave.
– Pensei que a maldição estivesse sumindo. Já pode ter acabado.
Balanço a cabeça.
– Ela ainda gosta de mim.
– Talvez ela goste de você, Cassel – diz Daneca com cuidado. – Sem a maldição.
– Não.
Ela espera por um bom tempo.
– E você? Como vai se sentir quando ela...
– Não importa o que sinto – respondo. – O único jeito de Lila ter certeza... de qualquer um ter certeza... de que a maldição acabou é ela não me amar.
– Mas... – Daneca começa a dizer.
Se eu conseguir ir até o fim com isso, nada mais pode me magoar. Serei capaz de tudo.
– Tem que ser assim. Senão vou criar razões para acreditar que ela me quer, porque eu gostaria que fosse verdade. Não sou confiável.
– Sei que está muito perturbado... – diz Daneca.
– Não sou confiável. Você entendeu?
Ela assente uma vez.
– Tá. Tá, eu faço.
Expiro com força, uma onda vertiginosa de ar.
– Mas só desta vez. Nunca vou repetir isso. Nunca vou fazer nada parecido com isso de novo. Entendeu?
– Entendi – digo.
– E nem sei direito como fazer, então não é nada garantido. Além do mais, o rebote vai me deixar esquisita e emotiva, então você tem que cuidar de mim até eu ficar estável. Combinado?
– Combinado – respondo.
– Ela não vai gostar mais de você. – Daneca inclina a cabeça para o lado como se estivesse me vendo pela primeira vez. – Você será apenas um cara que ela conhece. Tudo que ela sente por você, tudo que já sentiu, vai sumir.
Fecho os olhos e concordo com a cabeça.
A primeira coisa que faço quando chego em casa é ir até o porão. Abro o freezer. Janssen está onde o deixei, branco como leite, as pálpebras afundadas e o cabelo congelado. Parece uma escultura demente de mármore, o retrato de um assassino assassinado. Todo o sangue deve ter escorrido para as costas dele antes de congelar. Aposto que, se o virar, ele estará roxo.
Tiro a luva da mão direita e toco em seu peito, afastando o tecido endurecido da camiseta de baixo e encostando meus dedos na pele gelada.
Transformo o coração dele em vidro.
A transformação leva apenas um momento, mas me recuperar dela demora mais. Quando o rebote acaba, afago a cabeça no ponto onde ela bateu no chão. Tudo dói, mas estou me acostumando.
Vou para o andar de cima, pego a arma no saco plástico, fecho os olhos e dou dois tiros no teto da sala de visitas. Chove poeira em mim, e a sala é encoberta por uma nuvem de pó. Um pedaço de gesso quase arranca meu cérebro.
Golpes não são glamourosos. Significam ter que tirar o aspirador velho do armário, trocar o saco e tentar limpar a maior parte da poeira. Limpar o porão para esconder que você rolou de um lado para outro depois de uma transformação. Desmontar a arma de acordo com as instruções na internet e, cuidadosamente, limpar todas as impressões digitais com um pano ligeiramente molhado de óleo, depois embrulhar tudo com papel-toalha. Dirigir um quilômetro e meio até uma parte abandonada da estrada e encharcar o casaco e as luvas da assassina com fluido de isqueiro para que queimem até virar cinzas. Esperar para ter certeza de que queimaram até virar cinzas e depois espalhar as cinzas. Quebrar todos os botões que sobraram do casaco com um martelo, depois os jogar junto com o saco do aspirador e todas as partes metálicas em diferentes lixões, longe de onde você queimou as roupas. Os golpes são feitos de detalhes.
Quando termino, está tarde o suficiente para eu ligar para Sam e colocar a outra parte do plano em prática.
Minha mãe é conservadora quando se trata de dar golpe nas pessoas. Ela tem o jeito dela, que é bem eficiente. Roupas elegantes, um toque de sua mão e a maior parte das pessoas está disposta a fazer o que ela quer. Mas eu jamais pensaria em fantasias ou adereços até conhecer Sam. Estou com o computador aberto no site do Cyprus View. Eles têm modelos da planta dos apartamentos para interessados em alugar. Muito útil.
Sam segura, ansioso, um ferimento falso em um pedaço fino de silicone.
– Olha, você mesmo disse que aquele guarda queria ser herói – diz Sam.
Pode ser verdade que eu disse isso. Não lembro. Falei muitas coisas durante a vigília, na maioria das vezes observações chatas sobre o local ou afirmações completamente exageradas sobre como eu ia ganhar de Sam nas cartas.
– Mas, então, vamos precisar de outra pessoa – digo. – Vai ser trabalho pra três.
– Peça a Lila – diz ele.
– Ela está na cidade – respondo, mas sem entusiasmo. A ideia de vê-la uma última vez antes de perdê-la é enlouquecedoramente tentadora.
– Daneca e eu ainda estamos... Não sei. Além do mais, ela não é boa atriz.
– Ela se saiu bem na festa de Zacharov – digo, pensando no jeito como ela sorriu para meu irmão minutos depois de me dar um saco de sangue falso.
– Precisei ter uma conversinha com ela no caminho – conta ele. – E se eu ligar pra Lila?
Em silêncio, entrego a ele meu celular. Quero que ela venha. Se eu resistir a isso, acho que não terei mais nenhuma resistência.
Pegamos Lila na estação de trem com o rabecão de Sam. Ele trabalha nela na parte de trás enquanto eu, nervoso, mexo no rádio no banco da frente e como uma fatia de pizza.
– Está terminando? – pergunto, olhando para o relógio no painel.
– Não apresse o artista – diz Lila. Sua voz me atinge como uma faca, deixando um ferimento tão limpo que eu sei que não vai doer até que ela arranque a faca do local.
– É – digo. – Desculpa, Sam.
Finalmente ela passa para o banco da frente. Está com um hematoma pintado na bochecha. Parece real, parcialmente escondido pelos cachos de uma peruca loura comprida.
Estico a mão automaticamente para tocar no rosto dela, mas logo recuo.
– Não me bagunce – diz ela com um sorriso torto.
– Estamos prontos? – pergunto para o banco de trás.
– Um segundo – diz Sam. – Só preciso colocar esse arranhão na minha boca, mas não está grudando.
Lila se inclina em minha direção, nervosa e determinada.
– Aquilo que você disse antes de desligar o telefone – diz ela, meio sussurrando. – Estava falando sério?
Faço que sim com a cabeça.
– Mas achei que fosse tudo fingimento... – Ela para de falar e morde o lábio, como se mal conseguisse fazer o resto da pergunta por medo da resposta.
– Eu fingi o fingimento – digo baixinho. – Menti sobre mentir. Não consegui pensar em outra forma de fazer você acreditar que não podíamos ficar juntos.
Ela franze a testa.
– Espere. Então por que você me contou agora?
Merda.
– Porque estou prestes a ser devorado por poodles – respondo. – Lembre-se sempre de mim, meu amor.
Felizmente, Sam escolhe o momento para se inclinar entre os bancos da frente.
– Tudo pronto – diz ele.
– Aqui está o que você me pediu – fala Lila, pegando uma garrafa verde de vidro dentro da mochila. Está enrolada em uma camiseta. – É isso que vai plantar na casa dela?
Eu pego, tomando o cuidado de não encostar no gargalo. É bizarro pensar que essa coisinha pequena é o que Lila pegou na casa de Philip. É ainda mais bizarro saber que era uma pessoa viva.
– Não – digo. – Meu plano é ainda mais secreto do que isso.
Ela revira os olhos.
Puxo o boné de entregador de pizza para baixo e ligo o motor.
O plano é bem simples. Primeiro, esperamos até que Bethenny Thomas saia do prédio sem os cachorros. Essa é a parte mais incerta, porque ela pode resolver passar a noite de sábado em casa, vendo TV.
Às dez ela entra em um táxi e nós entramos em ação.
Dirijo-me ao prédio com três caixas de pizza. Estou usando o boné, que foi bem fácil de roubar da loja movimentada onde compramos as pizzas, e roupas comuns. Mantenho a cabeça baixa em frente às câmeras de segurança. Digo que tenho uma entrega para os Goldblatt. Nós os escolhemos porque, dentre todo mundo que conseguimos identificar como moradores do prédio (graças ao catálogo de endereços on-line), eles foram os primeiros a não atender quando ligamos.
O sujeito grande atrás da mesa olha para mim e resmunga. Levanta o interfone e aperta um botão. Eu me esforço bastante para fingir que estou entediado, em vez de quase pulando de tanta adrenalina.
Sam sai gritando da escuridão e bate na parede de vidro do saguão como se mal tivesse reparado nela. Começa a gritar e a apontar para os arbustos:
– Fique longe de mim. Fique bem longe!
O porteiro fica de pé, ainda com o interfone na mão, mas sem prestar atenção a ele.
– Mas o que é isso? – digo.
Lila corre pelo passeio em direção a Sam. Ela bate nele com tanta força que, mesmo dentro do saguão, escuto o som da luva de couro contra a pele. Eu sinceramente espero que ele a tenha ensinado algum truque de cena, ou então aquilo deve ter doído.
– Eu vi você olhando pra ela – grita Lila. – Vou arrancar seus olhos!
Se ele fosse uma pessoa diferente, o segurança poderia simplesmente chamar a polícia. Mas quando o vi enxotando aquele mendigo na noite de sexta, percebi que não é do tipo que liga para a polícia se acha que pode resolver a situação.
Agora, só preciso torcer para ter feito a leitura correta.
Quando ele coloca o interfone no gancho, solto o fôlego que não deveria estar prendendo. Não é assim que se finge ser casual.
– Espere um segundo – diz ele para mim. – Preciso tirar esses jovens daqui.
– Cara! – Solto um gemido na tentativa de parecer o mais exasperado possível. – Preciso entregar essas pizzas. Tem o limite de quinze minutos.
Ele mal olha para mim ao andar até a porta.
– Tudo bem. Pode subir.
Quando piso no elevador, escuto Lila gritar para o porteiro cuidar da vida dele. Dou um sorriso ao apertar o botão.
A porta do apartamento de Bethenny é idêntica a todas as outras. Portas brancas em um corredor branco. Mas, quando enfio minha ferramenta na fechadura, ouço os cachorros começarem a latir.
A fechadura é fácil, mas tem uma tranca em cima que me faz demorar mais. Posso sentir o cheiro de alguém fritando peixe em algum ponto do corredor e outra pessoa ouvindo música clássica em volume alto. Ninguém aparece no corredor. Se aparecesse, eu teria perguntado sobre um número em outro andar e entraria no elevador. Para minha sorte, consigo entrar no apartamento de Bethenny sem contratempos.
Assim que entro os cachorros correm para cima de mim. Fecho a porta da frente e corro para o quarto, batendo a porta nos focinhos deles. Eles arranham a madeira, choramingando, e torço para que não façam muito estrago. Silenciosamente agradeço mais uma vez ao prédio por colocar a planta dos apartamentos on-line.
Lá dentro, coloco as caixas no chão de madeira e as abro. A primeira tem os restos de uma pizza de verdade dentro. As poucas fatias que não comemos estão cobertas de pepperoni e calabresa, em uma quantidade que pode muito bem distrair os cachorros.
A segunda contém a arma, enrolada em papel-toalha, sacos plásticos para colocar nos meus pés, panos encharcados de água sanitária e luvas descartáveis.
A terceira caixa de pizza guarda a roupa com que vou sair do prédio. Um terno, um par de óculos e uma pasta de couro. Mudo de roupa depressa e me preparo.
Enquanto prendo os sacos plásticos em cima dos meus pés, olho ao redor. As paredes são azul-marinho, decoradas por fotos de Bethenny em vários cenários tropicais. Ela sorri para mim, um coquetel na mão, em cem fotos, multiplicadas por mil reflexos nos espelhos na porta do armário. Não consigo evitar ver minha imagem refletida também, o cabelo sujo caindo sobre o rosto. Parece que não durmo há semanas.
Os cachorros param de choramingar e começam a latir. Sem parar, em coro.
Há vestidos visíveis pela abertura no armário em uma mistura de tecidos e brilhos, além de sapatos espalhados pelo quarto todo. Em cima de uma penteadeira branca, um emaranhado de correntes de ouro cai sobre uma gaveta cheia de sutiãs acetinados.
Não toco em nada além do colchão. Levanto uma das pontas e me preparo para enfiar a arma acima do estrado.
Já tem uma arma ali.
Olho para o revólver grande e prateado. Ele faz a pistola na minha mão parecer delicada.
Fico tão abalado que, por um instante, não sei o que fazer. Ela já tem uma arma debaixo do colchão.
Começo a gargalhar, a histeria surgindo pela minha garganta. De repente, é demais para mim. Não consigo evitar. Estou agachado em frente à cama, respirando fundo, lágrimas saindo dos olhos de tanto rir. As gargalhadas são tão intensas que não emito som nenhum.
A sensação é de impotência, como no rebote, como no luto.
Por fim, me recomponho o bastante para colocar a Smith & Wesson entre o colchão e a base, perto do pé da cama. Concluo que ninguém vai tentar pegar uma arma ali, e ninguém levanta muito o colchão quando está tentando pegar uma arma.
Em seguida, quebro as caixas de pizza e as enfio na pasta, junto com o jeans e o casaco que eu estava usando quando entrei. Guardo também a pizza extra, os papéis-toalha e os panos. Mudo de luvas. Em seguida, passo um pano no chão para remover migalhas, gordura e fios de cabelo. Empurro o pano com o pé até a porta para garantir.
Do lado de fora do quarto, os latidos dos poodles chegaram ao ápice. Enfio o pano no bolso.
Ouço um dos cachorros bater na maçaneta e, de repente, terrivelmente, ela gira. Um deles deve tê-la alcançado com a pata. Um minuto depois eles entram correndo, latindo furiosamente. Mal consigo subir na cama para não ser mordido.
Tá, sei o que você está pensando. São poodles, certo? Mas essas coisas não são poodles toy fofinhos. São poodles do tipo padrão, enormes e ameaçando me morder, com os dentes brancos expostos e um rosnado que faz tremer suas gargantas quando vou para a beirada do colchão. Olho para o lustre acima de mim e penso em tentar me pendurar nele.
– Ei! – ouço uma voz gritar. – Beth? Quantas vezes preciso falar pra você manter esses seus cachorros quietos?
Ah, fala sério. Isso não pode estar acontecendo.
É claro que não estaria acontecendo se eu tivesse me lembrado de trancar a porta do apartamento depois que arrombei a fechadura. Os golpes são feitos de detalhes. O que os define são as pequenas coisas que você lembra ou não.
– Se não os fizer parar, vou chamar a polícia – grita o homem. – Desta vez, estou falando sério... Ei, mas que...
Ele está parado na porta, olhando para mim, tão surpreso que perdeu a fala. Em um minuto, vai gritar. Em um minuto, vai correr para seu apartamento e ligar para a polícia.
– Ah, graças a Deus – digo, tentando fazer meu olhar mais agradecido. Limpo a garganta. – Recebemos um chamado, um dos vizinhos reclamou. Eu tinha hora marcada com...
– Quem diabos é você? O que está fazendo no apartamento de Bethenny? – O vizinho é um sujeito calvo que deve ter uns quarenta e poucos anos. Tem uma barba densa e bigode. A camiseta surrada tem a logo desbotada de uma empresa de construções.
– O síndico do prédio me mandou avaliar a situação com esses cachorros – grito por cima dos latidos. – A porta estava aberta, e achei que a Sra. Thomas estivesse em casa. Ela anda evitando minhas ligações, mas consegui que concordasse com uma reunião. Não esperava que eles atacassem.
– É – grita o sujeito. – Eles são nervosos. E muito mimados. Se quiser descer daí, é melhor dar alguma coisa pra eles.
– Não tenho nada. – Decido que é melhor fazer alguma coisa se quiser parecer convincente. Pulo da cama, pego a pasta e corro para o vizinho. Sinto dentes na perna.
– Ai – grito, quase caindo.
– Fica – grita o vizinho para os poodles, o que milagrosamente parece fazê-los pararem por tempo suficiente para que fechemos a porta do quarto.
Eu me abaixo e puxo a beirada da calça. Meu tornozelo esquerdo está sangrando e molhando a meia. Só tenho alguns minutos antes que meu sangue escorra por cima do plástico que cobre meus pés e caia no chão.
– Isso é absurdo! – digo. – Ela me disse que essa era a única hora em que poderíamos nos encontrar, apesar de ser extremamente inconveniente pra mim. E ela nem está aqui...
O homem olha para a porta do apartamento.
– Você quer um curativo?
Balanço a cabeça.
– Vou para um hospital agora mesmo para que o ferimento possa ser fotografado e considerado evidência. Agora é muito importante que a Sra. Thomas não saiba que o prédio está tentando abrir um caso contra ela. Posso contar com sua discrição?
– Você está querendo expulsar Bethenny? – pergunta ele. Ajusto minha resposta ao ver a expressão dele.
– Nosso primeiro passo vai ser sugerir que a Sra. Thomas matricule os cachorros em sessões intensivas de adestramento. Se não funcionar, podemos pedir que ela os coloque em outro lugar.
– Estou cansado de tanto barulho – diz ele. – Não vou contar nada desde que você não esteja querendo se meter com o aluguel dela.
– Obrigado. – Olho para o chão, mas não vejo sangue. Bom. Sigo para o corredor.
– Você não é meio jovem pra trabalhar pro síndico? – diz o vizinho, mas parece achar mais engraçado do que desconfiar de alguma coisa.
Empurro os óculos no nariz do jeito que Sam faz.
– Todo mundo diz isso. Tenho sorte de ter carinha de bebê.
Saio mancando pelo saguão. A mudança no meu jeito de andar provavelmente ajuda no disfarce, pois o porteiro nem me olha direito. Passo pela porta, pensando em todas as coisas que poderiam ter dado errado. Ando com rigidez pela rua e vou até o estacionamento do supermercado, onde está o rabecão.
Lila sai do carro e vem correndo em minha direção. Ela não está mais de peruca, o hematoma virou uma mancha no nariz e ela está rindo.
– Viu nossa performance? Acho que você perdeu a parte em que convencemos Larry de que ele tinha me dado um soco sem querer. Acabou nos implorando pra não denunciá-lo. – Ela passa os braços pelo meu pescoço, e de repente suas pernas estão ao redor da minha cintura, e eu a carrego.
Dou um giro e a ouço rir e gritar. Ignoro a dor na minha perna. Sam está saindo do carro, também sorrindo.
– Ela é uma tremenda golpista – diz ele. – Melhor do que você, eu acho.
– Olha o respeito – digo. Paro de girar, ando até o carro de Sam e a coloco no capô. – Sei que ela é melhor.
Lila sorri e não tira as pernas da minha cintura. Ela me puxa para um beijo com gosto de tinta e arrependimento.
Sam revira os olhos.
– Que tal comermos alguma coisa? Larry nos deu cinquenta dólares pra irmos embora.
– Claro – respondo. – Com certeza.
Sei que jamais ficarei feliz assim de novo.