Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 10 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Dez

 

FICO NA CASA ANTIGA,

em meu velho quarto, rolando de um lado para outro na cama. Por mais que eu tente não pensar no cadáver que está no freezer dois andares abaixo, só consigo imaginar os olhos sem vida de Janssen me encarando através do piso, implorando silenciosamente para ser descoberto.

Ele merece um funeral melhor do que ser jogado num baú de gelo, independentemente do que fez na vida. E só Deus sabe o que eu mereço por jogá-lo ali dentro.

Como não consigo dormir mesmo, abro o arquivo que os federais me deram e espalho as páginas em cima do meu colchão. Encontro o nome da namorada de Janssen, Bethenny Thomas, e alguns detalhes sobre o depoimento dela naquela noite. Nada muito interessante. Eu a imagino empurrando um envelope de dinheiro contra o peito de Anton. E depois me imagino inclinado sobre Janssen, a mão nua indo em direção a ele, os dedos dobrando.

Eu me pergunto se fui a última coisa que ele viu, um garoto desajeitado com o cabelo mal cortado, com quinze anos na época.

Deito-me de costas e espalho os papéis. Nenhum deles importa. Eles não têm nada a ver com o assassino de Philip. Não é de admirar que os federais estejam confusos. Eles só querem saber o que Philip tinha de tão importante para contar, mas não há nada ali. Deve ser enlouquecedor chegar tão perto de resolver um mistério, só para ver outro ainda maior se formando. Qual era o grande segredo de Philip e quem o matou para protegê-lo?

A primeira parte é fácil. Eu sou o segredo.

Quem mataria para me proteger?

Penso na pessoa com o casaco grande e as luvas vermelhas. E depois penso mais um pouco.

Na manhã seguinte, desço e faço café, sem ter conseguido dormir quase nada. Em algum momento da noite coloquei na cabeça que o único modo de descobrir alguma coisa é começando a investigar.

Concluo que o melhor lugar para começar é a casa de Philip. A polícia pode já ter olhado lá, assim como os federais, mas eles não sabem o que procurar. É claro que eu também não sei, mas conheço Philip.

E tenho um prazo a cumprir.

Bebo o café, tomo banho, visto uma camiseta preta e um jeans cinza-escuro e sigo para o carro. Ele não liga. Abro o capô e observo o motor por alguns instantes, mas carros a diesel não são minha área de conhecimento.

Chuto os pneus e depois ligo para Sam.

O rabecão dele para na entrada de casa não muito tempo depois.

– O que você fez com ela? – pergunta Sam, acariciando o capô do meu carro e me lançando um olhar incriminador.

Ele está usando as roupas de fim de semana: uma camiseta com a foto de Eddie Munster, calça jeans preta e óculos de aviador espelhados. Não sei como os pais dele não veem que ele quer trabalhar com efeitos especiais de cinema.

Dou de ombros.

Ele mexe no motor por alguns minutos e diz que preciso substituir um dos fusíveis e provavelmente a bateria.

– Que ótimo – digo. – Mas tem uma coisa que preciso fazer hoje.

– O quê? – pergunta Sam.

– Solucionar um crime – respondo.

Ele inclina a cabeça, ponderando se deve ou não acreditar em mim.

– Sério?

Dou de ombros novamente.

– Provavelmente não. Que tal cometer um crime, então?

– Agora sim parece você falando – diz ele. – Tem algum específico em mente?

Dou uma risada.

– Invasão de propriedade particular. Mas é na casa do meu irmão. Então não é tão ruim, certo?

– Que irmão? – pergunta ele, olhando por cima dos óculos e erguendo uma das sobrancelhas. Parece o policial de uma série de TV ruim, e acho que foi essa a intenção.

– O morto.

Ele geme.

– Ah, para com isso! Por que não pegamos a chave com sua mãe? O apartamento dele não pertence a vocês de qualquer jeito? Os parentes mais próximos e tal?

Sento no banco do passageiro. O fato de ele estar pensando em uma forma mais fácil de entrar, para mim, é praticamente um sim.

– Acho que pertence à esposa dele, mas duvido que ela volte para reivindicá-lo.

Dou as coordenadas. Ele dirige, balançando a cabeça o tempo todo.

Philip morava em um complexo de apartamentos que parece ter sido construído nos anos 1970, bem diferente do elegante prédio de Bethenny, com porteiro e tudo. Quando paramos o carro, ouço o som distante de jazz em um rádio e sinto cheiro de alho frito. Sei que lá dentro os apartamentos são enormes.

– Vou esperar no carro – diz Sam, nervoso, e olha ao redor. – Cenas de crime me apavoram.

– Tudo bem. Não vou demorar. – Não posso culpá-lo.

Sei que há uma câmera de segurança por causa das fotos da mulher de luvas vermelhas. É fácil desligá-la no meu caminho até a porta.

Naquele momento, quando tiro um pedaço rígido de metal da mochila e me agacho em frente à maçaneta, meus nervos afloram. Não tenho certeza de que estou pronto para encarar o lar vazio do meu irmão. Respiro fundo algumas vezes e me concentro na fechadura. É uma Yale, o que significa que devo girá-la no sentido horário e que os pinos têm beiradas oblíquas. O trabalho familiar é uma distração bem-vinda dos meus pensamentos.

Arrombar fechaduras não é difícil, mas pode ser irritante. Normalmente você enfia uma chave no tambor, ela gira os pinos e pronto, a porta se abre. Quando você vai arrombar uma fechadura, a coisa mais fácil a fazer é friccionar os pinos até eles ficarem na posição certa. Há técnicas mais sofisticadas, mas não sou o especialista que meu pai era.

Alguns minutos depois, estou dentro.

O apartamento de Philip cheira a comida podre quando abro a porta. A fita da polícia ainda está ali, mas se solta facilmente. Fora isso, o lugar só parece bagunçado. Há caixas de comida de restaurante, garrafas de cerveja. Coisas que um cara deprimido deixa espalhadas por aí quando não tem esposa e filho por perto para reclamar.

Quando Philip estava vivo, eu tinha medo dele. Sentia muita mágoa. Queria que sofresse tudo o que me fez sofrer. Olhando para sua sala, percebo pela primeira vez o quanto ele devia ser infeliz. Perdeu tudo. Maura fugiu com o filho; o melhor amigo dele, Anton, foi morto por nosso avô; e o único motivo de ele não ter sido assassinado pelo chefe da máfia para o qual trabalhava desde a adolescência era eu.

Pensei no quanto ele ficou orgulhoso quando recebeu as cicatrizes, o longo corte na pele da garganta que foi preenchido por cinzas até as queloides surgirem. Ele dizia que era seu segundo sorriso. Era uma marca que indicava que Philip pertencia aos Zacharov, o tornava um deles, um assassino. Ele andava por aí com o colarinho aberto, um andar sacolejante, sorrindo quando as pessoas atravessavam para o outro lado da rua. Mas também me lembro dele no banheiro da casa antiga, com lágrimas nos olhos ao levar uma navalha afiada contra a pele inchada e infeccionada para escurecer as cicatrizes com cinzas frescas.

Doía. Ele sentia dor, ainda que seja mais fácil para mim fingir que não.

O contorno do corpo dele foi desenhado com giz no tapete e há manchas marrons no tecido, de onde um pedaço foi removido para análise criminal, eu suponho.

Ando pelos quartos tentando ver o que está fora do lugar. Tudo e nada. Não tenho ideia do que Philip modificou antes de morrer (eu ia até lá vezes o bastante para saber onde as coisas geralmente ficavam, mas não o suficiente para memorizar os detalhes). Subo a escada e entro no escritório, que era basicamente um quarto extra com uma cama e uma escrivaninha. O computador não está lá, mas concluo que os federais o levaram. Abro algumas gavetas, mas não tem nada mais interessante do que algumas canetas e um canivete.

O quarto de Philip está cheio de roupas que ele obviamente ia largando no chão conforme tirava e talvez ocasionalmente chutasse para formar uma pilha. Há pedaços de vidro quebrado perto do rodapé, incluindo o fundo irregular de um copo de uísque com um líquido marrom já seco lá dentro.

O armário está cheio de roupas limpas e não muito mais do que isso. Em uma das caixas de sapato, encontro espuma cortada no formato de uma arma, mas a arma não está lá. Há uma variedade de balas em outra caixa.

Tento pensar em quando éramos crianças, quando papai estava vivo. Não consigo me lembrar de nenhum dos esconderijos de Phil. Só de papai entrando no meu quarto para pegar...

Ah.

Entro no quarto do filho de Philip. A cama ainda está encostada em uma das paredes e coberta de bichos de pelúcia. As gavetas da cômoda estão abertas, embora algumas ainda tenham roupas dentro. Não sei se Maura deixou o quarto assim ou se foram os policiais revirando tudo.

A porta do armário está entreaberta. Carrego um banco em forma de cogumelo até lá e subo nele. Enfio a mão no local onde guardo minhas operações de apostas no quarto do alojamento, nas reentrâncias escuras do armário, acima da porta. Minha mão encosta em um pedaço de cartolina. Eu o arranco.

Foi pintado com o mesmo tom azul-claro da parede. É quase impossível de perceber só de olhar, mesmo com uma lanterna. Grudado atrás está um envelope pardo.

Levo tudo para fora do quarto, onde meus movimentos fizeram o móbile de barquinhos em cima da cama balançar. Os ursos observam com olhos vidrados enquanto abro o envelope e puxo uma pilha de papéis. O primeiro que vejo parece um contrato que dá a Philip Sharpe imunidade pelos crimes passados. É detalhado (tem muitas páginas), mas reconheço as assinaturas no verso. Jones e Hunt.

Mas, atrás disso, vejo três páginas da caligrafia curvilínea de Philip. É um relato sobre as costelas que ele quebrou para garantir que o recurso de mamãe fosse aprovado. Não sei o que significa encontrar isso aqui – se está com esses outros papéis porque não chegou a entregá-los para os federais ou se está aqui porque entregou.

Só sei que isso poderia fazer mamãe voltar para a cadeia.

Só sei que mamãe jamais o teria perdoado.

Afasto esse pensamento ao andar em direção à sala, enfiando o envelope na cintura da calça e puxando a camiseta por cima. Sobre a mesa de centro há um grande cinzeiro de metal sem quase nenhuma guimba de cigarro. Apenas uma. Quando chego mais perto, reparo que é branca com uma listra dourada. Reconheço o cigarro.

É um Gitanes. A marca que Lila fumava quando voltou da França anos atrás. Pego e observo, vejo a marca de batom. A primeira coisa que me vem à cabeça é que eu não sabia que ela ainda fumava.

A segunda é que já sei que os federais levaram coisas do apartamento de Philip. Suponho que o cinzeiro esteja vazio porque a equipe forense já levou todas as guimbas, junto com o pedaço de tapete, o computador de Philip e a arma. O que significa que Lila esteve ali depois.

A porta se abre e eu me viro, mas é apenas Sam.

– Fiquei entediado – diz ele. – Além do mais, sabe o que é mais apavorante do que ficar pra lá e pra cá no apartamento do irmão morto? Ficar sentado sozinho em um rabecão em frente ao prédio dele.

Sorrio.

– Fique à vontade.

Ele assente em direção à minha mão.

– O que é isso?

– Acho que Lila esteve aqui – conto, erguendo o resquício do cigarro. – Ela fumava essa marca. O batom parece dela.

Ele parece um tanto perplexo.

– Você acha que Lila matou seu irmão?

Eu sacudo a cabeça, mas quero dizer que acho que o cigarro não prova nada. Nem que matou nem que não matou.

– Ela deve ter vindo aqui depois que o apartamento foi revirado atrás de provas – digo. – Ela veio aqui, sentou nesse sofá e fumou um cigarro. Por quê?

– Voltando à cena do crime – diz Sam, como se fosse um detetive de televisão.

– Pensei que você gostasse de Lila – falo.

– Eu gosto – confirma ele, e de repente fica sério. – Gosto de Lila, Cassel. Mas é estranho ela ter vindo ao apartamento do seu irmão depois de ele ser assassinado.

– Nós estamos na casa do meu irmão depois de ele ter sido assassinado.

Sam encolhe os enormes ombros.

– Você devia perguntar a ela.

Lila me ama. Tem que amar; ela foi enfeitiçada para isso. Acho que não faria nada que me magoasse, mas não consigo explicar isso para Sam sem explicar o resto. E não vou contar a ele sobre o envelope.

Nem quero pensar sobre aquelas três páginas e o que elas podem representar. Não quero imaginar minha mãe sendo a mulher de luvas vermelhas. Quero que o assassino seja alguém que não conheço, um assassino de aluguel. Desde que seja alguém que não conheço, tenho liberdade para odiá-lo, pelo menos tanto quanto eu odiava meu irmão.

De volta ao carro, peço a Sam que me leve até o estacionamento de um grande supermercado que vejo no caminho. Atrás da loja há um aglomerado de árvores e várias latas de lixo enormes. Ele me observa remexer na mochila em busca de fósforos e fazer uma pequena fogueira o mais discretamente que consigo com pedaços de lixo que encontro ao redor, o acordo de imunidade e a confissão manuscrita de Philip. Quando está quente o bastante, coloco a guimba de cigarro no meio.

– Você está destruindo evidências – diz Sam.

Eu olho para ele.

– É?

Ele bate com a mão na testa.

– Não pode fazer isso! O que tem nesses papéis?

Sam, apesar de tudo o que viu, é um bom cidadão.

Vejo as beiradas do papel se curvarem e o filtro soltar fumaça. Eu sabia que Philip tinha negociado seus próprios segredos (e os meus), mas nunca achei que negociaria os de mamãe também.

– Os papéis dizem que meu irmão era um hipócrita. Ele ficou tão furioso porque eu ousei trair nossa família. Mas, na verdade, estava com raiva por eu ter feito isso antes dele.

– Cassel, você sabe quem o matou? – Tem alguma coisa estranha na voz de Sam.

Eu olho para ele e percebo o que está pensando. Dou uma risada.

– Encontraram imagens de vídeo de uma mulher entrando no apartamento dele na noite do assassinato. Então, não fui eu.

– Não achei que tinha sido você – diz ele depressa.

– Ah, tá. – Eu me levanto. Realmente não o culpo por desconfiar. – Não teria problema se achasse. E obrigado por ser meu motorista.

Ele ri com deboche quando espalho os restos enegrecidos das minhas descobertas com o sapato.

– Você se importa de irmos até a casa de Daneca? – pergunta ele. – Eu disse a ela que ia passar lá.

– Ela vai ficar desapontada se eu for junto – falo com um sorriso.

Ele sacode a cabeça.

– Ela vai querer saber o que você descobriu. Lembra como estava obcecada por aqueles arquivos?

– Você vai contar pra ela sobre essa fogueirinha, não vai? Cara, não me surpreende que você queira me levar. Quer que ela grite com a pessoa certa. – Mas não estou zangado de verdade. Gosto do fato de Sam não mentir para a namorada. Gosto do fato de eles estarem apaixonados. Até gosto do jeito como Daneca pega no meu pé.

– Se me disser pra não contar, não conto – diz Sam –, mas não tenho certeza de que você está sendo realmente objetivo nessa, hum, investigação.

Sinto uma onda de gratidão que me faz querer contar tudo para ele, mas as cinzas atrás de nós me lembram de que não devo confiar completamente em ninguém.

Sam liga o rádio do carro. Está sintonizado em um noticiário, e os apresentadores falam sobre a manifestação em Newark. Os policiais alegam que houve tumulto, mas vídeos no YouTube mostram manifestantes pacíficos sendo presos. Alguns ainda estão presos. Os números permanecem incertos. A conversa toda acaba em piadas sobre garotas com mãos nuas.

Sam muda de estação de repente. Olho pela janela para evitar os olhos dele. Paramos em uma loja de peças de carro para comprar um pacote de fusíveis e uma bateria nova. Por cima da música de elevador, ele me explica como instalar. Ajo como se fosse ainda mais incompetente com carros do que normalmente sou, apenas para irritar Sam a ponto de fazê-lo rir.

Minutos depois, chegamos à entrada da casa elegante da família de Daneca, em Princeton. Um homem de uniforme verde limpa o gramado com um aspirador de folhas. Ao fundo, vejo a Sra. Wasserman no jardim, cortando um girassol laranja. Ela carrega uma cesta de flores e acena quando nos vê.

– Cassel, Sam – diz a Sra. Wasserman, andando até o portão. – Que surpresa agradável.

Eu achava que as pessoas não diziam coisas assim na vida real, embora acredite que há exceções para pessoas que moram em casas como a dela. No entanto, a Sra. Wasserman se expressa de forma mais elegante do que realmente é. Sua bochecha está suja de terra, ela usa Crocs verdes surrados e o cabelo está preso em um rabo de cavalo desarrumado. Mas, por algum motivo, a falta de esforço dela é ainda mais intimidante.

Ela não parece uma militante incansável dos direitos dos mestres. Não dá para imaginar que é a pessoa que admitiu ser mestra em rede nacional. Mas é.

– Ah, oi – diz Sam. – Daneca está em casa?

– Lá dentro – diz ela, esticando a cesta de flores em nossa direção. – Vocês podem levar isso para a cozinha? Preciso pegar as últimas abobrinhas. Mesmo que você plante poucas, de alguma forma elas todas ficam maduras de uma vez e acabamos ficando com abobrinhas demais.

– Posso ajudar? – pergunto num impulso.

Ela me olha com estranheza.

– Seria ótimo, Cassel.

Sam pega a cesta de flores e balança a cabeça para mim, percebendo claramente que estou tentando adiar ter que responder às inevitáveis perguntas de Daneca.

Sigo a Sra. Wasserman até o quintal enquanto Sam entra. Ela pega outra cesta em uma pilha dentro do barracão.

– Então, como estão as coisas? Ouvi sobre a demissão da Sra. Ramirez. É ridículo como aquela escola acha que pode fazer o que quer sem sofrer consequências.

O jardim é bucólico e enorme, com alfazemas e vinhas em flor subindo por pirâmides de gravetos trançados. Pequenos tomates-cereja bem vermelhos cobrem um canteiro suspenso, enquanto outro está tomado de abobrinhas.

– É – digo. – Ridículo. Mas andei pensando. Tem uma coisa que eu queria perguntar.

– É claro.

Ela se ajoelha e começa a arrancar os legumes com um giro das mãos com luvas de jardinagem. As abobrinhas crescem a partir do centro de uma grande planta cheia de folhas com flores amarelas e parecem cair pesadamente sobre a terra. Depois de um momento, me dou conta de que oferecer ajuda significa que deveria fazer o mesmo que ela.

– Hum – digo, me abaixando. – Ouvi falar de uma coisa... Uma organização do governo federal. Para adolescentes mestres. E eu queria saber se você também já ouviu falar.

A Sra. Wasserman assente, sem mencionar o fato de que, na última vez que a vi, eu não parava de insistir que não era mestre e também não estava interessado neles.

– Ninguém confirma muitos detalhes, mas qualquer pessoa que tenta legislar em favor das crianças e adolescentes mestres dá de cara com entraves do governo com relação ao próprio programa deles. Ouvi dizer que se chama Divisão Licenciada da Menoridade.

Franzo a testa ao ouvir o nome.

– Então é verdade?

– O que sei – diz ela – é que eu me correspondia com um rapaz da sua idade antes de ele ser recrutado. Nunca mais tive notícias dele. Mestres adolescentes são um recurso valioso até o rebote os invalidar, e a DLM tenta recrutá-los antes da máfia. A DLM vai atrás de outros mestres, às vezes por causa de crimes legitimamente terríveis, às vezes por infrações menores. Isso pode destruir a alma. Se alguém lhe falou sobre a Divisão da Menoridade, você precisa de um advogado, Cassel. Precisa de alguém pra lembrar a eles que você ainda é um cidadão com escolhas.

Rio pensando na cela, pensando em todas as pessoas que ainda podem estar lá. Acho que Daneca não compartilhou essa história com a mãe. Mas, mesmo se eu acreditasse que os cidadãos têm escolhas, a única pessoa com experiência legal que eu conheço é Barron, e ele só conseguiu fazer dois anos de faculdade básica de direito em Princeton. Mamãe tem um advogado, mas não posso pagar a ele como ela paga. É claro que tem a Sra. Wasserman. Ela é advogada, mas não está exatamente se voluntariando.

– Certo. Vou tentar me manter longe de confusão.

Ela afasta uma mecha de cabelo castanho e consegue sujar a testa de terra.

– Eu não quis dizer que não é uma organização válida. Tenho certeza de que alguns adolescentes acabam conseguindo empregos honestos no governo. Só quero que vivamos em um mundo onde as crianças e adolescentes mestres não tenham que brincar de polícia e ladrão.

– É – falo. Não consigo imaginar esse mundo. Acho que eu não teria lugar nele.

– Você deveria entrar – diz ela, e sorri. – Posso terminar de colher o que falta sozinha.

Fico de pé, pois reconheço uma dispensa quando ouço uma.

– Eu não sabia o que eu era – digo, engolindo em seco. – Antes. Eu não menti pra você.

A Sra. Wasserman olha para mim cobrindo os olhos com a mão enluvada. Pela primeira vez nessa conversa, ela parece perturbada.

Daneca e Sam estão sentados em bancos na enorme ilha da cozinha. Em cima da bancada de mármore foi apoiado um copo de chá gelado com um ramo de hortelã de verdade dentro.

– Oi, Cassel – diz Daneca. Ela está usando uma camiseta branca e jeans com botas marrons de camurça até os joelhos. Uma trança com a ponta roxa caiu na frente do seu rosto. – Quer alguma coisa pra beber? Mamãe acabou de voltar do mercado.

– Não, obrigado – respondo, balançando a cabeça. Sempre me sinto estranho na casa de Daneca. Não consigo evitar uma análise do material.

– Por que vocês foram investigar sem mim? – pergunta Daneca, encerrando o momento anfitriã. – Achei que estávamos nisso juntos.

– Foi no caminho – explico. – Sam ficou quase o tempo todo esperando no carro. De qualquer modo, a polícia e os agentes já tinham passado por lá. Eu só queria ver se achava alguma coisa que eles não viram.

– Como o cigarro?

– Estou vendo que Sam contou pra você. É, como o cigarro. Mas isso foi depois. Tenho certeza.

– Cassel, sei que é difícil ouvir isso, mas ela tem todas as razões pra querer matar seu irmão. Você disse que ele a sequestrou.

Provavelmente estou encarando isso pelo ponto de vista errado, mas agora me arrependo de ter contado a eles. O problema de começar a falar é que as partes que você deixa de fora começam a ficar evidentes. Além do mais, tem a tentação de simplesmente contar tudo.

E não posso fazer isso. Agora que tenho amigos, não quero perdê-los.

– Eu sei – digo –, mas não acho que foi ela. Ela não parecia culpada no velório dele.

– Mas ela foi ao velório – insiste Daneca. Sam não está dizendo nada, mas o vejo assentir conforme ela fala. – Por que iria ao velório de uma pessoa que odeia? Assassinos fazem isso. Já li sobre o assunto.

– Revisitar a cena... – começa Sam.

– Philip não foi assassinado em uma casa funerária! Além do mais, ela foi até lá com Zacharov – argumento. – Ele queria me oferecer um emprego.

– Que tipo de emprego? – pergunta Daneca.

– Do tipo que não se comenta – conto. – Do tipo que faz você ter um enorme colar de queloides e um novo apelido.

– Você não aceitou, né? – diz ela. Tenho certeza de que, assim como os federais, Daneca e Sam chegaram à conclusão de que sou mestre da morte como meu avô.

Puxo o colarinho da camisa.

– Quer ver meu pescoço?

– Ah, pare com isso – diz ela. – Apenas responda.

– Não aceitei o emprego – digo. – É sério. E não tenho planos de aceitar. E quero esse chá gelado que Sam está tomando. Com raminho de hortelã, por favor.

Daneca sorri e desce do banco.

– Tudo bem, mas isso não significa que acabamos de falar sobre Lila. Quer dizer, é óbvio que você tem um sentimento louco e épico por ela... mas isso não significa que ela não seja suspeita.

Tento não levar a mal o fato de que, embora Lila tenha sido enfeitiçada para me amar, são os meus sentimentos que estão óbvios.

– Certo. E se ela tiver mesmo matado meu irmão? Saber disso vai ajudar alguém?

– Vai te ajudar a protegê-la – sugere Sam. – Se você quiser.

Olho para ele surpreso, porque não é o que eu esperava que ele dissesse. E é a mais pura verdade.

– Tudo bem – digo. – Tudo bem. É mesmo tão óbvio que eu gosto dela? – Penso em Audrey, praticamente dizendo a mesma coisa do lado de fora do refeitório. Eu devo ser patético.

– Fomos ao cinema juntos – diz Daneca. – Ontem à noite. Lembra?

– Ah, sim – respondo. – Aquilo.

Sam franze a testa enquanto Daneca serve meu chá gelado.

– Talvez você devesse ligar e perguntar se ela matou Philip – diz Sam.

– Não! – retruca Daneca. – Se fizer isso, ela vai começar a fingir. Esconder provas. Temos que bolar um plano.

– Olhem. – Eu levanto a mão. – Na minha opinião, Lila não fez isso. Não mesmo. Não que eu ache que ela não seja capaz de matar alguém. Sei que é. E sei que ela odiava Philip, embora, se fosse para matar um dos meus irmãos, tenho certeza de que teria começado por Barron. Mas ela... Sei que isso não vai parecer convincente, mas ela realmente gosta de mim. Gosta tanto que não acho que faria nada que me fizesse sofrer ou odiá-la.

Os dois trocam um olhar.

– Você é um sujeito charmoso – diz Sam com cuidado. – Mas ninguém é tão charmoso a esse ponto.

Dou um gemido.

– Não, não estou me gabando. Ela foi amaldiçoada para me amar. Agora vocês entendem? Os sentimentos dela são confiáveis porque não são reais. – Minha voz falha nas três últimas palavras, e olho para o chão.

Há uma longa pausa.

– Como pôde fazer isso com ela? – pergunta Daneca por fim. – É como um estupro cerebral. É como um verdadeiro estupro se você... Como pôde, Cassel?

– Não fui eu – cuspo cada palavra. Daneca podia ter me dado o benefício da dúvida ao menos por um minuto. Ela é minha amiga. – Não fui eu quem enfeitiçou Lila. E nunca quis que ela... Eu nunca quis isso.

– Vou contar pra ela – diz Daneca. – Ela precisa saber.

– Daneca – digo –, cale a boca por um minuto. Eu já contei a ela. Que tipo de pessoa você acha que eu sou? – Ao olhar para o rosto de Daneca, consigo ver exatamente que tipo de pessoa ela acha que sou, mas continuo a falar mesmo assim. – Contei a ela e tentei me afastar, mas não é fácil, tá? Tudo que faço parece errado.

– Então é por isso... – Sam para de falar.

– Por isso que tenho agido de forma tão estranha com ela? – pergunto. – É.

– Mas você não é mestre de emoções? – diz Daneca com cautela, não mais tão enojada. Eu agradeço por ela estar ao menos tentando entender o que eu disse, mas não consigo deixar de ficar magoado por ela me acusar justamente pela única coisa que não fiz.

– Não – respondo. – Não sou. É claro que não.

Sam olha para a porta, eu sigo seu olhar e vejo o jovem mestre louro que a Sra. Wasserman abrigou.

– Então, se não foi você que a amaldiçoou...? – pergunta Daneca, sussurrando.

– Essa parte não é importante – digo.

O garoto se vira para nós com o rosto tenso.

– Já ouvi vocês. Não precisam cochichar.

– Nos deixe sozinhos, Chris – pede Daneca.

– Só vim pegar um refrigerante. – Ele abre a geladeira.

– Temos que fazer alguma coisa – sugere Daneca. Sua voz ainda está baixa. – Tem algum mestre de emoções por aí atacando as pessoas. Não podemos deixar...

– Daneca – diz Sam. – Talvez Cassel não esteja pronto para...

– Mestres de emoções são perigosos – diz Daneca.

– Ah, cale a boca – retruca Chris de repente. A geladeira está aberta atrás dele. Ele segura um refrigerante com a mão enluvada e parece pronto para jogá-lo em cima de um de nós a qualquer momento. – Você sempre age como se fosse melhor do que todo mundo.

– Isso não é da sua conta – diz Daneca. – Se não pegar logo seu refrigerante e der o fora daqui, vou chamar mamãe.

Sam e eu trocamos um olhar constrangido de estranhos no meio de uma briga de família.

– Ah, é? – diz Chris. – Talvez deva contar pros seus amigos que você é mestra de emoções em vez de ficar escondendo. Acha que eles ainda vão te dar ouvidos depois disso?

Por um momento tudo para.

Olho para Daneca. Ela traz um olhar vazio de choque, os olhos arregalados. Sua mão está erguida em gesto protetor, como se pudesse espantar as palavras. O garoto não está mentindo.

O que significa que Daneca mentiu.

Sam cai do banco. Acho que ele estava tentando ficar em pé, mas não pensou direito sobre isso e acaba cambaleando para trás quando o banco cai no chão. Ele bate com as costas no armário. A expressão em seu rosto é terrível. Ele não a conhece mais. Isso me dói até os ossos, porque é exatamente assim que temo que ele olhe para mim.

Eu me inclino e ajeito o banco caído, contente por ter alguma coisa para fazer.

– Temos que ir – diz Sam. – Cassel, vamos. Vamos embora daqui.

– Não, espere – retruca Daneca, andando em direção a ele. Ela hesita, como se não tivesse certeza do que dizer, e se vira para o garoto. – Como você pôde fazer isso comigo? – A voz dela é um lamento agudo.

– Não é minha culpa você ser mentirosa – diz Chris, mas hesita. Ele parece apavorado. Acho que, se pudesse, retiraria o que disse.

Sam cambaleia até a porta.

– Vou conversar com ele – falo para Daneca.

– Você mente – diz ela, segurando no meu braço com desespero. Sinto as unhas através do couro fino das luvas. – Mente pra ele o tempo todo. Por que não tem problema quando é você?

Eu me solto da mão dela, sem deixar que ela perceba o quanto suas palavras machucam. Naquele momento, todos os meus impulsos são ruins. Eu não tinha percebido o quão pouco Daneca confiava em mim até esta tarde. E se ela for um pouco parecida com minha mãe (a única outra mestra de emoções que conheço), talvez também não mereça minha confiança.

– Eu disse que vou conversar com ele. É tudo o que posso fazer.

Do lado de fora, o rabecão de Sam ainda está no caminho da garagem, mas não o vejo em lugar algum. Nem no jardim elegante da mãe de Daneca nem perto da cerca viva no quintal do vizinho com piscina. Nem andando na rua. Nesse momento, uma das portas do rabecão se abre. Sam está deitado de costas lá dentro.

– Entre – diz ele. – Ah, as garotas são uma droga.

– O que você está fazendo?

Eu entro na parte de trás com ele. É sinistro. O teto é forrado de cetim cinza e as janelas são bem escuras.

– Estou pensando – diz ele.

– Em Daneca? – pergunto, embora não consiga imaginar outra resposta além de sim. CAPÍTULO ONZE

– Acho que agora sabemos por que ela não queria fazer o exame. – Ele parece amargo.

– Ela estava com medo – digo.

– Você sabia que ela era mestra? – pergunta ele. – Seja honesto.

– Não – respondo. – Não. Eu até pensava que ela podia ser antes de realmente a conhecer, por todo esse envolvimento com o HEX, mas depois cheguei à conclusão de que ela só queria ser mestra. Como eu queria antigamente. Mas você tem que entender o quanto é apavorante...

– Não tenho – diz Sam. – Não tenho que entender.

Finalmente percebo o que me incomoda no rabecão. Estar na parte de trás me faz lembrar de quando eu fiquei no porta-malas do carro de Anton, ao lado de sacos de lixo com corpos dentro. Eu me lembro claramente do cheiro de vísceras espalhadas.

– Ela gosta de você – digo, tentando forçar minha mente a voltar ao presente. – Quando se gosta de alguém, é mais difícil...

– Nunca perguntei que tipo de mestre você é. – Sam lança as palavras para mim como um desafio.

– É – digo com cuidado. – E sou muito grato por isso.

– Se eu perguntasse... – Sam faz uma pausa. – Se eu perguntasse, você me contaria?

– Espero que sim – falo.

Ele fica em silêncio. Ficamos deitados um ao lado do outro, cadáveres gêmeos esperando para ser enterrados.