Luva Vermelha
Capítulo Onze
NÃO PODEMOS FICAR
na entrada da casa de Daneca. Então vamos para a casa de Sam, roubamos um pacote de seis latas de cerveja do pai dele e bebemos na garagem. Tem um velho sofá marrom lá, perto de uma bateria da banda da irmã mais velha dele. Eu afundo em um lado do sofá e ele, no outro.
– Onde está sua irmã? – pergunto, pegando um punhado de amendoins cobertos de gergelim de um saco que encontramos perto da cerveja. Eles estalam na minha boca como doce salgado.
– Bryn Mawr – diz ele, arrotando alto –, enlouquecendo meus pais porque tem uma namorada cheia de tatuagens.
– Sério?
Ele sorri.
– É, por quê? Você não acreditava que alguém da minha família pudesse ser rebelde?
– O quanto ela pode ser rebelde naquela faculdade de gente rica? – pergunto.
Ele joga uma almofada bolorenta em mim, mas consigo me proteger com o braço. Ela cai no chão.
– Seu irmão não estuda em Princeton? – pergunta ele.
– Touché – digo e tomo um gole da cerveja. Está quente. – Vamos duelar pela desonra de nossos irmãos?
Sam franze a testa, repentinamente sério.
– Sabe, durante a maior parte do primeiro ano em que moramos juntos, achei que você fosse me matar.
Isso quase me faz cuspir a cerveja de tanto rir.
– Não, olha... Morar com você é como saber que há uma arma carregada do outro lado do quarto. Você é como um leopardo fingindo ser um gato.
Isso só me faz rir mais.
– Cala a boca – retruca ele. – Você pode fazer coisas normais, mas um leopardo também pode tomar leite ou derrubar coisas como um gato doméstico. É óbvio que você não é... como o resto de nós. Eu olho pra você, e você está flexionando as garras ou, sei lá, comendo um antílope recém-caçado.
– Ah – digo.
É uma metáfora ridícula, mas a acabou a graça. Eu pensei que estivesse me saindo bem em me encaixar no grupo. Talvez não perfeitamente, mas não tão mal quanto Sam faz parecer.
– É como Audrey – diz ele, furando o ar com o dedo, claramente muito bêbado e determinado a me fazer entender sua teoria. – Você agia como se conseguisse sair com ela porque interpretava muito bem o papel de cara legal.
– Eu sou um cara legal.
Eu tento ser.
Sam solta uma risada.
– Ela gostava de você porque você a assustava. Mas então começou a assustá-la demais.
Dou um gemido.
– É sério? Para com isso, eu nunca fiz nada...
– Tão sério quanto um ataque cardíaco – diz ele. – Você é um cara perigoso. Todo mundo sabe.
Pego a almofada que sobrou e aperto sobre meu rosto, me sufocando.
– Pare – peço.
– Cassel? – diz Sam.
Olho por debaixo da almofada.
– Não me traumatize mais do que já...
– Que tipo de mestre você é? – Sam está olhando para mim com a curiosidade benevolente dos bêbados.
Engulo o que ia dizer e hesito. O momento se arrasta, suspenso no ar.
– Não precisa me contar – diz ele. – Não importa.
Sei qual resposta ele acha que vou dar. Sam acha que sou mestre da morte. Talvez até ache que matei alguém. Se for realmente inteligente (e, a essa altura, devo supor que ele é mais inteligente do que eu, pois está dizendo que percebeu que sou perigoso bem antes de mim), ele tem uma teoria de que matei um dos homens que os federais estão procurando. Se eu disser que sou mestre da morte, ele vai engolir. Vai achar que sou um bom amigo. Que sou honesto.
As palmas das minhas mãos suam.
Quero ser esse amigo.
– De transformação – digo. Sai como um gemido.
Ele se senta de repente, me encarando. Todos os traços de humor sumiram.
– O quê?
– Está vendo? Estou melhorando em ser sincero – falo, tentando aliviar o clima. Meu estômago dói. A honestidade me apavora completamente.
– Você está louco? – pergunta ele. – Não devia ter me contado! Não devia contar pra ninguém! Espere, você realmente...?
Eu apenas confirmo com a cabeça.
Ele demora bastante para conseguir dizer alguma coisa.
– Uau – diz ele, com espanto e admiração na voz. – Você poderia criar os melhores efeitos especiais do mundo. Máscaras de monstros. Chifres. Presas. Permanentes.
Eu nunca tinha pensado nisso, nunca considerei usar feitiço para alguma coisa divertida. O canto da minha boca se levanta em um inesperado sorriso.
Ele faz uma pausa.
– As maldições são permanentes, certo?
– São – digo, pensando em Lila e em Janssen. – Quero dizer, posso mudar as coisas de volta para o que elas eram antes. Em geral.
Sam me lança um olhar pensativo.
– Então você poderia ficar jovem para sempre?
– Isso parece possível – respondo, dando de ombros. – Mas o mundo não está cheio de mestres de transformação, então não deve funcionar. – A enormidade do que não sei sobre minhas limitações... as coisas sobre as quais nem quero pensar... de repente ficam bem mais óbvias.
– Mas pode se dar de presente um você-sabe-o-quê enorme? – Ele se reclina no sofá e aponta para a frente da calça com as duas mãos. – Tipo, desumanamente grande.
Solto um gemido.
– Você só pode estar brincando. É isso o que quer saber?
– Tenho minhas prioridades – diz ele. – É você quem não está fazendo as perguntas certas.
– É a história da minha vida – falo.
Sam encontra uma garrafa empoeirada de Bacardi no fundo da despensa dos pais. Nós a dividimos.
No fim da tarde de domingo, acordo com a campainha. Não lembro como cheguei em casa; talvez eu tenha caminhado. Minha boca ainda está com gosto de bebida, e tenho certeza de que meu cabelo está todo em pé. Tento ajeitá-lo enquanto desço a escada.
Não sei o que esperar. Um pacote que preciso assinar para receber, talvez. Missionários de igreja, crianças vendendo biscoitos, alguma coisa assim. Até mesmo os federais. Não o Sr. Zacharov, tão engomadinho quanto uma nota falsa de cem dólares, na porta da minha cozinha velha.
Eu abro as trancas.
– Oi – digo e depois me dou conta de que meu hálito deve estar péssimo.
– Vai estar ocupado esta noite? – pergunta ele, parecendo não perceber que acabei de sair da cama. – Eu gostaria que viesse comigo. – Atrás dele tem um capanga de sobretudo preto. Ele tem uma tatuagem de caveira no pescoço, acima do colar de cicatrizes.
– Claro – digo. – Tudo bem. Pode me dar um minuto?
Ele assente.
– Se vista. Pode tomar café no caminho.
Subo a escada e deixo a porta da cozinha aberta para que Zacharov possa entrar se quiser.
No chuveiro, conforme a água quente cai como agulhas nas minhas costas, me dou conta de que é muito, muito estranho Zacharov estar esperando por mim lá embaixo. Quanto mais desperto, mais surreal parece.
Volto para a cozinha quinze minutos depois, mastigando uma aspirina, vestindo jeans preto e um suéter e com a jaqueta de couro. Zacharov está sentado à mesa da cozinha parecendo relaxado, batendo com os dedos na madeira gasta.
– E então – falo. – Pra onde vamos?
Ele se levanta e ergue as duas sobrancelhas cor de aço.
– Para o carro.
Eu o sigo até um moderno Cadillac preto. Já está ligado, e vejo Stanley (um guarda-costas que eu já conhecia) no banco do motorista. O cara com a tatuagem de caveira está sentado ao lado dele. Zacharov faz sinal para que eu entre, e deslizo pelo banco de trás.
– Ei, garoto – diz Stanley.
Há um copo fumegante de café no porta-copos e um saco de fast-food no meu lugar do banco. Eu o abro e pego o sanduíche de bagel com ovo.
– Stanley – digo, assentindo para ele. – Como está a família?
– Nunca esteve melhor – responde ele.
Zacharov se senta ao meu lado e a divisória escurecida é erguida.
– Soube que você e minha filha passaram a sexta-feira juntos – diz ele enquanto Stanley sai com o Cadillac da minha rua.
– Espero que ela tenha se divertido – falo entre mordidas. De repente me pergunto se Zacharov descobriu sobre a maldição. Se sim, foi legal da parte dele me deixar tomar banho e comer antes de me matar.
Mas os lábios de Zacharov estão retorcidos em um leve sorriso.
– E também soube que você passou um tempo com alguns agentes federais no dia anterior.
– É – falo, tentando não parecer aliviado demais. Perguntas sobre os federais vindas de um chefe da máfia não deveriam fazer ninguém relaxar. – Eles foram falar comigo na escola. Sobre Philip.
Ele aperta os olhos.
– O que foram falar sobre Philip?
– Ele ia fazer um acordo com eles – digo. Não faz sentido mentir para Zacharov sobre isso. Philip está morto. Não há mal nenhum em ele saber. Mas sinto uma pontada de culpa mesmo assim. – Disseram que meu irmão era um informante. E que alguém o matou.
– Entendo – diz Zacharov.
– Querem que eu os ajude a encontrar o assassino. – Hesito. – Pelo menos, é o que eles dizem.
– Mas você acha que não é isso – diz ele.
– Não sei – respondo e tomo um grande gole de café. – Só sei que eles são uns babacas.
Ele ri ao ouvir isso.
– Como se chamam?
– Jones e Hunt.
A combinação de café e gordura acalma meu estômago. Eu me sinto bem e me reclino sobre o banco de couro. Eu me sentiria melhor se soubesse para onde estávamos indo, mas estava disposto a esperar.
– Ah – diz ele. – Mestres de sorte, os dois.
Olho surpreso para ele.
– Pensei que eles odiassem mestres.
Zacharov sorri.
– Talvez odeiem. Só sei que são mestres. A maior parte dos agentes da divisão que lida conosco é. – Quando ele diz “conosco”, suponho que queira dizer famílias do crime organizado da Costa Leste. Famílias como a dele.
– Ah – digo.
– Não sabia disso, é? – Ele parece satisfeito.
Balanço a cabeça.
– Andam perturbando você sobre sua mãe também, certo? Sei como esses homens trabalham. – Ele move a cabeça afirmativamente, indicando que posso responder se quiser, mas não sou obrigado. – Eu poderia tirá-los do seu pé.
Encolho os ombros.
– Sim, você não tem certeza. Talvez eu o tenha pressionado demais no velório de Philip. Pelo menos é o que Lila acha.
– Lila? – pergunto.
O sorriso dele transpira alguma coisa que parece orgulho.
– Um dia ela vai ser a líder da família Zacharov. Homens vão morrer por ela. Homens vão matar por ela.
Eu faço que sim com a cabeça porque, é claro, é isso que significa ser filha de Zacharov. Mas as palavras dele tornam tudo desconfortavelmente real. Faz o futuro parecer próximo demais.
– Mas alguns homens podem não gostar de ter uma líder – diz Zacharov quando o carro faz uma curva fechada. Entramos na garagem coberta de um prédio e estacionamos. – Principalmente uma mulher que eles conhecem tão bem.
– Eu realmente espero que o senhor não esteja falando de mim – digo.
As trancas das portas se abrem.
– Sim – diz ele. – Também espero.
A garagem não está terminada. É apenas concreto puro, sem placas nem linhas pintadas para delinear os espaços das vagas. Alguém deve ter ficado sem dinheiro durante a construção.
Suponho que isso queira dizer que gritar por socorro não é uma opção.
Saímos do carro. Sigo Zacharov e Stanley para dentro do prédio. O cara tatuado me conduz, com pequenos empurrões de sua mão enluvada na base da minha coluna quando olho ao redor demais.
Se o estacionamento é novo e não está terminado, o prédio ligado a ele é muito velho, com uma placa que diz CORPORAÇÃO DE TALLINGTON DE FABRICANTES DE LINHAS E AGULHAS. Fica claro que está abandonado há muito tempo: as janelas estão bloqueadas por tábuas e o piso de madeira foi coberto por uma grossa camada de poeira grudenta. Imagino que alguém pretendia transformar o lugar onde estou em lofts antes da última recessão.
Um pensamento espontâneo de que fui levado ali para morrer surge na minha cabeça. Vovô me contou que é assim que eles fazem. Levam o cara para dar uma volta, bem amigáveis. E então, pou. Na parte de trás da cabeça.
Enfio a mão direita no bolso da jaqueta e começo a tirar a mão da luva. Meu coração está disparado.
Chegamos à escada, e Stanley fica para trás. Zacharov estica a mão, indicando que devo ir primeiro.
– O senhor vai na frente, eu sigo – digo –, já que sabe para onde vamos.
Zacharov ri.
– Tem alguém cauteloso aqui.
Ele vai em direção à escada, Stanley o segue e depois o cara da tatuagem, me deixando por último. Consegui tirar a luva. Aninho-a na palma da mão.
O corredor para onde vamos está iluminado por luzes fluorescentes no teto. Estão amareladas e, em alguns casos, queimadas. Sigo atrás do cara da tatuagem até chegarmos a uma grande porta de aço.
– Coloque isso – diz Zacharov, enfiando a mão no casaco e pegando uma máscara de esqui preta.
Eu a coloco desajeitadamente na cabeça, usando apenas a mão enluvada. Zacharov e seus capangas devem perceber que mantenho a outra no bolso, mas ninguém fala nada.
Stanley bate três vezes.
Não reconheço o homem que abre a porta. Ele é alto, tem uns quarenta anos, está usando uma calça jeans manchada e nenhuma camisa. É tão magro que seu peito parece côncavo. É coberto de tatuagens. Mulheres nuas sendo decapitadas por esqueletos, demônios com línguas enroladas, palavras enormes em cirílico. Sem cor, só tinta preta e um traço nada firme. É trabalho amador. De cadeia, suponho. O cabelo desse cara cai sobre as maçãs do rosto em mechas oleosas. Uma de suas orelhas está tão preta quanto os dedos de vovô. Ele obviamente tem vivido há algum tempo na sala para onde está nos levando. Há um colchão com um cobertor imundo. Uma mesa feita de cavaletes e uma tábua de madeira compensada ficam no meio da sala, com caixas de pizza, uma garrafa quase vazia de vodca e uma embalagem de alumínio com um pelmeni pela metade.
O olhar do sujeito passa avidamente de mim para Zacharov, depois volta para mim.
– Ele? – diz o cara e cospe no chão.
– Ei – diz Stanley, se metendo entre nós. O outro guarda-costas estava encostado na parede ao lado da porta. Ele fica de pé preparado, como se esperasse confusão.
Olho para Zacharov, aguardando sua reação.
– Você vai mudar o rosto dele – diz ele calmamente, como se comentasse que ia chover. – Pelos velhos tempos. Pelo débito que ainda tem comigo.
– Me deixe bonito – diz o homem, chegando o mais próximo de mim que consegue com Stanley entre nós. Ele fede a suor velho e vômito. – Quero parecer um astro de cinema.
– Ah, tá – digo, tirando a mão do bolso. Nua. O ar é frio contra a minha pele. Esfrego o polegar nos outros dedos em um gesto nada familiar.
O homem se afasta. Stanley se vira para ver o que o assustou e se afasta também. Mãos sem luvas chamam atenção.
– Tem certeza de que ele é o que diz ser? – pergunta o sujeito para Zacharov. – Não é seu modo de se livrar de um problema, é? Ou de me fazer esquecer meu próprio nome?
– Não seria preciso trazer um garoto aqui pra nenhuma dessas coisas – diz Zacharov.
Isso não parece tranquilizar o cara. Ele olha para mim e aponta para o pescoço.
– Me mostre suas marcas.
– Não tenho – digo, puxando a frente do suéter.
– Não temos tempo para essas perguntas sem sentido – diz Zacharov. – Emil, sente-se agora. Sou um homem ocupado e não supervisiono assassinatos. Além disso, não corro riscos desnecessários.
Isso parece acalmá-lo. Ele abre uma cadeira dobrável de metal e se senta. A ferrugem corroeu as articulações, mas ele não parece perceber. Está ocupado demais observando minha mão.
– Pra que isso? – pergunto.
– Vou responder a todas as suas perguntas depois – diz Zacharov. – Mas agora faça o que peço.
Stanley me olha com frieza. Zacharov não está pedindo. Nunca houve uma escolha.
Os olhos de Emil se arregalam quando encosto as pontas dos dedos na bochecha imunda dele. Aposto que meu coração está batendo tão rápido quanto o dele.
Nunca fiz nada como essa transformação, nada que exigisse grandes detalhes ou sutileza. Fecho os olhos e me permito ver com aquele segundo sentido estranho, e cada parte de Emil fica infinitamente maleável. Mas então entro em pânico. Não consigo pensar em um único astro de cinema de cujas feições me recordo com detalhe. Ao menos, não de homem. São todos confusões de olhos e narizes e uma vaga sensação de familiaridade. O único ator que me vem à mente é Steve Brodie como o Dr. Vance em A invasão das aranhas gigantes.
Eu transformo Emil. Estou pegando o jeito. Quando abro os olhos, ele parece um sujeito razoavelmente bonitão dos anos 1970. Nada de tatuagens. Nem cicatrizes. Consertei a orelha dele também.
Stanley inspira fundo. Emil levanta a mão para tocar no rosto, os olhos arregalados.
Zacharov olha para mim com o canto da boca erguido em um sorriso faminto.
Naquele momento, tenho câimbras nos joelhos e caio com tudo no chão. Sinto meu corpo começar a se espalhar, meus dedos se abrirem em dezenas de unhas de ferro. Os músculos das minhas costas se contraem, e minha pele parece se soltar do meu corpo. Posso ouvir um som saindo de mim, mais um gemido do que um grito.
– O que há de errado com ele? – grita Emil.
– É o rebote – diz Zacharov. – Deixe-o sossegado.
Ouço a mesa sendo arrastada enquanto me debato no chão.
– Ele vai morder a língua? – É a voz de Stanley. – Isso não me parece certo. Ele vai ter uma concussão. Devíamos pelo menos colocar alguma coisa debaixo da cabeça dele.
– Qual delas? – pergunta outra pessoa. Emil? O cara perto da porta? Não sei mais.
Dói. Dói muito. Surge então a escuridão iminente e terrível, que cai sobre mim como uma onda, me arrastando para o fundo de um mar sem sonhos.
Quando acordo estou no colchão, enrolado no cobertor fedido de Emil, e só restaram Zacharov e Stanley ali. Estão sentados nas cadeiras de metal jogando cartas. A janela coberta por tábuas de madeira está com uma moldura de luz ao redor. Ainda é dia. Não devo ter ficado apagado tanto tempo.
– Ei – diz Stanley ao perceber que estou me mexendo. – O garoto acordou.
– Você foi bem, Cassel – diz Zacharov, virando a cadeira para olhar para mim. – Quer dormir mais um pouco?
– Não – respondo, me sentando. É estranho, como se eu estivesse doente ou coisa do tipo. Não estou de máscara. Devem ter tirado de mim enquanto eu dormia.
– Está com fome? – pergunta ele.
Eu balanço a cabeça de novo. Fico um pouco enjoado depois da transformação, como se não tivesse certeza de onde fica meu estômago. A última coisa que quero é comida.
– Vai ficar com fome depois – insiste ele, com tanta certeza que parece impossível argumentar. Estou cansado demais para me dar o trabalho de fazer isso, de qualquer jeito.
Deixo Stanley me ajudar a me levantar, e ele meio que me carrega até o carro.
Rodamos por um tempo, e mantenho a cabeça apoiada na janela. Acho que adormeço de novo. Babo no vidro.
– Hora de acordar. – Alguém sacode meu ombro. Dou um gemido. Todo meu corpo está duro, mas fora isso me sinto bem.
Zacharov sorri para mim do outro lado do carro. Seu cabelo grisalho brilha contra o casaco de veludo negro e o banco de couro.
– Me dê suas mãos – diz ele.
Eu dou. Uma está enluvada; a outra, não.
Ele tira minha outra luva e segura minhas mãos nuas com as dele, de luvas, com as palmas para cima. Eu me sinto desconfortável e vulnerável, embora seja ele quem está correndo perigo de ser enfeitiçado.
– Com estas mãos – diz ele – você vai fazer o futuro. Certifique-se de que seja um futuro no qual queira viver.
Engulo em seco. Não tenho ideia do que ele quer dizer. Ele me solta, e procuro a outra luva no bolso, evitando o olhar dele.
Um minuto depois, a porta do carro se abre ao meu lado. Stanley está lá, segurando-a. Estamos em Manhattan, com arranha-céus acima de nós e o tráfego acelerado.
Saio do carro e sinto cheiro de escapamento e amendoim torrado. Ainda tenho os olhos pesados, mas percebo que não estar em Nova Jersey significa que o motivo do meu passeio ainda não acabou.
– Ah, espera aí – digo para Zacharov. – Não posso. Não de novo. Não hoje.
Mas ele apenas ri.
– Só quero levar você para jantar. Lila jamais me perdoaria se eu o devolvesse de estômago vazio.
Fico surpreso. Devo ter ficado com aparência péssima no prédio abandonado, porque tenho certeza de que ele tem coisas melhores a fazer do que me alimentar.
– Por aqui – diz Zacharov e sai andando em direção a uma grande porta de bronze com um urso em alto-relevo. Não há placa no prédio; não faço ideia do que esperar quando entramos. Não parece um restaurante. Olho para Stanley, mas ele está voltando para o banco do motorista do Cadillac.
Zacharov e eu entramos em um pequeno saguão com espelhos e um elevador com portas de metal polido. Não há nenhuma mobília além de um banco preto e dourado e, pelo que consigo ver, nenhum interfone ou campainha. Zacharov remexe no bolso e tira um molho de chaves. Ele coloca uma no buraco de um painel vazio e gira. As portas se abrem.
O interior do elevador é de madeira com marcas de nós. Uma tela de vídeo acima das portas exibe um filme em preto e branco sem som. Não o reconheço.
– Que lugar é este? – pergunto quando as portas se fecham.
– Um clube social – diz Zacharov, unindo as mãos enluvadas à frente do corpo. Nenhum de nós apertou nenhum botão. – Aqui as coisas são particulares.
Eu balanço a cabeça concordando, como se realmente entendesse o que ele está dizendo.
Quando o elevador se abre, estamos em um salão enorme – enorme mesmo. Não dá para imaginar que este lugar fica em Nova York. O chão de mármore está quase todo coberto por um tapete grande. Ao longo dele há ilhas com duas ou quatro poltronas de encosto alto. O teto é decorado com gesso moldado em formas intrincadas. Na parede mais próxima fica um bar enorme, com o tampo de mármore brilhando contra a parede de madeira escura. Atrás do bar, em uma prateleira alta, há vários vidros com bebidas límpidas, frutas e especiarias flutuando dentro: limões, pétalas de rosa, cabeças de alho, gengibre. Funcionários uniformizados andam em silêncio pelo salão, levando bebidas e pequenas travessas para os senhores sentados nas poltronas.
– Uau – digo.
Ele me dá um meio-sorriso, um que já vi no rosto de Lila. É desconcertante.
Um homem velho com bochechas caídas usando um terno preto vem até nós.
– Bem-vindo, Sr. Zacharov. Posso guardar seu casaco?
Zacharov o retira.
– O senhor gostaria de um paletó emprestado para seu amigo? – pergunta o homem para ele, mal olhando em minha direção. Acho que estou infringindo algum código de vestimenta.
– Não – diz Zacharov. – Vamos tomar uma bebida e depois jantar. Por favor, mande alguém para a sala azul.
– Muito bem, senhor – assente o homem, como um mordomo de cinema.
– Venha – diz Zacharov.
Cruzamos o salão, passando por portas duplas e entrando em uma biblioteca bem menor. Três homens barbudos estão sentados juntos, rindo. Um fuma cachimbo. Outro tem no colo uma garota de vestido vermelho muito curto cheirando um montinho de cocaína em uma colher de chá.
Zacharov me vê olhando.
– Clube privado – fala ele para me lembrar.
Certo.
Na terceira sala, a lareira está acesa. O cômodo é menor do que os outros dois, mas tem apenas um par de portas, por onde entramos, e mais ninguém dentro. Zacharov sinaliza para eu me sentar. Afundo no couro macio. Há uma mesa pequena e baixa entre nós. Um candelabro de cristal balança suavemente sobre nossas cabeças, espalhando raios de luz colorida pelo aposento.
Um atendente uniformizado aparece. Ele me observa sem esconder o ceticismo e se vira para o Sr. Zacharov.
– O senhor gostaria de uma bebida?
– Quero um Laphroaig com um só cubo de gelo para começar, e o Sr. Sharpe vai tomar...
– Um club soda – digo.
– Muito bem – diz o atendente.
– Depois disso, vai nos trazer cem gramas de caviar iraniano Osetra com blinis, ovo picado e bastante cebola. Nós dois tomaremos um pouco de vodca Imperia bem gelada junto com o caviar. Em seguida, peixe rodovalho com o excelente molho de mostarda do chef. E, por fim, dois pains d’amandes. Alguma objeção, Cassel? Algo que você não coma?
Nunca comi a maior parte das coisas que ele citou, mas não quero admitir. Balanço a cabeça.
– Parece ótimo.
O atendente assente sem nem olhar para mim e vai embora.
– Você parece desconfortável – diz Zacharov, o que é verdade, mas parece uma observação indelicada. – Achei que Wallingford preparasse os alunos para ocupar seus lugares na sociedade.
– Não acho que eles esperam que meu lugar na sociedade chegue sequer perto disso – falo, e isso o faz sorrir.
– Mas poderia, Cassel. Seu dom é como este clube: ele o deixa desconfortável. É um pouco demais, não é?
– O que quer dizer?
– Um homem pode sonhar com maneiras de gastar um milhão de dólares, mas fazer o mesmo jogo com um bilhão em mente estraga a fantasia. Há possibilidades demais. A casa que ele já desejou com todas as forças de repente fica pequena demais. A viagem, muito barata. Ele queria visitar uma ilha. Agora, almeja comprar uma. Eu me lembro de você, Cassel. Com todas as suas forças, você queria ser um de nós. Agora, é o melhor de nós.
Olho para o fogo, e só me concentro novamente quando ouço o barulho de nossas bebidas sendo servidas.
Zacharov pega seu uísque e gira o copo, fazendo a bebida cor de âmbar dançar. Ele faz outra pausa.
– Você se lembra de quando foi expulso da festa de aniversário de Lila porque brigou com um garoto da escola dela? – Ele ri de repente, e o som parece um latido. – Você rachou a cabeça dele naquela pia. Tinha sangue pra todo lado.
Encosto na orelha, constrangido, e forço um sorriso. Parei de usar brinco quando me matriculei em Wallingford, e o buraco está quase fechado, mas ainda tenho a lembrança dela com o gelo e a agulha naquela noite, seu hálito quente no meu pescoço. Eu me remexo na cadeira.
– Naquela época, eu devia ter percebido que valia a pena prestar atenção em você – diz ele, o que é lisonjeiro, mas obviamente não é verdade. – Você sabe que eu gostaria que viesse trabalhar pra mim. Sei que você tem algumas dúvidas. Deixe que eu as responda.
O atendente volta com as entradas. As pequenas pérolas cinzentas de caviar estouram na minha língua deixando o sabor salgado do mar.
Zacharov parece um cavalheiro benevolente colocando ovo picado e crème fraiche sobre o blini. Apenas um homem distinto com um terno perfeitamente cortado e um volume debaixo de um dos braços, onde fica a arma. Acho que ele não é a melhor pessoa em quem confiar minhas dúvidas morais. Mas preciso dizer alguma coisa.
– Como era para meu avô? Chegou a conhecê-lo mais jovem?
Zacharov sorri.
– Seu avô é de uma época diferente. A geração dos pais dele ainda se via como boas pessoas, achava que os poderes eram uma bênção. Ele fazia parte daquela primeira geração que nasceu criminosa. Desi Singer chegou ao mundo em, o quê... menos de dez anos após a proscrição ser aprovada. Ele nunca teve chance.
– Mãos hábeis – digo, pensando na versão da história da Sra. Wasserman.
Ele assente.
– Era assim que éramos chamados antes da proscrição. Você sabia que seu avô foi concebido em um campo de trabalho? Ele cresceu durão, como meu pai. Tinha que ser assim. O país inteiro havia se virado contra eles. Meu avô, Viktor, era responsável pela cozinha; era trabalho dele garantir que a comida chegasse a todos. Ele fazia o que podia para compartilhar o pouco que tinha... Fazia acordo com os guardas, construiu um alambique para destilar sua própria bebida e trocar por suprimentos. Foi assim que as famílias nasceram. Meu avô dizia que era nosso dever protegermos uns aos outros. Não importa quanto dinheiro ou poder tivéssemos, jamais deveríamos nos esquecer de onde viemos.
Ele para de falar quando o atendente volta e coloca o peixe à nossa frente. Zacharov pede um copo de Pierre Morey Meursault de 2005, que chega alguns minutos depois, amarelo-claro, com a base do copo concentrada.
– Quando eu era um jovem de vinte anos, estava no meu segundo ano em Columbia. Era o final dos anos 1970, e eu achava que o mundo tinha mudado. O primeiro filme do Super-Homem estava em cartaz. Donna Summer tocava no rádio, e eu estava cansado de meu pai ser tão antiquado. Conheci uma garota na faculdade. O nome dela era Jenny Talbot. Ela não era mestra, e eu não me importava.
O peixe está esfriando à nossa frente quando Zacharov tira uma das luvas. A mão nua é toda marcada de cicatrizes. São marrom-avermelhadas e repuxadas.
– Três garotos me pegaram em uma festa no Village e pressionaram minha mão sobre uma das bocas de um fogão elétrico. Minha mão queimou através da luva e o tecido grudou na minha carne. Senti como se estivessem arrancando minha pele. Disseram que eu deveria ficar longe de Jenny, que a ideia de alguém como eu tocando nela dava nojo.
Ele toma um grande gole de vinho e enfia o garfo no peixe com uma das mãos ainda nua.
– Desi foi ao hospital depois que meu pai e minha mãe saíram, e pediu à minha irmã, Eva, para esperar no corredor. Quando me perguntou o que tinha acontecido, senti vergonha, mas contei. Eu sabia que ele era leal ao meu pai. Quando terminei a história, ele me perguntou o que eu queria que fosse feito com aqueles rapazes.
– Ele os matou, não foi? – pergunto.
– Eu queria que ele os matasse – diz Zacharov, comendo um pedaço de peixe e fazendo uma pausa para engolir. – Todas as vezes que a enfermeira mudava o curativo na minha mão, todas as vezes que enfiavam a pinça na pele cheia de bolhas para arrancar o tecido, eu imaginava aqueles garotos mortos. Contei isso a ele. E então seu avô me perguntou sobre a garota.
– A garota? – repito.
– Foi exatamente o que eu perguntei, nesse mesmo tom incrédulo. Ele riu e disse que alguém colocou aqueles garotos pra fazer aquilo. Alguém falou algo para irritá-los. Talvez ela gostasse de ter rapazes brigando por ela. Mas ele estava disposto a apostar que aquela minha garota queria terminar nosso relacionamento e decidiu me jogar fora como lixo. Seria mais fácil se ela parecesse uma vítima do que o tipo de garota que gostava de se meter com mestres. Seu avô estava certo. Ela nunca foi ao hospital me visitar. Quando ele finalmente visitou os rapazes, encontrou Jenny na cama de um deles.
Zacharov faz uma pausa para comer um pouco. Eu como também. O peixe está delicioso, crocante e com aroma de limão e aneto. Mas não sei o que pensar da história que ele está contando.
– O que aconteceu com ela? – pergunto.
Ele para com o garfo na mão.
– O que você acha?
– Ah – digo. – Certo.
Ele sorri.
– Quando meu avô disse que devíamos proteger uns aos outros, achei que ele fosse um velho sentimental. Só quando seu avô falou, eu fui entender o que realmente significava. Eles nos odeiam. Podem sorrir para nós. Podem até nos deixar ir pra cama com eles, mas ainda nos odeiam.
A porta se abre. Dois atendentes entram com café e doces.
– Eles odiariam você mais do que todos – diz Zacharov.
A sala está quente, mas sinto muito frio.
Está tarde quando Stanley me deixa em casa. Tenho apenas uns vinte minutos para pegar minhas coisas e voltar para Wallingford antes da inspeção dos quartos.
– Fique longe de confusão – diz Stanley quando saio da parte de trás do Cadillac.
Destranco a porta e vou para a sala dos fundos, pego os livros e a mochila. Procuro minhas chaves, que eu achava que estavam na bolsa, mas não estão. Enfio as mãos debaixo das almofadas do sofá. Depois, me ajoelho para ver se estão no chão. Acabo por encontrá-las na mesa de jantar, escondidas sob alguns envelopes.
Estou saindo de casa quando lembro que meu carro ainda está quebrado. Nem sei se trouxe a bateria e os fusíveis da casa de Sam. Em pânico, corro para o andar de cima, até meu quarto. Nada de bateria. Nada de fusíveis. Refaço os passos bêbados que devo ter dado desde a cozinha. Descubro que o armário de casacos está um pouquinho aberto e, incrivelmente, a bolsa com as peças do carro está lá dentro, ao lado de uma lata de cerveja vazia. Um casaco está jogado ao fundo, como se tivesse caído do cabide. Eu o levanto com a intenção de colocá-lo de volta no lugar, mas ouço um baque metálico.
Tem uma arma no chão de linóleo. É prateada e preta, com o selo Smith & Wesson na lateral. Olho para ela sem parar, como se não estivesse enxergando direito. Como se fosse descobrir que é só um brinquedo. Depois de um momento, levanto o casaco de gola larga. Preto. Grande. Como o do vídeo.
O que torna aquela a arma que matou meu irmão.
Coloco o casaco e a arma no lugar, com cuidado, jogando a prova do crime o mais fundo possível no armário.
Eu me pergunto quando ela decidiu atirar em Philip. Deve ter sido depois que voltou de Atlantic City. Não consigo acreditar que soubesse do acordo com os policiais antes disso. Talvez tenha ido à casa de Philip e achado alguns dos papéis. Mas não, ele não seria tão burro. Talvez ela o tenha visto conversar com o agente Jones ou o agente Hunt. Não seria preciso mais do que uma checada em qualquer um deles para saber que eram federais.
Mas mesmo isso não parece suficiente. Não sei por que ela fez aquilo.
Só sei que esta é a casa da minha mãe, e o armário da minha mãe, o que torna aquele o casaco da minha mãe.
E aquela a arma da minha mãe.