Luva Vermelha
Capítulo Sete
É IMPOSSÍVEL EVITAR
o refeitório para sempre.
Quando entro para jantar, vejo Daneca e Sam sentados com Jill Pearson-White e alguns dos amigos de Sam do clube de xadrez. Estou indo até eles, mas vejo Lila com a cabeça inclinada para Daneca. Só consigo imaginar o discurso que Lila está ouvindo sobre direitos de mestres e encontros do HEX.
Desvio na mesma hora para outra mesa e avisto o vermelho do cabelo de Audrey.
– Oi – digo ao me sentar.
Greg Harmsford está ali, junto com Rahul Pathak e Jeremy Fletcher-Fiske. Todos parecem surpresos ao me ver. A mão de Greg aperta o garfo de um jeito que sugere que é melhor eu dizer alguma coisa inteligente, e rápido. Ele pode estar namorando Audrey agora, mas eu já namorei antes, e ele claramente tem medo de que ainda haja alguma coisa entre nós. Provavelmente porque uma vez, em uma festa, ela chegou com ele, mas acabou ficando comigo.
Aqui vai um segredo sobre influenciar um grupo a fazer o que você quer: é bem mais fácil quando seus objetivos coincidem com os deles. Fazer um alvo querer dinheiro fácil só funciona com os gananciosos. Quero prender a atenção de Greg com a promessa de uma vingança fácil enquanto distraio o resto da mesa. Estou contando com que ele se sinta ameaçado o bastante para querer me fazer passar por tolo. Só espero que não se sinta tão ameaçado a ponto de querer me dar um soco na cara.
– Saia daqui – diz Greg.
– Eu queria conversar com você sobre o trote do último ano – improviso absurdamente.
Rahul franze a testa.
– O ano letivo acabou de começar.
Faço que sim com a cabeça.
– Olha, ano passado a turma deixou para o final e só conseguiu dar o trote sem graça que já era esperado. Quero que o nosso seja memorável.
– Você com certeza vai receber apostas – diz Jeremy. – Está querendo dicas do que temos em mente.
– Quero colocar um cavalo no quarto de Northcutt – respondo. – Com uma tanga enorme. Agora, por favor, me digam como contar isso pra vocês vai me trazer dinheiro.
Rahul e Jeremy dão uma gargalhada. Jeremy cospe um pedaço de salada no prato. Agora, Greg não pode simplesmente me expulsar da mesa. Ele não vai deixar que eu vá embora com Rahul e Jeremy contentes comigo.
– Vocês conseguem imaginar a cara dela? – pergunta Rahul, animado.
– Que nada – diz Greg. – Podemos bolar alguma coisa melhor do que isso.
– Como o quê? – pergunta Audrey.
Não parece um desafio. Parece certa de que ele vai dar uma sugestão brilhante a qualquer momento. Ela é gentil com ele. E tenho certeza de que não se importaria caso o novo namorado fizesse o antigo parecer idiota.
A essa altura, consegui uma mesa para jantar. Eu me sirvo e começo a comer, ouvindo os planos deles para o trote. Quanto mais falamos, mais me entusiasmo com a ideia de decidir cedo o esquema para dar tempo de preparar a execução perfeita. Deixo Greg fazer alguns comentários.
E se, às vezes, me volta à cabeça a imagem do corpo no freezer, do rosto cor de cera do meu irmão ou da expressão de olhos arregalados de Lila quando me afastei dela ontem à noite, bem, tenho uma longa experiência em não expressar meus pensamentos.
– Ei, vejam aquela garota nova. Ela não é filha de um mafioso? – diz Jeremy.
Viro a cabeça e vejo Lila. Uma garota do penúltimo ano que não conheço está falando com ela, gesticulando expansivamente com mãos cobertas por luvas azuis. Não consigo ouvir o que dizem no refeitório barulhento, mas a expressão da garota mais nova está repleta de malícia.
– Briga de garotas – diz Rahul, sorrindo.
Mas, quando Lila dá um passo em direção à menina, não é para dar um soco ou puxar o cabelo. Ela começa a retirar uma única luva preta.
Vejo dedos nus e ouço Greg respirar fundo ao meu lado. A garota do terceiro ano cambaleia para trás.
– Ela é doida – diz Jeremy. – Isso é loucura. Ela vai...
As pessoas estão se levantando, o falatório vai diminuindo. Naquela calmaria, escuto o som da voz de Lila nitidamente.
– Tem certeza de que quer me contrariar? – pergunta. Naquele momento, ela é filha do pai dela.
A aluna do terceiro ano corre para a mesa dos professores, e Lila se senta e recoloca a luva. Vejo Daneca olhando para ela boquiaberta. Depois de alguns minutos, o supervisor Wharton vai até lá e acompanha Lila para fora do prédio.
Reviro o filé Salisbury no prato à minha frente. Depois de um tempo, eu me levanto.
– Greg – diz Audrey, se levantando comigo. – Pode me dar um minuto com Cassel?
– Você que sabe. – Ele dá de ombros, mas o olhar que lança para mim não é nada casual. É difícil imaginar um sujeito como Greg Harmsford amando alguém, mas o jeito como ele olha para Audrey é no mínimo possessivo.
– O que está acontecendo com você? – pergunta Audrey enquanto andamos em direção ao alojamento. O sol está se pondo, e o céu, escurecendo. As folhas estão reviradas, esperando a chuva.
– Você não liga para o trote dos formandos. Sei disso porque nunca, nunca diz o que realmente quer dizer.
Há seis meses nós quase voltamos. Eu achava que estar com ela, por algum poder alquímico, me transmutaria em um cara normal com problemas normais. Quando ela olha para mim, vejo o reflexo de uma pessoa diferente em seus olhos. Alguém que desejo ser.
Eu me inclino em sua direção. Ela coloca uma das mãos no meu peito e me empurra com força.
– O que está fazendo? – pergunta.
– Não sei. Eu achei... – Achei que devia beijá-la.
– Cassel – diz ela, exasperada. – Você é sempre assim. Quente ou frio. Ao menos sabe o que quer?
Olho para o caminho de concreto debaixo dos meus pés, para os corpos ressecados de minhocas que saíram da terra na chuva e foram queimadas pelo sol.
– Foi você que pediu pra conversar – digo, na defensiva.
– Você se lembra do ano passado? Eu me acabei de chorar depois que você voltou para a escola agindo como se nada que dissemos um para o outro no período em que ficou fora importasse.
Eu concordo sem olhar pra ela, porque é verdade. Depois que minha mãe enfeitiçou Lila, a única razão para eu não ter sido reprovado foi Sam ter feito metade dos deveres para mim. Tudo parecia vazio e irreal. Eu me afastei de Audrey sem dar nem uma desculpa.
– Por quê? E por que falar comigo agora como se aquilo não tivesse acontecido? – Sua voz soa estranha. Sei que, se olhar para ela, verei que seu pescoço está todo vermelho, como sempre fica quando ela se aborrece.
– Me desculpe – digo. – Você está certa. Não sou muito bom em relacionamentos.
– Não é mesmo! – diz Audrey, parecendo aliviada por eu ter finalmente dito uma coisa com a qual ela pode concordar. – Não é, e não sei como lidar com você.
Eu considero e, logo em seguida, desisto de todas as possíveis formas de sugerir que podemos ser amigos. Por fim, olho para ela.
– Me desculpe – digo.
– Lila não é sua prima, é? – pergunta Audrey.
– Não – digo. – Eu falei aquilo porque...
Ela ergue a mão, e eu paro de falar, agradecido.
– Você não falou. Foi ela.
Ao ouvir isso, só consigo encará-la. Eu realmente não lembro quem começou aquela teia de mentiras. Nós inventamos essa para que Lila pudesse usar o chuveiro de Audrey. Agora, parece o extremo da crueldade.
– Percebi o jeito como você olha para ela – diz Audrey. – Conheço você, Cassel. E isso me leva a perguntar de novo: o que está fazendo?
– Besteira – respondo.
– Boa resposta. – Ela sorri um pouco, quase sem querer, e se inclina para me dar um tapinha na bochecha. – Pare com isso.
Então sai andando. Eu me viro para voltar ao alojamento, mas meu olhar encontra Lila, parada do outro lado da praça. Ela me vê e entra no alojamento Gilbert Hall, e eu fico me perguntando há quanto tempo ela estava ali. E como conseguiu se livrar de tanta confusão.
Sam está digitando no laptop quando entro. Ele olha para mim e, em seguida, volta para o que está fazendo; eu fico grato por isso. Olho meu dever de probabilidade e estatística (possivelmente minha aula favorita), mas começo a escrever um planejamento para o projeto semestral de física. Depois deito na cama para ler um pouco de Madame Bovary.
Ainda não consegui avançar muito quando Sam fecha o computador.
– Tudo bem? Daneca disse que você foi chamado à direção.
– Coisa de família – digo. – Minha mãe.
Ele assente com vigor.
– Chegou a alguma conclusão sobre aqueles arquivos?
Eu balanço a cabeça.
– Acho que é o fim da minha carreira policial.
Sam ri e começa a conectar os fios do PlayStation à pequena televisão portátil que ganhou de aniversário.
– Quando terminar de ler, quer matar alguns bandidos?
– Malfeitores – digo. – Quero. Claro.
Eu deveria ficar incomodado em apontar o controle para a tela e ver caras pixelados caírem. Deveria me lembrar de Janssen ou Philip, e minhas mãos deveriam hesitar. Mas, em vez disso, faço muitos pontos. Afinal, é só um jogo.
Depois do jantar, temos horário de estudo no quarto. É a hora da noite em que devemos fazer o dever. Se terminarmos dentro das duas horas determinadas, podemos ficar trinta minutos a mais na sala de estar. Mas isso também significa que, depois que o inspetor passa para fiscalizar, temos quase três horas antes que ele apareça de novo.
– Acho que vou sair – digo para Sam.
Ele franze a testa.
– Pra onde?
– Preciso ver um lugar. – Abro a janela. – Para a investigação.
– Tudo bem – diz Sam. – Também vou. Vamos.
– Você sabe que estamos saindo sem autorização. Podemos ser pegos. – Levanto as mãos. – É seu último ano. Não precisa fazer isso.
– Você é o especialista em se safar das coisas. É seu trabalho garantir que nós não sejamos pegos, certo?
– Obrigado por não colocar pressão – falo. Abro o iTunes no laptop e coloco um arquivo para tocar. Depois aumento um pouco o volume.
– O que é isso?
– Gravei no ano passado. Na sala de estudo. Para não ficar silencioso demais. Basicamente, somos nós digitando nos laptops e brincando. Achei que poderia ser útil um dia.
– Isso é assustador, cara – diz ele.
Aponto para minha cabeça com as duas mãos.
– Especialista, lembra?
Saímos pela janela e a fechamos. Penso na noite anterior e em Lila, deitada no gramado. O cheiro de grama esmagada é tão inebriante quanto qualquer perfume.
– Ande normalmente – digo.
Entramos no meu carro, que falha duas vezes antes de eu conseguir ligá-lo, deixando Sam com os olhos arregalados como alguém que está prestes a explicar uma suspensão para os pais. Mas, minutos depois, saímos do estacionamento com os faróis apagados. Eu os acendo assim que pegamos a estrada.
Sigo para o endereço no arquivo, onde Janssen foi visto pela última vez. Quinze minutos depois, estacionamos perto do condomínio Cyprus View. Saio do carro.
É um daqueles prédios modernos com porteiro no saguão de entrada e provavelmente academia na cobertura. Há luzes fortes acesas no jardim bem-cuidado, arbustos podados em formato redondo perto das passagens de concreto e um parque do outro lado da rua. A uma quadra dali há um supermercado, e mais uma quadra depois, um posto de gasolina, mas quando se olha do ângulo certo o lugar é bacana. Caro. Tem sistema de irrigação no gramado, mas nenhuma câmera que eu perceba, e dou duas voltas ao redor de um dos postes de luz para ter certeza.
– O que estamos olhando? – pergunta Sam, encostado na lateral do carro. Com o paletó do uniforme e a gravata frouxa, ele quase poderia ser um gângster. Desde que não se repare no emblema de Wallingford bordado no bolso do peito.
– O condomínio da amante de Janssen. Eu queria ver se parecia... não sei, familiar.
Sam franze a testa.
– Por que seria familiar? Você nem conhecia Janssen. Conhecia?
Estou escorregando. Nego com a cabeça.
– Não sei. Só queria dar uma olhada. Procurar pistas.
– Certo – diz Sam, cético, olhando para o relógio. – Mas, se vamos ficar de tocaia, voto em comprarmos um lanche.
– Tá – respondo, distraído. – Só me dê um segundo.
Ando pela grama e passo pelos arbustos redondos. Não me lembro de nada disso. Devo ter ficado nesse jardim esperando por Janssen, mas não me lembro de coisa alguma.
Uma mulher de roupa de ginástica passa correndo na direção do prédio. Está com dois poodles grandes e pretos nas coleiras. Ao olhar para ela, tenho um lampejo de memória, mas parece tão distante que mal consigo capturá-la. Ela olha na minha direção e se vira de repente, puxando as coleiras. Olho bem para seu rosto antes que ela prossiga pela rua.
Deve ser uma atriz, porque a lembrança que tenho é uma cena de filme. Com certeza era a corredora, mas ela estava usando um vestido preto curto, cabelo preso e um colar com um único amuleto cintilante pendendo entre os seios. Tinha um hematoma na face e havia chorado. Um ator sem rosto com a jaqueta de couro do meu irmão a pegou pelos ombros. Havia um homem deitado no chão, com a cara na grama.
Não consigo me lembrar de mais nada. Nem da história. Nem mesmo se vi o filme no cinema ou na televisão tarde da noite. A lembrança não faz sentido.
Se ela é atriz, por que saiu correndo quando me viu?
E por que um dos atores estava usando a jaqueta do meu irmão?
Só há um jeito de descobrir. Saio correndo atrás dela, com meus sapatos sociais de Wallingford estalando como besouros na calçada.
Ela atravessa a rua, e eu a sigo. Os faróis de um carro me iluminam e a grade de um Toyota por pouco não me pega. Bato a mão no capô e sigo em frente.
Ela já está quase no pequeno parque. Há algumas poucas pessoas lá, andando sob as luzes trêmulas, mas a mulher não pede ajuda, tampouco as pessoas parecem querer se envolver.
Coloco mais força nas pernas e meus pés batem contra o chão com mais rapidez. Estou alcançando-a. Um dos cachorros late quando estico a mão e agarro o capuz do casaco de veludo rosa da mulher.
Ela cambaleia e os cachorros ficam enlouquecidos. Eu não fazia ideia de que poodles grandes eram tão protetores, mas esses dois parecem querer arrancar meus braços.
– Espere – falo. – Por favor. Não vou machucar você.
Ela se vira para mim, os cachorros latindo entre nós. Levanto as mãos de um jeito pacífico. O parque está escuro e silencioso, mas se ela começar a correr de novo pode chegar aos prédios que ficam depois, estabelecimentos comerciais que provavelmente não encarariam muito bem o fato de eu estar correndo atrás dela.
– O que você quer? – diz ela, observando meu rosto. – Nosso negócio acabou. Já foi feito. Falei para Philip que não queria ver nenhum de vocês.
A terrível constatação de que não havia filme nenhum toma conta de mim. É claro. Barron deve ter removido minha lembrança e mudado um pequeno detalhe, o fato de isso ter acontecido na vida real. Deve ter sido mais fácil para ele do que apagar a lembrança toda. E eu a esqueceria do mesmo jeito que esqueceria qualquer programa de TV policial da madrugada.
– Já paguei vocês – diz ela, e eu me concentro em memorizar todos os seus detalhes, afastando qualquer outro pensamento. O cabelo escuro está preso em um rabo de cavalo e os lábios carnudos artificiais estão pintados de rosa cor de chiclete. Os olhos são puxados para cima, as sobrancelhas são altas o bastante para dar a ela uma expressão permanente de leve surpresa. Chegando ao pescoço enrugado, concluo que ela fez alguma cirurgia. Ela é bonita e irreal; consigo entender por que Barron a transformou em uma atriz de cinema na minha mente. – Não vou dar mais nada. Você não pode me chantagear.
Não faço ideia de o que ela está falando.
– Ele me enganou. Disse que ia casar comigo. E, de repente, bam, começa a me bater quando descubro que já era casado. Mas o que você tem com isso? Nada. Deve ter uma garota em casa que trata do mesmo jeito. Saia daqui, seu bosta.
Quando olho para ela, ainda vejo a mulher com a qual a confundi. Eu me pergunto o que ela vê quando olha para mim. Uma gota de suor desce pela curva de seu maxilar. Sua respiração é curta e rápida. Ela está com medo.
Um assassino. É isso o que ela vê.
– Foi você quem encomendou o assassinato – falo, interpretando o que ela disse. – Você pagou Anton para eliminar Janssen.
– Você está com alguma escuta? – pergunta ela, erguendo a voz e falando para meu peito. – Não matei ninguém. Nunca mandei matar ninguém. – Ela olha para o prédio como se estivesse pensando em sair correndo.
– Tudo bem – digo, levantando as mãos de novo. – Tudo bem. Isso foi burrice.
– É – diz ela. – Terminamos?
Faço que sim com a cabeça, mas penso de repente em outra pergunta.
– Onde você estava na terça à noite?
– Em casa com os cachorros – diz ela. – Estava com dor de cabeça. Por quê?
– Meu irmão foi baleado.
Ela enruga a testa.
– Pareço uma assassina?
Não menciono o fato de ela ter contratado assassinos para matar o amante. Meu silêncio deve fazê-la se sentir vitoriosa, porque, com um olhar final triunfante, ela sai correndo, com os cachorros ao lado.
Ando de volta para o carro, sentindo cada passo. Uma bolha surgiu no meu dedão. Esses sapatos não foram feitos para cenas de perseguição.
A porta do Mercedes se abre.
– Cassel? – grita Sam do lado do motorista. – Ela contou alguma coisa boa?
– Contou – respondo. – Que ia jogar spray de pimenta na minha cara.
– Eu estava pronto pra ligar o carro de fuga. – Sam sorri. – Ela não sabe que ladrões não usam gravata?
Eu ajeito o colarinho.
– Sou um criminoso da melhor estirpe. Um ladrão cavalheiro, podemos dizer.
Deixo Sam dirigir. Voltamos para Wallingford, parando para comprar café e batatas fritas em um drive-through no caminho. Quando entramos pela janela do quarto, o cheiro de comida comprada está tão entranhado em nossas roupas que gastamos meia lata de perfumador de ar para disfarçar.
– Parem de fumar no quarto – diz o inspetor na hora de apagar as luzes. – Não pensem que não sei o que andaram fazendo aqui.
Rimos tanto que, por um momento, parece que nunca vamos conseguir parar.
Na manhã seguinte, estou a caminho da aula de ética do mundo em desenvolvimento quando Kevin Ford corre até mim. Ele enfia um envelope na minha mão.
– Quais são as chances de Greg Harmsford ter comido Lila Zacharov? – pergunta ele, sem fôlego.
– O quê? – falo.
– Eu sou o primeiro a apostar? Cara!
– Kevin, do que você está falando? – Resisto à tentação de agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo, mas acho que não consigo manter o nervosismo longe da voz. – Não posso calcular chances de uma coisa que não faço ideia do que seja.
– Ontem à noite, ouvi falar que eles foram para a sala de estar e transaram. Greg ficou se gabando. O colega de quarto dele, Kyle, teve que distrair o inspetor.
– Certo – digo, concordando. Minha boca está seca. – Vou ficar com o dinheiro, mas, se ninguém mais apostar ou se ninguém apostar contra, serei obrigado a devolvê-lo. – É minha fala padrão para situações como essa, e eu a enuncio automaticamente.
Ele assente e sai correndo. Cambaleio até a aula.
Greg Harmsford está sentado no lugar de costume, perto da janela. Eu me sento do outro lado, olhando para a nuca dele, e flexiono minhas mãos enluvadas.
Enquanto o Sr. Lewis fala sobre acordos de comércio, penso em como seria enfiar um lápis apontado na orelha de Greg. Esse é o tipo de boato que sempre espalham sobre garotas novas, digo para mim mesmo. Nunca são baseados em nada além de desejo.
Quando somos dispensados, sigo em direção à porta e passo por Greg. Ele dá um sorrisinho, erguendo a sobrancelha como se me desafiasse a dizer alguma coisa.
Certo, isso é estranho.
– Ei, Cassel – diz ele, abrindo um sorriso.
Mordo o interior da bochecha e continuo a andar pelo corredor. O gosto metálico de sangue enche minha boca. Continuo andando.
Quando chego à aula de probabilidade e estatística, vejo Daneca com os braços cheios de livros.
– Ei, você viu Lila? – pergunto com a voz tensa.
– Não desde ontem – diz ela, dando de ombros.
Coloco a mão enluvada sobre seu ombro.
– Você tem alguma aula com ela?
Daneca para e olha para mim, estranhando.
– Ela faz muitas aulas de apoio.
É claro. Ter sido uma gata por três anos deve causar algum atraso nos estudos. Mas andei muito preocupado comigo mesmo para perceber.
Recebo mais três envelopes na aula de estatística. Dois deles apostam em Lila e Greg. Devolvo os dois com um olhar tão sombrio que ninguém nem pede explicação.
Ela também não aparece no almoço. Acabo indo ao prédio dela e subo a escada, pensando que, se for pego, posso inventar alguma desculpa. Conto o número de portas, supondo que, como no meu alojamento, cada quarto tem apenas uma janela.
Bato na porta. Nada.
As fechaduras são simples. Já arrombo meu próprio quarto há tanto tempo que muitas vezes nem carrego a chave comigo. Basta um giro com um grampo e estou dentro.
O quarto dela é individual, o que significa que seu pai deve ter feito uma doação bem generosa. A cama fica debaixo da janela e há um emaranhado de lençóis verde-claros que vão até o chão. Uma estante cheia de livros que ela deve ter trazido consigo fica encostada em uma parede. Em cima de um pequeno baú estão uma chaleira elétrica estritamente proibida e um pequeno iPod verde que brilha sobre uma caixa de som com fios conectados a fones de ouvido, e tudo parece ser bem caro. Ela também trouxe uma penteadeira com espelho que fica na parede onde normalmente ficaria a escrivaninha da outra dona do quarto. As paredes são cobertas de fotos em preto e branco de estrelas de cinema: Bette Davis, Greta Garbo, Katharine Hepburn, Marlene Dietrich e Ingrid Bergman. E Lila colou citações perto delas.
Ando até a imagem de Garbo, estonteante sob uma lente um pouco desfocada. O papel perto dela diz: “Não tenho medo de nada, exceto de ficar entediada.”
Isso me faz sorrir.
Tranco a porta e me viro para descer a escada quando percebo que o zumbido constante ao fundo, um som que mal notei, vem de um chuveiro ligado no banheiro do corredor.
Sigo em direção a ele.
O banheiro tem azulejos cor-de-rosa e cheiro de xampu feminino, doce e tropical. Quando abro a porta, percebo que não há desculpa que explique minha presença ali.
– Lila? – grito.
Ouço um soluço baixo. Já não me importo mais se vão me pegar.
Ela está sentada no meio do compartimento do chuveiro, ainda de uniforme. O cabelo está colado na cabeça e as roupas estão encharcadas. A água cai com tanta força que fico surpreso que ela consiga respirar. As gotas escorrem em riachos sobre os olhos fechados e a boca semiaberta. Os lábios dela estão azuis de frio.
– Lila? – chamo novamente, e seus olhos se arregalam.
Eu fiz isso a ela. Ela sempre foi a destemida, a perigosa.
Agora, olha para mim como se não acreditasse que estou realmente aqui.
– Cassel? Como você soube... – Ela interrompe a pergunta.
– O que ele fez com você? – indago. Estou tremendo de fúria, impotência e ciúme doentio.
– Nada – responde ela, e consigo ver o sorriso familiar e cruel, mas, desta vez, voltado para si mesma. – Quero dizer, eu também queria. Achei que talvez quebrasse a maldição. Eu nunca... Era apenas uma criança quando fui transformada, e achei que talvez, se dormisse com alguém, resolveria. Obviamente, não resolveu.
Eu engulo em seco, com cuidado.
– Por que você não sai daí e se seca? Está frio. – Minha voz soa falsa, como se eu fosse uma das velhinhas de Carney. Você vai acabar pegando sua morte.
Ela já não parece tão horrorizada, o sorriso está menos assustador.
– A água estava quente antes.
Estico para ela uma toalha que estava em um banco ali perto. É de um horrível tom de púrpura, coberta de peixes roxos. Tenho certeza de que não é dela.
Lila se levanta devagar, rígida, e sai do chuveiro. Eu a envolvo com a toalha. Por um momento, meus braços se fecham ao seu redor. Ela se encosta em mim e suspira.
Andamos juntos pelo corredor até o quarto. Lá, ela se afasta para se sentar na cama, encharcando o lençol. Depois se encolhe e cruza os braços.
– Tudo bem – digo. – Vou para o corredor e você se veste, depois saímos daqui. Tenho vários esquemas para sair de Wallingford no meio do dia que ainda não experimentei. Vamos testar um. Podemos tomar chocolate quente. Ou tequila. E depois podemos voltar e matar Greg Harmsford, coisa que, particularmente, quero fazer já há um tempo.
Os dedos dela apertam a toalha com mais força. Ela não sorri. Mas diz:
– Me desculpe por não estar lidando muito bem com isso... com a maldição.
– Não – falo com voz rouca. A culpa está fechando minha garganta. – Não. Você não tem que pedir desculpas. Não pra mim.
– A princípio, achei que pudesse ignorar, e agora... Bem... é como se a ferida estivesse infeccionada. Depois pensei que, se eu viesse para cá e pudesse pelo menos ver você, ajudaria. Mas não ajudou. Tudo que eu penso que vai ajudar só piora. Então, quero pedir pra você fazer uma coisa – diz ela, olhando para o chão, para uma pilha de livros que tenho certeza de que ela nem está vendo. – Entendo que não é justo, mas não vai custar muito a você e seria tudo para mim. Quero que seja meu namorado.
Começo a dizer uma coisa, mas ela me interrompe, certa de que vou dizer não.
– Você não precisa gostar de mim. E vai ser só por um tempo. – Ela está me olhando severamente agora. – Você pode fingir. Sei que é um bom mentiroso.
Nem sei como protestar. Estou tropeçando nas palavras.
– Você disse que tudo o que tenta fazer para ajudar acaba piorando a situação. E se isso também piorar?
– Não sei – diz ela em uma voz tão baixa que mal consigo ouvir.
Não é real, nem certo, nem justo, mas não faço mais ideia do que pode ser cada uma dessas coisas.
– Tudo bem – falo. – Tudo bem. Podemos namorar. Mas não podemos... Quero dizer, é só isso que pode acontecer. Não posso conviver com você sentada no chão de um chuveiro daqui a seis meses, arrependida de estar comigo.
Sou recompensado com ela vindo para meus braços, as roupas molhadas e frias, a pele quente e febril. Consigo ver o alívio no jeito como relaxa os ombros, e, quando passo o braço ao seu redor, ela se apoia no meu peito e aninha a cabeça sob meu queixo.
– Espero... – diz ela com um tremor na voz como um soluço engolido. – Espero que até lá eu não esteja mais pensando em você.
Ela sorri para mim, e fico sem conseguir falar por um bom tempo.
Namorados, mesmo os de mentira, sentam-se juntos no jantar. Portanto, não fico surpreso quando Lila coloca a bandeja ao lado da minha e toca de leve meu ombro. Daneca exala curiosidade. É claro que é difícil para ela ficar sem dizer nada.
Quando a primeira pessoa vem até mim e joga um envelope no meu colo, Lila sorri com a boca escondida atrás do guardanapo.
– Você é agenciador de apostas? Achei que fosse o irmão bom – diz ela.
– Sou bom no que faço – admito. – A virtude é uma vingança por si só.
– É uma recompensa – diz Daneca, revirando os olhos. – A virtude é uma recompensa por si só.
Dou um sorriso.
– Não foi essa a versão que eu ouvi.
Sam coloca a bandeja na mesa e segura a maçã que sai rolando e quase cai.
– Vocês sabiam que o Sr. Knight está ficando meio senil? Tipo, passando direto pela sala de aula e depois tendo que voltar e colocando o suéter por cima do casaco?
Eu concordo com a cabeça, embora não tenha nenhuma aula com o Sr. Knight. Só o vejo nos corredores. Ele parece o típico professor de inglês antigo: usa jaqueta de tweed com remendos de couro no cotovelo e tem pelos brancos saindo do nariz.
– Hoje ele entrou na sala e, além de ter se esquecido de fechar o zíper depois de ir ao banheiro, também se esqueceu de guardar o material lá dentro.
– Não acredito – digo.
Lila começa a rir.
– Essa é a questão, não é? Deveria ser engraçado – comenta Sam. – É engraçado agora. Mas na hora foi tão horrível que só conseguimos ficar sentados olhando, em choque. Fiquei tão constrangido! Ele ficou falando de Hamlet para a turma como se nada estivesse acontecendo. Imagina, citando Shakespeare enquanto todos nós só tentávamos não olhar para baixo.
– Ninguém disse nada? – pergunta Daneca. – Com tantos palhaços lá?
– Depois de um tempo – diz Sam – Kim Hwangbo ergueu a mão.
Eu balanço a cabeça. Kim é tranquila, legal e provavelmente vai para uma faculdade melhor do que qualquer outra pessoa de Wallingford.
Até Daneca está rindo agora.
– O que ela disse?
– “Sr. Knight, sua calça está aberta!” – responde Sam. Ele ri. – O Sr. Knight olhou para baixo quase sem reação e disse “Inquieta é a cabeça que usa uma coroa”, guardou tudo e fechou a calça. Fim da história!
– Você vai contar pra alguém? – pergunta Daneca.
Sam sacode a cabeça e abre a caixinha de leite.
– Não, nem você. O Sr. Knight é inofensivo. Ele não fez de propósito. E teria muitos problemas se Northcutt descobrisse. Ou nossos pais.
– Mas vão descobrir – digo. Eu me pergunto quanto tempo vai demorar até que as apostas sobre ele ser demitido comecem a chegar. – Ninguém consegue esconder nada por muito tempo aqui.
Daneca franze a testa para mim.
– Ah, não tenho tanta certeza disso.
– O que quer dizer? – pergunta Lila, não muito amigável.
Daneca ignora a pergunta e diz:
– Vamos ao cinema no fim de semana. Vocês querem ir? Poderíamos ir juntos, em casais.
Um rubor sobe pelo pescoço de Sam.
Lila se vira para mim, hesitante. Eu dou um sorriso.
– Claro – diz ela. – Se você quiser, Cassel.
– Que filme? – pergunto. Com Daneca, poderíamos acabar assistindo a algum documentário sobre o terror da matança dos bebês foca.
– Vamos ver A invasão das aranhas gigantes – conta Sam. – Está passando na Reprise de Sexta. É um clássico de Bill Rebane. A equipe de efeitos especiais criou a aranha gigante cobrindo um fusca com pelos falsos e usando os faróis traseiros como os olhos vermelhos brilhantes.
– O que pode ser melhor que isso? – pergunto.
Ninguém consegue pensar em nada.
Naquela noite, sonho que estou em um quarto cheio de cadáveres, todos de vestido e batom, sentados eretos em sofás. Levo um tempo para perceber que são todas as minhas ex-namoradas, com os olhos mortos brilhando e as bocas mal se movendo enquanto sussurram uma lista dos meus defeitos.
Ele beija como um peixe, diz minha namorada do jardim de infância, Michiko Ishii. Nós nos encontrávamos atrás de um grande carvalho no parquinho, até que fomos pegos por outra garota que nos dedurou. O cadáver dela é de uma garotinha pequena; os olhos vidrados a fazem parecer uma boneca.
Ele paquerou minha amiga, acusa a garota que nos dedurou, Sofia Spiegel, que tecnicamente também era minha namorada na época.
Ele é um mentiroso, diz uma garota de Atlantic City. A do vestido prateado.
Muito mentiroso, concorda minha namorada do oitavo ano. Só contei para ela que ia para Wallingford depois que já estava lá. Não a culpo por ainda estar furiosa.
Depois da festa, ele fingiu não me conhecer, diz Emily Rogers, que, para ser justo, fingiu com a mesma intensidade que eu não existia depois de passarmos a noite rolando em uma pilha de casacos na festa dos calouros de Harvey Silverman.
Ele pegou meu carro emprestado e acabou com ele, diz Stephanie Douglas, uma mestra que conheci em Carney no verão seguinte ao que achei ter matado Lila. Ela era dois anos mais velha do que eu e conseguia dar um nó no cabo de uma cereja com a língua.
Ele nunca me amou de verdade, declara Audrey. Ele nem sabe o que é amor.
Quando acordo, ainda está escuro lá fora. Em vez de voltar a dormir, começo a fazer um dever de casa. Estou cansado de os mortos se juntarem para me atormentar. Tem que haver um problema em algum lugar pedindo para ser resolvido.