Luva Vermelha
Capítulo Oito
A ESCOLA WALLINGFORD
tem orgulho de preparar seus jovens alunos e alunas não apenas para a faculdade, mas para seu lugar na sociedade. Por isso, os alunos não só têm que comparecer a todas as aulas, como também devem participar de duas atividades complementares. Este ano, as minhas são corrida no primeiro semestre e clube de debate no segundo. Gosto da sensação de correr, do fluxo de adrenalina e dos pés batendo no chão. Gosto do fato de ser apenas eu quem decide até onde devo me esforçar.
Também gosto de pensar em maneiras de fazer as pessoas concordarem comigo, mas o clube de debate só começa daqui a alguns meses.
Estou terminando minha última volta quando vejo dois homens de ternos escuros conversando com o treinador Marlin. Ele faz sinal para mim.
Os agentes Jones e Hunt estão usando óculos de sol espelhados, ternos escuros e luvas ainda mais escuras, embora o tempo esteja estranhamente quente. Não sei dizer se eles conseguiriam ser ainda menos sutis se tentassem.
– Oi, policiais – digo com um sorriso falso.
– Não temos notícias suas faz um tempo – diz o agente Jones. – Ficamos preocupados.
– Ah, tive um velório e um enterro pra ir, depois fiquei um tempo de luto. Minha agenda estava cheia. – Embora eu ache que esteja conseguindo sorrir como alguém inocente, saber que sou o assassino que eles procuram acrescenta uma desconfortável camada de pavor à interação toda. – Muita coisa aconteceu desde quarta.
– Por que não vem dar uma volta conosco? – pergunta o agente Hunt. – Aí poderá nos contar tudo.
– Acho que não – digo. – Tenho que tomar banho e trocar de roupa. Como falei, ando muito ocupado. Mas obrigado pela visita.
O treinador Marlin já seguiu em direção a outros corredores. Está gritando o tempo para eles com o cronômetro na mão. Ou se esqueceu de mim ou está tentando esquecer.
O agente Jones abaixa os óculos.
– Ouvi falar que sua mãe deu alguns calotes em hotéis de Princeton.
– Você deveria perguntar a ela sobre isso – falo. – Tenho certeza de que é um grande mal-entendido.
– Acho que você não quer mesmo que perguntemos a ela, quer? – indaga o agente Hunt.
– É verdade, não quero. Mas não posso impedi-los. Sou apenas um menor de idade, e vocês são agentes federais grandes e fortes. – Saio andando.
O agente Hunt me segura pelo braço.
– Pare com esse joguinho. Venha conosco. Agora, Cassel. Não quer que dificultemos as coisas pra você.
Olho para minha equipe, que corre em direção ao vestiário com o treinador Marlin na frente. Alguns estão correndo de costas para ver o que vai acontecer comigo.
– O único jeito de eu entrar em um carro com vocês é se me algemarem – digo com resolução.
Há algumas coisas que um cara como eu não pode aceitar, e ser simpático demais com representantes da lei é uma delas, definitivamente. Ninguém faz uma aposta ilícita com alguém a menos que tenha certeza de que essa pessoa é mesmo criminosa.
Eles mordem a isca. Tenho certeza de que o agente Hunt quer fazer isso desde que nos conhecemos. Ele segura um dos meus pulsos, puxa-o para trás do meu corpo e prende uma algema. Depois, pega o outro pulso. Eu só resisto um pouco, mas parece ser o bastante para irritá-lo, pois, quando ele coloca a outra algema, me dá um empurrão. Acabo caindo de barriga na terra.
Viro a cabeça para o vestiário e vejo dois caras e o treinador ainda assistindo ao show. É o número suficiente de pessoas para espalhar um boato.
O agente Jones me coloca de pé. Sem muita delicadeza.
Não digo nada enquanto eles me levam até o carro e me empurram para o banco de trás.
– Agora – diz o agente Jones do banco da frente –, o que você tem para nós? – Ele não liga o carro, mas escuto as trancas das quatro portas sendo acionadas.
– Nada – respondo.
– Soubemos que Zacharov foi ao velório – diz o agente Hunt. – E levou a filha com ele. Uma garota que ninguém vê em público há muito tempo. De repente ela voltou. Está aqui em Wallingford, inclusive.
– E daí? – digo.
– Soubemos que vocês dois são bem próximos. Se é que ela é mesmo a filha dele.
– O que vocês querem? – pergunto, experimentando dar um puxão nas algemas. São de tranca dupla e estão bem apertadas. – Querem que eu confirme se ela é mesmo Lila Zacharov? É. Eu costumava jogar bolinhas de gude com ela em Carney. Ela não tem nada a ver com isso.
– Então o que ela fez esse tempo todo? Se você a conhece tão bem, que tal me contar?
– Eu não sei – minto. Não faço ideia de onde esse interrogatório vai dar, mas não estou gostando.
– Você poderia ter uma vida fora disso tudo – sugere o agente Jones. – Poderia estar do lado certo da lei. Não precisa proteger essas pessoas, Cassel.
Eu sou como essas pessoas, penso, mas as palavras dele me fazem imaginar por um momento a sensação de ser um dos mocinhos, com distintivo e reputação impecável.
– Conversamos com seu irmão – conta o agente Hunt. – Ele cooperou bastante.
– Barron? – pergunto e caio na gargalhada. Afundo no banco de couro, aliviado. – Meu irmão é mentiroso compulsivo. Tenho certeza de que ele cooperou. Não tem nada de que goste mais do que uma plateia.
O agente Jones parece constrangido. O agente Hunt está apenas irritado.
– Seu irmão disse que deveríamos começar observando Lila Zacharov. E que você a protegeria.
– Ele disse? – indago, mas estou no controle da conversa agora, e os dois sabem disso. – Li os arquivos que vocês me deram. Quer dizer que Lila é mestra da morte e começou a matar pessoas aos catorze anos? Porque era essa a idade que ela tinha quando Basso desapareceu. E não só isso, mas ela precisaria ter escondido o dano do rebote muito bem. Muito bem, porque posso dizer que a vi sem nem um pedacinho de...
– Não estamos dizendo nada. – O agente Jones bate com a mão no assento, interrompendo meu discurso. – Viemos pegar informações. Se não nos disser nada, vamos ter que ouvir outras fontes. Talvez até fontes que você não considere confiáveis. Entendeu?
– Entendi – respondo.
– Então o que você vai ter quando voltarmos para conversar? – pergunta o agente Jones com uma voz gentil. Ele pega um cartão e o joga no meu colo.
Eu respiro fundo e digo:
– Informação.
– Ótimo – diz o agente Hunt.
Eles trocam um olhar que não consigo interpretar e o agente Hunt sai do carro. Ele abre minha porta.
– Vire-se para que eu possa tirar isso aí.
Eu me viro. Um giro, dois cliques e logo estou esfregando os pulsos, livre.
– Caso pense que não podemos pegar você quando quisermos – diz Hunt –, lembre-se de que é mestre. Sabe o que isso significa?
Eu faço que sim com a cabeça. Pego o cartão que Jones jogou no meu colo e o guardo no bolso. Jones me observa de onde está.
Hunt sorri.
– Significa que você já fez uma coisa ilegal. Todos os mestres já fizeram. Senão, como saberiam o que são?
Eu saio do carro e olho no rosto dele. Em seguida, cuspo no asfalto quente e negro do estacionamento.
Ele parte para cima de mim, mas o agente Jones limpa a garganta e Hunt para.
– Nos vemos por aí – diz o agente Jones, e ambos entram no carro.
Caminho para Wallingford, odiando tanto os dois que estou trêmulo de raiva. O que mais odeio é o fato de estarem certos sobre mim.
Sou chamado quase de imediato à sala da diretora Northcutt. Ela abre a porta e sinaliza para que eu entre.
– Bem-vindo, Sr. Sharpe. Por favor, sente-se.
Eu me sento na cadeira de couro verde diante da grande escrivaninha. Várias pastas estão arrumadas em uma caixa de madeira de um lado, e uma agenda bastante usada foi colocada ao lado de uma caneta dourada presa em um suporte. Tudo ali é organizado, elegante.
Exceto pelo prato de vidro barato com balas. Eu pego uma e a abro devagar.
– Ouvi falar que você recebeu visitas hoje – diz Northcutt. Suas sobrancelhas estão erguidas, como se receber visitas fosse algo suspeito.
– É – falo.
Ela suspira por eu obrigá-la a perguntar diretamente.
– Gostaria de explicar o que dois agentes federais queriam com você desta vez?
Eu me recosto na poltrona.
– Eles queriam que eu entrasse pro departamento de narcóticos, mas falei que a quantidade de tarefas aqui em Wallingford era grande demais pra eu considerar aceitar um segundo emprego.
– Perdão?
Eu não achava que as sobrancelhas dela pudessem subir ainda mais, mas subiram. O que estou fazendo não é legal: divulgando uma história que é menos ridícula do que a maneira como a conto. Mas a pior coisa que ela pode fazer é me deixar em detenção alguns dias ou me dar uma advertência por falar desse jeito.
– Divisão de narcóticos – digo, excessivamente educado. – Para ser um informante de violações relacionadas a narcóticos. Mas não se preocupe, eu jamais concordaria em delatar meus colegas. Mesmo que eles fizessem a péssima escolha de usar drogas, o que tenho certeza de que ninguém aqui faria.
Ela se inclina para a frente, pega a caneta dourada e a aponta para mim.
– Você realmente espera que eu acredite nisso, Sr. Sharpe?
Arregalo os olhos.
– Bem, acho que há pessoas aqui que parecem estar doidonas o tempo todo, isso é verdade. Mas sempre achei que elas apenas...
– Sr. Sharpe! – A diretora parece pronta para me furar com a caneta. – Estou ciente de que os agentes algemaram você. Gostaria de mudar sua história?
Penso em quando me sentei nesta mesma sala ano passado, implorando para que me permitissem ficar. Talvez eu ainda sinta raiva por causa disso.
– Não, senhora. Eles só queriam demonstrar o quanto eu estaria seguro se trabalhasse com eles, embora eu compreenda como um observador casual possa ter chegado a uma conclusão diferente. A senhora pode ligar para os agentes, se quiser – falo, enfiando a mão no bolso. Pego o cartão que o agente Jones me deu e coloco na mesa de Northcutt.
– Farei isso – diz ela. – Pode ir agora. Por enquanto.
Os agentes vão reforçar o que eu disse. Vão ter que fazer isso. Ainda não conseguiram o que queriam comigo. E o agente Hunt não vai querer explicar por que foi agressivo com um garoto de dezessete anos sem ficha criminal. Assim, tenho a satisfação de obrigá-los a concordar com uma história boba. E sou recompensado pela irritação de Northcutt por ter que aceitar uma história que ela sabe não ser verdadeira.
Todo mundo quer sair com dignidade de um problema.
O encontro do HEX já começou no momento em que chego. As mesas da sala de música da Sra. Ramirez foram rearrumadas em círculo, e vejo Lila e Daneca sentadas juntas. Puxo uma cadeira ao lado de Lila.
Ela sorri e estica a mão para apertar a minha. Eu me pergunto se essa é sua primeira reunião. Não fui a muitas para saber.
No quadro está escrito o endereço da passeata a favor dos direitos dos mestres à qual Sam tinha prometido que compareceríamos quando as aulas começaram. Acontece que é amanhã. Acho que era sobre isso que estavam falando antes de eu chegar. As regras foram escritas abaixo das informações sobre a passeata: permaneçam juntos, não falem com estranhos, fiquem no parque.
– Sei que muitos de vocês não ouviram o discurso de ontem, pois ele aconteceu no horário de estudo – diz Ramirez. – Achei que podíamos assistir juntos e discutir.
– Eu realmente odeio o governador Patton – diz uma das garotas do segundo ano. – Temos mesmo que ver a cara dele despejando mais besteiras?
– Quer vocês gostem ou não – diz a Sra. Ramirez –, é isso que os Estados Unidos veem. E é nisso que Nova Jersey vai pensar em novembro, quando votarmos na proposição nº 2. Nisso ou em um discurso bem parecido.
– Ele está na frente nas pesquisas – diz Daneca, mordendo a ponta de uma das tranças. – As pessoas realmente aprovam o desempenho dele.
A garota do segundo ano olha para ela horrorizada, como se Daneca estivesse sugerindo que as pessoas deveriam aprovar Patton.
– É encenação – comenta um dos garotos. – Ele age como se ligasse pra isso porque é um assunto popular. Em 2001, ele votou a favor dos direitos dos mestres. Ele dança conforme a música.
Todos conversam mais um pouco, mas paro de prestar atenção. Estou feliz por estar ali, sem ter que ouvir gritos nem ser algemado. Lila está observando a discussão com o olhar atento ao rosto de cada um que fala, mas sua mão segura a minha, e ela parece mais relaxada do que em muito tempo.
Tudo parece possível.
Se eu pensar bem e planejar com bastante cuidado, talvez consiga resolver meus problemas, mesmo os que considerava sem solução. Antes de tudo, preciso descobrir quem matou Philip. Quando souber, posso elaborar, passo a passo, uma forma de tirar os agentes federais do meu pé. Em seguida, talvez, vou poder descobrir o que fazer com Lila.
A Sra. Ramirez empurra uma televisão para a frente de uma cadeira em um lado do círculo.
– Já chega! Vamos deixar o resto da discussão para depois de assistirmos, certo?
Ela aperta um botão e a tela ganha vida. Aponta o controle remoto, e o rosto pálido do governador Patton aparece. Ele está em um púlpito, com uma cortina azul ao fundo. Os poucos cabelos brancos que ainda tem estão penteados para trás, grudados na cabeça, e ele olha pela tela como se quisesse comer todos nós.
A câmera se afasta para que possamos ver a imprensa reunida adiante. Há várias pessoas de terno com as mãos erguidas, como se estivessem na escola de novo, só esperando o professor chamar. De um lado, um assessor está em pé nos degraus que levam ao palco, como se tomasse conta deles. Ao lado do assessor há uma mulher com um vestido preto sóbrio e o cabelo preso em um coque. Algo nela me faz olhar de novo.
– Você está machucando minha mão – sussurra Lila.
Eu a solto, envergonhado. Minha luva estava esticada sobre as dobras dos dedos, como se eu estivesse tentando fechar a mão para dar um soco.
– O quê? – pergunta ela.
– É que é difícil ouvir – respondo, e parece verdade, já que eu não estava mesmo prestando a menor atenção.
Ela assente, mas há uma pequena ruga entre suas sobrancelhas. Espero minutos intermináveis até achar que posso me virar para ela com segurança e dizer:
– Já volto.
Quando ela franze a testa com ar de curiosidade, eu explico:
– Banheiro.
Desço pelo corredor para o lado oposto do banheiro, me encosto na parede e pego o celular. Enquanto ele chama, penso sem parar na Milionários em Casa, ou seja lá qual fosse o nome daquela revista idiota.
– Oi, querido – diz minha mãe. – Me deixe retornar a ligação de um telefone fixo.
Eu limpo a garganta.
– Primeiro você pode explicar o que estava fazendo na televisão?
Ela ri como uma garota.
– Você viu? Como eu estava?
– Parecia estar de fantasia – digo. – O que estava fazendo com o governador Patton? Ele odeia mestres, e você é uma mestra ex-presidiária.
– Ele é um bom homem quando o conhecemos melhor – fala ela com doçura. – E não odeia mestres. Ele quer os exames obrigatórios para salvar nossas vidas. Você não ouviu o discurso? Além do mais, não sou ex-presidiária. Meu caso foi encerrado após a apelação. É diferente.
Naquele momento, escuto gritos vindos do local onde a reunião do HEX está acontecendo.
– Encontrei vocês, seus monstros! – grita alguém.
– Ligo depois – falo, fechando o telefone contra o peito enquanto desço o corredor. Greg está observando Jeremy, que carrega uma câmera em frente à porta, girando de um lado para outro, como se tentasse captar todo mundo na filmagem. Jeremy está rindo tanto que me pergunto se está segurando a câmera com firmeza o bastante para gravar qualquer coisa além de manchas coloridas.
A Sra. Ramirez sai para o corredor e os garotos cambaleiam para trás, mas continuam filmando. Agora, enquadram apenas ela.
– Vocês dois vão levar duas advertências – diz ela. Sua voz está estranha, trêmula. – E, para cada segundo que passarem com a câmera ligada , vou dar outra.
Jeremy abaixa a filmadora imediatamente e se atrapalha com os controles.
– Vocês dois vão cumprir detenção comigo até o final desta semana, e você vai apagar essa gravação, entendeu? Isso foi invasão de privacidade.
– Sim, Sra. Ramirez – diz Jeremy.
– Que bom. Agora podem ir.
Ela os observa saírem andando. E eu a observo fazer isso com um medo gelado se espalhando pelos meus ossos.
O site entra no ar naquela noite. Na quinta de manhã, ouço os boatos de que Ramirez fica furiosa, mas Northcutt não sabe a quem culpar. Jeremy alega que pretendia deletar a filmagem, mas alguém entrou no quarto dele e roubou a câmera. Ele diz que não fez upload das imagens; Greg diz que nunca tocou em nada daquilo.
As apostas começam a chegar aos montes. Eles são ou não culpados? Parece que todo mundo na escola quer apostar em quais das pessoas naquele encontro eram mestres. Encontro no qual eu também estaria não fosse por uma enorme coincidência.
– É para recebermos o dinheiro? – me pergunta Sam no corredor, entre as aulas. Ele parece infeliz. É um cara esperto e pensou o bastante no assunto para saber que não há respostas fáceis.
– Sim – digo. – Temos que receber. Se não recebermos, não conseguiremos ter controle nenhum.
Recebemos o dinheiro deles.
Na tarde de quinta, o website desaparece sem deixar vestígios.