Luva Vermelha
Capítulo Cinco
ACORDO NA MANHÃ DE DOMINGO
com uma dor de cabeça latejante e gosto de morte na boca. Eu me levanto da cadeira de jardim na fria luz do sol. Vovô não está ali. Quando vou até o porão, vejo que Daneca e Sam também se foram, mas pelo menos deixaram um bilhete:
VEMOS VOCÊ EM WALLINGFORD.
S & D
Vou cambaleando para o andar de cima e percebo que, para algumas pessoas, o velório ainda não acabou. A mesa de jantar está uma bagunça, com restos de macarrão com queijo escorrendo da toalha, misturados de um jeito muito nojento com recheio de torta de mirtilo. Garrafas e latas estão por todo lado. Vejo Barron na sala de estar, o braço ao redor de uma senhora idosa que não conheço. Ela conta para ele que, na sua época, se alguém quisesse mesmo ganhar dinheiro, ia trabalhar com ópio. Mal sabe ela que, hoje em dia, tudo que você precisa para preparar metanfetamina é de uma cafeteira de hotel, mas não sou eu quem vai falar.
Vovô está dormindo em sua poltrona reclinável, e o movimento de seu peito, para cima e para baixo, indica que está bem.
Algumas outras pessoas estão sentadas por ali, a maioria jovens mafiosos ainda com ternos amassados e colarinhos frouxos, deixando as cicatrizes à mostra. Quando passo, ouço-os falando sobre um grande lance envolvendo um banco, dez metros de corda e muito WD-40. Seus olhos estão vermelhos e eles riem.
Vou ao quarto de hóspedes e encontro minha mãe sentada em frente à televisão, assistindo ao canal de novelas.
– Ah, querido – diz ela ao me ver. – Não conhecia seus amigos. Eles parecem legais.
– É – digo.
Ela me observa por um tempo.
– Você está péssimo. Quando foi a última vez que comeu?
Encosto a cabeça na parede e curvo o pescoço.
– Estou de ressaca.
– Tem aspirina no banheiro, mas vai fazer mal de estômago vazio. Você deveria comer.
– Eu sei – digo. E ela está certa.
Entro no carro e dirijo até uma lanchonete da qual ainda me lembro, dos verões que Philip, Barron e eu passávamos com vovô. A garçonete não parece se incomodar com meu terno amassado de ontem nem por eu devorar dois pratos de café da manhã seguidos. Corto os ovos e observo a gema escorrer pelo prato em uma onda amarela. Então coloco pimenta na mistura e molho uma torrada de centeio nela. Depois de uma jarra inteira de café, minha cabeça para de doer.
Deixo algumas notas sobre a mesa e vou para a escola. O volante do meu carro está quente por causa do sol, e enquanto dirijo pela estrada abro as janelas para respirar o último ar de verão, encharcado de chuva.
A última coisa que espero ao entrar no alojamento é encontrar Daneca e Sam com uma garrafa de dois litros de Mountain Dew e os arquivos que os agentes me deram espalhados por todo o quarto. Fico paralisado com a mão no batente da porta.
Por um momento, só consigo sentir uma raiva cega e irracional. Aqueles papéis são meus.
– Ah, oi – diz Daneca, tirando os olhos do chão, onde está sentada com as costas apoiadas na minha cama. Tem um ar bem casual para alguém que está pedindo uma advertência só de estar ali. Ela sorri. – Visual legal. Não consigo acreditar que você estava falando a verdade sobre os agentes federais.
– Isso é porque, depois do discurso de Barron, você tem novos problemas de confiança em relação a minha família – digo da maneira mais despreocupada que consigo. Tiro o paletó e o jogo na cama. E então dobro as mangas da camisa. É o mais arrumado que consigo ficar sem tomar banho e mudar de roupa.
– E agora eu tenho novos problemas de confiança com vocês. O que exatamente acham que estão fazendo?
– Espere, você está dizendo que aquilo que Barron contou sobre os Himalaias e sobre salvar aquele bode não era verdade? – pergunta Sam. Ele está de camiseta preta e jeans, o cabelo ainda molhado.
Estou quase cem por cento certo de que ele está me sacaneando.
Reviro os olhos.
– Seja como for, só porque eu disse que tinha arquivos num momento em que, devo lembrar-lhes, estava severamente comprometido pela bebida e pela dor, não significa que dei permissão para que vocês os lessem.
– Malfeitores não ligam para regras – diz Daneca, rindo com um barulho que mais parecia um relinchar de cavalo.
– Ah, pare com isso – diz Sam. – Você os escondeu debaixo do colchão. É como implorar para alguém encontrá-los.
Tenho a sensação ruim de que Sam está citando alguma frase minha. Eu resmungo e me sento na cadeira da escrivaninha; percebo que estou sentado sobre uma pilha de papéis e os tiro dali.
– E então, o que estamos olhando? – pergunto, observando o que tenho em mãos. Há fotos anexadas aos arquivos, registros fotográficos policiais de homens mal-encarados que foram presos. Em seguida, fotografias comuns dos mesmos sujeitos tomando café em restaurantes ou lendo jornal na varanda de um hotel com uma mulher de maiô ao lado. Fotos de câmeras de segurança.
– Há seis vítimas aqui – diz Daneca. – Todos mestres.
– Todos homens – acrescenta Sam.
Daneca se estica e pega uma das páginas.
– Giovanni “Cicatriz” Basso. Estava envolvido no comércio de amuletos reais e falsificados. Aparentemente devia dinheiro a algumas pessoas. Até onde o FBI sabe, ele não trabalhava diretamente para Zacharov. É provável que negociasse com várias famílias. Não há corpo. Nada. Certa noite, ele simplesmente desapareceu.
– Então nem sabemos se ele fugiu da cidade – diz Sam.
– É – respondo. – Talvez eles todos tenham fugido da cidade.
– Juntos? – Daneca pergunta a Sam. – E agora moram todos em uma mansão no sul da França como em uma comédia de TV?
Sam balança a cabeça, chateado.
– Tudo bem. Provavelmente não, eu admito.
Daneca se mexe.
– Sujeito número dois: James “Jimmy” Greco. Organizava operações ilegais de jogos... Ei, como você, Cassel.
Faço um gesto desanimado. Tenho certeza de que os agentes federais não querem que eu compartilhe esses arquivos com civis, principalmente civis que eles não têm motivo legal para perturbar. Embora eu ainda esteja irritado com Daneca e Sam, saber disso me dá certa satisfação. Qualquer coisa que irrite a polícia não pode ser tão ruim.
Daneca sorri.
– Greco era mestre de sorte, então não me surpreende a profissão que escolheu. Não faço ideia de como irritou Zacharov, pois ele ganhava bastante dinheiro. E, então, bam. Eliminado. Foi visto pela última vez em um bar na Filadélfia, desmaiado.
Parece fácil imaginar aquele assassinato. Greco cambaleando, carregado por alguém que alegou ser seu amigo. Talvez esse alguém fosse mesmo seu amigo. Uma gorjeta para o bartender. Morto no carro.
Ou o assassino era uma mulher que fingiu ser namorada ou esposa dele. Melhor ainda. Talvez até uma última bebida, com alguma coisinha para fazê-lo dormir. Um brilho de luvas vermelhas.
Nada que os agentes federais já não tenham considerado, tenho certeza.
– Isso nos leva a Antanas Kalvis. Tinha um serviço de elite de garotas de programa em Newark, junto com a esposa. – Daneca gosta de brincar de detetive. É apenas um jogo para os dois, um mistério de assassinato com detalhes refinados. No final, você adivinha que foi o mordomo com o castiçal e vira uma carta para conferir se estava certo.
– Eles administravam isso juntos? – pergunta Sam.
– Quando penso em cafetões, imagino casacos de pele, golas largas e nada de endereço fixo – digo.
– É, porque todos os criminosos são como nos filmes – rebate Daneca. Talvez ela esteja levando mais a sério do que eu pensava. – Kalvis era mestre de emoção. Eca. Isso é nojento. Pois então...
– Você disse que ele era casado, certo? – pergunto, interrompendo-a. – Como ele sumiu e a esposa não soube?
Ela vira algumas páginas.
– Na verdade, é meio bizarro. Ele desapareceu na cama. Bem ao lado dela. Então, ou isso é verdade ou a Sra. Kalvis estava envolvida.
Estou aberto para a possibilidade de uma assassina. Eu a imagino se passando por uma das garotas de programa – talvez metida em confusão – e marcando um encontro de emergência com Kalvis. Ele sai da cama na ponta dos pés, sem avisar a esposa.
Ou talvez ele tenha saído andando, dormindo. Bem para os braços de Philip e Anton. Em seguida, alguém como eu faz o corpo desaparecer.
Ou talvez eu tenha feito isso. Talvez tenha sido eu.
– Parece que a esposa estava encobrindo – especula Daneca. – Poderíamos começar com ela. Talvez você conheça alguém que conheça alguém que poderia perguntar!
– Cassel? Tem alguma coisa errada? – Sam se senta na beira da cama.
– Não – digo, balançando a cabeça. – Vamos ouvir o resto.
– Tudo bem – diz Daneca lentamente. – Henry “Gatilho” Janssen. Mestre físico. Soldado da família Zacharov. Aparentemente trabalhava próximo a Anton Abramov. Anton? É o Anton que morreu...
Balanço a cabeça afirmativamente.
– O nome de solteira da mãe dele era Zacharov.
– Ele podia ser o assassino? – pergunta Sam. – Quero dizer, não do seu irmão, obviamente.
– E aí estaríamos falando de duas pessoas diferentes? É, também estou pensando nisso. Os agentes federais acham... – Faço uma pausa. Não sei se devo contar a eles que os agentes federais estão procurando uma mulher de luvas vermelhas. Tenho certeza de que não devo contar que, provavelmente, os agentes federais deveriam estar me procurando. – Eles acham que a pessoa ficou descuidada, mas não sei. Essas outras pessoas simplesmente desapareceram.
– Talvez o FBI tenha provas que não revelaram a você – diz Daneca.
Sam dá de ombros.
– Ou talvez eles queiram que você os ajude a solucionar esse caso e achem que, se disserem que tem a ver com seu irmão, você ajudará.
– Isso é muita paranoia – digo, admirado. – Concordo com você.
– Você não pode realmente achar que agentes federais mentiriam sobre uma coisa que o colocaria em perigo. – Daneca parece exasperada com nós dois, o que pra mim é ridículo.
– É, porque eles são defensores incansáveis dos direitos dos mestres – digo com sarcasmo.
– O próximo – diz ela, ignorando o que eu disse porque seria obrigada a concordar. – Sean Gowen.
Eu levanto a mão.
– Espere, como Janssen morreu?
– Voltando da casa da amante, ao que parece. Ela diz que, como ele saiu no meio da noite, achou que estava indo para casa, para a esposa, e isso a irritou muito, até que descobriu que ele estava morto. Ou melhor, desaparecido. Nada de corpo.
Um tremor involuntário percorre meu corpo, como se alguém tivesse andado em cima do meu túmulo.
No meio da noite de novo. Nada de corpo.
Lila me contou que Barron e Philip a obrigavam a entrar em casas quando era uma gata. Ela podia fazer qualquer pessoa em quem tivesse tocado ter uma crise de sonambulismo e ir direto para meus braços. Em seguida, embora não consiga lembrar, eu os transformava. Devíamos ser uma equipe e tanto.
Nada de corpos.
– Voltando a Sean Gowen – diz Daneca. – Gowen era agiota e mestre de sorte. Isso é estranho. Ele desapareceu no começo da tarde. Todos os outros...
– Ele trabalhava à noite – comento.
– O quê? – diz Sam. – Você o conhecia, por acaso?
Nego com a cabeça.
– É só um palpite. Ele trabalhava à noite? – Quero muito estar errado.
Isso requer uma busca pelos arquivos espalhados. Quando termina, Sam ergue um deles.
– É, acho que sim. Pelo menos ele costumava chegar em casa às quatro da manhã, o que praticamente dá no mesmo.
Ele estava dormindo. A única coisa que todos tinham em comum.
– Você tem uma teoria ou o quê? – pergunta Daneca.
Balanço a cabeça.
– Ainda não – digo, mentindo descaradamente. Daneca e Sam sabem muito mais sobre mim do que qualquer outra pessoa, mas desta vez não posso contar a eles. Acho que fui eu. Sou o assassino. Aperto os joelhos para impedir minhas mãos de tremerem.
A oferta de trabalho de Zacharov faz muito mais sentido agora. Todas essas pessoas desaparecidas. Do nada.
Daneca vira a página, implacável.
– Bem, vamos ver o último. Depois podemos ouvir sua não teoria. Esse cara é Arthur Lee. Outro mestre de sorte e informante do FBI. Morreu no meio de um trabalho para Zacharov.
Um suor frio surge nas minhas têmporas. Agora que acho que sou o culpado, cada folha de papel parece incriminadora. Cada detalhe parece óbvio.
Anton e Barron na parte da frente do carro, Philip e eu na parte de trás com Lee. Nenhum feitiço de sono foi necessário. Só um toque das minhas mãos nuas.
– O que não entendo é... – começa Daneca.
Nosso novo inspetor, o Sr. Pascoli, limpa a garganta na porta aberta. Daneca foi pega em flagrante. Pelo menos é um novo ano, e nossas cotas de advertências estão zeradas. Abro a boca e tento bolar qualquer desculpa para ela estar no alojamento dos garotos, mesmo que seja uma ruim.
– Esse projeto de vocês está demorando muito, não acham? – pergunta ele antes que eu consiga falar.
– Me desculpe – diz Daneca, juntando alguns dos papéis.
Pascoli sorri, tolerante, e sai andando como se nada tivesse acontecido.
– O que foi isso? – pergunto.
– Eu falei para ele que Sam e eu tínhamos um projeto para fazer juntos e que o salão estava barulhento demais. Ele disse que, contanto que mantivéssemos a porta aberta e realmente estudássemos, ele não se incomodava.
– Os nerds sempre se safam – diz Sam.
Daneca sorri.
– E não é?
Eu retribuo o sorriso, mas se tem uma coisa que sei é que em algum momento todos somos pegos.
Embora esteja exausto, não consigo dormir. Examinei os arquivos depois que Daneca foi embora e repassei os detalhes várias vezes na cabeça, tentando me lembrar de alguma parte do que aconteceu. Eu ficava me remexendo na cama, fazendo as molas rangerem. Meu corpo parecia errado, quente e desconfortável.
Por fim, pego meu celular e mando uma mensagem para Lila.
Acordada?, digito.
Só nesse momento olho para a tela e me dou conta de que são três e meia da madrugada. Apalpo o travesseiro e afundo a cabeça nele, com o rosto para baixo.
Meu celular apita. Eu me viro e o apanho.
Pesadelos, está escrito. Sempre acordada.
Fuja, eu respondo e visto uma calça jeans.
A melhor coisa de dormir em um quarto no térreo é que você pode abrir a janela e pular para fora. Sam geme ao ouvir o ranger da moldura de madeira, chuta o cobertor e volta a roncar.
Não tenho certeza de qual é o alojamento dela, então fico de pé no meio da praça.
O ar noturno está parado e denso. Nada parece real. Eu me pergunto se era assim quando ficávamos do lado de fora da casa das vítimas, esperando que elas viessem direto para nossos braços. O mundo todo parecia morto.
Depois de alguns momentos, vejo uma corda pendurada numa janela de Gilbert House. Ando até lá e percebo que Lila conseguiu prender um gancho de escalada no peitoril. O que significa que ela pensou em levar um gancho de escalada para a escola e conseguiu escondê-lo no quarto. Estou muito admirado.
Ela desce devagar e depois se solta, descalça e ainda de pijama. Está sorrindo, mas quando vê meu rosto o sorriso some.
– Qual é o problema? – pergunta.
– Venha – sussurro. – Temos que nos afastar dos alojamentos.
Ela concorda e me segue sem dizer mais nada. Isso, a linguagem da trapaça, nós dois entendemos. Nós nascemos com ela, assim como nascemos com as maldições.
Saio do caminho. Perto dali só há quadras de tênis e o pedaço de bosque que separa o campus de Wallingford de várias residências.
– O que acha daqui? – pergunto a ela.
– Escola é escola. – Ela dá de ombros. – Uma garota no meu corredor me chamou para fazer compras com ela e as amigas. Eu não fui. Agora ela me acha uma metida e fica sempre no meu pé.
– Por que você não...?
Lila olha para mim, hesitante. Consigo ver a esperança no rosto dela, junto com o medo.
– Quem se importa? – pergunta ela, finalmente. – Bem, o que é? Por que estamos aqui?
O pijama dela é de um azul coberto de estrelas.
– Certo. Quero perguntar sobre o que fizemos... sobre o que eu fiz. Os assassinatos, ou seja lá como você preferir chamar. – Não olho para ela, olho para Wallingford. Apenas alguns prédios antigos de tijolos. Não faço ideia de como achei que eles poderiam me proteger da minha própria vida.
– Foi pra isso que você me trouxe até aqui? – diz ela, com a voz ríspida.
– Definitivamente eu não traria ninguém a este lugar para um encontro romântico. – Ela se encolhe e eu prossigo. – Vi alguns arquivos. Alguns nomes. Quero que você me diga se foram eles.
– Tudo bem – diz ela. – Mas saber não vai ajudar em nada.
– Antanas Kalvis?
– Sim – diz ela. – Você o transformou.
– Jimmy Greco?
– Sim – repete ela baixinho. – Ele também.
– Arthur Lee.
– Não sei. Se você o transformou, eu não estava lá. Mas, se sabia os nomes dos dois primeiros, deve estar certo quanto ao terceiro.
Minhas mãos tremem de novo.
– Cassel, que diferença faz? Você sabia sobre isso antes. São apenas nomes.
Eu me sento na grama. Está úmida de orvalho. Sinto-me enjoado, mas o autodesprezo se tornou uma condição permanente. Eu era um monstro antes. Um monstro com a desculpa de não saber os detalhes e por isso não precisar pensar sobre eles.
– Não sei. Acho que não faz diferença.
Ela se senta ao meu lado e arranca um punhado de grama. Tenta jogar longe, mas fica quase tudo grudado em seus dedos nus. Nenhum de nós está usando luvas.
– É só que... Por quê? Por que fiz aquilo? Barron podia me fazer lembrar qualquer coisa, mas que memórias me fizeram transformar essas pessoas em objetos?
– Não sei – responde Lila em tom monótono.
Estico a mão na direção de seu ombro sem pensar e esfrego os dedos no algodão. Não sei mais como dizer o que sinto em voz alta. Lamento que meus irmãos a tenham trancado em uma gaiola, lamento ter demorado tanto para salvá-la, lamento, acima de tudo, tê-la transformado. Desculpe por falar nessas coisas agora.
– Não – pede ela.
Meus dedos nus param.
– Certo. Eu não estava pensando.
– Meu pai quer que você trabalhe para ele, não é? – pergunta ela, se afastando de mim. Seus olhos brilham sob a luz da lua.
Faço que sim com a cabeça.
– Ele me ofereceu um emprego no velório de Philip.
Lila geme.
– Está nascendo algum conflito com a família Brennan. Ele tem feito muitos negócios em casas funerárias ultimamente. – Ela faz uma pausa. – Você vai aceitar?
– Você quer dizer continuar assassinando pessoas? Não sei. Acho que sou bom nisso. É bom ser bom em alguma coisa, certo? – Minha voz soa amarga, mas não tanto quanto deveria. O horror que senti antes está sumindo e dando lugar a uma espécie de resignação.
– Talvez eles não morram quando você os transforma em objetos – diz Lila. – Talvez fiquem com a alma suspensa.
Eu tremo.
– Isso parece ainda pior.
Ela se deita na grama e olha para o céu noturno.
– Gosto de como podemos ver as estrelas aqui do campo.
– Isto não é o campo – digo, virando-me para ela. – Estamos perto de duas cidades e...
Ela sorri para mim, e de repente estamos em território perigoso. Estou por cima dela, olhando para seu cabelo louro-prateado se espalhando na grama, para o jeito como sua garganta se mexe quando ela engole em seco de nervosismo, para seus dedos enroscados na terra.
Tento dizer alguma coisa, mas não consigo lembrar sobre o que estávamos falando. Todos os meus pensamentos desaparecem quando os lábios dela se abrem e as mãos nuas deslizam pelo meu cabelo, me puxando em sua direção.
Ela faz um som baixo quando minha boca encosta na sua, faminta, desesperada. Só um monstro faria isso, mas eu já sei que sou um monstro.
Rolo para cima dela, sem parar de beijá-la, apertando seu corpo contra o meu. Meus olhos se fecham, então não preciso ver o que estou fazendo, mas minhas mãos a encontram com facilidade. Ela geme com a boca sob a minha.
Seus dedos ainda agarram meu cabelo com firmeza, como se ela tivesse medo de que eu me afastasse.
– Por favor – digo, sem fôlego, mas logo estamos nos beijando de novo, e é difícil me concentrar em qualquer coisa que não seja a sensação do corpo dela se movendo sob o meu, e não consigo dizer as palavras.
Por favor, me impeça.
Afasto-me de sua boca e sigo beijando seu pescoço. Meus dentes passam por sua pele, e minha língua sente gosto de suor e terra.
– Cassel – sussurra ela. Ela já disse meu nome cem, mil vezes antes, mas nunca dessa maneira.
Eu me afasto de repente, ofegante. Nunca dessa maneira.
Ela se levanta comigo, mas agora pelo menos estamos os dois sentados. Isso ajuda. Ela respira com intensidade, e os olhos estão negros, as pupilas dilatadas.
– Eu não... – começo a falar. – Não é... Não é real.
As palavras não fazem sentido. Eu sacudo a cabeça para tentar pensar melhor.
Ela olha para mim com uma expressão indecifrável. Seus lábios estão ligeiramente afastados e inchados.
– Temos que voltar – digo.
– Tudo bem. – Mal consigo ouvir a palavra. A voz dela é só um sussurro.
Eu concordo com um movimento de cabeça e fico de pé. Estendo a mão e Lila me permite puxá-la. Por um momento, nossas mãos se tocam, quentes e nuas.
Na janela do meu quarto, vejo meu reflexo no vidro. Cabelo preto desgrenhado. Olhar de desdém. Pareço um fantasma faminto olhando com raiva para um mundo do qual não posso mais fazer parte.
O sonho me pega de surpresa. Estou de pé na beirada de um gramado. Barron está ao meu lado. Eu sei, sem nenhuma razão, que estamos esperando que alguém saia da grande casa branca com pilares na nossa frente.
– Quer tomar uma xícara de chá comigo? – pergunta ele, esticando um copo de papel com um sorriso falso. O líquido âmbar está fervendo, bolhas sobem junto com o vapor. Queimará nós dois.
– Ah – digo. – Você acha que vamos servir?