Luva Vermelha
Capítulo Seis
PASSO O DIA SEGUINTE
completamente inútil na aula. Vou mal em um teste de física e conjugo os verbos de um jeito esquisito em francês. Com sorte não vou precisar de francês em minha futura carreira de assassino; a não ser que eu seja um daqueles criminosos sofisticados que vemos nos filmes viajando pelo mundo e roubando joias. De física, posso precisar – para calcular as trajetórias das balas.
Ligo para Barron no horário de almoço para evitar o refeitório. Não sei como falar com Sam e Daneca sem dizer nenhuma mentira. E não sei o que dizer para Lila que não seja verdade.
– Oi – diz ele. – A pizza de terça ainda está de pé? – A voz soa tranquila. Normal. Quase me faz acreditar que posso relaxar.
– Preciso perguntar uma coisa. Pessoalmente. Onde você está?
Uma professora passa e olha pra mim. Não podemos fazer ligações durante o dia, nem mesmo entre aulas. Mas sou do último ano, então ela não pega no meu pé.
– Mamãe e eu estamos nos divertindo. Estamos no Nassau Inn. É bem chique.
– Isso fica em Princeton – digo. É no centro da cidade, a alguns minutos da casa de Daneca. Uma onda de horror percorre meu corpo ao pensar na minha mãe e na dela na mesma fila da farmácia.
Barron ri.
– É. E daí? Mamãe diz que vocês dois praticamente arrasaram Atlantic City, então estamos tentando recomeçar.
Não sei por que pensei que Barron faria qualquer coisa que não fosse aumentar os problemas de mamãe. A lembrança dele falando algo sobre um quadro me assombra; eu devia ter imaginado.
– Ah, não importa – digo. – Você pode me encontrar às seis? Posso faltar ao jantar e à hora de estudo.
– Vamos praí agora. Mamãe pode autorizar sua saída, lembra? Vamos comer sushi.
– Claro, tudo bem – respondo.
Eles levam uma hora e meia para fazer a viagem de vinte minutos de Princeton a Wallingford. Quando chegam, estou no período de reforço escolar, quando tenho que padecer enquanto aprendo que todos os meus erros de física foram estúpidos e óbvios.
É um alívio ser chamado à direção.
Barron está encostado na mesa da secretária com um terno de tecido metálico. Mamãe está a seu lado, o cabelo preso em um lenço Hermes e um enorme chapéu preto e branco por cima, luvas pretas e um vestido preto decotado. Os dois usam óculos de sol. Ela está inclinada sobre a mesa, assinando uma folha de papel.
Acho que está tentando parecer de luto.
– Mãe – chamo.
– Ah, querido – diz ela. – O médico quer examinar você para ter certeza de que não tem a mesma coisa que matou seu irmão. – Ela se vira para a Sra. Logan, que parece escandalizada pela situação toda. – Essas coisas podem ser de família – informa.
– Está com medo de que eu sofra do mal agudo de dois tiros no peito? – pergunto. – Porque isso pode mesmo ser de família.
Mamãe contrai os lábios em reprovação.
Barron me dá um tapa nas costas com força.
– Venha, engraçadinho.
Andamos em direção ao estacionamento. Enfio as mãos enluvadas no fundo dos bolsos do uniforme. Barron acompanha meus passos. Ele deixou os primeiros botões da camisa branca abertos, mostrando sua nova corrente de ouro pendurada sobre a pele bronzeada. Eu me pergunto se ele está usando amuletos de proteção.
– Pensei que quisesse que viéssemos buscar você – diz mamãe, acendendo um cigarro com um isqueiro dourado e dando uma longa tragada. – Qual é o problema?
– Tudo o que quero é que Barron me conte onde estão os corpos – falo, mantendo a voz baixa enquanto ando pelo gramado. Tê-los aqui é surreal. Wallingford não é o lugar deles, com seus gramados bem-cuidados e vozes baixas. Os dois são exuberantes demais.
Eles trocam um olhar que transborda desconforto.
– As pessoas que transformei. Onde estão? No que os transformei?
Não sei exatamente o que Barron se lembra dos desaparecimentos de Greco, de Kalvis e dos outros. Não faço ideia de quantas de suas lembranças foram apagadas, do quão danosos foram os efeitos do rebote, mas se houver registros em seus cadernos talvez ele saiba de alguma coisa. Sim, claro, adulterei os diários para que ele esquecesse que queria me usar para matar Zacharov, para que esquecesse que não estava do meu lado contra Philip e contra o amigo de Philip, Anton. Mas não mudei mais nada.
– Não há motivo para você querer saber disso – diz Barron lentamente. O que me parece promissor.
– Vamos dizer que haja. – Eu paro de andar, forçando-os a parar comigo ou continuar sem mim. Eles param.
– Não discutam, meninos – pede mamãe, soprando uma nuvem de fumaça no ar. – Cassel, pare, querido. Deixe pra lá.
– Um – digo. – Me dê um corpo.
– Tudo bem. – Barron encolhe os ombros com indiferença. – Se lembra daquela cadeira que você odiava?
Eu abro a boca e depois a fecho, como um peixe.
– O quê? – pergunto, mas sei de que cadeira ele está falando. A que quase joguei fora quando vovô e eu arrumamos a casa, porque aquela coisa me dava arrepios. Era uma réplica perfeita de uma que eu tinha visto na televisão.
Ele ri e levanta os óculos escuros para que eu possa vê-lo erguer as sobrancelhas para mim.
– É.
Tiro as chaves da mochila.
– Obrigado por me autorizar a sair, mamãe – digo, beijando-a na bochecha coberta de pó.
– Achei que fôssemos almoçar – diz ela. – Seja lá o que você estiver pensando em fazer...
– Eu tenho que ir – falo. – Me desculpe.
– Desculpo nada – diz mamãe com voz melosa, segurando meu antebraço. – Você pode almoçar com a gente ou posso ligar para aquela moça gentil da recepção, dizer que sua consulta foi cancelada, que o levei de volta pra escola e pedir que ela faça a gentileza de verificar se você está onde deveria.
– Não me ameace – grito, e Barron olha para mim como se eu tivesse enlouquecido. Dizer a mamãe o que fazer nunca é uma boa ideia.
Ela aperta meu braço com mais força, suas unhas afundam na minha pele por cima da camisa branca. Olho para baixo; de alguma forma, ela tirou a luva sem eu perceber. Se descer um pouco mais os dedos, pode tocar na pele do meu pulso. Ou, se subir, pode segurar meu pescoço.
– Uma mãe não deveria precisar ameaçar o filho para passar um pouco mais de tempo com ele.
Ela tinha razão.
Mamãe se senta à mesa do Toriyama’s e coloca a bolsa ao lado, deixando que Barron e eu nos sentemos lado a lado nas cadeiras. As luvas estão de volta no lugar. Quando eu as observo para tentar entender o que mamãe fez para conseguir tirá-las tão depressa, ela me encara intensamente. Decido então desviar o olhar para os quimonos emoldurados pendurados acima de nós e a mesa clara de bambu.
A garçonete chega, toda vestida de preto, e nos serve chá. Ela é bonita, com uma franja supercurta e um piercing no nariz que brilha como uma gota de absinto. Em seu crachá está escrito “Jin-Sook”.
Barron pede um daqueles pratos enormes de sushi.
– Vem em um barco, né? – pergunta ele, apontando para uma prateleira laqueada com barcos de madeira, alguns com dois mastros, acima de onde o chef corta os peixes. – Porque uma vez eu pedi isso e veio num prato. Mas no cardápio diz barco, então quero ter certeza.
– Vem em um barco – diz Jin-Sook.
Tomo um gole de chá. É de jasmim e está tão quente que quase queima minha garganta.
– Pois então – diz Barron. – Temos um novo alvo em vista. Uma pessoa importante. Seria bom uma ajudinha. E o dinheiro ajudaria você. Além do mais, somos uma família.
– A família cuida da família – diz mamãe, uma frase que a escuto dizer mais vezes do que posso contar.
É tentador dizer sim, mesmo depois de tudo. Eu costumava ansiar por ser chamado para dar golpes com meu irmão. Para provar que, embora não fosse mestre, eu podia acompanhar os melhores deles. E meu irmão e minha mãe estão no nível dos melhores.
Mas agora sei que sou mestre, golpista e talvez até assassino. E se tem uma coisa que quero provar para mim mesmo é que posso ser diferente.
– Obrigado, mas não – digo.
Barron dá de ombros de um jeito filosófico.
Mamãe estica a mão para pegar a xícara de chá, e vejo o brilho de um enorme topázio azul cercado de diamantes em seu dedo indicador, por cima da luva de couro. O anel é novo. Eu me arrepio só em pensar de onde ele veio. Em seguida, vejo um anel na outra mão dela. A pedra é avermelhada, como uma gota de sangue derramada sobre água.
– Mãe – falo, hesitante.
Alguma coisa na minha expressão faz com que ela olhe para baixo, para as mãos.
– Ah – diz ela, satisfeita. – Conheci um homem fantástico! Ele é absolutamente perfeito. – Ela balança o dedo com o topázio. – E tem um ótimo gosto.
– Era dele que eu estava falando – diz Barron. Sob meu olhar apático, ele baixa a voz e ergue as sobrancelhas. – O alvo.
– Ah – digo. – Mas e aquele outro anel?
– Essa coisa velha? – retruca mamãe, erguendo a outra mão. O pálido diamante vermelho brilha na luz fluorescente do restaurante. – Outro presente. Que não usava há anos.
Penso nas fotos que achei quando estava arrumando a casa. Fotos de mamãe com uma lingerie antiga, posando para uma pessoa que eu não conseguia ver. Alguém com uma aliança de casamento cara. Alguém que não era meu pai. Eu me pergunto se o homem das fotos teve alguma coisa a ver com o diamante.
– Quem deu isso a você? – pergunto.
Ela me olha por cima da mesa como se me desafiasse a contrariá-la.
– Seu pai, querido. Ele era o homem com mais bom gosto que existiu.
– Acho que você não devia usá-lo em público. Só isso. – Eu sorrio para mostrar que não fui enganado. Parece que estamos sozinhos no restaurante. – Alguém pode roubá-lo.
Isso a faz rir. Barron olha para nós dois como se estivéssemos falando uma língua que ele não compreende. Desta vez, sou eu quem tem a informação.
A comida chega. Misturo bastante wasabi no meu molho de soja e molho nele um pedaço de sashimi. O peixe tem gosto salgado ao tocar minha língua, e a raiz-forte verde faz meu nariz arder.
– Fico feliz que tenha vindo almoçar – diz Barron, se inclinando na minha direção. – Você pareceu meio inquieto lá na escola.
Não menciono que a hora em que eles foram me buscar era bem depois do almoço. Estamos cercados por pessoas que jantam cedo.
– O que está sentindo é um estágio do luto – declara ele, com a sinceridade que o torna tão convincente. – Você não consegue entender o que aconteceu com Philip, então está tentando entender alguma outra coisa.
– Talvez seja isso – digo.
Ele me descabela com a mão enluvada.
– Claro que é. Você vai ver.
Jin-Sook traz nossa conta em um estojinho de couro. Mamãe paga com um dos vários cartões de crédito roubados.
Infelizmente para ela, o cartão é recusado. A garçonete o devolve com um pedido de desculpas.
– Sua máquina deve estar quebrada – diz minha mãe, erguendo a voz.
– Está tudo bem – digo, pegando a carteira. – Eu pago.
Barron se vira para a garçonete.
– Obrigado pelo ótimo serviço. – Ele está com a mão nua no pulso dela.
Por um momento, ela parece desorientada. Em seguida, dá um largo sorriso.
– Obrigada! Voltem sempre.
Mamãe e Barron se levantam, começam a andar em direção à porta e me deixam ali olhando para Jin-Sook, tentando decidir como dizer para ela que suas lembranças acabaram de ser alteradas.
– O que está feito está feito – diz mamãe da porta do restaurante. O jeito como olha para mim é um aviso.
A família cuida da família.
As lembranças da garota se foram. Eu poderia arrumar problema para Barron, mas não posso desfazer o que ele já fez.
Empurro a cadeira e sigo minha mãe e meu irmão para fora. Mas, quando chegamos na rua, eu empurro os ombros de Barron.
– Você está louco?
– Pare com isso! – diz ele, sorrindo como se tudo fosse uma grande piada. – Pagar é coisa de otários.
– Entendo você não ligar pras outras pessoas. Mas você está acabando com sua própria cabeça – argumento. – Vai esgotar todas as suas lembranças. Não vai sobrar nada de você.
– Não se preocupe – diz Barron. – Se eu esquecer alguma coisa importante, você pode me lembrar.
Mamãe olha para mim com os olhos brilhando.
Está certo. O que está feito está feito.
Eles me deixam em Wallingford, em frente ao meu carro. Eu me levanto para sair.
– Espere – diz mamãe, e tira uma caneta da bolsa. – Tenho um celular lindinho! Quero que você tenha o número.
Barron revira os olhos.
– Você odeia celulares – comento.
Ela me ignora e escreve.
– Aqui está, querido – diz. – Pode me ligar quando quiser. Eu retorno em seguida do telefone público ou fixo mais próximo.
Pego o pedaço de papel, sorrindo. Depois de três anos na prisão, acho que ela não se dá conta de como os telefones públicos são raros hoje em dia.
– Obrigado, mãe.
Ela se inclina e beija minha bochecha. Consigo sentir o cheiro de seu perfume, doce e pesado, bem depois de eles saírem com o carro.
Meu carro faz um barulho horrível quando tento ligá-lo. Por um momento, acho que vou ter que correr atrás de mamãe e Barron para pegar uma carona. Acabo colocando o carro em segunda marcha e ele sai andando. De algum modo o motor pega e faz um barulho indicando que ainda está vivo. Não faço ideia de por quanto tempo meu carro vai funcionar nem se vou conseguir ligá-lo de novo quando quiser voltar para Wallingford.
Dirijo até a antiga casa onde cresci. Do lado de fora, as telhas descascadas e as persianas tortas dão a ela um aspecto de casa abandonada. Vovô e eu arrumamos a maior parte do lixo, mas dentro sinto um cheiro leve de mofo por baixo do Lysol. A casa ainda está arrumada, mas percebo que mamãe esteve lá. Há bolsas de compras na mesa da sala de jantar e uma caneca de chá apodrecendo na pia da cozinha.
Que bom que vovô está em Carney; ele ficaria irritado.
Vou direto à cadeira. Está coberta com uma espécie de pano cor de mostarda e tem uma aparência perfeita de cadeira de clube, exceto pelos pés, que, reparando bem, são horríveis. Achei que fossem pés com garras presos em bolas pintadas, e, numa olhada rápida, é o que parecem mesmo. Mas agora que estou observando de perto a cadeira, vejo que aquelas garras são mãos humanas com dedos dobrados.
Um tremor percorre meu corpo.
Eu me sento no chão ao lado dela, embora queira apenas me afastar o máximo possível. Estico a mão e me concentro. O poder ainda me é estranho, e meu corpo todo se prepara para o que vem depois, a dor e a sensação de impotência do rebote.
Quando a palma da minha mão encosta na cadeira, tudo fica fluido. Consigo sentir a maldição nela, os fios do tecido e até mesmo o homem que há ali embaixo. Arranco a magia com um puxão quase físico.
Depois de um momento, abro os olhos sem nem perceber que os tinha fechado.
Há um homem parado à minha frente com a pele rosada de vida e os olhos abertos. Ele usa uma camiseta branca sem mangas e cueca. Sinto uma esperança selvagem.
– Henry Janssen – digo, com a voz trêmula. Ele é igual à foto anexada ao arquivo.
Então ele cai, sua pele fica cinzenta. Eu me lembro de como tentamos simular a morte de Zacharov. Ao ver Janssen cair, percebo como erramos. Dá para ver a hora em que acontece, como uma luz se apagando em uma lâmpada.
– Não – grito, engatinhando até ele.
O rebote me atinge. Meu corpo é tomado por câimbras, meus membros se alongam como os de uma aranha, se esticando em direção ao teto. Em seguida, parece que sou feito de vidro, cada movimento de meu corpo cria uma rachadura e logo estou no chão, despedaçado. Tento gritar, mas minha boca virou terra. Estou virando do avesso. Enquanto a dor toma conta de mim, giro a cabeça e vejo os olhos vidrados de um homem morto.
Acordo molhado de suor ao lado de Henry Janssen.
Cada músculo do meu corpo dói e, quando olho para o cadáver, sinto apenas que tenho de me livrar dele. Não entendo mais a urgência que me trouxe até aqui. Não entendo mais como achei que poderia haver outro desfecho. O que podia acontecer? Não sei nada sobre transformação e seus limites. Nem sei se é possível trazer um objeto inanimado de volta à vida.
Mas também não me importo. Estou cansado de me importar.
É como se a parte de mim que sente toda aquela culpa finalmente estivesse saturada. Não sinto nada.
Embora a solução mais prática seja amaldiçoá-lo de novo para que vire uma cadeira, não consigo encarar outro rebote. Penso em enterrá-lo, mas tenho certeza de que o buraco tem que ser mais fundo do que tenho tempo para cavar.
Eu poderia jogá-lo em águas profundas, mas, como nem tenho certeza se meu carro vai ligar, isso também parece problemático. Por fim, me lembro do freezer no porão.
É mais difícil carregar uma pessoa morta do que uma viva. Não é que sejam mais pesadas; é que elas não colaboram. Não se apoiam em seus braços nem se seguram em seu pescoço. Apenas ficam lá, paradas. O lado bom é que você não precisa ter medo de machucá-las.
Arrasto Janssen escada abaixo segurando-o pelos ombros. Seu corpo faz um baque repugnante a cada degrau.
Não tem nada no freezer além de meio pote de sorvete Cherry Garcia, coberto de gelo. Eu o tiro e coloco na velha bancada de trabalho de papai. Então posiciono uma das mãos debaixo do pescoço pegajoso do cadáver e a outra, debaixo do joelho. Eu o levanto e o empurro, jogando o corpo no freezer. Ele cabe, mas preciso dobrar suas pernas para a tampa fechar. É bem desagradável.
Vou voltar, digo a mim mesmo. Em um ou dois dias eu volto e o transformo.
Olho para o freezer lotado com Henry Janssen e penso no corpo de Philip na casa funerária. Alguém, uma mulher, foi filmada entrando no prédio do meu irmão. E, como sei que matei o resto das pessoas dos arquivos, o FBI está no caminho totalmente errado. Estão tentando ligar as mortes. Mas quem matou Philip não teve nada a ver com tudo isso e provavelmente nem sabia de nada.
Talvez eu devesse voltar a pensar em outros suspeitos além de mim.
Meu carro liga sem problema; é a primeira coisa boa que acontece comigo em tempos. Dirijo de volta para Wallingford tomando o sorvete Cherry Garcia e pensando nas luvas vermelhas, nos tiros e na culpa.