Luva Vermelha
Capítulo Doze
SEGUNDA DE MANHÃ,
na escola, alcanço Lila no caminho para a aula de francês. Toco em seu ombro, e ela se vira com o sorriso transbordando de saudade. Odeio ter tanto poder sobre ela, mas há um prazer assustador em saber que ocupo um espaço tão grande em seus pensamentos. Um prazer contra o qual devo me preparar.
– Você foi à casa de Philip? – pergunto.
Ela abre a boca, hesitando.
– Encontrei um dos seus cigarros – digo antes que ela possa mentir.
– Onde? – pergunta ela. Ela cruza os braços ao redor do peito de um jeito protetor. Aperta os ombros com força com as mãos enluvadas.
– Onde você acha? No cinzeiro. – Vejo a expressão dela ficar sombria e repentinamente mudo de ideia quanto a minha abordagem. Ela parece completamente fechada para mim, uma casa trancada contra ladrões, mesmo que seja um ladrão de quem ela gosta. – Me diga que não era seu, e eu vou acreditar. – Mas não penso realmente isso nem por um segundo. Sei que o cigarro era dela. Mas também sei que o melhor jeito de se invadir uma casa é entrando pela porta da frente.
– Tenho que ir pra aula – diz ela. – Encontro você lá fora no almoço.
Vou para a aula de francês. Traduzimos uma passagem de Balzac: La puissance ne consiste pas à frapper fort ou souvent, mais à frapper juste.
O poder nem sempre consiste em bater com força, mas em bater de verdade.
Ela está à minha espera ao lado do refeitório. O cabelo louro e curto parece branco sob a luz do sol, como uma auréola ao redor do rosto. Ela usa meias brancas que sobem até as coxas e, quando balança a saia rodada, quase consigo ver a pele.
– Oi – digo, determinado a não olhar.
– Oi, você. – Ela dá aquele seu sorriso louco e faminto. Teve tempo de se preparar, dá para perceber. Decidiu o que contar e o que esconder.
– Então... – digo, com as mãos enluvadas nos bolsos. – Não sabia que você ainda fumava.
– Vamos dar uma volta. – Ela se desencosta da parede e começamos a andar pelo caminho até a biblioteca. – Recomecei no verão. A fumar. Eu não pretendia, mas todo mundo ao redor do meu pai fuma. Além do mais, era um jeito de ocupar as mãos.
– Certo – digo.
– É difícil parar. Mesmo aqui, em Wallingford, pego um tubo de papel-toalha, encho de folhas de amaciante e solto o ar ali dentro. Depois, escovo os dentes um milhão de vezes.
– Apodrece os pulmões – digo.
– Só fumo quando estou muito nervosa – diz ela.
– Como quando está no apartamento de um homem morto?
Ela assente depressa, esfregando as luvas na saia.
– Isso mesmo. Philip tinha uma coisa que eu queria ter certeza de que ninguém encontraria. – Seu olhar vai até meu rosto. – Um dos corpos.
– Corpos? – repito.
– Uma das pessoas que você... transformou. Ouvi dizer que há meios de saber se um amuleto é real, e, bem, talvez alguém... os policiais ou os agentes federais... pudessem usar o mesmo método pra saber se um objeto foi enfeitiçado. Eu estava preocupada com você.
– Então por que não me contou? – pergunto.
Ela se vira para mim, os olhos furiosos.
– Quero que você me ame, seu idiota. Achei que, se fizesse uma coisa por você, algo grande, você me amaria. Eu queria salvá-lo, Cassel, para que você tivesse que me amar. Entende agora? É horrível.
Por um momento, não sei por que ela está tão zangada. Mas então percebo que é porque está sem graça.
– Gratidão não é amor – digo.
– Eu devia saber disso – diz ela. – Sou grata a você e odeio isso.
– Você não me fez nenhum outro favor que deixou de mencionar, fez? – pergunto, implacável. – Como assassinar meu irmão?
– Não – diz ela com rispidez.
– Você tinha todos os motivos para querê-lo morto – falo, pensando nas acusações dos meus amigos na cozinha da casa chique de Daneca.
– Só porque fico feliz que ele esteja morto não significa que o matei – diz ela. – E também não mandei matá-lo, se é o que você vai perguntar agora. É isso que aqueles agentes queriam? Dizer que matei seu irmão?
Devo ter ficado com cara de quem não entendeu, porque ela ri.
– Também estudo nesta escola. Todo mundo sabe que você foi algemado e jogado na traseira de um carro preto por homens de terno.
– E então, o que a maioria das pessoas acha?
– Tem um boato rolando de que você trabalha para a divisão de narcóticos – conta ela, e eu solto um gemido. – Mas acho que o júri ainda não chegou a um veredito.
– Sei tanto quanto o resto da escola sobre o que os almofadinhas querem comigo – digo. – Me desculpe por ter perguntado sobre o cigarro. Eu precisava saber.
– Você está ficando muito popular – diz ela. – Não há Cassel suficiente pra todo mundo.
Olho para a frente. Já passamos pela biblioteca. Estamos quase no bosque. Eu me viro, e ela também. Voltamos em silêncio, perdidos em nossos próprios pensamentos.
Quero pegar na mão dela, mas não faço isso. Não é justo. Ela teria que aceitar.
Estou indo para a aula de física quando Sam me para no corredor.
– Você soube? – pergunta ele. – Greg Harmsford teve um surto e destruiu o próprio laptop.
– Quando? – pergunto, franzindo a testa. – No almoço?
– Ontem à noite. Pelo que soube, todo mundo do corredor acordou com ele afogando o computador na pia. A tela já estava rachada, como se ele tivesse dado socos. – Ao dizer isso, Sam não consegue mais conter o riso. – Ele tem um problema sério de agressividade.
Sorrio.
– Ele diz que estava dormindo. Tentando roubar sua desculpa – conta Sam. – Além do mais, todo mundo viu que os olhos dele estavam abertos.
– Ah – digo, o sorriso desaparecendo. – Ele teve um ataque de sonambulismo?
– Ele estava fingindo – diz Sam.
Eu me pergunto onde Lila estava enquanto eu passeava com o pai dela. Fico imaginando se visitou o quarto de Greg, se ele a convidou para entrar, se ela lentamente tirou as luvas antes de passar as mãos pelo cabelo dele.
Sam se vira para me dizer outra coisa.
Mas felizmente o sinal toca, e tenho que correr para a aula. Eu me sento e escuto a Dra. Jonahdab. Hoje ela está falando sobre a conservação do movimento linear e do quanto é difícil parar um objeto que foi colocado em movimento.
Daneca passa correndo por mim para sair da sala no final da aula de física. Ela vai para a sala de Sam e fica na porta, esperando por ele. A expressão em seu rosto deixa claro que Sam ainda não voltou a falar com ela.
– Por favor – implora ela para ele, agarrando os livros contra o peito, mas Sam passa por ela sem nem hesitar. A pele ao redor dos olhos dela está vermelha e inchada, indicando que chorou recentemente.
– Tudo vai ficar bem – digo, embora não tenha certeza se acredito nisso. É apenas uma coisa que as pessoas dizem.
– Acho que eu devia saber – fala ela, afastando uma mecha de cabelo com ponta roxa e suspirando. – Minha mãe diz que muitas pessoas querem conhecer mestres, mas jamais namorariam um. Pensei que Sam fosse diferente.
Meu estômago ronca, e lembro que não almocei.
– Não, não pensou – retruco. – Foi por isso que mentiu pra ele.
– Bem, eu estava certa, não estava? – pergunta ela, chorosa, pedindo para ser contrariada.
– Não sei – digo.
Minha próxima aula, cerâmica, é do outro lado da praça, no Centre de Belas Artes Rawlings. Fico surpreso quando Daneca me segue até o gramado; duvido muito que a próxima aula dela seja lá também.
– O que quer dizer? – pergunta ela. – Por que acha que ele está assim?
– Talvez esteja com raiva por você não ter confiado nele. Talvez esteja com raiva porque não contou o verdadeiro motivo de não querer fazer o exame. Talvez apenas esteja feliz de estar certo, pra variar... você sabe, curtindo estar por cima.
– Ele não é assim – diz ela.
– Você quer dizer não é como eu? – pergunto. No estacionamento ali perto, um reboque começando a se afastar com um carro preso atrás.
Ela pisca como se tivesse levado um susto. Não faço ideia do motivo; não é novidade que ela sempre imagina coisas horríveis sobre mim.
– Não disse isso.
– Bem, você está certa. Eu gosto, mesmo não querendo admitir. Todo mundo gosta de um pouco de poder, principalmente as pessoas que se sentem impotentes. – Penso em Sam no começo do semestre, achando que jamais chegaria à altura de Daneca, mas duvido que ela faça ideia disso.
– É assim que você é com Lila? – Se ela não estava me julgando antes, está me julgando agora.
Balanço a cabeça, tentando manter a irritação longe da minha voz.
– Você sabe que não é a mesma coisa. Não é de verdade. Você nunca enfeitiçou...
Eu paro de falar quando me dou conta de que o carro sendo rebocado é o meu.
– Mas que diabos? – digo e saio correndo. – Ei!
Grito ao ver o para-choque do meu carro bater no último quebra-molas antes da estrada. Tudo que consigo ver do motorista é que está com um boné enfiado na cabeça, escondendo seus olhos. Não consigo nem enxergar a placa do reboque, porque meu próprio carro está na frente dela. Mas dá pra ler o nome pintado na lateral. Tallington Towing.
– O que acabou de acontecer? – pergunta Daneca. Ela está parada na vaga vazia onde estava meu Mercedes.
– Ele roubou meu carro! – digo, perplexo. Eu me viro e aponto para todos os outros veículos do estacionamento. – Por que não um desses? São carros legais! Por que minha lata-velha quebrada...
– Cassel – diz Daneca com firmeza, me interrompendo. Ela aponta para o chão à frente dela. – É melhor você dar uma olhada nisso.
Vou até lá e vejo uma pequena caixa de joias com um laço preto, deixada no meio da vaga vazia. Eu me abaixo, encosto na pequena etiqueta e a viro. No papel preto, em tinta ainda mais preta, tem um desenho simples das ameias de um castelo. Franzo a testa e sinto o toque familiar do sombrio mundo do crime e dos golpes. É um presente daquele mundo.
Castelo.
Cassel.
Puxo o laço e ele se solta facilmente. Antes de levantar a tampa, imagino por um instante que vai ter alguma coisa desagradável dentro (uma bomba ou um dedo), mas, se de fato houver uma parte de corpo ali, esperar só vai piorar as coisas. Abro a caixa. Dentro, aninhado em espuma preta, tem a chave quadrada de um Mercedes. Brilhante. Tem a borda prateada e tão moderna que parece mais um pendrive do que qualquer coisa relacionada a um carro.
Eu a levanto e aperto o botão de destrancar. Faróis se acendem em um carro do outro lado do estacionamento. Um Roadster preto com detalhes cromados.
– Isso é brincadeira? – digo.
Daneca anda até lá e encosta o rosto na janela. Seu hálito embaça o vidro.
– Tem uma carta dentro.
Ouço o sinal ao longe, dentro do centro acadêmico. Estamos oficialmente atrasados para a aula.
Daneca parece não ouvir. Ela abre a porta e pega o envelope. Os dedos enluvados trabalham depressa e abrem a aba antes que eu possa impedi-la.
– Ei – protesto. – Isso é meu.
– Você sabe de quem é? – pergunta ela, desdobrando o papel.
Claro. Só pode ser de uma pessoa. Zacharov. Mas eu preferia que ela não ficasse sabendo disso.
Tento pegar a carta, mas ela ri e a coloca fora do meu alcance.
– Para com isso – digo, mas ela já está lendo.
– Interessaaaaaaante! – exclama Daneca, olhando nos meus olhos. Ela me entrega o bilhete.
Um gostinho do seu futuro.
–Z
Arranco o papel da mão dela e o amasso.
– Vamos dar uma volta – sugiro, mostrando a chave. – Já estamos mesmo matando aula. Pelo menos podemos nos divertir.
Daneca se senta no banco do passageiro sem protestar, o que me deixa chocado. Ela espera até eu colocar o cinto para perguntar:
– O que o bilhete quer dizer?
– Nada – digo – Só que Zacharov quer que eu faça parte de seu alegre bando de ladrões.
– Você vai ficar com o carro? – pergunta ela, passando dedos enluvados pelo painel. – É um suborno bem caro.
O carro é lindo. O motor ronrona e o acelerador responde ao menor toque.
– Se ficar com ele – diz Daneca –, ele vai ter você nas mãos.
Todo mundo me tem nas mãos. Todo mundo.
Saio na rua e sigo para a estrada. Rodamos em silêncio por algum tempo.
– Antes, quando estávamos indo pra aula, você me perguntou se já enfeiticei alguém. – Daneca olha pela janela.
– Por favor, saiba que sou realmente a última pessoa no mundo a julgar você.
Ela ri.
– Pra onde estamos indo, afinal?
– Pensei em tomarmos um café com donut. Comida pro cérebro.
– Sou mais do tipo que toma chá de ervas – diz Daneca.
– Estou perplexo – digo, tirando uma das mãos do volante e colocando sobre o coração. – Mas você estava prestes a me contar todos os seus segredos. Por favor, continue.
Ela revira os olhos, se inclina para a frente e mexe no rádio. Os auto-falantes são tão fantásticos quanto o resto do carro. Sem chiado. Sem distorção. Apenas o som intenso e claro.
– Não tenho muito pra contar – diz ela, abaixando o volume. – Tinha um cara de quem eu gostava aos doze anos, logo antes de eu vir pra Wallingford. O nome dele era Justin. Estudávamos em uma escola voltada para as artes, e ele era ator mirim. Tinha feito alguns comerciais e tudo. Eu fazia parte do círculo de amigos, mas não era muito próxima.
Balanço a cabeça, concordando. Eu sobrevivo com círculos de amigos, sem ser muito próximo.
– E eu o seguia como um cachorrinho. Todas as vezes que ele falava comigo, eu sentia o coração na garganta. Escrevi um haicai sobre ele.
Olhei para ela com as sobrancelhas erguidas.
– É sério? Um haicai?
– Ah, sim. Quer ouvir? “Cabelos dourados e olhos de lasers azuis. Por que você não me vê?”
Eu dou uma risada, e o som sai pelo nariz. Ela ri também.
– Não acredito que você se lembra disso – digo.
– Bem, eu lembro porque ele leu isso. A professora expôs todos os nossos haicais sem nos avisar, e uma garota da turma contou a ele sobre o meu. Foi horrível. Humilhante. Todos os amigos dele me provocavam por causa disso, e ele me olhava com um sorrisinho esnobe. Eca.
– Parece um babaca.
– Ele era um babaca – diz Daneca. – Mas eu gostava dele. Acho que, de uma forma meio bizarra, passei a gostar ainda mais depois.
– E então você o enfeitiçou?
– Não – diz Daneca. – Eu me enfeiticei. Pra parar de sentir o que sentia. Pra não sentir mais nada.
Eu não esperava isso.
– Você é uma boa pessoa – digo com humildade. – Pego no seu pé por causa disso, mas admiro você de verdade. Você se preocupa tanto em fazer a coisa certa.
Ela sacode a cabeça quando paro no café.
– Foi estranho. Todas as vezes que eu olhava pra ele depois disso, tinha aquela sensação de ter alguma coisa na ponta da língua, como se não conseguisse lembrar uma palavra que devia saber. Era uma sensação errada, Cassel.
Saímos do carro.
– Não estou dizendo que enfeitiçar a si mesmo é uma ótima ideia...
O teto do café é de metal, e há uma bancada cheia de cookies recém-assados. As mesas estão cheias de alunos e autônomos digitando em laptops e segurando copos com uma reverência que sugere que acabaram de sair da cama.
Daneca pede um chai latte e eu, um café simples. A bebida dela é de um verde intenso.
Faço uma careta. Vamos para a única mesa livre, ao lado da porta e da estante de jornais. Quando me sento, uma das manchetes me chama atenção.
– Não faça essa cara – diz Daneca. – É gostoso. Quer provar?
Balanço a cabeça. Tem a foto de um homem que eu conheço ao lado das palavras “Assassino de aluguel do Bronx foge da condicional”. O texto embaixo da foto diz: “Mestre da morte Emil Lombardo, também conhecido como Caçador, desaparecido depois de ter sido indiciado por homicídio duplo.” Nem se deram o trabalho de mentir pra mim quanto ao nome dele.
– Tem vinte e cinco centavos? – pergunto, revirando os bolsos.
Daneca enfia a mão na bolsa e tateia até encontrar uma moeda. Ela a coloca sobre a mesa.
– Sabe qual a coisa mais estranha de enfeitiçar a mim mesma por causa daquele garoto?
Encontro cinquenta centavos e coloco as moedas na máquina.
– Não, o quê?
Pego o jornal. O homicídio duplo foi de uma mulher de trinta e quatro anos e a mãe. Duas testemunhas de outro crime, alguma coisa relacionada aos Zacharov e a imóveis. Debaixo da dobra do jornal, há fotos menores das mulheres mortas. Ambas parecem boas pessoas.
Boas pessoas. Pessoas legais. Como Daneca.
– A coisa mais estranha – continua ela – é que, depois que parei de gostar dele, ele me chamou pra sair. Quando recusei, ele ficou muito magoado. Não sabia o que tinha feito de errado.
Encosto o dedo enluvado nos rostos das mulheres assassinadas e o couro mancha a tinta. Ontem à noite eu ajudei o assassino delas a escapar.
– Isso é estranho – digo, sem prestar muita atenção.
Quando voltamos à escola, está bem na hora da minha aula de informática. O sinal para de tocar no instante em que eu entro.
– Sr. Sharpe – diz a Sra. Takano sem olhar para a frente. – Estão procurando você na diretoria. – Ela me entrega o passe para o corredor, um grande dinossauro de plástico.
Não me apresso na caminhada pelo gramado. Penso em meu carro novo cintilando ao sol. Penso na produção de Macbeth do segundo ano e em Amanda Kerwick como Lady Macbeth, erguendo as mãos nuas, procurando sangue.
Mas não há só uma pequena mácula em mim. Como diz o marido dela: “Estou tão atolando em sangue que, esteja onde estiver, será igualmente imprudente recuar ou seguir em frente.”
Eu sacudo a cabeça. Estou apenas procurando desculpas para ficar com o carro.
Quando entro na diretoria, a Sra. Logan franze a testa.
– Não achei que você fosse voltar tão rápido. Cassel, sabe que precisa avisar quando vai sair do campus.
– Eu sei – digo, arrependido.
Tenho esperanças de que Northcutt me dê apenas uma advertência por matar aula. Há menos de uma semana eu estava me gabando com Lila sobre minhas estratégias para sair do campus sem ter problemas. E então saio de carro sem fazer uso de nenhuma delas.
Mas a Sra. Logan apenas me entrega uma pasta de assinaturas.
– Coloque aqui a hora em que você saiu – diz ela, passando o dedo enluvado sobre a linha. – E a hora em que voltou, aqui.
Escrevo as duas coisas precisamente.
– Ótimo – diz ela. – O advogado disse que você ficou meio atordoado quando ele ligou pra lembrar da reunião. Northcutt quer que você saiba que não precisa voltar pra aula se não estiver pronto.
– Estou bem – respondo lentamente. Tem alguma coisa acontecendo. É melhor eu descobrir o que é antes de fazer alguma besteira.
– Só queremos que você saiba que sentimos muito pela sua perda, Cassel. E espero que tudo tenha ocorrido da melhor maneira possível hoje.
– Obrigado – digo, tentando parecer triste.
Vou em direção à porta pensando no que acabou de acontecer. Um dos homens de Zacharov deve ter ligado e fingido ser o advogado da família (talvez tenha sido até o sujeito do reboque) para me dar não só o carro, mas também tempo para brincar com ele. Ser cortejado por um mafioso é bem gostoso. Dificilmente as propostas dos agentes federais poderiam superar isso.
Sigo em direção à aula de informática quando vejo Daneca sair da diretoria.
– Ei – digo. – Não te vi lá.
– Eu estava na sala de Northcutt – conta ela com desânimo. E então chuta um monte de terra no meio da praça. – Não acredito que deixei você me convencer daquilo.
Parece que Daneca ganhou sua primeira advertência por matar aula.
– Sinto muito – digo.
Ela faz uma expressão de quem sabe que não lamento tanto assim.
– E então, o que Lila está aprontando?
– Lila? – Ando me sentindo muito burro ultimamente.
– Sua namorada? Loura? Amaldiçoada pra amar você? Já identificou quem é? – Daneca estica o celular e me mostra uma mensagem de Lila. Venha para a sala de espanhol. Terceiro andar. Urgente.
– Não faço ideia – respondo, olhando para as palavras. Pego meu celular, mas não tem nenhuma mensagem.
Daneca ri. Seu tom é de provocação.
– Espere. Você não sabe quem é Lila?
Percebo meu engano e dou uma gargalhada. Mas isso me faz pensar. A Lila de quem me lembro tinha catorze anos. Não havia passado três anos como um animal em uma gaiola nem sido forçada a sentir nada, e mesmo então já era um mistério para mim. Eu me pergunto se faço alguma ideia de quem Lila é, afinal.
Quando entramos, encontramos Lila sentada em uma das carteiras na sala vazia, balançando as pernas. Em outra está Greg Harmsford. Ele usa óculos de sol, mas a cabeça está bem inclinada para trás, e fica claro que está inconsciente. Pelo menos eu espero que esteja inconsciente. Na frente dele há duas latas de Coca-Cola, as duas abertas.
– O que você fez? – pergunto.
– Ah, oi, Cassel. – Um leve rubor surge nas pontas das orelhas de Lila. Ela estica a mão com um pedaço de papel. É um e-mail impresso. Eu pego da mão dela, mas não olho.
Daneca limpa a garganta e aponta para o corpo inclinado de Greg, arregalando os olhos para enfatizar que quer que eu faça alguma coisa.
– Ele está morto? – indago. Alguém tem que perguntar.
– Eu o droguei – diz Lila com firmeza. A luz do fim de tarde deixa seu cabelo dourado. Ela está usando uma camisa branca e pequenas pedras azuis nas orelhas que combinam com um de seus olhos. Parece a última garota no mundo que drogaria um rapaz no meio do dia. Como se a manteiga não fosse derreter na língua dela, diriam os velhos de Carney.
– Vejam o que achei no computador dele – conta Lila.
Finalmente olho para o papel na minha mão. É de Greg e está endereçado a vários e-mails que não conheço. O texto comunica aos pais que “Wallingford apoia um clube que encoraja atividades criminais” e que “adolescentes mestres têm permissão de se gabar abertamente de suas façanhas criminosas”. Olho para os endereços de e-mail de novo. Imagino que são de nossos pais. Há fotos anexadas, e, embora Lila só tenha imprimido a primeira página, as duas que estão lá deixam bastante óbvio que ele anexou quadros do vídeo da reunião do HEX.
– Uau – digo e passo o papel para Daneca.
Não comento que, para conseguir isso do computador de Greg antes de ele tentar afogá-lo na pia do alojamento, Lila devia estar enfeitiçando-o. Também não menciono o fato de Greg estar inconsciente agora, dormindo, vulnerável a qualquer invasão dos sonhos.
– Vou matá-lo – diz Daneca. Ela parece mais zangada do que jamais vi antes.
Lila respira fundo e solta o ar devagar.
– É tudo minha culpa.
– O que você quer dizer?
Ela balança a cabeça, evitando meu olhar.
– Não importa. O que importa é que vou consertar. Vamos nos vingar dele. Por Ramirez e pelo vídeo. Por esse e-mail. Tenho um plano.
– Que é...? – pergunto.
Lila desce de cima da carteira.
– Greg Harmsford está prestes a entrar para o HEX – diz ela. – Ele vai à primeira reunião hoje. Agora mesmo, eu espero. Antes de acordar. – Os olhos dela estão brilhando com uma alegria insana, e percebo o quanto senti falta dela assim, feroz. Senti falta da garota destemida que costumava ganhar de mim nas corridas e me dar ordens.
Dou uma risada.
– Você é má – digo para Lila.
– Puxa-saco – diz ela, mas parece satisfeita.
– Não sei se consigo convencer as pessoas de virem para uma reunião – diz Daneca. Ela vai até a porta e olha para o corredor, depois olha de volta para nós. – Vocês acham que as pessoas iam acreditar? Será que ia dar certo?
Lila enfia a mão na bolsa e pega uma pequena câmera dourada.
– Bem, nós teremos fotos. Além do mais, coisas assim aparecem no noticiário o tempo todo. Oficiais do governo que fazem campanha antimestres acabam sendo eles mesmos mestres. É totalmente plausível. O fato de que ele conseguiu a filmagem na primeira vez vai fazê-lo parecer mais culpado.
Dou um sorriso.
– Acho que é melhor fazermos algumas ligações se quisermos montar uma reunião do HEX.
Daneca precisa implorar muito para conseguir reunir um grupo pequeno. Ninguém quer ser associado ao HEX agora. Todos foram perturbados. Alguns têm até foram abordados por pais de colegas que tentaram contratá-los para fazer coisas suspeitas. Estão apavorados, e não os culpo.
Daneca repete para cada um a mesma ladainha sobre como é importante nos mantermos unidos. Lila se mete na ligação e jura que vai ser engraçado. Eu tento colocar Greg Harmsford em uma posição mais dura.
Ajeitar um corpo inconsciente não é fácil. Greg não está em coma, apenas dormindo. Ele ainda se mexe quando o coloco em uma posição desconfortável, ainda faz careta e empurra minhas mãos quando tento fazê-lo se sentar. Reviro a carteira até encontrar fita adesiva e uns lápis. Uso o material para construir uma espécie de apoio para a nuca. Olhando de frente, pode parecer que os ombros dele estão caídos, mas pelo menos vai parecer acordado, pois a cabeça estará erguida. Ele faz um som de protesto quando prendo a fita, mas depois de um minuto parece se acostumar.
– Bom trabalho – diz Lila distraidamente. Ela está ocupada escrevendo REUNIÃO DO HEX com giz no quadro.
– Quanto tempo ele vai ficar assim? – pergunta Daneca, cutucando o ombro de Greg. Ele se mexe um pouco, quase o bastante para estragar o efeito da minha pose. Daneca sufoca um gritinho com as duas mãos.
– Não tenho certeza, mas, quando acordar, ele provavelmente estará enjoado. Efeito colateral – diz Lila, ainda distraída. – Cassel, pode colocar o braço de Greg em cima da cadeira ou algo do tipo? Acho que ele não está muito natural.
– Devíamos chamar Sam – digo com um suspiro. – Efeitos especiais são a especialidade dele. Não faço ideia do que estou fazendo.
– Não – diz Daneca, tirando o celular da minha mão e colocando-o sobre uma carteira. – Não vamos ligar pra ele.
– Mas ele... – começo a falar.
– Não – diz ela.
Lila olha para nós, confusa.
– Eles brigaram – explico.
– Ah – diz ela, depois inclina a cabeça e olha para Greg. – Ainda tem alguma coisa estranha. Talvez se trouxermos uns lanches? Sempre levamos comida nas reuniões de verdade. Daneca, você pode ir até a máquina antes de as pessoas chegarem? Cassel, talvez você pudesse ver se tem sacos de batata vazios no lixo. Seriam apenas decorativos. Posso ir correndo à loja...
– Eu vou se Cassel prometer não ligar pro Sam – diz Daneca.
Eu dou um gemido.
– Juro de pés juntos se você quiser.
Daneca me lança um olhar sombrio e vai para o corredor. Em vez de segui-la, me viro para Lila, que está revirando a bolsa.
– Por que você acha que isso é sua culpa? – pergunto.
O olhar dela passa de mim para Greg.
– Não temos muito tempo. Deveríamos...
Eu espero, mas ela não diz mais nada. Suas bochechas coram, e ela olha para o chão.
– Não importa o que aconteceu – digo. – Pode me contar.
– Não é nada que você já não saiba. Fui burra e ciumenta. Depois que vi você e Audrey juntos, fui falar com Greg. Acabei flertando com ele, eu acho. Sabia que tinha namorada e que era uma coisa má e cruel de fazer, mas não achei que as coisas podiam... Não achei que seria tão ruim quanto foi. Ele perguntou sobre você, quis saber se estávamos juntos. Eu disse que “mais ou menos”.
– Mais ou menos – repito.
Ela esfrega os olhos com a mão.
– Tudo estava tão complicado entre nós. Eu não sabia o que dizer. Quando ele soube que a gente, você sabe, começou a dar em cima de mim de verdade. E eu só queria sentir alguma coisa, qualquer coisa diferente do que eu estava sentindo.
– Eu não... – começo a dizer. Eu não valho tanto assim. Estico a mão e prendo uma mecha solta de cabelo atrás da orelha dela.
Ela sacode a cabeça, quase com raiva.
– No dia seguinte, percebi que ele estava se gabando do que fez comigo. Um de seus amigos até me perguntou sobre isso. Então fui até Greg e pensei na pior coisa que podia dizer. Disse que, se ele não calasse a boca sobre mim, ia dizer por aí que ele era ruim de cama. Que ele era mole como uma minhoca.
Dou uma risada incrivelmente alta.
Mas ela ainda não está olhando para mim. E, se é possível, suas bochechas estão ainda mais vermelhas.
– Ele agiu daquele jeito, tipo “você sabe que gostou”. E eu disse...
Ela para. Consigo ouvir pessoas no corredor. Em alguns momentos, estarão aqui.
– O quê? – pergunto.
– Você tem que entender – diz ela rapidamente. – Ele ficou furioso. Furioso demais. E acho que foi por isso que decidiu atacar o HEX.
– Lila, o que você disse?
Ela fecha os olhos com força. Sua voz é quase um sussurro.
– Eu disse que estava pensando em você o tempo todo.
Fico feliz por ela estar com os olhos fechados. Fico feliz por ela não poder ver meu rosto.
As pessoas começam a entrar. Nadja, Rachel e Chad são os primeiros a chegar e Lila, ainda vermelha, não perde tempo em instruí-los. Em pouco tempo, todos estão arrumando cadeiras.
Consigo fingir calma e controle. Daneca chega alguns minutos depois com lanches.
Não é sua culpa, quero dizer para Lila. Mas não digo isso. Não digo nada.
Tiramos fotos e mais fotos com o quadro atrás e as palavras REUNIÃO DO HEX escritas nele. Algumas com alguém em pé no meio de um círculo de cadeiras, falando com empolgação. Outras com todo mundo rindo e uma garota no colo de Greg. No meio da sessão de fotos, ele acorda o bastante para tirar o lápis do pescoço e ajeitar os óculos de sol. Ele olha para nós sem entender, mas sem parecer realmente alarmado.
– O que está acontecendo? – diz Greg com a fala arrastada.
Quero quebrar o pescoço dele. Quero fazê-lo lamentar ter nascido.
– Sorria – diz Daneca. Ele dá um sorriso torto. Uma garota passa o braço pelos ombros dele.
Lila continua fotografando.
Greg volta a dormir e aninha a cabeça nos braços sobre a carteira. Lila, Daneca e eu vamos até a loja da esquina e usamos a máquina de lá para imprimir todas as fotos do cartão de memória.
Ficaram ótimas. Tão boas que seria um crime não compartilhá-las com todos em Wallingford.
A maior parte das pessoas nunca denuncia um golpe por três motivos. O primeiro é que os golpistas não costumam deixar muitas evidências. Se você não sabe exatamente quem o golpeou, não faz sentido denunciar. O segundo motivo é que normalmente você, o alvo, concordou em fazer alguma coisa duvidosa. Se denunciar o golpista, tem que se denunciar junto. Mas o terceiro motivo é o mais simples e mais convincente. Vergonha. Você é o otário que levou um golpe.
Ninguém quer parecer burro. Ninguém quer ser visto como ingênuo. Então, os alvos escondem o quanto foram burros e ingênuos. Golpistas quase não precisam se dar o trabalho de encobrir tudo com alvos tão ansiosos para fazer isso por eles.
Greg Harmsford insiste em dizer bem alto para quem quiser ouvir que usaram Photoshop para inseri-lo nas fotos. E fica furioso quando sua história é questionada. Depois de algum tempo, a provocação o faz perder o controle e ele dá um soco na cara de Gavin Perry.
Ele é suspenso por dois dias. Tudo porque não quer admitir que foi enganado.
Estou sentado no meu quarto no horário de estudos, fazendo o dever de casa de ética do mundo em desenvolvimento, quando meu telefone toca. Não conheço o número, mas atendo.
– Temos que nos encontrar – diz a voz do outro lado. Levo alguns segundos para perceber que estou falando com Barron. A voz dele parece mais fria do que o habitual.
– Estou na escola – respondo. Não estou no clima para fugir de novo. – Não posso sair antes do fim de semana.
– Que coincidência – diz Barron. – Também estou em Wallingford.
O alarme de incêndio toca. Sam dá um pulo e começa a calçar os tênis.
– Pegue o PlayStation – diz ele para mim.
Eu balanço a cabeça enquanto cubro o telefone com a mão.
– É trote. Alguém acionou. – Em seguida, quase cuspo no telefone: – Seu idiota. Não posso sair agora. Vão fazer contagem de cabeças. Vão prestar o máximo de atenção pra garantir que todos voltem pro quarto.
Sam me ignora e começa a soltar os fios do videogame.
– Já fiz o inspetor do seu corredor esquecer você – diz Barron. As palavras me causam um arrepio na espinha.
Saio junto com Sam e os outros garotos e vamos para a grama. Todos estão olhando para o prédio, esperando que nuvens de fumaça apareçam ou que as chamas iluminem as janelas. É fácil me afastar até estar próximo das árvores e das sombras.
Ninguém está me procurando. Ninguém além de Barron.
A mão enluvada dele cai, pesada, no meu ombro. Nos afastamos da escola pela calçada, em direção a casas banhadas na luz azul bruxuleantes dos aparelhos de TV. São apenas nove horas da noite, mas parece bem mais tarde.
Parece tarde demais.
– Ando pensando nos Zacharov – diz Barron de um jeito muito casual. – Eles não são a única atração na cidade.
Eu jamais deveria ter baixado a guarda.
– O que você quer dizer? – É difícil olhar para Barron agora, mas eu olho. Ele está dando um sorrisinho malandro. O cabelo e o terno pretos o tornam uma sombra, como se eu tivesse conjurado um espelho obscuro de mim mesmo.
– Sei o que você fez comigo – diz ele, e, apesar de estar tentando manter o tom sob controle, consigo ouvir a ira pulsando na voz. – Você tirou vantagem das falhas na minha memória. Com todo seu choramingo sobre fazer a coisa certa, você não é nada diferente de mim e de Philip. Conheci dois cavalheiros do FBI, os agentes Jones e Hunt. Eles tinham muita coisa pra me contar sobre meu irmão mais velho e sobre o caçula também. Philip contou pra eles sobre como você me colocou contra ele. Como mexeu com a minha cabeça a ponto de eu não lembrar que estava envolvido no plano de tornar Anton o chefe da família Zacharov. A princípio, não acreditei neles, mas voltei e reli meus cadernos.
Ah, merda.
Há mestres falsificadores no mundo, pessoas que sabem exatamente quais os componentes químicos da tinta no século XVI e no século XVIII. Possuem fornecedores de papel e telas com a mesma idade do documento falsificado; conseguem criar rachaduras perfeitas na tinta. Praticam os rodopios e floreios de outra caligrafia até que seja mais familiar que as próprias.
Acho que não é preciso dizer que não sou um mestre falsificador. A maioria das falsificações não são detectadas porque são boas o bastante para que ninguém queira investigá-las. Quando assino o nome da minha mãe em uma autorização da escola, desde que pareça com a caligrafia dela, ninguém leva até um especialista.
Mas se Barron comparasse os cadernos que falsifiquei com pressa com os antigos, a fraude ficaria óbvia. Somos todos especialistas em nossa própria caligrafia.
– Se sabe o que fiz com você – digo, tentando não parecer abalado –, então sabe o que fez comigo também.
Isso apaga o sorrisinho torto dele.
– A diferença é que estou disposto a perdoar você.
Isso é tão inesperado que fico sem resposta. Barron não parece precisar de uma.
– Quero recomeçar, Cassel – diz ele –, e do topo. Vou até a família Brennan. E, para isso, preciso de você. Seremos uma equipe imbatível de assassinos.
– Não – digo.
– Ai. – Ele não parece tão incomodado com minha recusa. – Se acha bom demais pra um trabalho tão sujo?
– É – respondo. – Sou assim mesmo. Bom demais.
Eu me pergunto se ele de fato conseguiria racionalizar o que fiz com ele, tratar mesmo a traição como uma leve transgressão de um parceiro rebelde. Eu me pergunto se o magoei.
Se consegue racionalizar o que fiz com ele, é fácil imaginar como racionalizou o que fez comigo.
– Sabe por que concordou em transformar todas aquelas pessoas em objetos inanimados? Por que concordou em matá-los?
Eu respiro fundo. É horrível ouvir essas palavras em voz alta.
– É claro que não sei. Não me lembro de nada. Você roubou todas as minhas lembranças.
– Você ia atrás de mim e de Philip como um cachorrinho – diz Barron. Consigo ouvir a fúria na voz dele. – Implorava pra fazer um serviço com a gente. Torcia pra que a gente visse seu coração negro e desse uma chance. – Ele me cutuca no peito.
Dou um passo para trás. A raiva percorre meu corpo de maneira repentina e quase insuportável.
Eu era o irmãozinho deles. Claro, eu os idolatrava. E eles me deram um chute nos dentes.
Barron sorri.
– É bem inteligente, na verdade. Fiz você acreditar que já tinha matado antes. Foi só isso! Fiz você acreditar que era o que eu queria que você se tornasse. Você adorou, Cassel. Adorou ser um maldito assassino.
– Não é verdade – digo, sacudindo a cabeça, desejando calar a boca dele. – Você é mentiroso. É o príncipe dos mentirosos. E como não lembro, você sabe que pode falar qualquer coisa. Eu seria burro se acreditasse no que diz.
– Ah, para com isso – diz Barron. – Você conhece sua própria natureza. Sabe se uma coisa parece verdadeira.
– Não vou fazer o que quer – digo. – Você e os Brennan podem ir pro inferno juntos.
Ele ri.
– Mas você vai fazer. Já fez. As pessoas não mudam.
– Não – digo.
– Como disse, aqueles agentes federais foram falar comigo – continua Barron. Tento interrompê-lo, mas ele apenas levanta a voz. – Não dei a eles nada de importante. Nada do tipo que eu podia ter dado. Se eu contasse a eles o que você é, seria apenas questão de tempo até que ligassem os pontos e descobrissem que você é o assassino que estão procurando.
– Eles nunca acreditariam em você – digo, mas me sinto inseguro. O mundo já se inclinou. Eu estou caindo.
– É claro que acreditariam – retruca Barron. – Posso mostrar um corpo pra eles. O que você deixou no freezer da casa da mamãe.
– Ah – digo sem forças. – Aquilo.
– Descuidado – diz Barron. – Fui eu que contei sobre ele, afinal. Você não achou que eu olharia?
– Não sei o que pensei. – De verdade, não sei.
– Assim, eles podem fazer a mesma proposta de merda que fizeram pro Philip, conseguir o que querem e trancafiar você por mil anos.
– Philip tinha imunidade – argumento. – Eu vi o contrato.
Barron ri.
– Eu também vi. Foi uma pena Philip não ter me mostrado antes de vender a alma pra eles. Eu estudei direito, lembra? Aquele contrato não vale nada. Agentes não podem oferecer imunidade; não valia nem o preço do papel onde foi impresso. Era apenas para impressionar. Eles podiam ter prendido Philip a hora que quisessem.
– Você contou isso a ele? – pergunto.
– Pra que ter o trabalho? – responde Barron. – Philip não queria ouvir. Só queria se despedir antes de o mandarem pra terra das testemunhas protegidas.
Não consigo saber se Barron está mentindo ou não. Tenho a terrível sensação de que desta vez ele está dizendo a verdade.
O que significa que não posso confiar nos federais.
Mas Barron vai procurá-los se eu não entrar com a minha parte no negócio dele com os Brennan.
E Zacharov vai me matar em um piscar de olhos se eu trabalhar para os Brennan.
Não há saída.
Penso no que Zacharov disse no velório de Philip. Há pessoas perto de você com as quais vai acabar tendo que lidar.
Mas você vai fazer, disse Barron. Já fez. As pessoas não mudam.
Olho para ele. Ele dá outro sorrisinho.
– Não é uma escolha difícil quando a apresento dessa maneira, não é, Cassel?
Não é.