Luva Vermelha

Holly Black · Capítulo 4 de 17

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Luva Vermelha

Capítulo Quatro

 

O ROSTO DE PHILIP

parece feito de cera. O que quer que tenham feito para preservar sua aparência deu à pele um brilho estranho. Quando vou até o caixão me despedir, percebo que pintaram as partes do corpo que ficariam expostas com algum cosmético cor de pele. Se olhar de perto, consigo ver traços de pele descorada que não cobriram – atrás das orelhas e em uma linha entre as luvas e os punhos da camisa. Ele está usando um terno que mamãe escolheu e uma gravata preta de seda. Não me lembro de vê-lo usar nenhum dos dois em vida, mas devem ter saído do armário dele. O cabelo foi puxado para trás e preso em um rabo de cavalo. O colarinho alto da camisa esconde o colar de cicatrizes que o classificava como gângster. Não que haja alguém aqui que não saiba o que ele fazia.

Eu me ajoelho em frente ao corpo dele, mas não tenho palavras para Philip. Não quero seu perdão. Não o perdoo.

– Tiraram os olhos dele? – pergunto a Sam quando volto ao meu lugar. O aposento está enchendo rápido. Homens em ternos escuros, bebericando de suas garrafas de bolso; mulheres em vestidos pretos, com os sapatos mais pontudos do que facas.

Sam olha para mim, surpreso com a pergunta.

– Provavelmente, sim. Provavelmente colocam vidro. – A cor desaparece de seu rosto. – E enchem o corpo com fluido desinfetante.

– Ah – respondo.

– Cara, sinto muito. Eu não devia ter contado isso.

Balanço a cabeça.

– Eu perguntei.

Sam está vestido como Philip. Eu uso o terno do meu pai, o que teve que ir para a lavanderia para que o sangue de Anton fosse removido. Mórbido, eu sei. Era isso ou meu uniforme escolar.

Daneca vem até nós, parecendo a mãe dela com um vestido justo azul-marinho e pérolas.

– Conheço você? – pergunto.

– Ah, cale a boca – diz ela automaticamente. Mas logo depois: – Sinto muito, eu não...

– As pessoas têm que parar de dizer que sentem muito – digo, talvez um pouco alto demais.

Sam olha ao redor da sala com uma expressão de pânico.

– Hum, não sei como dizer isso, mas todas essas pessoas vão falar isso para você. Esse é meio que o objetivo dos velórios.

O canto da minha boca se ergue. Tê-los por perto deixa tudo um pouco melhor, até isso.

O agente funerário entra carregando outra montanha de flores. Mamãe vem atrás dele. Ela está chorando. O rímel escorre pelo rosto de maneira teatral enquanto ela aponta para o local onde o agente deve colocar o arranjo. Em seguida, ao ver o corpo de Philip pela décima vez, ela solta um gritinho e meio que desaba sobre uma cadeira, chorando com o lenço no rosto. Um pequeno grupo de mulheres corre para confortá-la.

– Aquela é sua mãe? – pergunta Daneca, fascinada.

Não tenho certeza do que dizer. Mamãe está dando um show, mas isso não significa que não esteja realmente triste. Ela só não deixa o sofrimento atrapalhar sua performance.

– Aquela ali é nossa mãe, sim – diz uma voz ligeiramente entediada atrás de mim. – É um milagre não assaltarmos farmácias enquanto ainda usávamos fraldas.

Daneca dá um salto, como se tivesse sido pega roubando alguma coisa.

Eu não preciso me virar.

– Oi, Barron.

– Dani, certo? – diz ele, lançando um sorriso predador para Daneca ao se sentar ao meu lado.

Acho um bom sinal ele se lembrar dela (talvez esteja evitando fazer feitiços de memória), mas também fico repentinamente ciente do perigo em que coloquei Daneca e Sam simplesmente ao deixá-los ir até ali. Não é seguro ficar perto dessas pessoas.

– Sou Sam Yu. – Sam estica a mão e se inclina para a frente de Daneca.

Barron aperta a mão dele. Seu terno é bem mais legal do que o meu, e o cabelo escuro está curto e arrumado. Ele parece o bom menino que nunca foi.

– Qualquer amigo do meu irmãozinho é meu amigo.

Um pastor se aproxima do púlpito e diz algumas palavras para minha mãe. Não o reconheço. Mamãe não é exatamente religiosa, mas o abraça como se estivesse pronta para ser batizada com a primeira bacia de água que aparecer.

Alguns minutos depois ela grita alto o bastante para ser ouvida acima da música de elevador que tomava o local. Eu não faço ideia do que a deixou fora de si.

– Ele foi assassinado! Diga isso para eles! Coloque no seu sermão. Diga que não há justiça no mundo.

Nesse exato momento, Zacharov entra no salão. Está usando um de seus sobretudos pretos por cima do terno. O Diamante da Ressurreição falso brilha perto de sua garganta, na ponta do alfinete enfiado no nó da gravata. Os olhos dele são duros e frios como um pedaço de vidro.

– Não acredito que ele teve a coragem de vir aqui – falo em voz baixa e me levanto. Barron toca em meu braço para me deter.

Lila está ao lado de Zacharov. É a primeira vez que a vejo desde nossa desastrosa conversa no corredor de Wallingford. Seu cabelo está úmido por causa da chuva, e ela está toda de preto, exceto pelo batom vermelho tão intenso que o resto parece esmaecer. Ela é só a boca.

Ela me vê, e então seu olhar se desvia para Barron. Com a expressão petrificada, Lila se senta.

– É melhor alguém ensinar a essa minha filha a falar baixo – diz vovô, apontando para minha mãe como se pudéssemos achar que ele tinha outra filha ali. – Deu pra ouvir a voz dela lá da rua.

Não reparei quando entrou, mas ele está aqui, sacudindo o guarda-chuva e enrugando a testa para mamãe. Solto todo o ar dos pulmões, tão grande é meu alívio.

Ele bagunça meu cabelo como se eu fosse uma criancinha.

O pastor limpa a garganta de pé em frente ao púlpito, e todos se sentam devagar. Mamãe ainda está choramingando. Assim que o pastor começa a falar, ela passa a gritar tão alto que não consigo ouvir quase nada do sermão.

Eu me pergunto o que Philip pensaria do seu próprio velório. Ele ficaria triste por Maura nem se dar o trabalho de levar o filho deles para um último adeus. Ficaria com vergonha da mamãe e, provavelmente, furioso por eu estar aqui.

– Philip Sharpe era um soldado no exército de Deus – diz o pastor. – Agora ele marcha com os anjos.

As palavras ecoam desconfortavelmente na minha cabeça.

– Seu irmão, Barron, vai se juntar a mim aqui na frente para dizer algumas palavras sobre seu amado Philip.

Barron vai até o púlpito e conta uma história sobre eles dois escalando uma montanha juntos e as várias coisas importantes que aprenderam um sobre o outro no caminho. É comovente. E completamente plagiado de um livro que tínhamos quando crianças.

Decido que está na hora de pegar a garrafa de bebida de alguém e ir me sentar lá fora.

Encontro um bom lugar na escada. Do outro lado do corredor, tem mais um velório acontecendo. Só consigo ouvir o burburinho das vozes na sala, não tão altas quanto a de Barron. Apoio as costas na escada e olho para o teto, para as luzes piscantes do candelabro.

Esta é a mesma funerária onde aconteceu o velório do meu pai. Eu me lembro do cheiro de naftalina, das cortinas grossas e pesadas, do papel de parede texturizado. Eu me lembro do agente funerário desviando o olhar quando envelopes de dinheiro sujo eram passados silenciosamente para a viúva. O local é fora da cidade de Carney – e é muito procurado por mestres. Depois de terminarmos aqui, vamos para o cemitério de Carney, onde papai e vovó Singer descansam. Vamos colocar flores nos túmulos deles. Talvez vejamos quem está na sala ao lado lá também; mestres da maldição têm uma alta taxa de mortalidade.

Minha lembrança mais vívida do velório de papai é ver tia Rose pela primeira vez em anos. Enquanto eu estava de pé em frente ao caixão, respondi ao “como você está?” dela com um “bem” antes mesmo de entender o que ela queria dizer. Foi só uma resposta automática para aquela pergunta. Mas lembro como os lábios dela se curvaram, como se eu fosse um péssimo filho.

Era assim que eu me sentia mesmo.

Mas eu era um filho muito melhor do que um irmão.

Zacharov sai de vista e fecha cuidadosamente a porta atrás de si. Por um momento, a voz de Barron aumenta de tom e ouço as palavras “vamos sempre nos lembrar dos estranhos balões em forma de animal de Philip e de sua habilidade com o arco”.

Zacharov traz um pequeno sorriso no rosto, e suas grossas sobrancelhas grisalhas estão erguidas.

– Estou descobrindo algumas coisas muito interessantes sobre seu irmão.

Eu fico de pé. Talvez não tenha nada de bom a dizer sobre Philip, talvez não tenha um pedido de desculpas para ele, mas há uma coisa que eu posso fazer. O mínimo que posso fazer. Bater no cara que o matou.

Zacharov deve perceber meu olhar, porque ergue as duas mãos cobertas de luvas em um gesto de paz. Eu não ligo. Continuo me aproximando.

– Tínhamos um acordo – digo, erguendo a mão fechada.

– Não matei seu irmão – diz ele, dando um passo para trás, tentando se afastar. – Vim prestar minha homenagem à sua família e dizer a você que não tive nada a ver com isso.

Ando na direção dele. Sinto um prazer cruel ao vê-lo se encolher.

– Não – insiste ele. – Não tive nada a ver com a morte de Philip, e você perceberia se pensasse por mais de um minuto a esse respeito. Você é muito mais valioso para mim do que qualquer vingança contra um subalterno. E não é burro. Sabe bem o valor que tem.

– Tem certeza disso? – questiono.

As palavras de Philip de meses atrás ecoam na minha mente. Você obviamente não deixou de ser burro com a idade.

– Me diga, por que sua mãe não está me acusando? Nem mesmo Barron. Nem seu avô. Eles me deixariam entrar aqui se achassem que sou o responsável pela morte de Philip? – Consigo ver um músculo saltando no maxilar dele de tanto que aperta os dentes. Se batesse nele agora, sua tensão faria o golpe doer muito mais. Ele claramente não entra numa briga há muito tempo.

Minha mão treme de fúria. Soco um vaso perto da porta. Ele se estilhaça; pedaços grossos de argila, água e flores caem no tapete.

– Você não lamenta a morte de Philip – digo por fim, respirando pesadamente com uma violência cega que só está começando a diminuir. Não sei o que pensar.

– Nem você – diz Zacharov, com a voz firme. – Não me diga que não está dormindo melhor à noite agora que ele está morto.

Nesse momento, odeio Zacharov mais do que sempre odiei.

– Você está se saindo muito mal em me convencer a não te dar um soco.

– Quero que venha trabalhar pra mim. Trabalhar pra mim de verdade – diz Zacharov.

– De jeito nenhum – respondo, mas isso me faz perceber que, ao perder Philip, Zacharov perdeu metade do poder que tinha sobre mim. Ou até mais, porque, se não posso confiar em sua palavra, todas as futuras ameaças ficam vazias. Se ele me obriga a fazer uma coisa sob ameaça e a ameaça se realiza mesmo que eu cumpra minha parte, não há muita razão para que eu continue fazendo o que ele manda. A morte de Philip custou a ele influência e, quando eu percebo isso, começo a acreditar que ele realmente não é o responsável. Sou valioso para ele; não é sempre que um mestre de transformação é praticamente jogado nos braços de um chefe da máfia.

Zacharov inclina a cabeça em direção à alcova com cortina na porta, aonde as pessoas vão para chorar escondidas. Eu o acompanho, inseguro. Ele se senta no longo banco. Eu fico de pé.

– Você é implacável e não tem medo de mim – diz ele baixinho. – Gosto dessas duas coisas, mas preferia que a última fosse equilibrada com um pouco de respeito. Você é o melhor tipo de assassino, Cassel Sharpe, o tipo que nunca suja as mãos de sangue. O tipo que nunca precisa se enjoar ao ver o que fez nem passa a gostar demais disso.

Eu me arrepio até os ossos.

– Venha trabalhar pra mim, Cassel, e terá minha proteção. Para seu irmão. Para sua mãe. Para seu avô, embora eu já o considere um dos meus. Minha proteção e uma vida muito confortável.

– Então você quer que eu... – Eu começo a falar, mas ele me interrompe.

– A morte de Philip não deveria ter acontecido. Se eu tivesse pessoas tomando conta dele, não teria acontecido. Deixe-me cuidar de você. Deixe seus inimigos se tornarem meus.

– É, e os seus se tornarem meus. Não, obrigado. – Eu sacudo a cabeça. – Não quero ser um assassino.

Ele sorri.

– Você pode transformar nossos colegas em coisas vivas, se isso o ajudar a dormir melhor. Eles serão removidos efetivamente do mesmo jeito.

– Isso não vai acontecer – respondo, pensando na gata branca me observando com olhos brilhantes.

– Já aconteceu. Talvez Barron tenha feito você esquecer o que fez, mas agora você lembra. Provou isso quando desfez um de seus feitiços.

– Foi da sua filha o feitiço que desfiz – digo.

Zacharov respira fundo e solta o ar lentamente.

– Aconteceu, Cassel. Você sabe como trabalhar. E um dia desses vai se ver numa situação em que será tentador. E depois mais do que tentador; não vai haver outro jeito. Acorde. Você é um de nós.

– Ainda não – digo. – Não completamente. – E isso é tudo a que posso me apegar.

– Você vai pensar em minha proposta – diz ele. – Vai pensar nela quando se der conta de que há pessoas perto de você com as quais vai acabar tendo que lidar.

– Você está falando de Barron – comento, impressionado. – Você é um filho da puta por insinuar no velório de um dos meus irmãos que eu pensaria em matar o outro.

Zacharov fica de pé e tira a poeira da calça.

– Não fui eu quem pensou nele. – Ele sorri. – Mas você está certo, sou um filho da puta. E algum dia você vai precisar de mim.

Em seguida, ele volta para o velório.

Lila me encontra. Estou olhando para o tecido do banco, imaginando quantas pessoas já choraram ali. Fico me perguntando se o interior do pano está cheio de sal, como um cobertor que foi mergulhado na água do mar. Estou ficando um pouco maluco.

– Oi – diz ela, me entregando um copo de café, a boca ainda cor de sangue. – Um dos amigos de Philip está fazendo o discurso agora. Acho que está contando a história da primeira vez que assaltaram uma loja de bebidas.

Pego o copo. Acho que a única coisa que ingeri nos últimos três dias foi café. Eu deveria estar quicando nas paredes. Talvez isso explique a tentativa de atacar o pai dela.

– Você devia voltar para lá. Eu não vou... Não posso... – Sacudo a cabeça para indicar a enormidade das coisas que não consigo fazer. Por exemplo, não consigo contar a verdade sobre o que sinto por ela. E não tenho certeza de que consigo continuar mentindo.

Desejo tanto você que faria quase qualquer coisa para tê-la.

Por favor, me permita não querer fazer isso.

– Nós éramos amigos – diz ela. – Mesmo que não houvesse mais nada.

– Ainda somos amigos – digo automaticamente, porque quero muito que seja verdade.

– Que bom então. – Ela se senta ao meu lado no banco. – Não quero que você fique zangado por eu estar aqui. Não vou pular em você nem nada.

Dou uma risada.

– Minha virtude está segura, então? Graças a Deus.

Ela revira os olhos.

– Não. Eu entendo por que você veio. Deve ser bom vê-lo morto. – Penso nas palavras de Zacharov sobre dormir melhor à noite, embora me recuse firmemente a aplicá-las a mim mesmo. – Você deve se sentir mais segura.

Ela me olha boquiaberta, como se não conseguisse acreditar no que acabei de dizer. Em seguida, ri.

– É difícil ser uma garota de novo, uma garota humana com mãos e pés, roupas e escola. É difícil falar quando fiquei tanto tempo sem praticar. E às vezes sinto... – Ela mesma se interrompe.

– O quê?

– Como se... Não sei. É o velório do seu irmão. Deveríamos estar falando sobre seus sentimentos.

Tomo um longo e agradável gole do café.

– Sinceramente, é a última coisa que quero fazer.

– Posso ser um ótimo consolo – diz ela com um pequeno sorriso travesso.

– Ei... Minha virtude, lembra? Vamos, me conte o que ia dizer.

Ela chuta a parede de leve com um dos sapatos pretos e brilhantes de salto. Consigo ver seu dedão pela abertura na frente. A unha está pintada com um azul intenso.

– Tudo bem. Você já sentiu tanta raiva que achou que poderia devorar o mundo todo e, ainda assim, não ficar satisfeito? Como se não soubesse como acabar com esse sentimento? E isso assusta você, mas também só o deixa com mais raiva?

– Achei que não íamos falar dos meus sentimentos – digo, disfarçando com humor, porque sei exatamente o que ela quer dizer. É como se Lila estivesse expondo meus pensamentos em voz alta.

Ela olha para o chão com um sorriso singelo.

– Não estou.

– Sei – digo lentamente. – Sei.

– Tem dias em que odeio tudo. – Ela olha para mim com seriedade.

– Eu também – respondo. – Principalmente hoje. Não sei o que sentir. Philip. Quero dizer, não éramos próximos, é claro. E agora, olhando pra trás, será que ele tinha vergonha de ter me usado daquela forma? Era por isso que não conseguia me olhar nos olhos? Mas, por outro lado, quando acabou, foi ele que não conseguiu me perdoar. Podíamos ter concordado que estávamos quites... Certo, não exatamente quites, mas quase isso. No entanto, era como se ele não conseguisse encarar nada que tinha feito e como se eu fosse o inimigo. Como se eu não fosse nem mais humano para ele. Como se não fosse o irmão dele.

Eu devia calar a boca, mas não calo.

– E agora, você. Você era a única amiga de verdade que tive em anos. Quero dizer, eu tinha amigos na escola, mas aí mamãe fazia alguma besteira ou nos mudava de colégio por causa de algum golpe que estava tramando, ou eles descobriam que eu era de uma família de mestres, e era o fim da amizade. Com você era diferente. Houve uma época em que eu podia te contar qualquer coisa. Mas aí pensei que tivesse te matado e agora que tenho você de volta não posso. Você... Ela tirou...

Lila se inclina suavemente em minha direção. O toque dos lábios dela é macio na minha bochecha.

Fecho os olhos. A respiração dela é quente, e bastaria um pequeno movimento da minha boca, uma leve concordância, para que nos beijássemos. Beijar Lila acabaria com meu sofrimento, dor e culpa. É tudo que quero no mundo.

– Você vai ter todas as coisas que pensa que não pode ter. – Ela sussurra esticando a mão para limpar o batom vermelho da minha bochecha. – Só não sabe disso ainda.

Suspiro ao sentir o toque da luva dela.

Depois que os discursos chegam ao fim, vovô me leva para uma limusine preta. Eu me sento ao lado da minha mãe, que já está tomando uma bebida do frigobar. É alguma coisa marrom, de uma garrafa com fundo pesado. Barron entra depois de mim.

Ficamos em silêncio no trajeto. Ouço o barulho de cubos de gelo, o som de respiração entrecortada. Fecho os olhos.

– Não sei o que fazer com todas as coisas de Philip – diz mamãe de repente. – Maura não vem buscar. Vamos ter que colocar tudo no antigo quarto dele lá em casa.

Vovô geme.

– Acabei de arrumar aquela casa.

– É melhor vocês dois encaixotarem tudo depois que a polícia terminar – diz mamãe, ignorando vovô, a voz beirando a histeria. – O filho dele pode querer um dia.

– O filho dele não vai querer – diz Barron com cansaço.

– Você não tem como saber. – Ela enche o copo novamente, mas a limusine passa por um buraco, e a bebida cai no seu vestido. Ela começa a chorar, não do jeito escandaloso de antes, mas com soluços baixos que sacodem todo seu corpo.

Pego alguns guardanapos e tento secar o líquido. Ela empurra minha mão.

– Você não tem como saber – diz ela para Barron em meio às lágrimas. – Olhe para Cassel. É o terno do pai dele.

– É, e saiu de moda há uns milhões de anos – comenta Barron.

Eu dou de ombros, fingindo concordar.

Vovô sorri.

– Vai ficar tudo bem, Shandra – afirma ele.

Mamãe balança a cabeça.

– Poupe o garoto de ficar parecido com Cassel – diz Barron. – Jogue tudo fora. Além do mais, fiquei sabendo de um cara em Princeton que quer comprar um quadro. Preciso de ajuda em um plano. Vamos comprar uma dezena de ternos de seda.

Mamãe funga e engole o resto da bebida.

O enterro acontece debaixo de chuva. Barron e eu dividimos um guarda-chuva, o que significa que tem água caindo constantemente no meu pescoço. Barron passa o braço por cima dos meus ombros e eu me encosto nele por um momento, como se ele realmente agisse como um irmão mais velho que quer proteger o mais novo. A cerimônia é simples, pois todos os discursos já foram feitos. Até as lágrimas da minha mãe parecem cansadas.

Ou talvez nem ela consiga competir com o tempo.

Quando acaba, Lila e o pai entram na parte de trás de um carro, e os guarda-costas os levam dali. Ela acena para mim discretamente ao entrar.

O restante de nós vai até a casa do meu avô para a recepção. As senhoras de Carney estão lá em peso, e a mesa de jantar do vovô está estalando sob o peso dos ensopados, tortas e bandejas de frios.

Uma mulher de meia-idade em um terninho preto de tweed está cochichando com uma amiga. A outra mulher ri e fala:

– Ah, não, Pearl! Já fui casada três vezes e nunca deixei que nenhum deles me visse sem luvas, muito menos que tirasse a dele.

Eu sigo para a cozinha.

Mamãe me para quando estou saindo da sala. Os contornos dos olhos dela ainda trazem os restos cinzentos da maquiagem, fazendo seus olhos parecerem fundos. Assombrados.

– Querido – diz ela.

– Mamãe – respondo, tentando escapar. Quero distância dela. Já sinto coisas demais. Não aguento a ideia de sentir mais nada.

– Sei que você sempre admirou Philip – diz ela, como se os últimos seis meses nunca tivessem acontecido. Como se os últimos três anos nunca tivessem acontecido. Seu hálito cheira a bebida. – Mas nós dois precisamos ser fortes.

Não digo nada. Não confio em mim mesmo para falar.

– Barron diz que eu deveria ir morar com ele; que está preocupado de eu ficar sozinha.

– Isso é ótimo – digo, e estou sendo sincero. Talvez ele consiga distraí-la.

Uma das mulheres que trouxe o ensopado chega para consolar minha mãe. Eu saio enquanto dá. Sam vai atrás de mim, parecendo um pouco abalado. Acho que ele não está acostumado com tantos criminosos exibindo seus pescoços cheios de cicatrizes em um único lugar. Daneca fica na sala de jantar, claramente fascinada por estar no meio de uma festa de mestres, em uma das cidades de mestres mais conhecidas.

Eu me preparo para cair de bêbado da maneira mais eficiente possível: pego uma garrafa de vodca do armário de bebidas do vovô, três copos pequenos na cozinha e me dirijo automaticamente ao porão.

O porão está exatamente como eu lembro, de todos os verões que passei aqui. Frio e úmido, com um leve cheiro de mofo. Afundo no sofá de couro em frente à televisão.

Coloco os copos sobre a mesa de centro, sirvo uma dose nos três e engulo um de cada vez, com raiva.

Eu me sinto melhor, mas também pior, ali. Melhor porque as lembranças estão tão próximas, pior justamente por causa delas.

– Ah – digo, olhando para Sam. – Eu devia ter trazido outro copo pra você.

Ele ergue a sobrancelha e pega um dos meus.

– Que tal eu pegar esse aqui da ponta?

– Lila e eu costumávamos vir muito aqui. Para ver filmes – digo, apontando vagamente para o aparelho.

Philip, Barron e eu também passamos muito tempo ali. Eu me lembro de deitar no chão e jogar batalha naval com Philip, de rir tanto que tinha medo de fazer xixi na calça. Eu me lembro de Anton e Philip adolescentes nos proibindo de entrar ali enquanto viam um filme de terror. Barron e eu, então, sentávamos na escada, não tecnicamente no porão, assistindo do escuro para não arrumarmos confusão, completamente apavorados.

Eu me sirvo de mais duas doses. Contra a vontade, sirvo uma para Sam também.

– O que está acontecendo entre você e Lila? – pergunta ele. – Achei que gostasse dela... Sabe, ano passado, quando fizemos aquele negócio. Mas você a tem evitado desde que começamos em Wallingford.

A repulsa por mim mesmo me permite engolir o álcool sem fazer careta.

– Não quero falar sobre isso – retruco, balançando a cabeça. – Não aqui. Não hoje.

– Tudo bem – diz Sam com uma falsa sensibilidade na voz. – Sobre o que você quer falar?

– Minha nova carreira – respondo. – Vou ajudar o FBI a pegar o assassino do meu irmão. Vai ser como em Band of the Banned.

– Ninguém assiste a esse programa – diz Sam. – Ninguém com menos de cinquenta anos.

Alguém está descendo a escada. Sirvo outra rodada de bebidas, para o caso de o recém-chegado estar planejando roubar minha garrafa. No meio dessa gente, nunca se sabe.

– Um maravilhoso exemplo de cinema-verdade – declaro. – Vai ser minha nova vida. E vou ganhar um distintivo, uma arma e caçar malfeitores. – Sou tomado por uma sensação de bem-estar. Tudo parece perfeito. Como um sonho do qual não quero acordar.

– Você acabou de dizer “malfeitores”? – pergunta Daneca, sentando-se ao nosso lado no sofá. – Você sabia que Betty Açougueira está lá em cima? E está com uma máscara dourada. Isso significa que deve ser verdade! Matar o marido deve ter feito o nariz dela apodrecer e cair.

Aponto para as doses de bebida que servi. Ela pega uma. Eu me sinto muito nobre. E um tanto tonto.

– É assim que pretendo chamá-los quando os capturar. Malfeitores. Quer dizer, não Betty. Eu só chamaria Betty pelo nome. Bem, eu a chamo de tia Betty, mas mesmo assim.

– Não estou muito certo – diz Sam para Daneca –, mas acho que nosso amigo bêbado aqui está alegando que foi abordado por agentes federais.

– Eles me deram arquivos – digo com satisfação.

– Você tem mesmo muita sorte – diz Daneca.

Ficamos sentados no porão, bebendo sem parar até que eu desmaio no velho sofá de couro. A última coisa de que me lembro é reparar indistintamente em Sam e Daneca se beijando no chão. Quero pegar um copo de água, mas não quero atrapalhá-los, então fico onde estou e fecho os olhos com muita força.

Quando acordo, Sam e Daneca estão encolhidos juntos no tapete, sob uma colcha. Vou para a cozinha, enfio a cabeça debaixo da torneira e tomo o máximo de água que consigo.

A luz da cozinha ilumina lá fora, e vejo pela janela que parou de chover. Também consigo ver vovô sentado em uma cadeira no jardim, olhando para a vastidão escura do quintal lamacento e para o galpão caindo aos pedaços, com uma cerveja na mão. Ainda me sinto um pouco tonto.

Deixo a porta de tela bater quando saio para me juntar a ele, que mal olha para cima.

– Oi – digo enquanto tento abrir outra cadeira.

– Você está com uma aparência péssima – fala vovô, tirando um cachimbo do bolso e enchendo-o de tabaco. – É melhor se sentar antes que caia.

Eu me sento, cambaleando. A cadeira range.

– Desde quando fuma charuto?

– Não fumo – responde ele, acendendo um fósforo e encostando-o no tabaco. – Parei anos atrás, quando Shandra nasceu.

– Certo – digo. – Que bobo eu sou.

– Nós não podíamos ter filhos, eu e sua avó. Mary sofreu muitos abortos. Foi muito difícil para ela. Ficava de repouso na cama ao menor sinal de gravidez. Os médicos disseram que era um problema com o fator Rh, mas eu achava que era por causa dos meus feitiços de morte. Achava que talvez o rebote me impedisse de ter bebês saudáveis. Pode ser superstição, mas, quando parei de matar pessoas com maldições, sua mãe nasceu.

– Eu achava que não se podia largar esse tipo de trabalho – digo.

– Os Zacharov não teriam permitido que eu deixasse de ser um assassino, mas ninguém me diz como matar. – Uma fumaça doce sobe do cachimbo. – Um homem deve ser especialista naquilo que faz.

– Ah – digo. Embora eu o tenha visto matar Anton, ainda é difícil pensar em meu avô como alguém perigoso. Mas tenho que lembrar que ele já era um assassino quando o assustador pai de Lila era só um garoto.

– A magia nos dá muitas escolhas – diz vovô. – A maioria delas é ruim.

Ele toma outro gole da cerveja.

Eu me pergunto se esse é meu futuro. Escolhas ruins. Porque sem dúvida se parece muito com meu presente.

– Se eu tivesse feito diferente – continua vovô –, talvez seu irmão estivesse vivo agora. Eu e Mary mimamos muito sua mãe, mas não a mantive afastada da vida criminosa como deveria. Achávamos que, por ela não ter se unido oficialmente a nenhuma máfia, vocês poderiam ter outro tipo de vida, mas eu acabava deixando vocês virem para cá nas férias de verão. Queria ver meus netos.

– Nós também queríamos te ver – respondo. Minha voz soa um pouco arrastada. Por um instante, sinto tanta saudade de ser criança que chega a doer. Sinto saudade do meu pai estar vivo. De correr no gramado de vovô com o aspersor do jardim ligado.

– Eu sei. – Ele dá tapinhas no meu ombro. – Mas também não mantive vocês três longe do crime. Acho que pensei que levar o cavalo até a água não significava que eu o estivava obrigando a beber.

Eu sacudo a cabeça.

– Nós nascemos nessa vida. Assim como todos os outros filhos de mestres da maldição do mundo. Você não poderia nos manter fora disso, mesmo que tentasse.

– Philip está morto aos vinte e três anos. E eu ainda estou aqui. Isso não está certo. – Ele sacode a cabeça.

Não tenho nada a dizer sobre isso, exceto que, se tivesse que escolher entre ele e Philip, seria fácil. Eu o escolheria sem pensar. Como sei que ele não deseja ouvir isso, tomo um gole de sua cerveja e o acompanho na contemplação do gramado lamacento e das estrelas pálidas.