O amor que partiu o mundo
Capítulo 8
8
— LEMBRE-SE: VOCÊ vai ter que falar com ele em algum momento — diz Megan, delicadamente. Com o jipe naquele estado geriátrico, decidimos
ir no Civic dela, que vai roncando do pequeno estacionamento da igreja presbiteriana até o cascalho do acesso para carros que dá na casa dos
Kincaid, uma área que eles abrem para visitas todo outono quando montam o labirinto de milho e onde realizam cerimônias de casamento. — Não é
como se você e Matt nunca tivessem brigado antes.
— Já discutimos antes — corrijo. — E mesmo aquilo foi meio que só a
gente suspirando de um lado para o outro até um dos dois desistir. Isso foi diferente. Foi mais como se ele tivesse me dado uma cotovelada no peito
usando palavras e eu tivesse dado uma cabeçada verbal nele.
Megan revira os olhos.
— Você poderia ter castrado ele não verbalmente e ainda assim ele iria querer que você viesse.
— O objetivo de terminarmos era não ter mais que brigar.
— Você quer dizer discutir — implica ela. — E achei que o objetivo de
terem terminado era vocês não arrastarem as coisas até acabarem se odiando. O objetivo era proteger a amizade.
Dou de ombros.
— Talvez tivesse sido melhor deixar ele me odiar.
— Então você devia ter tentado arrumar uma personalidade pior e uma cara mais feia. — Ela estica a mão para apertar a minha no escuro. — Vai
ficar tudo bem.
O estacionamento ao lado do celeiro já está cheio, por isso paramos na
beirada do acesso de cascalho, de onde dá para ouvir a música bombando dentro da casa. Os pais de Matt estão fora da cidade neste fim de semana, assegurando que 1) esta festa vai sair do controle e 2) não vou ter que ouvir a frase estou tão desconsolada que nossos netinhos não vão ter a sua cor da
Joyce Só Come Coisa Bege.
— Hoje vai ser divertido — insiste Megan. Saímos do carro, subimos os
últimos metros da entrada íngreme, atravessamos o estacionamento e somos recebidas com uma ovação levantada pelas pessoas empoleiradas na beirada
da caçamba da camionete do Derek. Até Rachel parece genuinamente feliz de nos ver, como nos velhos tempos.
— Feliz aniversário, Matt. Aceite esta oferenda de Heaven Hill — diz Megan, erguendo uma garrafa de bourbon.
Matt se levanta, sorrindo e oscilando como um colmo de milho na ventania.
— Segura, peão — grita Rachel, agarrando um punhado da camisa dele para estabilizá-lo. — Tenta não quebrar o pescoço no seu aniversário.
— Subam, subam aqui — diz Matt para a gente, balançando os braços selvagemente. Nunca o vi tão bêbado antes, e não sei bem o que pensar a
respeito. Ainda assim, depois da nossa briga, só estou aliviada por ele estar feliz de me ver.
— Você está em bela forma — falo, tentando soar despreocupada.
Derek gargalha.
— Bela forma? Esse é o típico Matt Kincaid. Agora que você não está mais segurando a coleira, o garoto gosta de se divertir.
— Ah, calaboca — diz Matt, dando um tapa atabalhoado no braço de Derek. — Subam aqui, garotas.
— Tem espaço? — pergunto, correndo os olhos pela camionete lotada.
— Claro que tem espaço, Nat — responde Matt. — Vem cá.
— Vocês duas — diz Rachel, apontando para duas alunas do ano anterior. — Fora. Foi mal, é a vontade do aniversariante.
As garotas trocam olhares ultrajados, mas acabam obedecendo, e Matt ajuda a nos puxar — ou pelo menos ele está mal o suficiente para achar que está ajudando.
— Não acredito — diz Derek. — Bebê Matt está com 18 aninhos.
Estamos crescidos.
— Você tá zoando, né? — questiona Rachel. — Há cinco minutos você
me pediu para tirar uma foto da sua bunda pelada com a do burro.
— Ah, éééé — fala Derek, se levantando de um pulo. — Eu quase
esqueci isso. Vem cá, vamos tirar.
— Cara, não.
— Por que não?
— Por que não? Eu não sou fotógrafa de bunda, e tenho certeza de que
você vai mandar a foto para algumas pobres calouras e traumatizá-las para sempre.
Ele ergue a mão dela e dá um beijo cortês.
— Minha bela, magnífica Rachel. Você poderia fazer de mim o homem
mais feliz do planeta tirando uma foto da minha bunda com aquela bunda?
— Tá — resmunga ela.
Enquanto eles cambaleiam até o celeiro, vejo Jack e Coco de pé num canto em um semicírculo de meninas do primeiro e do segundo ano. Como
sempre, a atenção do grupo está unanimemente fixada em Coco e sua melhor amiga, Abby, e Jack sorri como um pateta ao lado. Ele sempre
andou com as meninas, assim como Coco com os garotos; por ser quatro minutos mais novo, ele sempre deixa ela determinar onde, como e com
quem passam o tempo deles. No segundo em que virei a irmã mais velha, essa minha função já tinha ficado obsoleta. Assistir de longe sempre foi
meu modus operandi.
Megan se deita na caçamba da camionete ao meu lado, e percebo que o
restante do grupo se separou. Ficamos só nos duas e Matt agora, como costumava ser. Eu me deito também, e aí Matt faz o mesmo, e nós três
olhamos para o céu.
— Olha — chama Megan —, o Grande Carro.
— Como assim um carro? — pergunta Matt com a voz arrastada. — Quer dizer, pensa só.
— É um jeito antigo de dizer carretel — diz Megan.
— É uma carruagem — discordo. Pelo menos é uma das minhas favoritas
dentre as explicações que a Avó me deu. — Carrega as almas dos bons pela Via Láctea, a so-lo-pi he-ni, a Cidade do Oeste, quando morrem.
— So-lo-pi he-ni — repete Megan, sonhadora.
— Sssolopaheenu — diz Matt.
— Ei! — exclama uma nova voz ao pé da camionete. Olho para baixo, na direção dos meus pés, e vejo Brian Walters, nome famoso na equipe de
futebol, com seus bonitos olhos azuis fixos na Megan.
Megan se senta depressa, ajeitando a alça da regata no ombro e jogando a
franja para o lado.
— Oi.
— Você já foi ver os bichos? — pergunta ele, transferindo o peso de uma perna para a outra, sem jeito.
— Não, ainda não — responde Megan, como se todos não já tivéssemos visto as vacas e as cabras e o burro de Matt mil vezes.
— Nem eu — diz ele, assentindo.
Olho de volta para o céu, me encolhendo.
— Bem, o que é que vocês dois estão esperando? — indago. — Se vocês correrem, talvez possam ver a bunda em exibição no celeiro neste
momento.
Megan se apressa para a beirada da caçamba e desce de um pulo,
levantando a calça jeans pela cintura e espanando pedaços desgarrados de feno das roupas.
— Isso eu não posso perder.
Eu os observo caminhar até as portas abertas do celeiro, a luz dourada se
derramando pela grama macia e franzina e pelo cascalho no estacionamento, de repente integralmente consciente do fato de estar a sós com Matt.
— Bom, isso me deu vontade de arrancar minha própria cara — digo. — Desde quando Brian é tímido desse jeito?
Matt não responde, e ficamos ali deitados por mais um tempo, contemplando as estrelas e todas as suas histórias no mais absoluto silêncio.
— Nem tudo foi ruim, não é, Nat? — pergunta ele, enfim.
— Nem tudo o quê?
— Com a gente.
— É claro que não — digo. — Quase nada foi ruim.
— Foooi o que pensei também — fala, arrastado. — Não quero você pensando que eu amo você apesar das coisas. Odeio ter feito você se sentir
assim.
— Matt, você foi um ótimo namorado. Não foi esse o problema.
— Você ficava sempre tão bonita na beirada do campo com aquele rabo de cavalo — murmura ele. — Me dava vontade de vencer para te deixar
orgulhosa.
— Eu sempre tive orgulho — digo. É verdade. — Você joga futebol
americano como se fosse uma ciência. Você me fez amar o jogo.
Ele ri.
— Você não ama o jogo.
— Certo, tolerar então — corrijo. — Às vezes até curtir.
É verdade que nunca amei, e provavelmente nunca vou amar, o futebol americano. Mas observar Matt jogando, e Jack também, sempre me deixou
fascinada. O lance com o futebol americano é que, uma vez que você consiga superar o sistema de pontuação e o fanatismo, é exatamente como
qualquer outro hobby ou habilidade: tem a técnica que em geral é acordada, e tem o estilo pessoal. O último, para quem está prestando atenção, é uma
janela para a alma da pessoa. O estilo pessoal é a mamãe depois de um pouco de vinho tinto, andando como se pretendesse restaurar a ordem e a beleza ao mundo unicamente através de sua postura. É Rachel dançando como se estivesse lutando para se livrar de areia movediça, é Megan
correndo pelo campo como se estivesse boiando no oceano. E é Matt Kincaid jogando futebol americano com suas jogadas ordeiras, como se ele
estivesse seguindo uma lista de afazeres.
Ele está sempre no lugar certo na hora certa, raramente rápido ou lento
demais. Ele corre, olha para cima, encontra o jogador livre, e lança a bola naquela direção no momento preciso; ele não tem que acelerar ou diminuir
o passo ou recuar, mesmo quando avança com a bola. Ele simplesmente a segura como se fosse uma barra de ouro conforme se esquiva dos jogadores
posicionados na linha e pula por cima de corpos caídos como se fossem córregos estreitos e ele fosse uma gazela. Passa com facilidade pelas
tentativas de derrubá-lo e faz o ponto quando soa o último sinal. Praticamente cada uma das jogadas dele parece a centésima tomada de uma
cena coreografada de luta de espadas.
— Eu estava pensando — murmura ele, e seus olhos desfocados se
movem na minha direção. — Você se lembra da nossa primeira música?
Vasculho minha memória.
— Não parece que tivemos primeiras vezes de nada. Acho que eu nem percebi que a gente estava namorando pelos, tipo, primeiros seis meses.
— Bem, eu me lembro — replica ele.
— Lembra nada.
— Aham.
— Canta, então — peço.
Ele começa a cantarolar uma coisa que parece várias músicas diferentes reunidas em uma, e começo a gargalhar do lado dele até sentir a parte de
trás da mão dele roçar a minha. Ficamos em silêncio e, depois de um segundo, ele passa os dedos pelos meus. O choque me deixa paralisada.
— Por que você me afastou, Nat? — pergunta ele. — Você era tudo para mim. Eu amava tanto você.
— Não é tão simples — falo, estremecida. Meu coração está martelando como se eu estivesse correndo, e só consigo rezar para que alguém nos
interrompa, e logo, porque não quero que isto aconteça. Eu não quero continuar fazendo Matt passar por isto.
— Eu amo você — confessa ele. — É tão difícil, Nat, não poder conversar com você sobre tudo. Eu nem sinto que sou eu mesmo
ultimamente. É tão difícil, e eu amo você.
Também o amo. Não acho que eu conseguiria conhecer alguém tão bem
quanto conheço Matt e não amar a pessoa.
— Matt… — murmuro.
— Eu poderia ser melhor — diz ele. — Eu poderia fazer você feliz, se você me dissesse do que precisa.
— Matt, você não pode fazer todo mundo feliz. Você não pode ser tudo o que todo mundo espera que você seja e, principalmente, não pode ser o que
eu preciso e o que todo mundo precisa que você seja, porque o que eu preciso é parar de tentar me encaixar neste lugar e ir para um lugar novo.
— Você vai encontrar outra pessoa — diz ele, baixinho. — Na faculdade. Eu sei que vai. Mas eu não.
— É claro que vai, Matt.
— Eu não quero.
— Alguma hora vai querer.
— Ninguém vai ser você — diz ele.
— Vamos ter que seguir em frente, Matt. Ou só vai ficar mais difícil.
— Não tem que ser assim — insiste ele. Os olhos dele estão suaves, fixos
nos meus, próximos demais do meu rosto. Quando me dou conta, ele está me beijando. Ainda assim, meu cérebro se encontra em um frenesi de
pânico em que parte de mim quase acha que impedi-lo seria errado ou falta de educação enquanto o restante de mim sabe que não quero isso. A
sensação para ele deve ser de estar beijando um peixe morto, mas isso não parece dissuadi-lo.
Finalmente, empurro de leve o peito dele, mas ou ele não sente ou ignora, e agora eu fico apavorada.
— Matt — digo, mas minha voz fica perdida na boca dele. Eu empurro mais forte, e desta vez eu sei que ele sente, mas ele simplesmente continua
me beijando. Eu falo de novo, empurro de novo, e ele me puxa mais para perto, uma das mãos passando pela barra da minha camisa com
agressividade demais.
— Matt — falo com rispidez, mas então ele pressiona meu quadril para
baixo quando tento me sentar. Eu o empurro com força para trás, e ele rola para longe de mim e se senta, piscando no escuro.
— Eu… — Não sei o que pretendo dizer, mas não tenho tempo de descobrir antes de ele meio que cair da picape e andar com passos firmes na
direção da casa dele.
Meu corpo inteiro está tremendo, minha mente pulsando atordoada com
as ondas de mágoa e confusão.
Por que fui fazer isso?
Não sei quanto tempo passo sentada ali tremendo, completamente presa num ciclo de perguntas sem resposta, antes de finalmente conseguir sair
dessa e perceber que eu não fiz nada. E agora estou brava.
É apenas a segunda vez em que fico realmente brava com Matt. Só quero
ir para casa, mas tem essa voz na minha cabeça que diz não, isso você não pode deixar barato. Porque não foi minha culpa, e ele não devia ter me
beijado e, acima de tudo, ele não devia ter me deixado com medo. Eu não devia ter ficado com medo nos braços do meu primeiro amor.
As lágrimas de raiva começam quando desço cambaleando da camionete e sigo na direção da casa. Ouço vagamente Jack me chamando, mas o
ignoro. Tem gente na cozinha cheia de decorações artesanais rurais de Joyce, algumas reclinadas no macio sofá floral da sala de estar, mas Matt
não está ali. Entro no corredor, tentando segurar o choro quando bato à porta.
Ele não responde, mas, se ele não respeitou meu espaço, por que eu deveria respeitar o dele? Matt Kincaid me magoou e esta noite não tem
como piorar.
Então escancaro a porta e, ai meu Deus, as coisas pioram.
Meus olhos pousam em Rachel, que dá um gritinho surpreso e se joga apressadamente para o lado, saindo de cima de Matt, quase caindo da cama.
Ela logo fica de pé, envolvendo o corpo com os braços, constrangida, mas Matt ainda está estirado no edredom despreocupado. Desejo que eu tivesse
me virado assim que meus olhos os reconheceram, mas há algo tão impossível na situação que estou completamente paralisada.
— Céus, Natalie! — gane Rachel, o rosto ruborizado e os olhos arregalados e perdidos no branco. — Já ouviu falar em bater na porta?
O olhar no rosto de Matt é a pior parte. Ele parece puto, mas meio que contente a respeito da coisa toda, como se não pudesse ter planejado
melhor. Eu me viro e corro pelo corredor e, desta vez, diferente de todas as outras, Matt não vem atrás de mim.
Corro pela sala de estar e pela cozinha e irrompo no estacionamento, soluços abrindo caminho para fora de mim como madeira se partindo.
Tenho que sair daqui.
Giro o corpo, em busca de Megan, de alguém em quem me segurar. De
repente tudo fica diferente, e perco o chão. O antigo celeiro vermelho tão familiar desapareceu e, no lugar dele, tem um gigantesco armazém azul-
bebê e branco que parece novinho em folha. Ainda tem gente aqui, mas os detalhes estão completamente diferentes. Derek está na cabine da picape
dando uns pegas em Molly Haines, uma garota que o odeia desde que cometi o erro de armar um encontro para os dois no nono ano e, como se
isso não fosse estranho o bastante, o carro está estacionado em outro lugar. Corro até a entrada do acesso de cascalho, mas não consigo encontrar o
Civic de Megan em lugar nenhum. Está tudo errado, de um jeito apavorante em que não está errado o bastante para que eu tenha certeza de estar dormindo. Na realidade, tenho certeza de estar acordada, mas também tenho certeza de que o mundo não está certo, e as pessoas e os carros estacionados
e a música estão me sufocando, e não consigo respirar. Não tenho mais controle do meu corpo e me viro em busca de ajuda, então começo a correr,
tentando colocar o máximo de distância entre mim e aquele sinistro armazém azul.
Decolo pelo declive do acesso de cascalho. Quando chego ao fim do morro, começo a andar na direção da pequena ponte no bosque que liga a
fazenda dos Kincaid à igreja. Por favor, que isso pare agora. Por favor, que toda esta noite não tenha acontecido. Por favor, que eu consiga chegar a
um lugar em que tudo seja como sempre foi e o mundo fique estável e eu esteja segura.
Faróis intensos viram a curva da estrada e eu corro para o acostamento. Um calhambeque passa por mim, então dá ré para parar ao meu lado. O
brilho dos faróis é ofuscante, mas consigo ver a porta se abrir e alguém semicerrar os olhos na escuridão para me ver.
— Natalie?
Beau coloca as pernas para fora da picape e vem na minha direção.
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