O amor que partiu o mundo
Capítulo 4
4
— ESTA HISTÓRIA é verdadeira, menina — disse a Avó. — Portanto, escute com atenção.
— Você diz isso sobre todas elas — argumentei. Eu tinha nove anos e, até então, nenhuma das histórias parecera verdadeira.
— Todas elas foram verdadeiras — replicou a Avó. — Mas você vai achar que esta é mais verdadeira que as outras.
— Quer dizer que realmente aconteceu?
— Nenhuma história é mais verdadeira que outra que tenha a verdade em
seu coração.
— Do que é que você está falando? — perguntei.
— Histórias nascem da nossa consciência — disse ela, entrelaçando os dedos no colo. — Vêm de coisas que já sabemos. Vêm das coisas que
aprendemos com nossos ancestrais e familiares. Todos aprendemos coisas diferentes, dependendo de onde nascemos, então as histórias que você ouvir
serão diferentes. Assim como as coisas que os seus familiares decidirem fazer serão diferentes. Assim como as coisas que você decidir fazer serão
diferentes. A maneira de tomar as melhores decisões é ouvir todas as histórias e sabê-las de cor e senti-las. Você precisa saber, Natalie, que
nenhuma história é mais verdadeira que a própria verdade. Todas as histórias e todas as nossas vidas nasceram desta compreensão.
— Então, o que é a verdade?
— É difícil determinar. E por isso é tão importante escutar, e olhar tanto
para trás quanto para a frente pelos fios que a Avó Aranha tece entre as coisas. Você entende?
— Nunca entendo uma palavra do que você diz — respondi.
Ela deu de ombros.
— Bem, de qualquer forma, você vai gostar desta porque aconteceu, e um cara branco com um chapéu a escreveu e selou com cera para provar.
Começa em um lugar chamado Nee-ah-ga-rah ou, se você prefere dizer as coisas do jeito errado e estúpido, pode pronunciar “Niágara”, tipo Viagra.
Quer dizer águas troantes.
— A cachoeira?
— Essa mesma — confirmou a Avó. — Nee-ah-ga-rah era um lugar sagrado para o povo seneca, que acreditava que as quedas-d’água eram uma
porta de entrada para o mundo espiritual, os Afortunados Campos de Caça. Quando iam até lá, conseguiam ouvir o rugido de um poderoso espírito que
habitava as águas.
— Quer dizer que eles conseguiam ouvir a água — falei.
— Talvez — disse a Avó.
— Com certeza.
— Como você sabe?
— Porque espíritos não existem — falei.
— Como você sabe? — perguntou ela.
— Porque minha mãe me contou.
— E o que sua mãe lhe contou sobre mim? — perguntou ela e, quando não respondi, prosseguiu, com um toque de presunção: — Todo ano, os
seneca faziam um sacrifício: uma jovem donzela desse povo era entregue ao grande espírito da queda-d’água, e ser escolhida era considerado uma
grande honra. As mulheres competiam pela oportunidade de se deitar na canoa branca que faria a passagem pelas águas para dentro do mundo
espiritual. Lá, ela ficaria com o restante de sua estirpe e seria honrada por seu sacrifício.
“Em 1679, havia uma mulher forte e bela chamada Lela-wala, que desejava ser escolhida para o sacrifício daquele ano. Lela-wala era a filha
do chefe dos seneca Olho de Águia e, apesar de a esposa dele e seus outros filhos terem morrido anos antes, ele deu a bênção e Lela-wala foi escolhida para o sacrifício. Havia também um explorador francês chamado La Salle, que vivia junto aos seneca havia algum tempo, dedicado a convertê-los ao
cristianismo, como era o costume na época. Quando ele descobriu os planos do povo para sacrificar Lela-wala, foi até o chefe Olho de Águia e aos
outros líderes para implorar que detivessem o sacrifício.
“Mas eles não se deixaram persuadir. Um dos líderes da comunidade
respondeu a La Salle: ‘Suas palavras testemunham contra você. Você diz que Cristo nos deu o exemplo. Vamos segui-lo. Por que um sacrifício é
grandioso e o nosso é terrível?’
“E assim La Salle foi embora, arrasado e furioso com o chefe Olho de
Águia. Mas ele não entedia os seneca nem seus costumes. Ele não viu o pesar do chefe Olho de Águia diante da decisão da filha: o chefe era um
homem muito corajoso que tinha que honrar a filha e seu povo, apesar do quão preciosa Lela-wala era para ele. Enquanto ele era parte da grande teia
da vida e dos parentescos, tanto humanos quanto inumanos, ela era a coisa mais querida ao seu coração que ainda vivia.
“No dia do sacrifício, os seneca se reuniram na margem do rio para comemorar, com um banquete e músicas e danças e jogos, de acordo com o
ritual. Quando enfim chegou o momento de a canoa branca virar a curva, todos ficaram em silêncio e observaram quando o barquinho entrou no
campo de visão, decorado com frutas e flores em homenagem à vida e à morte de Lela-wala, e ao papel que ambas tinham na história desse povo
indígena.
“Porém, quando o barco entrou na agitação da corrente, o povo viu uma
segunda canoa branca deslizar de baixo das árvores na outra extremidade do rio. O pesar do chefe Olho de Águia fora tão profundo que ele decidira se
reunir a Lela-wala em seu sacrifício. A corrente o carregou velozmente até a queda-d’água, e logo ele estava ao lado da filha.
“Eles se entreolharam, as mãos estendidas sobre a água que os separava, e a comunidade perdeu a serenidade perfeita, um grito ao mesmo tempo de desespero e gratidão se erguendo entre eles. Juntas, as duas canoas brancas caíram pelas cataratas, e a donzela e o chefe deslizaram para os
Afortunados Campos de Caça, onde foram transformados em espírito puro e ficaram íntegros e limpos e fortes.
“Desse dia em diante, viveram sob as cataratas, onde o som dos rugidos é como uma música suave.”
— Você estava errada — falei, depois de um longo silêncio.
As sobrancelhas escuras da Avó se ergueram de súbito, e seus olhos
brilharam.
— Sobre o quê?
— Não gostei dessa história.
— E você achou que eu nunca errava.
Refleti bastante por um longo momento.
— Lela-wala e Olho de Águia foram mesmo para os Afortunados Campos
de Caça?
Ela refletiu bastante por um longo momento.
— Eu acredito que foram.
— Tenho medo de morrer — falei.
— Até Jesus teve medo de morrer, querida.
— Como você sabe disso?
— Eu sei tudo.
— Nem tudo.
— Certo. Eu li num livro, e senti que era verdade. Satisfeita?
— E a garota que caiu do céu estava assustada quando caiu, não foi? —
falei, e a Avó assentiu.
— Nenhum de nós está sozinho, Natalie. A história dela é a minha
história, é a sua história.
É NISSO QUE a música me faz pensar, e estou tão mergulhada na memória que levo um segundo para voltar à realidade quando o garoto para de tocar, estica o braço para pegar a garrafa no saco laminado em cima do piano e dá outro gole.
— Isso foi lindo — digo, atravessando a sala, e ele se vira no banco e cospe tudo o que estava na boca pelo carpete.
Ele passa o braço grosso e bronzeado pela boca e pergunta:
— Quem é você?
— Eu? — Dou uma risada. — Está falando sério?
Risos fluem pelo corredor, e o garoto agarra meu braço e me puxa na
direção do fundo da sala.
— Ei! — reclamo, tentando me soltar dele. — O que é que você está
fazendo?
Ele joga para o lado uma das cortinas que cobrem dois assentos de janela
profundos e um nicho com pilhas de cadeiras e suportes de metal para partitura. Ele me empurra para trás da cortina e entra depois de mim, bem
quando ouço as portas rangerem e a risada entrar na sala. Reconheço as vozes de imediato: Matt, Megan, Rachel e Derek Dillhorn.
— Não vai passar desta noite — diz Rachel, triunfante. — Vamos encontrar aquele fantasma.
— Ou poderíamos voltar para o estacionamento. A Nat já deve estar esperando a gente a esta altura — diz Matt.
— Deixa ela esperar — responde Rachel. — Eu não vou me formar sem uma boa história do Fantasma da Sala de Ensaios.
— Uuuh-uuuuh-uuuhh — zomba Derek. — O fantasma de um nerd… O que poderia ser mais assustador?
— Tá bom, pode dizer o que quiser — retruca Rachel —, mas, no verão passado, no aniversário de Matty, eu sem querer fiquei bêbada com a Kelly
Schweitzer e dei uns pegas em Wade Gordon, e, sem brincadeira, ele beijava muito bem para alguém que passa o tempo todo com a boca no
trombone.
— Como se você fosse lembrar — rebate Derek. — Você vomitou em Wade, e ele provavelmente ainda considera aquela a melhor noite da vida
dele.
— Aimeudeus, eu tinha me esquecido disso. — Rachel irrompe numa
risada histérica.
Olho para o garoto de pé entre a cortina e eu. Com o luar se infiltrando
pelas grandes janelas atrás de nós, consigo vê-lo com clareza. Definitivamente é o mesmo cara do campo. Quando os olhos dele descem
para encontrar os meus, ele leva um dedo aos lábios, então aproxima a boca da minha orelha e mal dá para ouvir o sussurro:
— Não quero estragar o fantasma deles.
Ele tem o sorriso de um garotinho tímido, completamente em desacordo
com seus olhos sérios castanho-esverdeados, os quais são difíceis de imaginar que possam parecer qualquer coisa exceto levemente preocupados.
Quando ele se afasta, aceno em compreensão.
Matt, Megan e os outros ainda se movimentam pela sala, e o não
fantasma e eu parecemos perceber ao mesmo tempo o que vai nos trair, porque ele aponta para os nossos pés. A cortina vai quase até o chão, mas
não chega a encostar; se meus amigos continuarem explorando o lugar, o mito do Fantasma da Sala de Ensaios estará prestes a ser desmascarado.
Ele estende a mão por cima do meu ombro para repousar a garrafa na janela côncava depois do assento atrás de mim. Seus olhos encontram os
meus, e as mãos dele pairam sobre meus quadris, oferecendo silenciosamente para me erguer para o assento. Faço que sim com a cabeça.
Quando ele me ergue, me sinto ruborizar, meu coração acelerando por estar tão próxima de um estranho. E não apenas por ele ser um estranho, mas
porque cerca de uma hora antes eu o observei olhando para a lua e então o ouvi tocar aquela música e agora estou perto daquela pessoa.
A pele e camiseta dele estão quentes, úmidas pela transpiração, e seu cabelo macio toca meu pescoço. A fragrância é um misto agradável de grama, suor e a bebida alcoólica doce na garrafa.
Ele me solta, e me movo em silêncio até ficar com as costas contra um
dos lados da profunda reentrância da janela. Mexo no meu rabo de cavalo só para ter o que fazer enquanto ele se alça até o assento e se apoia na
parede do outro lado, a cabeça jogada para trás e os lábios entreabertos.
Tento não olhar para ele; mas cada vez que cedo, ele está com aquele
sorriso tímido infantil que me faz sorrir como uma idiota em resposta. É tão constrangedor que desvio o olhar, mas, quando volto a encará-lo, acontece
de novo, só que pior. Depois de um tempo desisto e simplesmente me deixo ficar sentada no vão da janela, encarando este completo estranho, sorrindo
com todos os dentes à mostra enquanto meus amigos conversam diante de uma cortina vermelha do outro lado do mundo.
O garoto ergue a garrafa envolta em um saco laminado. Pego-a e dou um gole, ainda que, até onde eu saiba, ele possa ter herpes ou no mínimo ser o
tipo que nunca escova os dentes. O que quer que tenha dentro da garrafa, tem um gosto doce e provoca uma careta quando engulo. Quando abro os
olhos de novo, vejo os largos ombros do garoto meio que se encolherem numa risada silenciosa. Ele pega a garrafa de volta e a segura no colo.
— Onde vocês acham que a Natalie está? — O som da voz de Matt dizendo o meu nome me leva de volta para a conversa do outro lado da
cortina.
— Natalie, Natalie, Natalie — geme Rachel. — Sério, Matt, você não
sacou que desde que aquela garota entrou para Brown ela ficou boa demaaaais para nós, povinho de Union?
— Ah, cala a boca — diz Megan. — Matt, ela já deve estar no carro dela a esta altura.
— Tenta ligar de novo — sugere Matt.
Meu coração martela no peito quando começo a vasculhar a bolsa.
Consigo encontrar o celular e colocar no silencioso antes que Sheryl Crow e Stevie Nicks possam delatar meu esconderijo exigindo saber, sonoramente, se o mundo inteiro é “forte o suficiente para ser o meu homem”.
Mas meu telefone não chega a se iluminar com uma ligação, e Megan diz:
— Direto para a caixa postal.
Olho para a tela, esperando ver que estou sem sinal, mas, de acordo com
as barrinhas, tenho. Que lixo de celular.
— Talvez em vez de desperdiçar mais um minuto com a gente, ela
simplesmente tenha preferido começar a caminhar até Rhode Island — provocou Rachel. — Vai ver ela é tão esperta que já até construiu um carro
flutuante para levá-la.
— Ou vai ver ela invocou o espírito de um cavalo — diz Derek.
— Vocês são uns escrotos — critica Megan. — Vamos voltar para o estacionamento, Matt.
— Ah, a gente só estava brincando — explica Derek. — Você sabe que a gente ama Natalie.
Eles ainda estão conversando, mas a porta volta a ranger, e a ouço se fechar de novo, abafando a voz deles. Ouço a conversa recuar pelo corredor
e, por um longo tempo, o garoto e eu não nos movemos nem conversamos. Tenho dificuldade de erguer os olhos, e não me importo muito com o que
Rachel ou Derek dizem sobre mim, mas estou meio constrangida de terem falado na frente do estranho com quem agora preciso conversar.
Enfim encontro os olhos dele de novo e, depois de um longo instante de silêncio, ele inclina o queixo e diz:
— Oi.
Começo a rir, mas sai meio baixo e esquisito. Talvez seja porque está
escuro e ainda estamos sentados bem perto um do outro.
— Oi — respondo.
Ele oferece a garrafa para mim outra vez e a pego apesar de o que quer que tenha lá dentro ter um gosto nojento. Forço outro gole e tento esconder a dificuldade, sem conseguir. As sobrancelhas grossas dele tremem, o canto da boca se ergue, divertido, e lhe devolvo a garrafa.
— Pode ficar — diz ele, deixando a mão cair no colo. — Acho que você gosta mais do que eu.
— Ah, duvido muito. — Ofego.
Ele ri de novo e pega a garrafa, olhando para ela como se tentasse ler o
rótulo através do saco laminado.
— É, é bem ruim.
— O gosto lembra o mijo de Satanás quando ele está com infecção urinária. O que é isso?
— Não faço ideia — diz ele. A voz é baixa e meio lenta, mas de um jeito agradável. Ele soa como um mês de verão, e me pergunto de onde a família
dele é para o sotaque ser tão mais pesado que o da maior parte das pessoas daqui. — Foi um presente.
— Ah — falo. — Daí o papel de presente, imagino.
— Gostou? Coisa do meu pai… Ele pensa em tudo.
— Seu pai te deu Mijo Satânico de presente? Você quer que eu ligue para o juizado de menores? Estou aqui com o pior celular do mundo.
Ele dá outra daquelas risadas contidas, em que seus ombros se erguem e as sobrancelhas se curvam, mas não solta nenhum som de verdade, então dá
outro gole.
— Aquela música era realmente linda. O que era?
— Não sei — responde ele, olhando para a mão com um sorriso apagado. — Acho que ouvi em um comercial das Autopeças Usadas do Gary ou algo
assim.
— Ah, certo — digo. — Deve ter sido onde ouvi também. Pro pa gan das
sempre me comovem.
O canto esquerdo da boca dele se levanta, os olhos se erguem para os
meus, e eu ignoro o ímpeto de desviar o olhar.
— O que é que você estava fazendo aqui dentro, afinal? — pergunta ele.
— Eu por acaso estudo aqui — digo a ele. — Ou estudava, até hoje. O que é que você está fazendo aqui?
— Assombrando — responde, estendendo os braços para os lados. Mijo Satânico espirra pelo gargalo da garrafa, escorrendo pela mão dele para o
assento da janela, e ambos rimos e esticamos as mãos para a poça, lutando para limpar a sujeira, e fracassando. — Desculpa — diz ele, olhando para
mim por entre os fios de cabelo escuro que caíram em seu rosto. — Derramei uísque na sua escola toda. Meio indelicado da minha parte.
— Tudo bem. Sério, hoje foi meu último dia. Não preciso mais desta escola. Fique à vontade para derramar coisas nela.
— Mas tem um monte na sua mão também — observa ele. Quando olho minha mão, parada ao lado da dele, sinto a testa e as bochechas corando.
Tem momentos em que eu realmente dou valor à cor da minha pele, e este é um deles.
O olhar dele volta ao meu e me endireito, deixando uma quantidade mais normal de espaço entre nós dois.
— Meus amigos estão me esperando — falo. — Preciso voltar.
Ele faz que sim. Desço da janela, deslizando as cortinas nos trilhos para
permitir que o luar se estenda pela sala. Olho de volta para ele e hesito por um instante.
— Ok. — Aperto o rabo de cavalo e sigo em direção à porta.
— Ei — ele chama, me fazendo parar.
— Sim?
— Natalie… É o seu nome?
Faço que sim. O rosto dele está marcado pelas sombras, mas ainda consigo ver parte do sorriso.
— Natalie Cleary — respondo.
— Prazer em conhecer você, Natalie Cleary.
— Prazer em conhecer você também…?
— Beau — diz ele.
— Beau.
Ele assente.
Beau.
— Vejo você por aí.
QUANDO VOLTO AO estacionamento, Matt Kincaid está dizendo “O que
acham do Hooters?”, e é assim que sei que chegou a hora de ir para a cama.
— Acho que vou voltar para casa — falo, e os quatro dão um pulo.
— Meu Deus, Natalie. — Rachel está com a mão no peito, as pálpebras tremulando, dramáticas.
— Falando sério, você flutuou até aqui? — diz Derek.
— Onde é que você estava? — pergunta Matt, e me sinto imediatamente
culpada. Por me esconder deles, por deixar que me procurassem e, sendo sincera, por flertar com outra pessoa que não ele.
— No meu armário. — Levanto a minha bolsa como se fosse uma prova.
— Fomos até o seu armário — diz Rachel, afundando a mão na cintura.
— Você não estava lá e, aliás, perdeu o Fantasma da Sala de Ensaios.
— Passei no banheiro. — Agora estou mentindo, e sei pelo arqueado nas
finas sobrancelhas loiras de Megan que ela sabe. Tudo bem, pretendo contar tudo para ela, mas não quero estragar a história de fantasma de todo mundo,
e não quero falar sobre garotos com Matt Kincaid.
— Não temos que ir ao Hooters — tenta. — Poderíamos ir na BW3.
— Qual é o problema com o Hooters? — diz Rachel.
— Literalmente todos — falo.
Ela dá uma risada áspera.
— Você realmente se acha boa demais para comer no Hooters.
— Rachel, qualquer coisa com papilas gustativas que funcionem direito é boa demais para comer no Hooters — rebato. — A comida lá é um nojo, e
eu tô cansada.
— Ou no Barleycorn’s — sugere Matt. — Não vamos lá faz um tempo.
— Matt era o tipo de namorado que tentava me agradar ou pelo menos ficar do meu lado em público. O eu não entendo por que é que você não podia simplesmente ter concordado comigo/ficou ofendida com aquilo/não quer
fazer as coisas que a gente costumava fazer sempre vinha mais tarde, quando estávamos a sós, mas eu tinha a sensação de que ele sinceramente
queria compreender.
— De repente, estou me sentindo exausta também — diz Megan.
— Vamos simplesmente tomar umas na casa de Rachel — lança Derek.
— Eu não estou muito a fim de beber — diz Matt.
— Desde quando, cara? — quer saber Derek.
— Você costumava comer no Hooters — insiste Rachel, ainda me
pressionando. — Antes de virar a feminazi nervosinha que vai para a faculdade da Ivy League.
— E você costumava usar rímel azul — rebato. — As pessoas crescem.
— É, sabe, eu me lembro do rímel azul. Minha irmã piranha comprou pra
mim: a que trabalha no Hooters.
O comentário me tira do sério e retruco:
— Rachel, não me importo se Janelle quiser trabalhar no Hooters. Não me importo se você e o restante do mundo quiserem gastar seu dinheiro em
frango seco e molhos feitos com ketchup. E, menos que tudo, menos do que praticamente qualquer coisa que eu consiga imaginar, não ligo para a
quantidade de sexo que a sua irmã faz ou deixa de fazer. Essa é a questão com toda a ideia de feminazi nervosinha: a gente não se importa quando
outras mulheres querem usar shorts laranja idiotas com tênis brancos e fazer bastante sexo, ou quando querem usar hábitos e morar num convento, ou
quando querem andar por aí de tapa-mamilos e nunca dar beijos de língua, desde que seja permitido que elas façam o que elas quiserem. E, neste
momento, tudo o que eu quero é ir para casa. Ok?
Ela cruza os braços e me olha de cara feia e em silêncio, então me viro e
vou batendo o pé até o meu carro. Não sei o que deu nela ultimamente, mas Rachel nunca deixa passar nada do que eu digo sem uma briga.
— Me liga mais tarde — grita Megan.
Entro no jipe e olho de volta para onde eles estão parados sob a forte luz
branca que inunda os fundos do estacionamento a algumas fileiras de mim.
— Amanhã — grito de volta.
Esta noite preciso encontrar respostas.
Acelero para fora do estacionamento, passo pela fazenda de Matt, pelas
igrejas caiadas, pelas estradas sombrias e estreitas ladeadas de vegetação exuberante que se torcem e recurvam conforme determinado pelos rebanhos
de búfalos que as moldaram há muito tempo. Penso em Beau e sua música, cujos sons não consigo lembrar, mas ainda consigo sentir.
Derramei uísque na sua escola toda.
As vogais meio abertas. Penso nele em todo o caminho para casa.
Prazer em conhecer você, Natalie Cleary.
Uma cadência solta. Penso nele até cair no sono.
Três meses.
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