O amor que partiu o mundo

Emily Henry · Capítulo 7 de 34

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O amor que partiu o mundo

Capítulo 7

7

 

— VOCÊ MORA por aqui? — pergunto.

Ele avança até as arquibancadas e estende a mão por cima da cerca de

alambrado que me separa dele. A camisa branca está gasta e terrivelmente manchada de lama e grama, as mangas cortadas para revelar longas faixas

de pele bronzeada nos dois lados da caixa torácica e barriga.

— Não muito longe — conta ele. — E você?

— Descendo a Wetherington — respondo. Ele assente, mas não diz nada, e seu sorriso é intimidador. Eu cutuco a cerca com o pé. — Que cara foi

essa?

— Nada — diz ele. — São casas bacanas.

— E?

Ele olha para além do campo, o amarelo intenso do sol nascente batendo

em seus olhos castanho-esverdeados e pincelando a ponta dos fios de cabelo dele em luzes carameladas.

— Você se veste muito bem. Aposto que é de boa família.

Então me ocorre que talvez meu chamado nesta vida seja fazer Beau falar

esses béin de vogais abertas o máximo de vezes possível.

— É uma boa família, sim — falo. O top esportivo com alças elaboradas

e os shorts de corrida que absorvem a umidade provavelmente são as melhores roupas que tenho. Minha mãe acha que roupa de ginástica é

sagrada, portanto constantemente joga fora minhas coisas velhas e manchadas e reabastece meus suprimentos. — E quanto a você? Toca piano

como Mozart, sua família não deve ter uma condição ruim.

Beau solta a grade, anda até os degraus e vem ficar do meu lado. Quando

ele se apoia no gradil, repousa o braço contra o meu, e tomo cuidado de não me mexer nem um pouco, para ele não se mover também. Quero ficar aqui, encostada nele.

— Moro com o meu irmão, Mason, e às vezes minha mãe — diz ele. — Ela me fez ter aulas quando eu era pequeno porque queria sair com o

professor, e agora, quando quero tocar, venho até a escola.

— Entendi.

— Qual daqueles caras da outra noite era o seu namorado? — pergunta ele.

— Nenhum deles. — Sinto meu rubor piorar e, quando atinge a gravidade máxima e toda a minha cabeça talvez esteja pegando fogo, acrescento: —

Não tenho namorado. — Arrisco um olhar para ele. Está fitando o campo, mas os cantos da boca estão inclinados para cima, e gosto do jeito como

suas pálpebras se curvam quando ele sorri.

— Então, agora sei por que você assombra a sala de ensaios — digo,

quebrando a tensão silenciosa entre nós. — Mas por que você corre na nossa pista?

— Nossa pista? — indaga ele. — Achei que era a sua pista.

— Bem, eu gosto de compartilhar, especialmente as coisas que odeio

usar.

Os olhos dele me percorrem.

— Você está aqui agora.

— É — falo, porque dizer tive uma visão com você poderia soar intenso

demais.

Ele afasta o cabelo do rosto.

— Você quer ir lá em casa?

— Quê? Agora?

Ele dá de ombros.

— Quando quiser. Agora. Temos cereal.

Dou uma risada.

— E leite? Vocês têm leite, Beau?

— Mason geralmente usa apenas cerveja, mas, sim, se você quiser leite eu posso conseguir, Natalie. Tem um posto de gasolina no final da rua.

— Quer saber? Eu provaria com cerveja — digo a ele.

— Então você quer? Quer vir?

— Não posso agora. — Aceno vagamente na direção da escola. Beau faz que sim, e me apresso para acrescentar: — Mas numa outra hora, mais

tarde, seria bom.

— Ok.

— Você está com o seu celular? Eu poderia te dar o meu número.

Ele apalpa os bolsos do shorts.

— Não.

Percebo que deixei o meu telefone na escola, apesar de eu ter me

lembrado de trazer a latinha de spray de pimenta que mamãe pendurou nas minhas chaves, que me lembro constrangida de estar usando no pulso.

— Você pode me achar na internet — sugiro, impotente.

— Tá bem.

— Ou pode me encontrar aqui de novo.

— Na sua pista — acrescenta ele.

— É.

— Que você nunca usa.

— Bom, é uma cidade pequena — digo. — Quão difícil pode ser? — Uma vozinha na minha cabeça assinala que nunca tinha visto Beau até uma

semana atrás.

— Vou encontrar você — afirma ele.

— Espero que sim. — Me viro para ir embora, meu peito acelerado e o abdome com espasmos incongruentes por causa da corrida.

Quando volto para o estacionamento, ainda está vazio. Fico parada ali, e vejo cores e formas tremeluzirem conforme os carros — incluindo o meu

— aparecem pela duração de uma piscadela. Fico ali observando até que acontece de novo, desta vez por três segundos inteiros. Parece um bom sinal, então entro. Até onde consigo determinar, a escola continua vazia, mas, depois da minha conversa com Beau, nada mais parece tão estranho

quanto parecia antes da corrida, e também não estou mais tão ansiosa. Talvez eu esteja enganada, mas me sinto totalmente confiante de que o

mundo vai voltar ao normal em breve, como aconteceu ao longo de toda a semana. Sigo até os vestiários e me lavo o mais rapidamente possível antes

de voltar à biblioteca, cruzando os dedos para conseguir entrar sem problemas.

Quando chego lá, está do jeito que a deixei: desprovida de qualquer coisa que não sejam as estantes e um solitário saco de dormir com a mala. O

relógio na parede diz 6h01 e, porque não faço ideia do que fazer, entro no saco de dormir e volto a me deitar, observando e aguardando que o mundo

volte ao normal.

A próxima coisa de que me lembro é alguém me sacudindo para me

acordar. Meus olhos se abrem diante de um par de olhos azuis emoldurados por camadas de cabelo loiro liso.

— Quer primeiro a notícia boa ou a ruim? — pergunta Megan.

— Primeiro a ruim. — Minha voz sai num grasnado.

— É, bem, escolheu errado, e a boa notícia é: conheço você bem demais para me dar o trabalho de tentar te acordar para correr comigo hoje de

manhã, então disponha.

— Obrigada — digo, apesar de a minha mente ainda estar tentando

discernir pela neblina da certeza de que eu com certeza fui correr nesta manhã.

— A má notícia é que você tem que se levantar agora, porque o café da manhã começou há dez minutos e obviamente tudo é supergorduroso e todo

mundo está na maior ressaca então é uma situação meio que salve-se quem puder.

— Rachel vai comer todo o meu bacon — choramingo, passando a mão no rosto.

— Ninguém quer que isso aconteça. Por favor, levanta.

— Eu saí — conto a ela.

— Como assim?

— Quer dizer, aconteceu de novo. Primeiro, a escola desapareceu e eu

estava deitada num gramado. Então a escola voltou, mas todo mundo tinha desaparecido, e eu saí. Fui correr e vi Beau no estádio.

— Ai, meu Deus. Natalie Cleary está sonhando com um garoto que não é Matt Kincaid. Estou tão feliz que acho que vou explodir.

Balanço a cabeça.

— Não foi um sonho. Beau é cem por cento real. E as outras coisas foram

como das outras vezes, como quando eu vejo a Avó. Eu não consigo explicar exatamente.

— Isso é tão estranho. — Megan se senta ao meu lado. — E aí… Aconteceu alguma coisa? Com Beau, quero dizer.

— Ele me chamou para ir na casa dele.

— De que forma?

— Tem quantos jeitos de uma pessoa ir na casa de alguém?

— Vários — afirma Megan.

— E com isso você quer dizer, tipo: a porta de entrada, a dos fundos, a janela do quarto etc.?

— Às vezes — diz ela. — Como era a energia dele?

Enterro o rosto nas mãos porque sei exatamente o que ela quer dizer, e sei

a resposta, e não quero contar para ela.

— Por favor, não me faz falar em voz alta.

Ela irrompe em risadinhas e se deita ao meu lado.

— Como ele é?

— Bom, os bíceps têm mais ou menos o tamanho da minha cabeça, e os olhos parecem a encarnação do verão, e ele tem duas sardas escuras do lado

do nariz e uma boca que de alguma maneira parece pertencer a uma criança tímida num momento e a um deus grego viril no seguinte. Então acho que se pode dizer que é bem decente.

— Ai, meu Deus — diz Megan —, estou tremendo de euforia agora. É como se estivesse acontecendo comigo. De onde ele veio?

— Não faço ideia.

— Você vai dar uns pegas nele — sugere ela, com ar de quem sabe do

que está falando.

Rolo para o outro lado e enterro o rosto no travesseiro.

— E se você tiver acabado de agourar?

— De jeito nenhum. Amo você demais. Minha energia psíquica é

literalmente incapaz de te trazer azar. Se for para ter alguma influência, estou dando uma força para vocês se pegarem.

— Ei, talvez você ache uma boa reagir ao fato de que um prédio inteiro e as várias pessoas dentro dele desapareceram diante dos meus olhos, que tal?

Ou não, na verdade você não acha isso tão interessante, né?

— Acho um tanto quanto interessante — responde ela. — Um tiquinho

menos interessante que seu coração incomparavelmente mole e belo se abrindo como uma flor diante de Beau, mas, sim, estou interessada. — O

sorriso dela esmorece, e ela aperta minha mão. — Você sabe, como sua melhor amiga, gosto de pensar que sou uma especialista, mas a verdade é

que não faço ideia de como ajudar com tudo isso. Então me diz, tá? Me fala do que você precisa, e me fala toda vez que precisar, e eu estarei aqui.

Aperto a mão dela de volta e engulo um nó na minha garganta.

— Você é a melhor pessoa — digo. — Mas eu também não sei do que

preciso.

 

QUANDO CHEGA AO fim da última atividade da Semana dos Calouros, a Despedida, e terminamos de percorrer os corredores dando adeus e

distribuindo abraços a professores e colegas dos anos anteriores, descubro a única coisa que realmente posso fazer.

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você? — pergunta Megan enquanto andamos até os nossos carros. — Posso me certificar de que a dra.

Chan saiba que você não é louca.

— Bem pensado. Vou só levar uma amiga para ver uma psicóloga com

quem não tenho hora marcada, e você pode começar a conversa com “Ela não é maluca!”, assim ela vai saber que eu não sou.

— Posso esperar dentro do carro.

— Não, você pode esperar no Steak ‘n Shake com o time de futebol, onde

sei que estava pensando em ir antes de eu jogar essa na sua cabeça.

Ela suspira.

— Me liga depois do Jantar Comemorativo da Família Cleary para me dizer como foi?

— Claro. Ou talvez, tipo, enquanto eu ainda estiver no divã da dra. Chan. Se ela começar a questionar minha sanidade, posso exigir uma conferência

com você.

— Parece uma boa. Vou colocar você no viva-voz com o time de futebol.

Eles podem votar para ver se acham você louca ou não.

— Perfeito. Obrigada.

Damos um abraço antes de nos separar e entrar cada uma em seu carro. Alguns minutos mais tarde, estou passando pela 275 East, uma autoestrada

larga e raramente congestionada que serpenteia pelos subúrbios por um vale rural ocasionalmente pontuado por cidades ainda menores e mais vagarosas

que Union, e é meio que isso até chegar à faculdade. Apesar de eu já ter vindo de carro até a NKU algumas outras vezes para partidas disputadas por

amigos ou festas na casa de amigos de amigos, quando consigo chegar ao campus levo um tempo vagueando em círculos sem rumo até detectar o

prédio de biologia: um bloco de cimento gigantesco, marrom-acinzentado, com pequenas janelas agrupadas de dois em dois que me lembram das

fendas para moedas nos fliperamas, e um telhado vermelho desbotado que desce a partir das três torres estreitas que separam as duas alas. O estacionamento está quase completamente vazio, escolho uma vaga perto da porta principal e me esgueiro lá para dentro.

O prédio é frio, além de antiquado e mal iluminado, e encontro o nome da dra. Chan anunciado diante de uma porta de madeira amarelada ao fim de

um corredor estreito. A porta se abre com um rangido, mas eu bato de qualquer maneira.

Quando fico sem resposta, empurro a porta, que geme nas dobradiças. O pequeno escritório está abarrotado. Uma mesa marrom--chocolate e um

quadro branco estão entalados entre duas estantes de livros, e uma cadeira de escritório mal consegue se espremer entre a mesa e a janela atrás, que dá

para um amplo gramado amarelo e um laguinho azul. Do meu lado da mesa, tem outra cadeira e um sofá pequeno, ambos completamente cobertos por

pilhas de pastas de arquivo repletas de documentos e papéis e livros avulsos.

— Posso ajudá-la? — diz alguém atrás de mim.

Ao me virar, vejo a dra. Chan no corredor. Ela tem um cabelo curto e

cortado reto, e seu nariz é matizado por sardas. Sem maquiagem ou o blazer modelado do retrato, mal dá para reconhecê-la. Ela parece cerca de vinte

anos mais jovem que a austera mulher de meia-idade que eu esperava, e não exatamente velha o suficiente para ser a pessoa que detém a chave para

revelar os segredos da Avó.

— Deus, espero que sim.

 

A DRA. CHAN se senta na cadeira do meu lado da mesa, mastigando a

parte de trás da caneta, aparentemente refletindo profundamente. As pilhas de arquivos desordenados envolvem seus tornozelos como filhotinhos

animados; enquanto isso, meu cóccix se equilibra em um canto do sofá preto dominado pelos papéis por toda a duração da história da minha vida…

com a Avó.

— Fascinante — diz a dra. Chan por fim, se inclinando para a frente para

vasculhar uma pilha de cadernos no chão. Ela escolhe um e vira até uma página vazia. — Nunca ouvi de ninguém que tivesse tido conversas tão longas com Eles, com os Outros. E com certeza absoluta nunca ouvi falar

de nenhuma mudança integral de cenário. — Ela rabisca o papel até a tinta começar a sair.

— Então existem outros além desses que eu vi? — gaguejo. — O que são? Fantasmas?

Ela ri e espalma as mãos.

— Ai, meu Deus, estamos tão longe de descobrir isso.

— Bem, você viu algum deles? — pergunto. — Conhece a Avó?

— Não — responde a dra. Chan. — Mas eu vi Outros quando era criança.

A esfera negra que você descreveu, por exemplo, é muito comum para pessoas como nós, Natalie. Tenho chamado a esfera de “Abertura”. Acho

que é meio isto: o início dos encontros com os Outros. Posso chamar do que eu quiser, porque ninguém mais quer entrar em contato com esse tipo de

coisa. Não na minha área, pelo menos. Enfim, tem a Abertura, e tem o que eu chamo de Fechamento. O evento equivalente e oposto.

— Então vai parar?

Ela inclina a cabeça para a frente e para trás.

— Para mim, sim. Para você? Não faço ideia. A pesquisa é toda tão recente. Odeio pensar em quanto tempo depois que eu tiver morrido alguém

vai entender essas coisas. Mas… Bem, você descreveu umas situações bastante peculiares. — Ela se inclina para a frente, apoia os cotovelos nos

joelhos e batuca os dedos de unhas roídas contra a boca. — Certo, então, normalmente pessoas que tiveram essas experiências são do tipo sensível,

tendem a estar entre INFJ e ENFJ.

— Não estou acompanhando — digo.

— São tipos diferentes de personalidades — explica ela. — O Indi- cador Tipológico de Myers-Briggs… Você já fez o teste? Sabe qual é o seu

lugar no espectro?

— Minha mãe é obcecada por esse tipo de coisa, e tento evitar qualquer uma que ela possa usar um dia para fazer minha psicanálise no café da

manhã.

Ela faz um gesto impertinente com a mão.

— O I quer dizer introvertido, alguém que se sente energizado ao ficar sozinho. A contraparte é o E, extrovertido, uma pessoa que reúne energia

quando está perto de outras pessoas. O N designa a intuição, o que quer dizer que você age a partir de sensações internas ou compreensões súbitas,

em vez de fatos concretos e observáveis. O F, sentimento, indica gente com tendência a tomar decisões com base na emoção mais do que na reflexão. É

uma característica importante, assim como o J, que designa julgamento. Uma pessoa julgadora prefere saber o que esperar todo o tempo, para

trabalhar com uma agenda ou esquema ou lista de afazeres, para fazer planos previamente, em vez se deixar levar.

“A combinação entre intuição, sentimento e julgamento cria pessoas sensíveis e ao mesmo tempo bem organizadas. Que preferem limites e

expectativas, o que é mais raro para o tipo intuitivo e sensível. É um misto estranho de traços de personalidade, mas, quando você acrescenta um

trauminha, BUM!, tem uma pessoa com uma disposição para modos simbólicos de pensamento criativo, como, por exemplo, sonhos vívidos, e

de alguma forma gatilhos e respostas muito particulares quando o assunto é estresse. Geralmente a manifestação dessas respostas não passa de lampejos

breves. Geralmente, mas não com você. Em outras palavras, você é superaberta, Natalie Cleary. Você é como o maldito Walmart de Florence no

dia da Black Friday.”

— Aberta a quê? — pergunto.

— Essa é a questão que eu e você vamos tentar responder. Então essa tal de Avó disse para você vir até mim… Tem ideia do motivo?

— Eu estava esperando que você soubesse — digo. — Pensei que talvez… ela viesse até você também, que ela sabia que você conseguiria me ajudar a trazê-la de volta. Você poderia fazer isso?

— Provavelmente não — diz ela. — Na verdade, aquela última visita

talvez tenha sido o seu Fechamento.

— Mas e quanto ao que aconteceu na escola e no estádio de futebol

americano, quando todo mundo desapareceu?

Ela inclina a cabeça para a frente e para trás de novo como se estivesse

considerando alguns raciocínios internos.

— Ok, segunda teoria: o seu Fechamento acontece dentro de três meses.

A Avó sabe que alguma coisa vai acontecer, provavelmente dentro dessa janela de tempo, ou não, mas você só tem três meses para reunir

informações e se preparar.

— Então você acha que é ela quem está me mandando essas visões? —

Balanço a cabeça. — Não seria mais fácil simplesmente me dizer o que está acontecendo?

— Quem é que sabe? Mas olha para cada uma das religiões deste mundo: elas têm espaço para visões e profecias quando, supostamente, suas

deidades poderiam tornar as coisas bem mais fáceis.

— Escuta, dra. Chan — digo. — Agradeço pelas teorias, mas acho de

verdade que o melhor seria trazer a Avó de volta. Ela pode explicar tudo.

Ela assente, inflamada.

— Pode me chamar de Alice e, vai por mim, eu adoraria fazer isso. Então vamos pensar a respeito. Você fez EMDR. Me conta um pouco sobre isso…

Qual foi a memória que você usou?

De repente me sinto nua, se não totalmente transparente, ao dar um início

relutante à história.

— Minha mãe biológica apareceu quando eu tinha três anos — conto. —

Eu estava sentada na cama da minha mãe enquanto ela estava no banheiro, secando o cabelo, e ouvi a campainha tocar. Desci as escadas e abri a porta,

e uma mulher se abaixou e estendeu a mão para mim. — A memória é enevoada, mesmo agora. Não consigo nem ver o rosto da minha mãe biológica, só um borrão onde ele deveria estar. — Ela perguntou se eu queria ir dar uma volta. Eu disse que sim. Então fomos até a calçada.

Eu me lembro de perguntar: Qual é o seu nome?

Ela sorriu e disse: Pode me chamar de Ishki.

Ishki. Sussurrei uma vez em voz alta. Não conversamos mais; apenas existimos. Eu me pergunto se alguma parte de mim compreendia quem ela

era. Se eu sabia, mesmo então, anos antes de a Avó aparecer, anos antes de eu esmiuçar a internet em busca de pistas sobre o meu passado e descobrir

essa palavra associada a pelo menos dois povos distintos, que ishki quer dizer mãe.

— De acordo com os relatos, andamos por vinte minutos. Quando voltei, depois que ela me indicou onde era a casa e entrou no carro dela

estacionado a algumas quadras dali, tinha um bando de carros de polícia com as luzes piscando em azul e vermelho, apinhados por todo o acesso de

veículos da minha casa. Fiquei com medo… apavorada, na verdade. E, quando corri para encontrar minha mãe, ela estava chorando. Senti tanta

vergonha, tanta culpa por assustá-la daquela maneira. Ela me pegou e me abraçou com força, sussurrando: Meu bebê, meu bebê, fiquei com tanto

medo de ela levar você.

Antes da terapia, eu odiava pensar sobre essa memória. Fazia meu

estômago se contrair e minha pele formigar. Sempre que minha mente vagava nessa direção, eu mudava o rumo.

Alice tira os olhos das anotações frenéticas.

— Então como foi o processo em si?

— A terapeuta me fez escolher algo que afetasse negativamente minha autoconfiança, algo que talvez explicasse por que a Avó apareceu. — Eu

não sou desejada, eu não sou bem-vinda. Não me incomodei em dizer à dra. Langdon que eu não acreditava nessas coisas de fato. A terapia sempre

corria melhor se eu simplesmente fizesse que sim com a cabeça o tempo todo. Naquela época, eu achava que ela era a maior falastrona. — Então ela me fez escolher algo que afetasse positivamente minha autoconfiança para substituir. Ela me fez sentar no sofá, e sentou-se diante de mim. Ela mexeu

dois dedos na frente do meu rosto, de um lado para o outro, para cima e para baixo. Ela disse que eu não precisava compreender; só precisava

permitir que meus olhos seguissem os dedos dela por todo o percurso até a minha visão periférica do lado direito, do lado esquerdo, para cima e para

baixo, sem mover a cabeça.

“Enquanto movia os dedos, ela me fazia perguntas. Sobre o traço

negativo, o positivo, e outras coisas do tipo. Eu respondia, repetia o que ela dizia quando ela mandava”, e me sentia incrivelmente imbecil durante todo

o tempo. “Quando ela terminou, me disse para voltar àquela memória e senti-la por completo. Antes de começarmos, ela tinha me pedido para

determinar em que grau a memória me dava ansiedade. Eu tinha dito sete de um máximo de dez. Depois do processo, eu disse cinco.” Eu ficara surpresa.

“Então ela se sentou e repetiu o processo. Os dedos, as perguntas, o grau de ansiedade. Fizemos três vezes e, quando ela me pediu para retornar à

memória pela última vez, eu disse a ela, com sinceridade, que só sentia algo em torno de um na escala de ansiedade.”

Lembrando agora, parecia um truque. E, ainda assim, depois disso, a Avó, o homem de jaqueta verde, todas as imagens que piscavam no meu quarto,

haviam sido caladas por quase três anos. E, ainda assim, quando penso naquela memória: nenhuma ansiedade.

— Não sei como, mas funcionou — encerro.

Os olhos de Alice brilham de empolgação. Ela se inclina para a frente,

tocando a parte de trás da cabeça.

— Tem uma parte do cérebro chamada amígdala. Ela armazena coisas

que você é incapaz de processar, como traumas. Antes dos oito anos, nossas mentes têm pouquíssimas capacidades cognitivas para processar as coisas.

Então tudo com que somos incapazes de lidar nessa idade tenra fica armazenado na amígdala, como associações gerais ou uma ideia mal reconstituída de causa e efeito, um aviso para eventos futuros. Quando sonhamos, nossos movimentos oculares mandam para a amígdala o sinal de

que está na hora de acessar esse conteúdo não trabalhado.

“Agora, as emoções e sensações de um evento ficam armazenadas tal

qual foram vividas. Estranhamente, as mesmas substâncias que as gravam na amígdala também são capazes de impedir a formação da memória no

hipocampo. Você pode não ter nenhuma lembrança consciente do que ocorreu, mas isso não vai impedir que ela mexa com o seu cérebro. Quando

essas conexões armazenadas são ativadas, você retorna à mentalidade infantil em que as vivenciou pela primeira vez. Um ataque de pânico é

basicamente isso: a experiência de um medo sem as ferramentas para racionalizá-lo.

“A EMDR permite que você acesse essas conexões enquanto está acordada. O movimento ocular aciona a amígdala enquanto as perguntas

acionam a memória. Permite que seu eu adulto tenha uma espécie de conversa com seu eu criança. Você explica coisas para o seu eu criança de

maneira que o padrão insalubre de pensamento, ou a associação de causa e efeito, possa ser corrigido.”

— Mas por que aquela memória? Quer dizer, nada aconteceu. Eu fui dar uma volta.

— A separação de uma criança dos pais pode ser traumática em si, mesmo se você continua recebendo a quantidade adequada de carinho e

amor de um novo relacionamento. Durante a primeira infância, tudo o que conhecemos são nossas mães biológicas. São o nosso mundo inteiro, toda a

nossa noção de estabilidade.

O olhar de Alice me dá a sensação de ser radiografada. Às vezes, parece

que o mundo inteiro conhece a minha história, e eu sou a única que não consegue vê-la.

Às vezes, penso que todos sabem, e tudo o que eu vou saber é o que mamãe me contou, uma passo a passo logístico do processo de adoção: ela e papai tentaram engravidar por muito tempo. Certa vez, acharam que tinham conseguido. Ela perdeu o bebê, ficaram com o coração partido.

No Alabama, em uma reserva indígena, uma garota de dezoito anos descobriu que estava grávida. Antes que qualquer um reparasse na barriga

que crescia, ela fugiu, foi até o Kentucky, onde a família do namorado dela morava.

Enquanto isso, mamãe e papai receberam uma ligação do amigo de um amigo, que recebera uma ligação de um amigo de um amigo, cujo sobrinho

tinha uma namorada que ia ter um bebê.

O bebê era eu.

Se eles queriam o bebê, era o que o amigo do amigo queria saber.

Eles precisavam de um tempo para pensar, disse mamãe.

Eles tinham dez dias, nem um a mais, disse o amigo de um amigo. A futura mãe, minha ishki, não queria que o bebê crescesse na reserva. Ela

nunca fora feliz lá, tinha pouquíssimo dinheiro, nenhuma expectativa profissional e um pai abusivo que ela não queria que chegasse perto do

bebê, perto de mim. Mas precisava encontrar uma família logo ou teria que me levar de volta para a reserva com ela.

Mamãe e papai sempre disseram que nunca ficaram apavorados com a ideia de me adotar; ficavam apavorados de me perder: achavam que tudo

indicava que a minha ishki não tinha certeza, que ela estava pronta para mudar de ideia.

Quando mamãe e papai conversaram com o advogado, ele mencionou o Ato de Bem-Estar das Crianças Indígenas, uma medida de proteção

colocada em vigor nos anos 1970 em resposta ao fato de quase um terço das crianças nativas indígenas serem retiradas à força de seus lares e colocadas

em colégios internos não nativos e lares adotivos. Para proteger bebês como eu e pais como os meus pais biológicos de serem coagidos a entregar os

filhos para lares não indígenas, a lei acrescentava algumas etapas no processo de adoção, um deles era que eu não podia ser adotada nos meus primeiros dez dias de vida.

Dez dias durante os quais minha mãe biológica me olhava, me ninava, talvez até sussurrava ou cantava para mim, e se atinha à decisão de me

entregar para adoção. Eu me perguntei se naquele tempo ela chegou a pensar que as pessoas podiam ser infelizes, solitárias e esgotadas em

qualquer lugar; que, em uma cidade como Union, ainda haveria pais que bateriam nos filhos e crianças que olhariam para o céu à noite, sussurrando

que gostariam de uma vida melhor, de um lugar mais pacífico. Será que ela, em algum momento daqueles dez dias, quis ser a pessoa que suavizaria o

mundo para mim?

O advogado da mamãe e do papai não estava preocupado com o restante

das estipulações da lei — ao que parece, o Alabama era particularmente hostil com relação à regulamentação, a viagem prolongada da minha mãe

para o Kentucky era apenas mais um motivo de garantir que a corte do Alabama me veria como não indígena o suficiente para ficar na categoria de

todas as crianças indígenas à qual a lei deveria se aplicar.

Eu sabia que ela nunca teria arrependimentos com relação a mim, mas

mamãe sempre me contou a última parte com culpa nos olhos, como se tivesse bastante certeza de ter feito algo errado ao me adotar, através de

brechas em um sistema que abria exceções para gente como ela e papai.

Se em qualquer momento dos meus primeiros dois anos minha mãe

biológica tivesse mudado de ideia sobre a adoção e pudesse provar que sofrera coação quando decidiu me entregar, legalmente o estado deveria

anular a adoção. Depois da caminhada que dei com ishki pelo bairro, mamãe ficou apavorada com a ideia de que ela fosse tentar pedir a custódia

de volta, apesar de que na época os dois anos já tinham passado.

E não é como se eu quisesse deixar minha família; eu nunca quis. Mas às

vezes, depois daquela caminhada, eu costumava ficar acordada chorando à noite, porque me magoava muito que mamãe tivesse achado que a minha mãe biológica me queria de volta, e me magoava muito que no fim das contas ela não quisesse.

Mesmo que eu não fosse querer ir com ela. Ela devia ter desejado que sim.

Isso é engraçado sobre fazer parte de dois mundos: às vezes você não se sente parte de nenhum.

— Um terapeuta de EMDR pode dizer que essas manifestações são um mecanismo desenvolvido para lidar com a memória — diz Alice, me

trazendo de volta ao escritório. — Você precisa dar continuidade ao seu próprio mundo original, em um tempo em que havia estabilidade com a sua

mãe biológica, então sua mente criou uma. Quando você está sob pressão e voltando a um estado pré-cognitivo, a Avó ressurge. Uma terapeuta de

EMDR poderia achar que seus estados oníricos estão ativando memórias reprimidas, que por sua vez estão ativando uma resposta de transtorno de

estresse pós-traumático. Uma alucinação.

— Bem, e o que é que você diria que está acontecendo?

Ela dá um sorrisinho.

— Eu diria que é bem difícil provar se alguma coisa é real ou uma

alucinação.

— O que você quer dizer?

— Quero dizer que todos os meus pacientes têm transtorno de estresse pós-traumático, mas nem todos os que sofrem do transtorno viram a esfera.

Quero dizer que o seu estresse pode ser real, mas isso não quer dizer que a Avó não seja. Quero dizer que talvez a EMDR a tenha afastado porque o

trauma está de fato nas origens da sua capacidade de vê-la, talvez estimule sua vida onírica de forma tão intensa que permita que você se conecte a

outra coisa completamente diferente. E o fato de que você voltou a ter as visões indica que tem alguma outra coisa, um remanescente da ansiedade

ligada à memória de um fragmento esquecido dela, outro aspecto negativo da sua autoconfiança com o qual você ainda não lidou, ou mesmo outro evento cataclísmico que você ainda não processou e que permite que uma tênue conexão se mantenha.

Sacudo a cabeça.

— Eu já tive essa conversa com a dra. Langdon. Não tem outra coisa,

apenas aquela memória.

A expressão de Alice é cética, mas ela deixa o assunto morrer. Ela se vira

para a mesa e cata um calendário sob uma pilha inclinada de cadernetas.

— Certo, Natalie — diz ela. — Acho, infelizmente, que a maneira de

sermos mais produtivas é seguir o procedimento padrão. Vamos começar com duas sessões por semana e ver como avançamos. Vai ser importante

você falar sobre o que quiser, pelo menos no começo, porque mais tarde você vai precisar falar sobre algumas coisas sobre as quais não quer falar.

Além disso, eu gostaria que você escrevesse todas as histórias que a Avó lhe contou, tente se lembrar delas o melhor que puder, para não perdermos

nenhum detalhe. Pode ser?

Balanço a cabeça.

— Não posso.

— Não pode o quê? Duas vezes por semana? — diz ela.

— Não, quero dizer: não posso escrever as histórias. A Avó não queria que eu fizesse isso.

— Ela… não queria?

— Ela queria que eu me lembrasse delas — explico. — E queria que eu

as escutasse.

Uma sobrancelha escura se ergue sobre um dos olhos verdes de Alice,

exigindo uma explicação melhor. Esse é exatamente o tipo de coisa sobre a qual temo ter que falar — ou melhor, acho que temo os olhos se revirando,

as encolhidas de ombro desinteressadas, os olhares vazios que podem se seguir. Apesar do quanto eu costumava perturbar e implicar com a Avó,

sempre guardei as coisas que ela me ensinou no coração. São uma parte de mim que levo comigo, e nada te deixa mais vulnerável que compartilhar algo com que você se importa.

— A maior parte das histórias pertence às Primeiras Nações. Foram compartilhadas oralmente por gerações e gerações. Ela queria que eu as

vivenciasse assim, como sempre foram.

A Avó queria que eu amasse as histórias, que eu as levasse para o meu

coração através dos meus ouvidos e permitisse que elas se tornassem parte de mim, me conectando a todas as pessoas que as contaram antes. Me

parece desrespeitoso simplesmente entregá-las em uma folha de caderno. Parece errado não conseguir incluir ou incorporar a maneira como ela dizia

certas palavras ou fazia pausas em suas narrações.

As minhas narrações deveriam ser entregues pela minha voz, passadas

cuidadosamente como água para que nenhuma palavra se derramasse.

— Se você quiser as histórias da Avó, elas devem ser contadas como ela

me contou. São meio que dela, sabe?

São suas também, Natalie, a Avó costumava me falar.

Alice me avalia por um longo momento antes de a cabeça dela começar a oscilar daquele jeito de novo.

— Bom, e se eu mandar um gravador com você? Você poderia gravar as histórias em voz alta.

Penso a respeito.

— É, acho que posso fazer isso — digo. — Mas não as anote. Apenas

escute. É como elas devem ser vivenciadas.

— Combinado, não queremos irritar a pessoa que você está tentando

encontrar. Terças e quintas às nove, pode ser?

— Sim. — Tenho que levar Jack de manhã cedo para o treino todos os

dias da semana mesmo. Este é o combinado para mamãe e papai pagarem o seguro e a gasolina do meu carro: quando eles estão no trabalho, viro a

motorista dos gêmeos.

— Nesse meio-tempo, tente ficar o mais estressada possível. Deixa seu trauma vir beeeeeem à tona, sabe o que quero dizer?

— Ah, acho que sei — digo a ela.

Talvez por isso eu tenha concordado em ir à festa de aniversário-barra-

formatura de Matt na noite seguinte. Ou talvez eu seja uma masoquista quando o assunto é Matt Kincaid. Talvez, apesar de não parecer certo estar

com ele, eu tenha muito medo de permitir que ele pare de me amar; medo de que, se cortar esse último laço, eu saia flutuando por aí.

 

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