O amor que partiu o mundo
Capítulo 30
30
DOU UMA GUINADA para fora da cama e agarro minha camiseta no chão, vestindo-a de novo e me virando para procurar minhas botas. Beau
agarra meu braço, mas eu me solto de suas mãos.
— Aonde você vai? — pergunta ele enquanto calço os sapatos.
Minha voz estremece quando enxugo os olhos com a parte de trás da minha mão.
— Eu tenho que encontrar a Avó.
— Agora?
Faço que sim. Esfrego as lágrimas nas minhas bochechas e me viro para a porta. Beau se levanta da cama e pega a camiseta também.
— Vou com você.
— Não — digo, mais asperamente do que pretendia. — Eu não… eu não
sei se ela vai aparecer se você estiver lá. Fica aqui. Por favor, fica aqui — imploro. — Não vai embora, tá bem? Só fica aqui e me espera.
Ele sustenta meu olhar por um longo instante.
— Está bem.
Atravesso o quarto de volta para ele e me estico para beijá-lo mais uma vez antes de ir embora. Me afasto, vou até a porta e, ao abri-la, olho para
Beau de novo.
— Amo você — digo.
— Também amo você, Natalie Cleary — responde ele, baixinho, então saio correndo pela chuva.
Sei aonde tenho que ir — o único lugar onde tenho alguma chance de encontrar a Avó, de encontrar a verdade, de compreender os destinos
entrelaçados meu e de Beau —, mas antes tenho que fazer um último desvio.
Entro no jipe e acelero de volta até a interseção adornada por ursinhos de pelúcia e flores e bilhetes. Deixo o carro ligado, os limpadores de para-
brisas em uma dança convulsiva enquanto corro na chuva até o cartaz. É tão difícil abrir caminho pelos mundos, mas quando o faço encontro as mesmas
palavras que me assombram: descanse em paz, natalie layne.
Largo esse mundo e ele se retrai imediatamente, colando o cartaz rezem por
matt kincaid #4 em seu lugar enquanto meu estômago volta a se estabilizar. Tateio em busca de outros mundos, mas, apesar do meu iminente ataque de
pânico, as paredes que me seguram aqui estão mais sólidas que nunca. Grito de frustração enquanto tento empurrar com a mente a cortina ao meu redor,
e de repente o tempo começa a retroceder de novo. Estou navegando de volta no tempo, o sol se erguendo e descendo, os carros acelerando para
trás, tão rápido que quase perco o momento em que o cartaz na minha frente desaparece.
Quase.
Mas o vejo.
O cartaz de Matt desaparece, mas no lugar dele tem outra marcação: uma cruz de madeira enfiada na terra úmida e destruída pelo tempo. Cinzelada
nela há uma data, de catorze anos atrás, e duas palavras: beau wilkes.
Recuo horrorizada, os dedos cobrindo minha boca aberta enquanto ofego
e gemo. Então desaparece. Tanto a noite como a chuva voltaram a cair sobre mim, e o cartaz de Matt está onde deveria, mas ainda estou ofegante,
sem ar, meio que gritando meus soluços enquanto corro para o jipe e pulo dentro dele.
Acelero até em casa, minha mente agitada. Chego à placa de pedra que guarda a entrada do bairro, viro na minha rua sem saída e estaciono em
frente à minha casa.
O aro de basquete está ali. As venezianas são verdes. Este ainda é o meu
mundo. Saio do carro e ando lentamente pelo pátio até ficar de pé sob a cobertura da árvore, encarando a janela do meu closet.
Tento agarrar o tempo e puxá-lo para cima, e me permito cair por ele até o passado.
Ele cede. Diferente de tentar romper aquele muro cada vez mais sólido entre o mundo de Beau e o meu, parece mais fácil do que nunca puxar o sol
ao redor da Terra, observá-lo mergulhar vez após outra na extremidade da casa em que cresci até que finalmente tem uma van alugada parada com o
porta-malas aberto. A luz brilha forte no céu, e minha família acelera da casa e da garagem para a van em meia dúzia de viagens diferentes.
Continuo. Caindo, caindo, caindo pelo tempo.
A van desapareceu. A chuva percorre o caminho de volta para o céu, as
nuvens se dissipam, o sol se ergue e declina. Os carros no acesso se movem para trás e para a frente, desaparecendo na entrada da rua sem saída e
voltando a aparecer. Vejo a camionete de Beau por um instante. Vejo eu e ele andando até a camionete e nos deitando lá dentro juntos. Eu o vejo se
endireitar, me puxando para ele até minhas costas estarem pressionadas contra a lateral do carro. Vejo nós dois discutindo. Me assisto andar a
passos largos de costas para a varanda e escalar de volta para a minha janela.
Continuo.
É tão simples o que tenho que fazer para encontra a Avó. Sempre foi tão
simples, e eu não percebi.
O tempo ainda está passando a toda velocidade por mim. Termino de
atravessar a grama e me alço até o telhado da varanda, a luz do sol e do luar e então do sol banhando minhas costas enquanto prossigo. Desço para o
closet e me vejo acelerando de volta entre ele e o quarto, me despindo de manhã e me sentando de volta na cama quando volta a ficar de noite.
Ando para dentro do quarto, meu coração quase na boca, e tudo continua se movendo quando me coloco ao lado da cadeira de balanço. O tempo
continua passando por mim, o mundo rebobinando até que vejo uma versão mais jovem de mim ajoelhada na frente da cadeira de balanço e minha boca fica seca.
Não faz sentido. A Avó deveria estar aqui. Eu sei que deveria: esta é a noite há três meses, quando ela veio me avisar. Quando ela chorou, me
ajoelhei diante dela, assim como a garota diante de mim está fazendo, só que a Avó não está ali. A cadeira está vazia.
Dou outro passo para a frente e o tempo desliza por mim novamente, desta vez se movendo para a frente em uma guinada abrupta, como se eu
tivesse acabado de ser arrastada para cima por um quilômetro de água num piscar de olhos, e o quarto muda: cada detalhe dele, mas apenas sutilmente.
Uma cama como a minha está bem ali onde a minha deveria estar, uma colcha parecida estendida sobre ela. As paredes laranja e pretas brilham à
luz do luar, mas as sombras não estão bem no lugar certo, e a cadeira de balanço no canto tem minúsculas rosas entalhadas nela. É o meu quarto,
mas está diferente.
E ali está ela: a Avó, sentada na cadeira de balanço ligeiramente diferente,
a Eu de Antes agachada aos pés dela.
Paro o movimento do tempo e apareço no meu próprio quarto, atrás de
mim mesma, ajoelhada encarando a mulher idosa que sempre achei que fosse Deus.
Os olhos dela, castanho escuros enevoados por uma película leitosa, se erguem da Eu de Antes, e sua boca se abre.
— Você — sussurra ela. — Já… Você já está aqui.
Observo a Eu de Antes começar a olhar por cima do ombro, exatamente
como eu fiz há meses.
— Não tenha medo, Natalie. Alice vai ajudá-la — diz a Avó. — Encontre
Alice Chan. Ela pode ajudar você.
Minha versão anterior desaparece antes que seus olhos possam me
processar, me deixando a sós com a Avó. Ela se levanta da cadeira de balanço, a respiração áspera o único som.
— Quem é você? — exijo saber.
Os lábios rachados dela se abrem num sorriso triste.
— Natalie — diz ela, lentamente. — Eu sou você.
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