O amor que partiu o mundo
Capítulo 6
6
ÀS OITO DA noite de quinta-feira, chegamos à escola de pijamas. Nos apresentamos na entrada, onde o sr. Jackson, o policial Delvin e um monte
de pais passam o olho pelas nossas mochilas e se certificam de que trouxemos nossos formulários de autorização antes de nos mandarem para o
refeitório, no andar de baixo, onde pizza e refrigerante nos aguardam.
Às dez horas, projetam um filme do Nicholas Sparks no ginásio, que
parece um pedido para que pessoas em um estado nostálgico, sensível e à flor da pele engravidem numa cabine do banheiro, mas que inferno! A
classificação etária é apenas treze anos, e estamos nos formando! Passo essas duas horas como tenho passado cada uma das horas nos últimos
tempos: deprimentemente checando se tenho e-mails ou ligações perdidas da dra. Alice Chan.
Depois do filme, todos voltam para o refeitório para mais açúcar, na forma de um bufê de sundaes. Enquanto Megan e eu estamos na fila para
montar nossas montanhas de sorvete, ela me dá uma cotovelada e aponta para a mesa num canto onde Matt e Rachel estão esperando Derek voltar
com o passe para o banheiro. Rachel, Matt e Derek são parte de uma panelinha que claramente exagerou no contrabando das minúsculas
garrafinhas de tequila, e os passes para ir ao banheiro passaram a ser um artigo de primeira necessidade em alta, conforme os jogadores de futebol e
suas namoradas começam a cair como dominós sob o efeito do Jose Cuervo.
Rachel está caída contra o ombro de Matt, a boca escancarada e a cabeça deslizando quando ela cochila a cada poucos segundos. Os olhos brilhantes
dele encontram os meus, e percebo que Matt também não está em muito boa forma.
— Você vai ter que conversar com ele em algum momento — diz Megan, como se estivesse lendo minha mente.
— Eu sei — falo. Não trocamos uma única palavra desde a nossa briga no carro alegórico, o que faz deste o maior período de tempo que já
passamos sem nos falar. Meu peito parece estar atado em nós. Mesmo quando não penso a respeito, meu corpo sente o quão errado é estar de mal
com ele. Eu nunca quis que fosse assim: metade do propósito de terminar era evitar chegar a um ponto em que nos odiássemos, e agora sinto como se
estivéssemos nos equilibrando nessa corda bamba.
— Mais cedo talvez seja melhor que mais tarde — diz Megan.
— Talvez.
— Tipo, de preferência antes do sábado à noite.
— Argh, a festa de aniversário dele — resmungo, me lembrando. — Eu estava pensando em talvez não ir e, em vez disso, fazer algo divertido, tipo
tirar o pó da minha casa inteira.
— Nat — diz Megan, com delicadeza. — Eu vou embora para treinar em
Georgetown em, tipo, dezesseis dias. Não quero que você fique sozinha o verão todo.
— Como ousa dar início a uma contagem regressiva — digo, mal-humorada. — Estou fazendo o possível para manter a negação.
Ela franze o cenho e me dá um abraço.
— Eu também.
— Talvez a gente possa viver em negação juntas para sempre? — sugiro.
— Acho que vou reparar no buraco em forma de Nat que vai se formar no
meu coração quando eu parar de ver você todos os dias — diz ela.
— Não, quero dizer, talvez tenha uma cidade chamada Negação, e a
gente possa literalmente se mudar para lá e esquecer essa coisa de faculdade.
— Tá bem — responde ela, saindo do abraço. — A ideia é boa. Vamos nos mudar para Negação.
À uma da manhã, os meninos são mandados para montar os sacos de dormir no ginásio, e as meninas são banidas para a biblioteca, onde nossos
respectivos acompanhantes marcam nossos nomes e nos trancam lá dentro. No começo, o lugar ferve de conversa e risadas, mas logo passamos a
sussurros e risadinhas abafadas, até que um coro de respirações profundas e cadenciadas toma conta. Uma por uma, as retardatárias também caem no
sono. Eu ainda continuo acordada, encarando o teto.
Esta noite marca uma semana inteira desde que vi a Avó pela última vez.
É uma semana a menos que tenho para salvar quem quer que esteja em perigo, e não consegui nem uma resposta automática de ausência do
escritório da dra. Alice Chan. Me reviro na cama a noite inteira, preocupada com a Avó e me perguntando para onde ela foi, sobre quem pode estar em
perigo e como a vida vai ser sem Megan, sem Matt, e até sem Rachel e Derek e todos os outros.
Finalmente, horas depois que o último par de pulmões entrou num ritmo estável, me sinto resvalar para o sono, e minha mente rodopia para longe de
tudo que é sombrio e inquietante, na direção de tudo que é caloroso e mágico. Aquela noite no campo de futebol com Beau e todas as noites
encantadoras que vieram antes dessa naquele campo, quando a plateia estava eletrizada de empolgação, vozes ficando roucas de tanto gritar para o
vento conforme o sol deslizava e as estrelas surgiam para substituí-lo do outro lado do céu.
Vejo a cor púrpura do crepúsculo, ouço o coro da torcida pontuada pelos assovios de pais fanáticos, sinto o burburinho das pessoas se apaixonando
umas pelas outras, com o campo tomado de mosquitos e vaga-lumes, repleto da própria noite.
Estou deitada de costas, quase dormindo, quando meu estômago sobe pela garganta e o mundo mais uma vez se recompõe. As paredes, as estantes
de livros, o teto: tudo desaparece, deixando para trás apenas o amplo céu noturno.
Sento num movimento brusco e fixo os olhos no azul e nas estrelas cintilantes acima. Olho ao redor e descubro que estou sozinha no topo de
um morro gramado rodeado por uma floresta. Sei onde deveria estar o estacionamento, onde deveria começar o campo de golfe logo além de uma
fina faixa de árvores, mas nenhum dos dois existe neste lugar. Em vez disso, na base do morro, vejo alguns búfalos deitados, estirados na grama,
suas grossas pálpebras suaves no sono. Alguns estão amontoados em pares, de maneira que as enormes cabeças repousam uma na outra; outros
descansam solitários a alguns metros. Eu me ouço rir.
Soa um pouco como se eu estivesse sendo estrangulada, provavelmente
porque todo o ar deixou meus pulmões. Me levanto e giro no lugar, e sou completamente preenchida de apreensão e admiração simultâneas. Meu
estômago se acalma e, simples assim, a biblioteca está de volta, como se a coisa toda não tivesse acontecido. A não ser pelo fato de eu agora estar
sozinha dentro dela. As outras garotas não estão ali. Nem os acompanhantes, os sacos de dormir, ou qualquer bolsa exceto a minha.
— O que é que está acontecendo comigo? — sussurro para o aposento vazio.
O relógio em cima das portas diz 4h34 da manhã. A biblioteca está escura demais, silenciosa demais. Eu escolheria os búfalos adormecidos em vez
disso sem piscar duas vezes. Por alguns minutos, apenas giro em círculos, esperando todo mundo voltar a aparecer. Depois de um tempo, entretanto,
fico ansiosa demais para continuar parada. Preciso pensar. Preciso descobrir o que está acontecendo. Agarro minha bolsa e vasculho dentro dela. Megan
tinha planejado correr de manhã, por volta das seis, e eu trouxe um top esportivo, shorts e tênis de corrida para a remota possibilidade de ela
conseguir me convencer a me levantar junto com ela. Uma boa noite de sono é tão rara para mim que, quando ela vem, ganha de tudo.
Principalmente de exercício de manhã cedo.
Me visto o mais rápido que consigo, consciente o tempo todo de que o prédio poderia desaparecer ou as pessoas dentro dele poderiam reaparecer
sem qualquer aviso. Passo para o corredor e vagueio pelo vazio, meus passos ecoando. As portas de entrada estão trancadas por dentro, mas o
policial, Delvin, não está à vista em lugar nenhum; aperto os olhos na escuridão e percebo que o estacionamento está vazio também. Saio dali,
deixando um calço para manter a porta aberta, e ergo o cabelo num rabo de cavalo quando começo a caminhar até o asfalto. Na beirada do
estacionamento, começo num trote e viro na calçada em direção ao estádio de futebol e às quadras cobertas, o impulso me fazendo passar depressa por
eles até a rua de interseção ali atrás. Não sei aonde estou indo — se estou tentando correr os dez quilômetros de volta para casa ou se vou voltar para
a escola em algum momento, mas ficar em movimento sempre me permite sair da minha cabeça um pouquinho e, quando volto, as coisas geralmente
parecem mais nítidas.
Dançar costumava ser isso para mim também: um momento em que não
havia nada a fazer exceto ser eu mesma e deixar todo o restante esmaecer. Para muitas das meninas na equipe, a questão era o espetáculo; para mim,
acho que sempre foi sobre comunicação. Sei que teoricamente era pequena demais para me lembrar dos ataques de birra que o papai mencionou no
outro dia, mas eu me lembro. Me lembro de sentir como se minha garganta fosse fechar. Me lembro de sensações tão intensas e inomináveis que tudo o
que eu conseguia fazer era chorar ou às vezes gritar. A menor coisinha podia acionar o gatilho, qualquer coisa que eu achasse injusta ou
intimidadora. Quando eu era um pouco mais velha, me lembro de lutar para manter essas emoções difusas dentro de mim, e às vezes sentia uma
frustração tão sem foco que berrava com o rosto afundado no travesseiro à noite. E então me lembro de ir à minha primeira aula de dança, um
workshop inspirado em balé para crianças do jardim de infância, e como tudo mudou.
Por uma hora toda semana, eu cambaleava em um collant preto com babados e meia-calça cor-de-rosa, saltando pelo chão em pré-chassés,
girando em prelúdios aos chaînés. Imitávamos animais e árvores em crescimento e piões caindo de galhos, fingíamos segurar bolas de praia e
nadar. Tentávamos ficar o maior que conseguíamos, depois o menor que conseguíamos.
Acima de tudo, me lembro do grande alívio corporal ao afundar no assento do carona no caminho para casa depois da minha primeira aula. Eu
me senti vazia, de um jeito bom. Como se as coisas que eu não conseguia explicar com palavras tivessem encontrado um jeito de sair, e então eu
pudesse relaxar, pudesse apreciar o silêncio caloroso e aconchegante entre mamãe e eu.
Provavelmente minha coisa favorita a respeito daquela aula, e da dança em geral, era ver a maneira como os mesmos movimentos podiam parecer
tão diferentes quando executados por diferentes corpos. Quando entrei para a equipe de dança no ensino fundamental, aprendi a manipular minhas
inclinações naturais para poder ficar em sincronia perfeita com todos os outros, mas, quando perdi a Avó, meu talento para me adaptar começou a
me deixar enjoada. Eu sentia mais como se estivesse me escondendo do que como se estivesse em sincronia.
Ao correr, passo pela neblina da lembrança e de volta ao calor abusivo e à manhã ainda escura, virando à direita na cerca branca que rodeia a
propriedade da família de Matt, e retomo o ritmo. Conforme meus membros se soltam, meus músculos se aquecem e minha pulsação acelera, minha
mente desliza para o seu doce recanto: a inigualável paz silenciosa que se tem com o exercício. De alguma maneira, pulo a terrível parte do meio de
qualquer atividade física, em que meu corpo geralmente grita e minha mente não consegue parar de berrar odeio isso, que porcaria, odeio isso, e
mergulho direto no nirvana de estar encharcada de suor. Inabalável pelas densas nuvens de mosquitos percorrendo a grama ao redor dos meus tornozelos. Emocionada pela intensa miniatura de nascer do sol visível para além dos morros.
Corro pelos campos em declive até a grande casa branca de fazenda dos Kincaid e a propriedade adjacente caindo aos pedaços que eles costumavam
alugar, então me viro e começo a subir de volta em direção ao estádio e à pista de corrida quando o sol atinge o topo das árvores. Os portões estão
trancados, mas escalo a cerca de alambrado com facilidade e prossigo até as arquibancadas em direção ao campo bem quando o mundo — o meu mundo
— é banhado por uma luz rósea. Só que não é mais o meu mundo apenas. Tem outra pessoa lá, correndo na pista.
Eu me apoio na grade e observo o garoto dando a volta no campo. Ele é alto e forte, mas também rápido… Jogador de futebol com certeza, eu
chutaria que um running back. Na extremidade do campo, ele faz a curva na pista, e me sinto sorrir involuntariamente quando ele repara em mim.
— O que é que você está fazendo, deixando a minha pista toda suada? — grito para ele.
Ele para bem na minha frente, descansando as mãos na cintura enquanto recupera o fôlego.
— Ora, é um prazer vê-la também, Natalie Cleary.
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