O amor que partiu o mundo
Capítulo 28
28
— ERA UMA vez um homem chamado Abraão, e Deus falava com ele livremente — conta a Avó.
— Como você fala comigo — digo.
— Meio que por aí. Talvez mais do jeito que Megan e Deus conversam,
em pensamentos silenciosos e sentimentos profundos e intensos. De qualquer maneira, eles conversavam o tempo todo, e Abraão conhecia a voz
de Deus tão bem que, quando Deus falava, ele o ouvia com precisão. E Abraão conhecia os desígnios de Deus tão bem que, quando Deus lhe pedia
para fazer alguma coisa, ele confiava sem restrição, como uma criança confia nos pais antes de compreender que adultos são passíveis de falhar.
É doloroso pensar a respeito.
Por que isso me machuca?
Estou a salvo, na minha cama, e no fim do corredor estão meus pais, mas há algo errado entre nós.
O sonho que se repete. O pensamento me atinge como uma parede de vento. O sonho sobre o acidente de carro não é um sonho. É uma memória.
Ergo os olhos para a cadeira da Avó no canto e vejo que não tem porta ao lado dela.
— Estou sonhando agora — digo. — Isto também é um sonho.
— Não. — A Avó balança a cabeça, uma mecha rajada de cinza do
cabelo caindo na frente da testa dela. — Isto é uma memória dentro de um sonho.
— Uma memória — sussurro para mim mesma, afundando nos meus lençóis.
— Você tinha catorze anos quando contei esta história.
— É mesmo — falo, apesar de a minha mente ainda estar enevoada. — A história não fez sentido para mim na época.
— Agora faz? — pergunta ela.
— Eu… eu não sei — consigo dizer. — Pelo menos a parte sobre a
confiança e sobre como os pais podem falhar. Isso faz sentido.
— Ah — diz a Avó, enlaçando as mãos sobre o colo. — Então já estamos
aqui.
— Onde? — pergunto, tentando me livrar do nevoeiro na minha mente.
— Na parte da história em que sua confiança foi quebrada — diz ela.
— Você sabia?
— Garota, quantas vezes vou precisar te dizer que sei de tudo?
— Todas as histórias… Elas não significaram nada quando você me
contou, mas todas elas vão ser relevantes mais tarde, não é? Como profecias.
— Como profecias, sim — diz ela. — Mas não são profecias. Como parábolas, mas não são parábolas.
— Você está atrás de uma parede de fumaça nos meus sonhos — digo.
— Essa parte é culpa sua, não é? Você não pode me culpar. Não estou
realmente aqui.
— Como isto funciona: uma memória dentro de um sonho?
— Exatamente como o pesadelo, suponho. Você se lembra de uma história que contei e a funde com os eventos atuais da sua vida para
construir significado.
— Agora você está parecendo Alice.
— Bem, você tem um pouquinho dela guardado aqui, também. Você mantém todo mundo que ama por perto, Natalie. Guarda pedaços deles
dentro de você. Se deixa afetar por cada pessoa que conhece.
— Eu gostaria que não me afetassem tanto.
— Deve estar se sentindo sem chão agora que sabe a verdade sobre o acidente — comenta ela. — Como se a sua família não fosse mais um lugar seguro. E, se eles não são, então o que seria?
— Se você diz que sim, deve ser. Já que você é apenas um produto da
minha consciência.
— Que atrevimento, garota.
— Aprendi com a melhor. Antes de você ir embora.
O sorriso da Avó vacila. Ela se inclina sobre os joelhos na minha direção,
me lembrando Alice.
— Nunca vou deixá-la. Não se esqueça disso — diz ela.
Ela realmente disse isso?, tento me lembrar. Não acho que tenha dito, mas, ainda assim, parece tão real que acredito nela, nesta versão da Avó em
sonho. Realmente devo achar isso, lá no fundo, ou devo desejar, para conjurar estas palavras agora.
— Agora encosta aí e deixa eu contar essa história — pede ela.
— De novo — comento.
— De novo. Um dia, Deus falou com um homem chamado Abraão. “Abraão”, disse ele, “pegue Isaque”, ou Ismael, dependendo de quem
estiver contando a história, “seu filho que você ama mais do que a própria vida, e vá até Moriá, onde você o sacrificará sobre o monte.”
“E, ouvindo e conhecendo Deus, Abraão obedeceu, e levou o filho e dois servos numa jornada até Moriá. Quando viu o monte que Deus escolhera,
Abraão disse aos servos que o aguardassem na base enquanto ele e Isaque subiam para adorar. ‘Então voltaremos para vocês’, disse Abraão aos
servos, pois ele sabia que Deus não o conduziria ao perigo. Ele não provocaria dor em Abraão.
“Conforme subiam, Abraão pegou lenha para a fogueira do sacrifício. Ele a passou para Isaque, que perguntou: ‘Pai, onde está o cordeiro que será
ofertado?’.
“‘Deus proverá’, disse Abraão ao filho amado, e continuaram subindo.
Quando chegaram ao topo, Abraão apurou os ouvidos, esperando pela voz de Deus. Não ouviu nada, então construiu o altar e atou Isaque a ele. Apesar de começar a sentir medo, ainda assim confiou que Deus o amava, que ele não o levaria a assassinar o filho sem trazê-lo de volta à vida. E assim ele
ergueu a lâmina diante do coração de Isaque e enfim ouviu Deus falar novamente.
“‘Abraão, Abraão’, disse Deus. ‘Repouse a lâmina. Não faça mal ao seu filho. Vi seu coração e sei que não me nega nada. Conhece meu rosto como
ao do seu pai. Reconhece meu amor por você como reconhece o seu por Isaque. Você sabe o que faria pelo seu filho, e compreende que é o que eu
faria por você.’
“Abraão soltou o filho e, quando olhou para cima, para os arbustos, viu
um carneiro com os chifres presos na folhagem. Juntos, eles sacrificaram o carneiro, que fora enviado para tomar o lugar de Isaque. Daí em diante,
chamaram a terra de Deus Proverá.”
— Por que é que eles tinham que sacrificar alguma coisa?
— Era um símbolo — explica a Avó. — De um inocente morrendo no lugar de outra pessoa… o maior ato de amor. A escolha de morrer para que
outra pessoa não precise.
— Suas histórias são cheias dos símbolos, não é mesmo?
— Toda grande história envolve sacrifício — diz a Avó.
— Você não acha que dizer isso vai contra o seu mantra de “não podemos
aplicar os contextos e padrões anglo-saxões às histórias nativas”?
— Sim — responde ela. — Mas eu nunca disse isso. Quem falou foi
você.
TEM ALGUÉM CHAMANDO meu nome. Uma voz baixa que soa lenta e arrastada. Mãos apertam meus ombros, tiram o cabelo do meu rosto.
— Natalie, acorda.
Pisco para afastar o sono e vejo lábios cheios, cabelo escuro e olhos
castanho-esverdeados, tudo obscurecido pela escuridão, pairando sobre mim. Minha cabeça lateja inexplicavelmente, e os pios das corujas e o
farfalhar da vida noturna me rodeiam.
— Beau?
Ele me ajuda a me sentar.
— Onde estou? — pergunto, antes de conseguir perceber que estou deitada no cimento frio do pátio dos fundos da casa de Megan.
— Faz horas que estou tentando te ligar — diz Beau, segurando delicadamente a minha nuca. — O que aconteceu? Você está bem?
— Meu telefone — falo, tentando lutar contra a confusão prolongada. — Joguei nas árvores.
As sobrancelhas dele se erguem em surpresa, mas o sorriso em geral suave e pesado não está lá, seus ombros estão encurvados e tensos.
— Qual é o problema? — pergunto, tocando os lábios dele.
Ele fecha os olhos.
— Kincaid acordou.
— Os dois? — A pergunta sai como pouco além de um sussurro.
— Não sei — diz ele. — Estou com cada vez menos noção de tempo. Ninguém mais parece ter percebido, mas é como se eu tivesse sumido por
horas a cada vez. Acordei de pé no quarto com o telefone na mão e uma mensagem de voz de Rachel.
— Você já o viu?
Ele balança a cabeça.
— Queria encontrar você primeiro.
O que aconteceu comigo? Onde é que eu estava nas últimas horas?
Abraço Beau e pressiono a testa contra o peito dele.
— O que está acontecendo com a gente?
Ele acaricia minha nuca.
— Não sei.
Talvez os nossos Fechamentos estejam acontecendo, mas não é só isso. Todas as coisas estão conectadas: as histórias da Avó, o aviso, nossos dois
mundos e as nossas lacunas de tempo.
— Estou com medo — digo a Beau e ele me dá um beijo, que é a maneira tanto de ele me reconfortar quanto de admitir que também sente o meu
medo.
Ele solta o ar longamente e diz:
— Tem outra coisa. — Me afasto dele para poder olhá-lo nos olhos enquanto ele fala. — Eu não sei o que significa, mas vi a sua família.
— O quê? Quando? Eles não estão aqui. Eles…
— Eu sei. — Ele faz que sim. — Devem estar na minha versão. Num
posto de gasolina, o banco de trás cheio de coisas, como se estivessem só de passagem. Seu irmão estava usando um moletom da St. Paul. Vai ver ele
estuda lá, ou estudou, ou… eu não sei.
— Não entendi… Eu não estava com eles?
Ele balança a cabeça de novo.
— Esperei até eles irem embora, só para garantir que você não estava no
banheiro ou coisa parecida. — Sinto náusea e tontura de novo, como se meu corpo estivesse girando, mas meu cérebro estivesse parado. Beau toca meu
ombro para me estabilizar. — Natalie.
— Tudo bem — digo a mim mesma. Não sinto como se estivesse tudo
bem. A sensação é ruim; é exatamente o tipo de coisa que a palavra ruim deveria descrever. — Tudo bem. Podemos entender isso mais tarde. A gente
deveria simplesmente ir ver Matt. — Beau não se move até eu começar a cambalear para ficar de pé e então me ajuda e vai na frente pelo caminho ao
redor da casa. — Beau?
Ele para diante da camionete.
Eu me obrigo a engolir o nó na minha garganta.
— Como eles estavam?
Beau me puxa para a frente para os lábios dele repousarem contra minha testa.
— Felizes. Sua família pareceu feliz.
Fecho bem os olhos.
— Que bom.
Vamos juntos de carro até o hospital, apesar de não sabermos quais
mundos encontraremos ao chegar lá. Pego a mão dele enquanto atravessamos o estacionamento.
— Que mundo é este?
Ele fecha os olhos por um segundo e então me encara.
— Não sei dizer. Está ficando mais difícil.
O que isso poderia significar? Qual seria o sentido no fato de duas
versões distintas do mesmo lugar não serem mais tão distintas? Qual o sentido de Beau perder várias horas de uma vez? Qual o sentido de no
mundo dele eu não estar com a minha família nem com ele também?
Entramos mesmo assim e, quando a Rachel de cabelo escuro e olhos
inchados corre na minha direção pela sala de espera, sei em qual mundo estamos.
Também sei que tem alguma coisa errada.
Rachel me aperta com força e imediatamente começa a tremer e soluçar
contra mim.
— Rachel — digo, minha voz vacilante, quase exasperada. O choro dela
não cede, e eu a empurro com mais força do que pretendia. — Rachel, o que aconteceu?
Ela olha para mim, a boca aberta e retorcida, a testa franzida e as bochechas molhadas.
— Rachel — repito com mais firmeza. Beau está de pé a um metro de mim, paralisado pelo choque e na expectativa. — O que aconteceu?
— Ele… — Ela envolve com as mãos a barra da regata e solta um guincho gutural. — Ele se foi.
— Se foi? — sussurro.
Ela se encurva, assolada por soluços.
— Ele se foi. — As palavras saem sufocadas. — O médico disse que não tem atividade cerebral. Ele está no suporte à vida, mas eles vão… — Ela não consegue terminar a frase. Desaba no chão e estica uma das mãos para mim enquanto soluça, mas não consigo pegá-la.
Não consigo me mover.
Não consigo.
Não consigo nada.
Atrás de mim, Beau se vira e vai pisando duro até as portas automáticas,
golpeando-as com as mãos e chutando-as quando demoram para abrir, e então dá passadas largas noite afora.
Permaneço paralisada.
Esta é a sensação de quando o mundo acaba.
Quando você sabe, com certeza, que não há nada mais para se fazer, que você poderia ficar ali de pé até que tudo desapareça.
Eu falhei. Não o salvei. Meu melhor amigo. Meu melhor amigo arruinado. A pessoa que mais me magoou, que eu amei profundamente, de
quem eu sempre esperei um pedido de desculpas e pretendia perdoar. Tudo isso acabou agora.
Tudo acabou.
NÃO SEI QUANTO tempo leva até eu me mover. Sei que Rachel ainda está no chão chorando. Sei que os pais de Matt ainda estão além daquelas
portas pelas quais não estou autorizada a entrar.
Sei que Matt ainda está deitado na cama conectado aos aparelhos, alguns
mantendo os pulmões em funcionamento, outros registrando a ausência de pensamentos.
O mundo ainda está acabado.
É quando tenho certeza de tudo isso que finalmente saio. Porque não tem
outra coisa para fazer a não ser ficar de pé no mesmo lugar até que eu vire um fóssil.
Beau está sentado na camionete e, quando entro do lado dele, ele ergue o telefone do colo.
— Falei com Rachel — murmura ele. — A outra Rachel. — Os olhos percorrem lentamente o caminho até mim. — O outro Matt está bem. Está
acordado, falando. Não lembra muita coisa.
— Que bom — digo, a voz trêmula. Eu queria que fosse sincero, mas não
é. Não é bom. Eu queria não odiar o Outro Matt por viver enquanto o meu vai morrer, mas odeio. Eu queria não odiar todo mundo naquele mundo por
tê-lo enquanto todo mundo no meu não pode mais. Ou não sentir raiva porque nunca acertaríamos as coisas entre nós. Aquelas coisas não
deveriam importar depois que a pessoa morreu. Deveriam?
— Sou eu — diz Beau. — Destruidor de mundos.
Não é verdade, mas eu não consigo me fazer dizer as palavras.
— Quero ir para um lugar seguro. — Algum lugar para onde a dor no
meu peito não possa me seguir.
— Certo, Natalie Cleary — diz ele, baixinho. — Eu vou levar você a um
lugar seguro.
Nos afastamos do hospital, de Union, nos embrenhamos pelo interior,
para dentro da pedreira transformada em reserva florestal quando encontraram fósseis de mamutes-lanosos no século XVIII. Nos afastamos
da vida e postes de luz até que a estrada estreita espirala de um lado para o outro pelos montes enluarados e Beau para numa casa dilapidada de tijolos
vermelhos com uma varanda dianteira meio em ruínas e grandes janelas retangulares emolduradas por tinta branca descascando. Saímos da
camionete em silêncio, as tábuas do assoalho na varanda chiando quando as atravessamos para dentro da casa escura.
Andamos do corredor para uma antiga sala de estar, onde retângulos de luz prateada brilham das janelas para a antiga lareira de tijolos. O chão,
apesar de velho, é macio, lustroso, o papel de parede quase totalmente arrancado.
— A aparência não é grande coisa — diz Beau, baixinho, como se tivesse medo de perturbar a poeira. — Mas as fundações são sólidas.
Olho de volta para o lugar onde ele hesita na soleira da porta.
— Que lugar é este?
Ele se aproxima de mim devagar e pega minhas mãos na dele. Lentamente, começamos a nos mover pelo tempo, como se fôssemos içados
para cima através de águas tranquilas. Vermelhos e dourados e então azuis e verdes brotam e cintilam contra as janelas conforme Beau nos carrega para
o futuro. Eu observo outra versão dele andando a toda velocidade pela sala, substituindo tijolos na lareira e rodapés e revestimentos de madeira,
remendando buracos nas paredes de gesso, pintando a sala de um pêssego suave e encostando um piano surrado contra a parede enquanto o sol e as
estrelas nos banham em turnos. Flores silvestres se espalham a partir da janela pelo pátio, e morrem com a geada só para depois renascer. Glicínias
se aglomeram em torno dos peitoris das janelas, as flores se abrindo e fechando em pulsações.
Lágrimas se erguem no meu peito. Elas transbordam conforme a casa fica mais clara, mais viçosa, mais parecida com um lar. A sensação de deslizar
pelo tempo é diferente desta vez, no entanto, menos concreta e mais como um sonho: a sombra de um futuro.
— Beau, onde estamos?
Ripas de madeira caiadas aparecem numa pilha no chão. O borrão de uma
pessoa do tamanho de um urso martela e prende e aparafusa as traves uma na outra. Se transformam em um retângulo, uma caixa. Se transformam em
um berço.
— Quer ouvir uma história, Natalie Cleary? — Faço que sim, e ele me
envolve com os braços. Ele começa a contar: — Vivemos no mesmo mundo. Depois da faculdade, você consegue um emprego como professora
na NKU. Eu treino um time de ensino médio, ou talvez de ensino fundamental. Moramos numa casa antiga com um quintal grande e, um dia,
convenço você a se casar comigo. — Ele repousa o queixo no topo da minha cabeça. — No nosso casamento, você usa flores no cabelo, e Mason bebe tanto que vomita durante o discurso dele, mas estamos tão felizes que apenas rimos.
— E você termina minha música — digo.
Ele balança a cabeça.
— Terminei há duas semanas — conta ele. — Escolhe outra coisa.
Fecho os olhos para impedir as lágrimas, meus braços nas costas de Beau.
— A varanda — digo. — Toda semana, eu e você ficamos sentados lá fora até o sol se pôr. E um piano. É uma surpresa minha para você.
— E você dança sempre que eu toco.
— Onde? — pergunto, rindo.
— No solário, é claro — sussurra ele.
— Ah, é claro. E viajamos no tempo quando você toca e eu danço?
As mãos dele seguram meu rosto, e ele dá um beijo na minha testa.
— Não, Natalie — diz ele. — Não viajamos no tempo. O tempo para.
— Nunca ficamos sem tempo.
Beau olha para baixo, para mim, os polegares enxugando filetes de
lágrimas nas minhas bochechas.
— E isso é suficiente para você?
Engulo o nó dolorido na minha garganta.
— É mais do que suficiente.
Por um momento, me deixo acreditar que é verdade. Beau restaura esta casa para mim. Chego em nosso lar para encontrá-lo todas as noites,
adormeço e acordo com as pernas entrelaçadas nas dele. Vou a todos os jogos do time que ele treina e o observo dar beijos de boa noite nos nossos
filhos, e algum dia percebo que a mão dele está enrugada contra a minha. Sou eu a pessoa que tem o prazer de ver cada parte dele e que observa sua
suavidade cobrir todo este mundo cruel. Ainda assim, nos movemos para a frente, para a frente e, por duas pulsações do meu coração, tenho certeza de
que vejo uma mulher velha e encurvada de pé na varanda, olhando pela janela. Cabelo escuro repousa sobre os ombros caídos e a luz rosada da primeira manhã acaricia o topo da cabeça dela, desenhando uma silhueta em seu rosto, mas ainda acho que a vejo dar um breve sorriso quando suas
mãos se erguem e pressionam a vidraça orvalhada. Antes que eu possa dizer uma palavra, a Avó desaparece de novo, tão integralmente que não tenho
como ter certeza de que ela sequer estava ali.
— Você me perguntou o que eu queria — diz Beau. Eu me viro de volta
para olhar para o rosto dele, para dentro dele. As mãos de Beau se erguem para aninhar as laterais das minhas mandíbulas.
O tempo volta para o lugar e tudo desaparece. Também quero. Quero tanto que dói.
— Você está errado, Beau. Você não é a bomba atômica. Você fez tudo isto. Você fez o mundo.
OS PESADELOS ME assolam sem trégua. Neles, sou eu dirigindo e Matt
está ao meu lado, onde minha cadeirinha infantil deveria estar afivelada. Faróis altos brilham através do para-brisas, fazendo com que a chuva forte
cintile como diamantes por aquele instante silencioso antes de o carro sair da estrada.
Minhas orelhas estão zumbindo tanto que não consigo ouvir meus próprios gritos, e Matt está em silêncio, os olhos vidrados, metros e metros
de tubos enrolados no assento de trás e se esticando até as narinas dele.
— Matt — guincho. — Matty.
Acordo ofegante, meu coração a mil e, quando abro os olhos, meu corpo inteiro trinca dolorosamente quando vejo a esfera negra flutuando acima de
mim.
— Não — sibilo, me arrastando para trás, para longe dela. — Não, não.
Não.
Está começando: o fim.
A esfera me segue e eu caio da cama, correndo até a cômoda onde estão as chaves do jipe. Não sei o que estou pensando: só sei que tenho que
escapar daquela esfera. Tenho que correr mais rápido do que essa coisa. Enfio os pés nas botas perto da porta e fujo do quarto, dou a volta na casa a toda velocidade e pulo para dentro do jipe.
— Avó — sussurro baixinho. — Não deixa isso acontecer. Não deixa isso acontecer.
Dou a partida no carro e recuo pelo acesso de veículos sem prestar atenção, me lançando na estrada rural para longe dali.
Como paro isso?
Primeiro sigo até a casa de Beau. Se eu conseguir vê-lo, vou enroscar
meus pulsos no cabelo e na blusa dele, de modo que não possa ser tirado de mim. De modo que o Outro Matt não possa ser tirado de mim. De modo que
a vida como a conheço não possa ser arrancada das minhas mãos.
Porém, conforme me aproximo da saída que dá na igreja presbiteriana, o
suor brota na linha do meu cabelo, minhas mãos começam a tremer contra o volante e sei exatamente para onde estou indo, para onde sempre estive
indo. Passo pela igreja e a escola e continuo dirigindo, minha boca seca e meu coração acelerando.
Tento não pensar em nada. Tento pensar em qualquer coisa que não o meu destino e o pavor se enroscando na base do meu estômago ou os
arrepios na minha nuca. Eu o vejo adiante, e uma explosão de adrenalina, metálica e fria, sobe da minha garganta para a língua.
Não pensa nisso. Não vai lá. Não lembra.
Paro o carro no acostamento, as luzes do farol se lançando sobre o
memorial de Matt, me assustando de novo. Deixo o farol aceso ao sair do carro, a única iluminação além do brilho vermelho das luzes enfileiradas ao
lado da estrada. É uma interseção de duas vias rurais estreitas com visibilidade ruim devido à parede de árvores em ambos os lados de ambas
as ruas. Costumava ter duas placas de pare, mas aumentaram para quatro e posteriormente colocaram semáforos depois do acidente que aconteceu ali.
O meu acidente.
Corro até o memorial, sentindo o tempo todo como se estivesse sendo seguida, vorazmente perseguida pela esfera negra, por uma porta se
fechando que tenta me manter fora do mundo de Beau e longe da Avó também.
Mas foi aqui que tudo começou. De alguma maneira, sei disso. De alguma maneira, acho que posso dar um basta nisto.
Caio de joelhos na frente do cartaz, meus olhos se forçando contra a escuridão. Penso nas mãos de Beau deslizando sobre o piano e visualizo
meus movimentos, mas não consigo fazer com que o véu no meu interior caia para eu poder passar.
— POR FAVOR — grito para a noite. Meus olhos ricocheteiam para as margens do leito quase seco do riacho, meus ouvidos sintonizando no correr
da água sobre as pedras e no zumbido dos mosquitos deslizando pela superfície.
É como se eu estivesse de volta no carro, girando sem parar, o estômago dando guinadas, a voz miúda gritando enquanto derrapamos para a água e
as janelas explodem em uma névoa fina de vidro. Percebo que estou ofegante, esticando os braços para tentar me estabilizar por causa das
pontadas intensas no meu estômago. Quando minha mão encosta no cartaz, mas encontra a pedra fria, percebo que finalmente consegui passar.
Não sei para qual mundo: se o de Beau ou o da Avó ou outro completamente diferente. Um mundo no qual flores silvestres roxas e
amarelas crescem em arbustos grossos em torno do poste de telefone e para além dele.
Tudo o que sei é que não é o meu mundo. Não pode ser meu.
Porque embaixo de descanse em paz, o nome entalhado na pedra é natalie layne.
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