O amor que partiu o mundo
Capítulo 10
10
HAVIA DIVERSAS HISTÓRIAS que a Avó considerava “felizes”, mas apenas uma que me lembro de realmente me fazer sentir felicidade. Quando
eu estava com dez anos, acordei de um pesadelo e vi a Avó no meu quarto.
— Por que você está chorando, querida? — perguntou ela, e contei sobre
o sonho.
Era um dos que eu sempre tinha, em que estou no carro com mamãe,
conversando e rindo enquanto ela dirige pela paisagem rural. No pesadelo, está bem claro do lado de fora e o céu é de um azul-bebê sem nuvens, os
riachos que ladeiam a estrada cintilam. De repente, uma esfera negra aparece adiante, se erguendo à nossa frente e nos lançando para o lado, para
fora da estrada. Giramos por uma vala, a parte dianteira do carro se chocando contra uma árvore grossa, e o mundo fica escuro conforme um
trovão rompe o céu, deixando a chuva se derramar sobre nós. Aos poucos, o carro começa a inundar, não de água, mas de sangue, apesar de nem eu nem
mamãe termos cortes. Nunca tinha contado a ninguém sobre o sonho antes. Tinha medo demais de que virasse realidade, mas contar à Avó parecia
diferente.
— Eu costumava ter um sonho exatamente assim — disse ela. — Parecia
que nunca iria embora. Mas foi, Natalie. Tudo, a não ser a verdade, vai embora no fim. Agora, deita e deixa eu contar uma história para você.
E ela contou, e era assim.
Bem no começo, Lua, Sol, Vento, Arco-Íris, Trovão, Fogo e Água viviam
na terra. Eles simplesmente acordaram ali, sem saber como haviam chegado, e não tinha problema. Eles viviam felizes na terra deles, até que
um dia conheceram um homem muito Velho. Acabou que esse Velho era o líder deles, o Grande Espírito Chefe. Ele acabara de formar pessoas para cobrir a terra em todos os espaços entre Lua, Sol, Vento, Arco-Íris, Trovão, Fogo e Água.
— Velho — disse Trovão —, as pessoas podem ser meus filhos?
E Velho disse:
— Não, Trovão. Eles não podem ser seus filhos, mas podem ser seus netos.
Ouvindo isso, Sol perguntou:
— Velho, as pessoas podem ser meus filhos, então?
E Velho respondeu:
— Não, Sol. Eles não são seus filhos. Podem ser seus amigos. Eles serão
seus netos. Mas seu principal propósito é cobri-los de luz e aquecê-los.
Lua perguntou em seguida:
— Velho, se não podem ser filhos de Sol, as pessoas podem ser meus filhos?
— Não, não posso dar a você as pessoas do mundo, Lua — disse Velho. — Você vai ser tia e amiga deles, iluminando o caminho à noite enquanto
lhes provê repouso.
— Velho, por favor, deixe que as pessoas do mundo sejam meus filhos —
pediu Fogo.
— Não posso fazer isso, Fogo — respondeu Velho. — Serão seus netos.
Eu o criei para mantê-los aquecidos no inverno e à noite. Você cozinhará a comida deles para que possam encher os ventres.
Vento fez a mesma pergunta em seguida, mas a resposta de Velho não mudou:
— Não, querido amigo Vento. Mas serão seus netos, e você limpará o ar para eles e os manterá saudáveis e fortes.
— Velho, será que as pessoas poderiam ser meus filhos? — perguntou Arco-Íris.
— Eles não podem ser seus filhos — explicou Velho. — Você sempre estará ocupado, impedindo que a chuva caia com força demais, evitando inundações e pintando o céu para o deleite dos olhos deles.
— E quanto a mim, Velho? — disse Água.
— Não — respondeu Velho. — As pessoas do mundo nunca poderão ser seus filhos, Água. Mas você ainda os limpará e satisfará a sede deles, e
permitirá que vivam longas vidas na terra.
Lua, Sol, Vento, Arco-Íris, Trovão, Fogo e Água se entreolharam,
confusos. Velho prosseguiu:
— Vocês são bem-feitos, e eu lhes disse o melhor jeito de viver para
auxiliar as pessoas do mundo. Mas devem se lembrar sempre de que os filhos da raça humana são meus filhos.
E essa, a Avó me disse, era a verdade.
Esta noite, com Beau, a história faz eu me sentir da mesma maneira que
da primeira vez em que a ouvi: liberta de um pesadelo por um abraço do mundo.
Beau fica em silêncio por um longo momento depois que termino, os olhos fixos no céu, perdido em pensamentos antes de dizer:
— Você é boa.
— Em contar histórias? — digo.
Ele faz que sim.
— Nisso, e no geral.
— Em tudo — concordo.
— A não ser futebol americano.
— Que isso, eu sou bem boa. Só não se comparada a você.
Ele me conta do primeiro jogo, quando pontuou na end zone errada, e
sobre seu emprego trocando pneus e substituindo freios, de como ele prefere trabalhar em obras, mas não consegue pegar horas o bastante. Ele
gostaria de construir a própria casa algum dia, e digo a ele que devia construir a minha também, e que tem que ter uma varanda e ele concorda,
porque uma casa não é um lar a não ser que tenha varanda na frente. Ele me conta como a mãe dele às vezes sai de casa por meses a fio quando acha que conheceu seu par perfeito, só para aparecer alguns meses mais tarde tão arrasada que não consegue se levantar da cama por uma semana e se
recusando a dizer o que aconteceu. Conto a ele sobre a habilidade da mamãe de transformar tudo o que faço ou sinto em algum tipo de metáfora
sobre a minha “jornada de adoção”.
— Você acha que ela está certa? — pergunta ele.
— Não sei — respondo com sinceridade. — Às vezes acho que não me sentiria tão perdida se ela não se esforçasse tanto para fazer eu me sentir
bem de tentar me encontrar. Quero dizer, eu sempre soube que era diferente da minha família, mas não senti a necessidade de me justificar até a escola
começar. Toda vez que meus pais me deixavam em um aniversário ou me levavam para a escola ou para a piscina do bairro, todos os meus colegas de
sala me perguntavam por que eu não era parecida com eles. E, assim, mamãe tinha me preparado para isso. Mas aí, um dia, um garoto da
vizinhança me perguntou qual era o meu nome de verdade. Eu não fazia ideia do que ele estava falando, e ele falou tipo Sabe, seu nome indígena.
Tipo Cervo Veloz. Então perguntei aos meus pais se eu tinha um nome indígena e eles meio que riram, mas quando contei a eles por que eu tinha
perguntado a mamãe ficou superchateada, então começou a fazer um monte de pesquisa, tentando me preparar para toda e qualquer curiosidade
potencialmente ofensiva, enquanto ao mesmo tempo ficava tipo Lembre-se, querida, você não precisa responder às perguntas de ninguém se não
quiser. Não é da conta de ninguém, só da sua.
— Uau — diz Beau. — Não sabia que aos seis anos já dava para ter
contas.
— Pois é. Ah, e aí ela começou a me comprar uns livros para crianças na
idade de alfabetização, sobre história e cultura originária norte-americana. Ela os deixava no meu quarto e então, como se não quisesse nada, me dizia
que eu devia ter muito orgulho de cada pedaço de quem eu era, mas acho que isso fazia eu me sentir ainda mais diferente. Então, quando eu estava com seis anos, acho, eu queria me vestir de Pocahontas para o Halloween, a versão da Disney, é lógico, e ela agiu de um jeito tão estranho, meio que
tentou me desencorajar, mas eu não cedi, e no fim das contas ela acabou fazendo a minha fantasia. Mas aí, alguns anos mais tarde, leu um artigo
sobre representações racistas de americanos de povos originários na cultura popular e como isso é nocivo. De alguma maneira, isso a levou a um artigo
que apareceu logo depois que um designer foi parar no noticiário por fazer suas modelos desfilarem usando cocares navajo, sobre como a cultura
estadunidense moderna ofende e se apropria da cultura nativa. A mamãe se sentiu tão mal que veio até o meu quarto e se desculpou para mim. Ela
estava chorando, e eu sequer compreendia por quê, mas ela não agia como se fosse minha mãe. Era mais como se eu fosse uma completa estranha para
ela.
Beau encolhe os ombros.
— E você não é?
— Como assim? — falo, pega de surpresa.
— É só que parece que todos os pais começam achando que seus filhos são parte deles, outra boca que terão que se certificar de estar recebendo
comida, outro corpo que terão que vestir. Então, um dia, nossos pais olham para a gente e reparam que somos pessoas por inteiro. Não somos mais
parte deles, ainda que eles sejam parte de nós. Para aqueles que sequer queriam ser pais para começo de conversa, provavelmente é um alívio. Mas
para uma mãe como a sua… Não sei, ela deve ter ficado triste quando reparou que a sua vida iria ser diferente da dela. Ela deve ter ficado
assustada quando percebeu que não iria conseguir proteger você e que você iria ter que lidar com coisas com as quais ela nunca lidou.
— É — sussurro. — Acho que sim, mas, quando eu era criança, a sensação de ser diferente dela ainda era horrível. Eu não sentia que era
normal. Acho que, subconscientemente, passei a maior parte da minha infância tentando fazer o sentimento ir embora. Entrei para a equipe de dança, aprendi a rir de piadas sobre como eu falava com lobos ou pegava peixes com as mãos. Me dediquei a me integrar socialmente e comecei a
namorar um cara bem popular… — Paro de falar, pensando na época depois que a Avó foi embora, quando estava sozinha num mundo ao qual estava
obcecada em pertencer. Nada mais de momentos sossegados quando o restante de Union já adormecera e eu permanecia acordada ouvindo as
histórias dela, que me tocavam profundamente em sua voz cascalhenta, que me preenchiam com gotículas de verdade e cor. Pedaços de mim mesma.
Percebi então que não sabia onde a falsa Natalie terminava e onde a verdadeira começava.
— Sei lá. É difícil estar rodeada por pessoas, em geral pessoas boas, que não compreendem, que acham que eu sou severa e estranha quando as
coisas me incomodam. Quer dizer, às vezes é como se as pessoas presumissem que sou como elas de maneiras que não sou, e isso é uma
droga, mas às vezes acho que pensam que sou diferente de maneiras que não sou, e isso também é uma droga.
Beau reflete a respeito por um bom momento antes de dizer suavemente:
— É por isso que você vai embora para a sua faculdade bacana?
— Talvez — admito. — É difícil sentir que você faz parte de um lugar quando não sabe quem é, e é difícil saber quem você é quando não sabe de
onde veio.
— Vai ver você simplesmente deu sorte.
— Sorte? Como? — pergunto. — Você não poderia imaginar como é difícil não se ver em nenhuma das pessoas ao seu redor. Ou ser
constantemente encorajada a procurar por isso.
Eu o sinto encolher os ombros sob mim.
— E você não sabe como é se ver em pessoas de quem você não gosta. Você é só você, nada de pai caloteiro, nada de mãe alcoólatra, nada de
maldição na família.
— Talvez eu seja feita de todas essas coisas e seja apenas uma boa fingidora.
— Sabe em que estou pensando? — pergunta ele.
— Em futebol americano? — tento adivinhar, e ele ri em silêncio.
— Nisso — diz ele —, e que você pertence a este lugar mais do que qualquer outra pessoa que já conheci.
— O quêêêê? — digo, me sentando novamente. — Por quê?
— É só o que eu acho.
— Só o que você acha.
— É o que eu acho — insiste ele.
— Bom, está béin.
— Béin. — Depois de um minuto, ele diz: — Você tem mais histórias,
Natalie Cleary?
Conto sobre A Garota Que Caiu do Céu. Então bebo a última cerveja e
conto sobre o Esqueleto Vampiro e o Fantasma do Teton e a Casa Fantasma Subterrânea.
Estou prestes a acabar a história sobre o Irmão Negro e o Irmão Vermelho quando meu telefone vibra na grama ao meu lado.
— Espera um segundo — peço a Beau.
Quando me sento para atender a ligação de Megan, percebo que o sol está
começando a nascer, o céu desbotando para um azul profundo. Ficamos fora a noite inteira, e não consigo definir se parece que foram minutos ou dias.
— Alô? — digo.
— Ai, meu Deus, mil desculpas — sussurra Megan.
— Por que você está sussurrando? — pergunto.
— Brian e eu caímos no sono na casa de Matt. Estou saindo agora. Onde
você está? Você está bem?
— Estou ótima, estou no campo de futebol americano.
Ouço uma porta se fechar e ela volta ao tom de voz normal.
— Ai meu Deus, Nat. Desculpa. Um milhão de desculpas, mesmo. Estou indo até aí. Não se mexa.
— Posso levar você para casa — diz Beau do meu lado.
— Quem é esse? — pergunta Megan num gritinho. — É ele? A voz dele
é um subwoofer!
Cubro o celular com a mão.
— É Megan. Ela ainda está na casa de Matt — digo a Beau. — Só vai levar um segundo para ela vir me buscar. — Ele faz que sim, e tiro a mão
do telefone. Falo para Megan: — Vejo você num minuto.
Beau e eu recolhemos as latas e as jogamos por cima da cerca com a bola
de futebol, então escalamos de volta. De novo, ele me pega do outro lado, mas desta vez sem hesitação. Ele me pousa de volta contra a cerca e beija o
canto da minha boca, as mãos pressionando meus quadris. A luz é filtrada pelas árvores, amarelada com o alvorecer, acentuando o contorno marrom-
dourado em torno das íris esverdeadas de Beau.
Apesar de o beijo ter sido esperado a noite toda, quando Beau se afasta,
ainda me sinto tímida e abismada.
— Obrigada. — Fico horrorizada de me ouvir dizer isso.
Ele sorri e toca meu cabelo.
— Às ordens.
No silêncio da manhã, consigo ouvir o carro de Megan entrando na rua que passa por trás do outro lado do campo e leva até o estacionamento.
Solto Beau e olho para trás. Megan estaciona no topo do monte atrás do estádio, abaixa o vidro e acena.
— Quer uma carona até lá? — pergunta Beau.
— Não precisa. Vai ser gostoso andar.
Ele tira o celular, que é só dois modelos mais antigo que o meu e parece que ficou preso num cortador de grama, e entrega para mim sem uma
palavra. Digito meu número, salvo e devolvo.
— Obrigada de novo — digo. Me apresso para acrescentar: — Por me salvar daquela festa. Sinto muito que você tenha perdido a sua.
— Eu te falei por que estava indo — responde ele.
Nenhum de nós fala por um minuto, então eu me despeço sem jeito e
começo a subir o morro até o carro de Megan.
— Tchau, Natalie — diz Beau, e me viro uma última vez e aceno.
Assim que entro no carro, Megan pede desculpas de novo. Quando fazemos a curva e nos afastamos, ela diz:
— Ele estava bem longe e minúsculo do lugar onde estacionei, mas uau.
— Eu sei.
— Uau — repete ela. — Não consigo nem imaginar como é a Encarnação do Verão de perto.
— Não dá mesmo.
— Ai, meu Deus! — exclama Megan. — Estou tremendo de euforia
agora.
— E quanto a você e Brain? — exijo saber.
— Nhé — diz ela. — A gente se beijou. Aí eu caí no sono. Mau sinal?
— Não necessariamente.
— Eu não dei tchau para ele esta manhã. E quanto a isso?
— Não quer dizer nada — afirmo. — Você provavelmente só ficou meio
sem jeito.
— Pode ser. — Ela me examina e franze o nariz. — Ele tinha gosto de
Cheetos.
— Eca, acho que vou vomitar.
— Conheço a sensação — murmura ela.
— Literalmente, o beijo da morte.
— Exato — diz ela. — Estou morta. Meu corpo que não recebeu a notificação.
— Aqueles Cheetos provavelmente tinham algum feitiço de reanimação — sugiro.
Ela deixa a cabeça pender, encostando a testa contra o volante por um segundo.
— Eu gostava tanto dele. Pronto, falei. Como uma coisa dessas pode acontecer?
— Vai ver ele simplesmente… sei lá, comeu Cheetos?
— Olha, não sou nenhuma perita judicial, mas diria que tem mais ou
menos cem por cento de chance de ter sido justamente isso o que aconteceu.
— Sinto muito.
— Você sente muito? Eu te abandonei para dar uns pegas num produto da Elma Chips!
— Sinceramente, Meg, se eu precisasse de você, saberia onde te encontrar, quer estivesse no meio de uns pegas com gosto de salgadinho de
queijo ou não.
— Que morte horrível — diz ela. — Morro mil mortes horríveis a cada
vez que penso a respeito.
— Acho que você deveria dar outra chance a ele.
Ela me encara completamente perplexa.
— Só porque você está no mundo da lua! Porque você claramente beijou
alguém que não estava com o gosto do chão daquela festa que o Derek Dillhorn deu no quarto ano!
— Eu poderia apostar dinheiro que a boca do Brian não tem sempre aquele gosto.
— Veremos — afirma ela. — É possível que eu tenha simplesmente ficado traumatizada demais. Ei, quer ir na Waffle House? Estou morrendo
de fome. Fome de mais detalhes. Fome de waffles e detalhes.
— Parece uma boa, mas acho que preciso dormir umas dez horas antes.
Que tal nos encontrarmos no jantar? — Estamos passando pela igreja presbiteriana agora, que está de volta ao normal: a ala adicional
desapareceu e o estacionamento voltou a ser grande demais para os pequenos grupos do domingo. — Ei, você está vendo alguma coisa de diferente naquele prédio? — pergunto.
Megan espia pela janela.
— Só uma bruma de flocos laranja com gosto de queijo cobrindo tudo,
mas pode ser minha imaginação.
Paramos no meio-fio diante da minha casa, e Megan pressiona a parte de
baixo da palma das mãos contra os olhos e deixa a cabeça cair contra o apoio do banco, grunhindo de novo para não deixar brechas.
Dou uns tapinhas amigáveis no braço dela.
— Também isto há de passar.
Ela se endireita e solta um suspiro.
— Direto da sua boca para os ouvidos da Avó.
Saio do carro, as pernas bambas de fadiga, e aceno um tchau enquanto Megan se afasta. Me viro para a casa bem quando Gus vem correndo pela
porta da frente e cruza o pátio.
— Jack! — grito, irritada. Ele vive deixando a porta da frente
destrancada, e metade das vezes ela acaba abrindo e Gus dá um passeio pelo bairro. Me jogo para a frente para tentar agarrar a coleira antes de ele
sair correndo, mas, no momento em que meus dedos se dobram na tira de couro, acontece novamente.
Num segundo, Gus está ali, no seguinte não está mais, e mal consigo soltar um gritinho quando a coleira fica frouxa na minha mão. Giro em
círculos, investigando o quarteirão abandonado.
— Gus? — Meu cachorro se foi, e não sei o que fazer. Continuo girando
em círculos, gritando o nome dele mais alto: — Gus! Gus!
Então ele está de volta. Como se nada tivesse acontecido, usando a
coleira e tentando me puxar rua acima para onde mora um poodle gigante definitivamente assustador. Travo os pés e tento puxá-lo de volta para a
porta da frente.
Minha mente está estremecida. Meu estômago, agitado. Puxo Gus pelo pátio e corro para a varanda, mas freio de repente. É como se o meu coração
tivesse acabado de se chocar contra uma parede. E agora Gus desapareceu de novo. A porta e as cortinas são vermelhas, não verdes como deveriam
ser. Estou pirando tanto que por algum motivo ainda tento enfiar as chaves da minha casa na fechadura, sem sucesso. Minhas entranhas gritam, mal
consigo respirar e me atrapalho com a chave, o pânico me preenchendo como um influxo de ácido.
— Gus — falo de novo. Então mudo o chamado. — Avó. Avó! Você está aí? Por favor!
A chave finalmente desliza para dentro da fechadura conforme a porta volta a ficar verde diante dos meus olhos, e Gus reaparece no mesmo
instante.
Corro para dentro, trazendo Gus a reboque, e tranco a porta atrás de nós.
Despenco contra ela e escorrego até o chão, enlaço o pescoço de Gus com os braços enquanto lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Esfrego o
nariz no pelo dele e espero o acesso de tremedeira passar.
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